Os anos passavam como as estações sobre as muralhas de Gondolin, silenciosos. A cidade resplandecia sob a neve e o sol, tentando conter o avanço do mundo. Mas dentro de Nimrien, as estações deixavam marcas mais profundas na alma.

Seu pai morrera tempos após a chegada dos exilados a Nevrast, emboscado durante uma patrulha que protegia os recém-chegados de Turgon. Sua morte fora como uma lâmina afundando devagar: não veio com gritos, mas com o peso do silêncio. A tristeza transformou sua mãe em sombra do que fora. Ainda amorosa, mas ausente, refugiava-se nas lembranças de Aman e nas tarefas simples, enquanto o mundo ao redor se tornava mais frio.

Assim, Nimrien passou aos cuidados do tio, irmão de seu pai, e, especialmente, de seu primo distante Egalmoth, que logo se tornou mais do que parente: um protetor silencioso, zelando por ela com um cuidado terno que ela ainda não sabia interpretar. que, embora poucas vezes admitisse, cuidava dela com um zelo que ia além da família.

Desde jovem, Nimrien treinava com dedicação. Suas mãos aprenderam o arco e a espada não por imposição, mas por vontade própria. Queria estar preparada, queria ser útil. Egalmoth notara sua tenacidade, e passou a incluí-la nos exercícios militares, mesmo quando outros a julgavam jovem demais. Com o tempo, ele se tornara seu mentor, seu companheiro de treinos e, em silêncio, seu admirador. Nunca disse nada, é claro. Talvez por medo de perder o que tinham, ou por achar que ela jamais o veria daquela forma.

Egalmoth enxergou em Nimrien algo que os outros ignoravam: uma vontade feroz, discreta, porém firme. Quando ela pediu para treinar, ele não riu. Não recusou. Apenas pegou o arco, entregou-lhe outro. Foram tardes silenciosas, dedos machucados, braços doloridos, tombos discretos e olhares longos demais que nunca se declaravam.

— Tu levas jeito pra isso — disse ele uma vez, após vê-la acertar três flechas seguidas no centro do alvo. — E mais coragem do que muitos que eu conheço.

Com o tempo, ele se tornara seu mentor, seu companheiro de treinos e, em silêncio, seu admirador. Nunca disse nada, é claro. Talvez por medo de perder o que tinham, ou por achar que ela jamais o veria daquela forma.

Mas o que não dizia, seu peito sentia e doía. Doía de modo discreto, quase imperceptível, sempre que os olhos dela brilhavam após acertar um golpe, ou quando sorria ao cruzar os pátios ao lado de outros guerreiros.

E doía ainda mais quando ela começou a treinar com Glorfindel.

A princípio, parecia apenas um gesto de cortesia, uma oferta respeitosa do Senhor da Flor Dourada. Nimrien aceitou com naturalidade, sem pretensão, sem pressa, como quem apenas caminha por um novo caminho no mesmo bosque.

Glorfindel também não esperava muito: imaginou que lhe ensinaria algumas posturas, corrigiria a mira, e ela voltaria aos treinos sob tutela de Egalmoth. Mas os dias passaram, e os encontros tornaram-se frequentes, primeiro ocasionais, depois esperados. Havia dias em que a alvorada mal tocava as torres de Gondolin, e já se via Nimrien atravessando os pátios com a espada e o arco às costas e uma determinação silenciosa nos olhos.

Egalmoth assistia, de longe, as linhas se redesenhando: os dois, lado a lado no campo; os risos contidos ao final dos treinos, o modo como ela baixava os olhos diante de um raro elogio. Coisas que antes eram dele, e agora, lentamente, não eram mais.

X X X

Assim sob o olhar de Glorfindel que a jovem começou a se transformar. Nos primeiros tempos, havia disciplina, reverência e foco.Nimrien o ouvia com atenção, respondia com brevidade, lutava com afinco. Havia nela reverência, mas não temor. E em Glorfindel, uma curiosa quietude. Mas aos poucos, com o passar dos anos, entre as lâminas e as lições, surgiram momentos de leveza: um sorriso trocado ao fim de um treino, um comentário provocativo, um desafio amistoso. Ela não se intimidava diante dele, e isso o surpreendia. Com ela, Glorfindel podia deixar a armadura emocional repousar um pouco.

