O inverno começou a recuar. Lentamente, como uma fera cansada, libertava a cidade de seu sopro gélido. O ar já trazia, nas manhãs, o perfume das primeiras flores teimosas que rompiam o solo endurecido.

E com a luz mais branda, Nimrien também despertara. Ainda não cruzava os pátios com firmeza. Seus passos eram contidos, o corpo mais frágil do que lembrava. Mas caminhava. E ao reencontrar a brisa do lado de fora, algo dentro dela pareceu respirar pela primeira vez em muitos dias.

A flor que encontrara à beira do leito, agora seca, repousava entre as páginas de um livro que ela deixara inacabado antes da febre. Não havia nome, nem bilhete. Mas o gesto era inconfundível. E silenciosamente, sem questionar, ela aceitara aquela presença como se sempre soubesse.

X X X

Numa manhã cinzenta Nimrien, então, retornou aos treinos. O corpo ainda não respondia como antes, os músculos vacilavam, e o fôlego lhe escapava mais cedo do que gostaria. Mas ela caminhava com firmeza, como quem se recusa a ser lembrada apenas pela fraqueza. Havia uma quietude nova nos seus olhos, mas também algo que ardia por dentro, como brasas enterradas sob a cinza.

Glorfindel falava com dois outros soldados sobre uma patrulha nas passagens do norte. O cabelo preso, o manto leve esvoaçando com o vento. Nimrien parou. Não chamara por ele. Mas ele, como se sentisse, voltou o rosto.

Os olhos se encontraram.

Nada foi dito.

Mas aquele breve silêncio, mais se disse do que muitas palavras poderiam dizer.

Ele se despediu dos soldados com um aceno discreto e aproximou-se. Não havia urgência em seus passos, apenas presença.

— Estás melhor — disse, e não era uma pergunta.

Ela assentiu, com um meio sorriso.

— Um pouco a cada dia. Ainda me canso fácil... mas o sol parece mais quente do que lembrava.

Glorfindel inclinou levemente a cabeça, os olhos fixos nos dela.

— Tiveste sorte. Poucos se levantam tão cedo de uma febre tão profunda.

— Talvez não tenha sido só sorte — respondeu ela, num tom baixo. E, sem dizer mais, voltou o olhar para o jardim.

Por um instante, o silêncio entre eles pareceu conter algo prestes a se tornar forma.

Ela desviou os olhos, voltando-se para os campos de treino, onde os primeiros elfos já se aqueciam com espadas leves. Glorfindel pousava o olhar sobre ela. Por um breve instante, os sons dos soldados pareciam distantes. Havia apenas aquele espaço entre eles, tênue, impreciso, onde cabia tudo o que ainda não se podia dizer.

Mas o instante não durou.

— Nimrien — soou uma voz mais firme atrás dela.

Era Egalmoth.

Egalmoth descia os degraus do pátio, os passos silenciosos demais para alguém que não desejasse interromper. Vestia um manto cinzento, sem armadura. O cabelo negro preso por uma fita oscilava levemente ao vento, os olhos escuros fixos na prima, e apenas nela.

— Te procurei em casa — disse, sem sequer lançar um olhar a Glorfindel. — Sua mãe me disse que saíste sem avisar.

Nimrien manteve-se serena, como quem não via culpa em seus passos.

— Só vim respirar o ar da manhã. Ver o campo. Não pretendia demorar.

Egalmoth então fitou Glorfindel por um instante. Um olhar breve, mas cheio de ausência de cortesia.

Glorfindel sustentou o olhar com neutralidade.

Nimrien, percebendo o peso no ar, ajeitou o manto sobre os ombros.

— Já volto contigo, Egalmoth — disse com gentileza.

Ele apenas assentiu, o maxilar contraído, como se contivesse palavras que o orgulho recusava dizer. Então, com um movimento decidido, enlaçou a mão dela na sua e saiu conduzindo-a silenciosamente pelo caminho.

Antes de se afastarem, Nimrien voltou-se um instante para Glorfindel. Ele inclinou levemente a cabeça, e nada mais foi dito.

Mas quando ela se virou e sumiu na curva do jardim ao lado do primo, Glorfindel permaneceu imóvel.

A brisa passava pelas folhas com leveza, mas o que ele sentia não era leve.

