Saí correndo sem dar explicações a ninguém. Só peguei a chave em cima da mesa, calcei o chinelo e saí. Eu precisava daquilo; sabia que se não fosse correndo, eu perderia a coragem no processo.

Enquanto estava no caminho pra casa dela — 15 minutos cronometrados pelo Waze -, percebi que havia vários detalhes que eu poderia ter levado em consideração: eu podia ter tomado um banho. Ter calçado um tênis também já ajudaria. Espirrado um perfume, escovado os dentes, qualquer coisa.

Durante todo o trajeto, tentava me manter são, mastigando quase que violentamente o meu chiclete de sempre e cantando as músicas de velho que ela gostava. Nunca apaguei aquela playlist. Chamava Doll’s Lullabies, nome dado por ela mesma.

Quando cheguei no prédio, acenei com a cabeça pro porteiro, que já liberou minha entrada. Deus te abençoe, Gil, que nunca me impediu de entrar no prédio, com a rara exceção do dia em que achei que a Bárbara me expulsaria de lá a pauladas.

— Gil — chamei, ainda de dentro do carro, e ele foi até mim, animadão como sempre — Noite!

— Boa noite, seu Benjamin, que bom que o senhor voltou!

— O outro cara que tá vindo aí é gente boa?

— Não — respondeu, carrancudo — Nem boa noite ele dá.

— Sabia que era um pau no cu — Gil riu. Ele não podia concordar, mas rir tava liberado — Não anuncia minha subida não, fechou?

— Beleza.

Joguei um maço de cigarro pra ele como prêmio pelos serviços prestados e ele agradeceu. Era como se estivéssemos numa cadeia. Fechei o vidro, estacionei o carro na vaga que Lívia nunca usava e subi, apreensivo.

Quando cheguei na porta do apê, bati uma vez e ela resmungou um ‘tá aberta’.

Tá, essa era a hora.

Você consegue, Benjor.

— Ei — anunciei minha chegada, já enfiando a cabeça pra dentro.

— Eu não falei pra você não vir? — resmungou. Tava bebassa.

— Mas eu vim mesmo assim.

— Não devia. E se eu não deixar você entrar?

— Você não vai?

Moscow Mule veio até mim e se esfregou na minha perna, quase como um anfitrião, me permitindo a entrada no lar. Peguei-o no colo e ele ronronou baixinho, amassando pão na minha camisa. Sem deixar de olhar praquela mulherzinha pequena e frágil, deitada na rede, assistindo O Cravo e a Rosa, fechei a porta com o pé.

— E aí, meu favo de mel — sussurrei, sentando no sofá ao lado dela.

— Você não tem o direito de vir aqui, me chamar de apelidos carinhosos de novela e fazer carinho no meu gato depois do que você fez.

— Eu sei — sussurrei — Vim no susto.

— Não pensou não?

— A gente não pensa nessas situações, habibti. Você me ligou, e eu vim. Cada um com seu impulso.

— Tá certo.

Se aconchegou no meu peito enquanto assistia a novela e sossegou por um tempo. Não conversamos, só deixamos o silêncio do ambiente ser preenchido por todos os sons que mais pareciam de filmes do Charlie Chaplin do que de qualquer conteúdo produzido pela Globo. Em algum momento, ela cochilou.

Pausei a novela e beijei sua testa.

— Ei — sussurrei — Vamos, vou te levar pra cama.

— Dorme comigo?

— Durmo.

— Mas é só pra dormir.

— E quando foi diferente, doll?

Ela riu, assentindo com a cabeça e continuou deitadinha. Peguei-a no colo como se fosse um bibelô — o que, de fato, pra mim sempre seria -, e a deitei na cama.

Na manhã seguinte, como sempre, acordei antes dela. Lívia dormia feito uma pedra. Algumas vezes quando dormi aqui, me pegava colocando a mão debaixo do nariz dela pra me certificar de que estava viva.

Depois de observá-la dormir por um tempo — o bastante pra contemplá-la mas não o suficiente pra parecer um psicopata -, me levantei. Não sabia se Lívia ia querer me ver no apartamento quando acordasse de ressaca, então ia arriscar porém sem desrespeitar seu espaço: não acordaria na cama com ela, mas ainda estaria no apê.

Deixei tudo pronto pra passar um café, pedi um brunch no aplicativo — pães, frios, frutas e um monte de coisa que ela julgava comida de burguês e se recusava a ter na geladeira — e acendi um cigarro pra fumar na janela, sentado na rede.

Moscow Mule subiu do meu lado e se aconchegou, amassando pãozinho na minha perna enquanto eu me equilibrava pra não derrubar cinza na cabeça dele. Perdi a noção do tempo, mas demorou umas 20 músicas até que Liv acordasse.

Levou um susto quando viu a mesa.

— Que porra de mesa de hotel é essa? Tem um salário mínimo aqui! Quem come pitaya?

— Eu gosto de pitaya — me defendi, virando pra olhar pra ela em vez da janela — Bom dia, favinho de mel.

— Por um minuto pensei que tivesse sonhado com a noite passada.

— Tá arrependida? — me levantei e coloquei a cafeteira pra funcionar enquanto abria a pitaya. Fiquei feliz, era a vermelha por dentro.

— Isso não tem gosto de nada — resmungou, dando uma colherada na minha fruta — Não.

— Não tá arrependida?

— Não, Benjamin.

— E seu namorado, o Aperol?