Outras manhãs se seguiram, e os treinos tornaram-se cada vez mais presentes. O modo como ele a observava nos intervalos dizia mais que qualquer palavra. Havia um cuidado velado, uma escuta silenciosa no modo como permanecia próximo sem sufocar, corrigia sem humilhar, observava sem julgar.

Ela, por sua vez, passou a notar coisas pequenas: a maneira como ele prendia o cabelo antes de empunhar a espada, a tensão discreta em seus ombros nos dias em que voltava das patrulhas, o modo como ficava em silêncio depois de rir, como se a alegria lhe causasse saudade.

E quando ele falava de Valinor — não da glória, mas do silêncio —, Nimrien o ouvia como se cada palavra viesse de uma terra que ela jamais tocaria.

— Recordo-me do aroma das flores em Valinor — disse Glorfindel certa manhã. — Eram tão delicadas, tão puras... Mas havia um silêncio lá. Um silêncio eterno, imutável, que às vezes me pesava. Aqui, mesmo com os perigos, há música. Vida real.

— Sempre ouvi que Valinor era perfeita… como se ali não houvesse dor, nem fim. Mas às vezes penso que é aqui, em Gondolin, que as coisas realmente vivem. Não por serem eternas, mas por poderem acabar. Talvez seja isso que faz cada flor, cada riso, cada escolha… brilhar mais.

Glorfindel a olhou demoradamente, com a expressão serena de quem reconhece algo precioso.

— Nunca pensei nisso assim... Mas tens razão. A luz aqui não é eterna. E talvez por isso... brilhe mais forte.

Ela sorriu, e por um instante, havia entre os dois um silêncio cheio de entendimento. As palavras não precisavam ir mais longe.

As conversas tornaram-se parte do cotidiano, tão naturais quanto os próprios treinos. Ela falava sobre seus dias com Egalmoth, e dos desafios. Glorfindel, por sua vez, dividia histórias das próprias patrulhas e confidências que raramente revelava a outros, lembranças, receios e pequenos momentos que marcavam sua rotina. Às vezes, ele notava o olhar de Egalmoth sempre que se aproximava demais de Nimrien. Havia algo ali, um cuidado protetor, um silêncio carregado que ele reconhecia.

X X X

Porém, no inverno uma sombra inesperada caiu sobre Nimrien.

A princípio um cansaço que ela atribuía à exaustão dos treinos, e também ao rigor da estação.

Mas não era apenas isso.

Logo os dedos que antes seguravam o arco com firmeza tremiam. A pele perdeu o viço, os olhos, o brilho constante. As manhãs tornaram-se penosas, e os treinos rarearam. E Nimrien foi tomada por uma febre que a deixou fraca e pálida e ela foi confinada ao leito por semanas.

Glorfindel não disfarçava a inquietação. Nos primeiros dias, tentava convencer-se de que seria breve. Mas os dias tornaram-se semanas, e o campo de treino passou a parecer vazio mesmo quando repleto. Nenhuma presença preenchia o espaço onde antes ela se movia. O silêncio no campo tornou-se mais denso.. Ele andava pelos corredores e pátios, cada vez mais inquieto, sem saber que o aperto no peito não era apenas preocupação, era algo mais profundo, um sentimento que começava a se revelar.

E os dias passavam lentos. A ausência dela tornara-se não apenas notável, mas incômoda, como uma nota ausente em uma canção que antes fluía sem esforço. Glorfindel tentava distrair-se com as obrigações, as patrulhas, os treinamentos de outros jovens elfos... mas havia um vazio constante, uma inquietação que se insinuava nos momentos de repouso e nos intervalos do pensamento.

Certa tarde, ao cruzar o pátio superior, viu duas elfas conversando à sombra de uma árvore. Por um instante, pensou vê-la ali, os cabelos prateados ao vento, o andar firme. Mas não era ela. Era só sua mente, enganando--o

Encostou-se à muralha de pedra fria, passou a mão pela nuca e soltou o ar com força.

— Glorfindel, você está perdido — murmurava para si mesmo em voz baixa, enquanto cruzava o pátio frio.— Vês sombras onde não há, e sente falta do som que não deveria esperar...