X X X

Dias depois, quando o calor do dia já havia dissolvido a neblina da manhã, Nimrien retornou ao campo. Não havia anúncio. Nenhum gesto grandioso. Apenas o som discreto de suas botas contra a pedra e o tecido leve do vestido de treino esvoaçando na brisa. Por fora, ela era a mesma. Mas o tempo da enfermidade deixara marcas invisíveis, e os primeiros golpes saíam duros, hesitantes. A espada pesava nas mãos, e o corpo parecia ouvir com atraso os comandos da memória.

Mas, passo a passo, o corpo começava a lembrar.

A lâmina começou a se mover com mais fluidez. Os pés tocavam o chão com mais certeza. O suor voltou à fronte, não pela febre, mas pelo esforço. Era uma reconstrução paciente. Não do físico, apenas, mas de algo mais fundo, íntimo, que só ela conhecia.

Era como se quisesse provar, não aos outros, mas a si mesma, que nada lhe fora tirado.

E Glorfindel, observando ao longe, percebeu.

Não era apenas o vigor que retornava, mas uma centelha diferente, que antes apenas dançava em sua aura e agora ardia em silêncio nos gestos. Ela sorria, sim, mas com um silêncio novo nos olhos. Um silêncio que ele conhecia. Um que não ousava nomear.

X X X

Numa manhã dourada, o campo fervilhava sob a luz quente, o som metálico das lâminas cruzadas e os chamados rítmicos dos instrutores enchendo o ar. Mas para Egalmoth, tudo parecia abafado.

Estava ali, como sempre estivera. Treinando os jovens, observando os mais velhos, circulando entre os que confiavam em sua orientação. Mas os olhos buscavam, insistentemente, apenas uma figura: Nimrien.

Ela estava no centro da arena.

Mas não com ele.

Era com Glorfindel que se movia, e havia entre os dois uma fluidez dolorosamente harmoniosa como a cadência de uma dança antiga, como se seus corpos tivessem ensaiado aquilo em outra vida. Nimrien avançava com precisão, e Glorfindel, respondia ágil. Quando, por fim, ele a desarmou com um giro elegante, Nimrien caiu sentada ofegante, e riu. Glorfindel estendeu a mão para ajudá-la a se levantar. Ela aceitou, e seus dedos demoraram um segundo a mais do que o necessário para se soltarem.

Egalmoth, então pousou a mão sobre o punho da espada. Não com raiva. Mas com aquela inquietude amarga que nasce daquilo que não se pode prender, nem impedir.

Quando Glorfindel ergueu os olhos e os encontrou com os dele, o campo silenciou, ao menos para os dois.

Não houve desafio. Nem palavras.

Mas também não houve desvio.

O olhar de Glorfindel permaneceu firme. Havia respeito, sim. Mas também uma espécie de aviso silencioso: ele não se esconderia.

Egalmoth sustentou-o por mais tempo do que gostaria.

Depois, abaixou os olhos e voltou-se para outro grupo de recrutas.

Ele não diria nada.

Não agora.

Talvez nunca.

Mas dentro dele, algo começava a arder. Não era ciúmes.

Era o peso surdo de tudo o que se perde sem jamais ter sido dito.

X X X

Nos meses em que se seguiram, Egalmoth estava ali, como sempre estivera. E ainda assim, não era mais o mesmo.

Nimrien sentiu antes mesmo de entender.

Sentiu quando, ele deixou de acompanhá-la até o pátio de sua casa como costumava fazer. Sentiu nas manhãs silenciosas em que ele já não a chamava para os treinos, nem comentava o progresso de seus golpes. Não lhe perguntava mais sobre as tarefas com a mãe, nem sobre os livros que lia nas tardes nubladas. Já não mais passava no jardim dos fundos de sua casa ao fim do dia, nem se demorava sob a varanda onde costumavam compartilhar a quietude sem necessidade de palavras.

Ele a observava, sim. Mas de longe. Com a mesma firmeza, a mesma postura… mas com olhos que agora evitavam os dela. E, talvez mais doloroso do que o afastamento, era o esforço com que ele mantinha a aparência de que nada havia mudado.

Numa dessas manhãs, enquanto ele retornava da guarda das muralhas, e seus passos ecoavam pela rua diante de sua casa, Nimrien o viu passar, e chamou por ele.