— Ele não é o aperol. Aperol é o meu ex.

— Esse é o que?

— Gim tônica.

Riu da própria piada e se sentou, abrindo um croissant e passando uma quantidade quase criminosa de nutella. Desde que eu havia dito pra ela que o croissant tradicional se comia só com manteiga, ela, de propósito, cada vez que comia em minha presença, o recheava mais. Geralmente com nutella, pasta de amendoim, uma vez enfiou um ovo frito dentro do croissant.

— Melhor que aperol.

— Tem gosto de perfume.

— E você já bebeu perfume, Lívia?

— Você não? — resmungou, como se fosse óbvio. Arregalei os olhos, realmente assustado com a declaração, e ela riu muito alto — Eu tô falando sério, Benjamin.

— É isso que me preocupa!

Ela soltou uma gargalhada gostosa e enfiou a nutella com uma casquinha de croissant na boca, se sujando inteira.

— Obrigada por ter vindo, Benj.

— Sempre que precisar.

Sorriu e continuou comendo em silêncio. Meu celular começou a vibrar — muito, diga-se de passagem — e ela me encarou, preocupada.

— Será que tá tudo bem?

— Te respondo em um minuto.

Quando peguei o celular, era uma enxurrada de mensagens da Jaque. Ela havia até montado um grupo entre as meninas que moravam com ela, eu e os caras que moravam comigo, chamado Pai de Pets.

Puta merda.

— Que foi?

— A Holly vai ter filhote — sussurrei, sentando ao lado dela e virando um copo de suco de melão como se fosse uma dose de vodca.

— Quem?

— O Charles Bronson vai ser pai. Lembra da cachorrinha do parque?

Rolou um silêncio absolutamente constrangedor, o que significava que sim, ela se lembrava da cachorrinha do parque, da dona da cachorrinha do parque e tinha se lembrado que eu tinha algum tipo de relação com outra mulher que não ela. Engoliu um gole de café — e fez até barulho quando ela o engoliu — e me fuzilou com os olhos.

— Lembro.

— É, ela vai ter filhote.

— E a menina?

— Ah, ela tem DIU, tá de boa.

— Ah, vai se foder, Benjamin.

— Lívia, a gente conversou sobre isso. Eu não namoro ninguém. Me desculpa, mas não posso e também nem quero fingir que a Jaque não existe na minha vida!

— Até porque o que a gente teve não foi nada comparado a ela, né?

— Que porra você tá dizendo?!

— Vamos assumir, Benjamin, a gente foi um baita de um surto coletivo! Ficamos juntos menos de dois meses, nem transamos, depois eu descobri a merda que você fez, daí transamos, e nunca mais! Então de vez em quando a gente se encontra por aí, em situações perdidas e isoladas, a gente mexe um com o outro muito mais pelo que poderia ter sido do que pelo que de fato aconteceu, e a gente acha que só por isso somos predestinados a ficarmos juntos! — ela tava até vermelha, tamanho o esforço que deve ter sido pra falar tudo aquilo. Depois de tomar um fôlego e soltar uma risada sarcástica, que odiei, diga-se de passagem, ela me encarou — Ou melhor, eu acho. Você já tem outra.

— Você coloca muita importância no que eu tenho com a Jaqueline, e menospreza muito o que eu sinto por você, Lívia.

Rolou um silêncio esquisito. Ela não respondeu, só ficou me encarando meio descrente.

— Desde que eu fiz a cagada e você descobriu, eu tenho me esforçado, e muito, pra tentar te mostrar a importância que você tem. Mas você se dá, ou me dá, muito pouco crédito. E tá tudo bem, mesmo! Eu não mereço. Não tô falando isso pra pagar de vítima nem fingir que eu não fiz nada de errado. Tô ciente, mais do que ninguém, do tanto de cagada que eu fiz. Faço terapia duas vezes na semana pra lidar com isso

E era verdade. Em algum momento durante a minha relação com Jaqueline, de brincadeira, ela soltou que eu devia fazer terapia pra lidar com os meus monstrinhos. E eu, que depois do término desastroso com Lívia, já tinha pensado muito nisso, comecei. Minha terapeuta dizia que eu era um misógino em desconstrução e eu era o caso humanitário dela.

— Eu não quero que você sinta que precisa me consertar ou que eu tô aqui porque sinto pena de você, ou remorso pelo que eu fiz. Eu me culpo sim, todos os dias, por ter sido um merda. Mas isso é porque eu perdi você, e não porque tenho pena. A gente só ficou por um mês, mas acredite se quiser, até então tinha sido o relacionamento mais longo da minha vida — ri, mesmo sem achar a menor graça. Achei que devia — Pode não ser nada pra quem saiu de um relacionamento de dez anos, mas pra mim foi muito. Não precisa ter sido pra você.

Então eu levantei. Ela fez menção de fazer o mesmo, mas no fim das contas, desistiu. Voltei pro quarto dela, peguei minha camisa, a chave de casa e o celular, e parei na porta antes de ir embora.

— Mais uma vez, me desculpa, Liv. A última coisa que eu queria era te machucar.

Antes que ela pudesse falar qualquer coisa e destroçar a minha saída dramática, fechei a porta e fui embora. Ouvi alguma coisa caindo, então imagino que ela tenha jogado o que restou da minha pitaya na parede (ledo erro, ia manchar tudo), mas não recuei: era hora de admitir o fim.