Mas importava. Importava mais do que ele podia admitir.

X X X

Na manhã seguinte, Glorfindel cruzou com Egalmoth no salão das armas. O primo de Nimrien vestia o manto escuro das missões, mas não saíra para nenhuma. Estava ali de guarda.

— Têm-se passado semanas sem que ela venha aos treinos — disse Glorfindel, como quem comenta o nevoeiro matinal. — Está melhor?

Egalmoth arqueou uma sobrancelha.

— É verdade. Ela não tem forças para levantar-se ainda.

O tom era calmo demais. Controlado demais.

— É uma febre persistente. Os curandeiros dizem que passará com repouso. — Egalmoth cruzou os braços. — E repouso, ela terá.

Houve um breve silêncio. Glorfindel assentiu, como quem aceita uma resposta, mas não se satisfaz com ela. Antes de partir, acrescentou, de forma quase casual:

— Se puderes... diz-lhe que sentimos sua falta nos campos.

Egalmoth inclinou levemente a cabeça, sem sorrir.

— Se ela estiver acordada, talvez eu diga.

X X X

Nimrien ainda repousava sob véus de febre e sonho, alheia às sombras que se moviam ao redor do quarto onde se recuperava. Havia sempre alguém à porta, um curandeiro, uma criada, ou, mais frequentemente, Egalmoth.

O primo tornara-se presença constante. Sentava-se junto à janela com os braços cruzados, os olhos semicerrados, como se velasse não apenas o sono dela, mas qualquer aproximação alheia. Chegava cedo, saía tarde. Às vezes, simplesmente permanecia, em silêncio, como uma sentinela antiga de pedra e orgulho.

Glorfindel o via subir as escadas quase todos os dias. E à medida que os dias passavam, começava a conhecer, por instinto de soldado, os horários em que ele costumava estar e, mais importante, quando não estava.

Começou a cruzar aquela ala da cidade com certa frequência. Sempre com algum pretexto: às vezes uma carta para entregar a um curandeiro, outras vezes um atalho até o salão de conselhos. Nenhuma dessas passagens era realmente necessária.

E cada vez que seus passos o levavam para mais perto, o olhar se erguia para a sacada alta, de onde pendia uma cortina clara que às vezes se movia com o vento. Nenhuma sombra se projetava ali. Nenhuma voz descia. Mas o coração dele, que sempre fora fiel à espada e ao dever, agora desviava-se para algo mais delicado, e perigoso.

X X X

Certa tarde, não viu Egalmoth subir.

Esperou. Continuou ali por mais tempo do que seria aceitável. O céu já se tingia de violeta, e as ruas esvaziavam-se sob o toque distante do sino da muralha.

Ainda assim, nada do primo vigilante.

Assim, não mais resistiu.

Silencioso como uma leve brisa, Glorfindel subiu pelas escadas secundárias, depois pelas trepadeiras e saliências. A pedra estava fria sob as mãos, mas o gesto lhe era natural, como uma lembrança de juventude. Quando alcançou a sacada, a luz do quarto era tênue. O silêncio ali não era de ausência, era de repouso.

Levava consigo apenas uma flor do campo, singela, pequena, quase tímida. Daquelas que ela sempre dizia preferir às nobres e exóticas, com perfume suave e cor discreta. Depositou-a ao lado do leito, e então ficou.

Por alguns minutos permaneceu ali, em pé, observando.

O rosto dela estava mais tranquilo do que ele lembrava. Ainda pálido, mas sereno, como o reflexo da lua sobre águas quietas. O peito subia e descia num ritmo frágil, mas constante. Ela sonhava. E ele, por um instante, desejou que aquele sonho fosse leve.

Partiu da mesma forma que chegara, sem deixar rastro, exceto pela flor.

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Quando, finalmente, ela acordou no outro dia, seus olhos se abriram devagar, e no primeiro olhar encontrou a flor repousando silenciosa ao seu lado.

Nimrien se recuperaria. Mas algo dentro de Glorfindel já havia mudado, e ele sabia, mesmo sem palavras, que nada mais seria igual.

E assim, quase imperceptível, algo crescia, um fio invisível e tênue que, dia após dia, os unia com mais força.

X X X