Egalmoth voltou o rosto. Havia sombra sob os olhos, e uma rigidez que ela não lembrava de ter visto antes.

Ela desceu os degraus da varanda, segurando com cuidado uma capa que ela mesma havia bordado, feita de um tecido macio e escuro, adornada com o símbolo da Casa do Arco Celestial., linhas delicadas, entrelaçadas como arcos e estrelas, em fios prateados e dourados que brilhavam suavemente à luz do sol da manhã.

— Fiz isto para ti — disse Nimrien, a voz baixa, quase um sussurro.

Egalmoth aceitou a capa com mãos firmes, mas o olhar demorou-se no símbolo bordado, como se o gesto carregasse um significado maior do que palavras poderiam expressar.

— Obrigado — murmurou, a voz rouca, contendo emoções que preferia não revelar.

Ele fez menção de seguir, mas por um instante ficou imóvel, como se a presença dela e o peso daquele presente tivessem rompido uma barreira invisível.

Nimrien permaneceu ali, observando-o se afastar lentamente, sentindo o silêncio espesso que os separava, uma distância que, apesar de tudo, carregava ainda o laço forte da família.

X X X

Mais tarde, quando os outros já haviam deixado o campo, Glorfindel e Nimrien caminharam lado a lado pelos caminhos de pedra que levavam aos jardins suspensos. O entardecer tingia os muros de âmbar e púrpura, e o som das fontes soava como um sussurro longínquo, quase encantado.

Ela caminhava em silêncio, as mãos ainda sujas de treino, o cabelo preso de qualquer jeito com uma fita escura. Havia suor em sua têmpora, e uma folha colada ao ombro, mas aos olhos de Glorfindel, ela jamais parecera tão bela. Tão… real.

— Estás mais ágil — disse ele, finalmente. Sua voz era calma, como a água que corria por entre as pedras. — E mais leve. Como se tivesses deixado algo para trás.

Nimrien sorriu de leve, sem responder de imediato. Seus passos a conduziram até a grande árvore de copa retorcida, a mesma de sempre, a que os abrigava em tantos finais de tarde. Sentou-se encostada ao tronco, e só então falou:

— Estive pensando em como as coisas mudam sem alarde. Como deixamos de fazer algo por dias… e quando voltamos, não é mais igual. Nem nós.

Glorfindel a observou com atenção. Não era uma conversa sobre espadas.

Ela continuou, traçando linhas invisíveis no chão:

— Egalmoth costumava me guiar nos treinos, lembra? Ele me ensinou quase tudo o que sabia. Era paciente… um pouco duro, mas justo. Quando adoecei, ele ficou à porta todos os dias. Mal falava. Só ficava ali, como uma sentinela.

Ele assentiu. Conhecia aquele silêncio. Conhecia o olhar de Egalmoth.

— E agora… — disse ela, erguendo os olhos para o céu entre as folhas — sinto que ele se afasta mais a cada dia. Como se não soubéssemos mais onde pisar. Como se algo entre nós tivesse mudado, mas nenhum dos dois soubesse como voltar.

— Talvez não se trate de voltar — disse Glorfindel, sentando-se ao lado dela. — Talvez o caminho agora seja outro.

Ela virou o rosto, e por um momento, seus olhos se encontraram nos dele.

— E se eu não souber para onde ir?

— Caminhamos — respondeu ele, com uma suavidade inesperada — mesmo sem saber. Às vezes é só isso que podemos fazer.

Um silêncio se instalou, espesso, mas tranquilo. Ela recostou-se na árvore, e ele, por instinto, inclinou-se um pouco mais para perto.

— Glorfindel…

— Hm?

— Obrigada — disse ela, enfim. — Por ter deixado aquela flor. Eu sabia que era tua.

Não precisava dizer mais.

Ele sorriu, e o silêncio seguinte foi leve, como se o mundo respirasse com eles.

Ali, sob a árvore antiga, apenas dois elfos sentados lado a lado.

E um sentimento ainda sem nome

Mas que já sabia o caminho.

E ficaram assim. Por minutos, horas, não saberiam dizer. Apenas eles, o vento nas folhas, e as estrelas que, cúmplices, testemunhavam em silêncio e em segredo tudo o que ainda não fora dito.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.