Luz Negra I - Oculta
2 Recomeçar
O relógio soou, ao som de "Little Happy Days". Que irônico, por que eu ainda não havia trocado aquela música? Talvez não fosse a música que estava me irritando, talvez ela não fosse alegre demais. Talvez eu quem estivesse triste demais pra qualquer coisa. Virei-me de lado na cama de ferro que havia se tornado meu refúgio no meio daquele sótão cada vez mais frio. O dia estava frio, mas as várias cobertas haviam tornado quente o ninho que criei e os poucos cabelos que fugiam de meu coque desarrumado estavam grudados na nuca suada.
Deitada naquela posição, pela primeira vez reparei de verdade na pintura da parede. Nela havia incontáveis e minúsculas flores em tons de roxo, lilás e púrpura. No centro, uma garotinha de cabelos longos e vermelhos com as mãos erguidas parecia segurar o sol. Ela era eu. Lembrei-me do dia em que cheguei do colégio e minha arrastou-me para o quarto. Sem nada dizer, abriu a porta e mostrou-me sua mais nova arte. Esperava que eu ficasse feliz, mas ao contrário. Gritei e disse que ela não deveria ter feito algo tão invasivo, que o quarto era meu e que eu quem deveria escolher. O jeito expansivo de minha mãe se tornava sufocante de vez em quando, mas eu daria tudo para me sentir sufocada desta forma novamente. Por que? Por que eu fui tão cruel com ela? Encolhi-me na cama e sem perceber adormeci enquanto pássaros cantavam lá fora. “Princesa, fuja!” uma voz pediu, vinda da escuridão. Uma voz facilmente reconhecível, a voz da minha mãe. Mesmo sem poder vê-la, pude perceber o tom de desespero. “Mãe¿ Onde você está¿ O que aconteceu com você¿” Perguntei enquanto caminhava no completo breu, tateando o ar atrás dela. “Encontre-o.” Ela pediu. Então, meu corpo tremeu em espasmos e abri os olhos. Abby encarava-me com seus olhos redondos, quase dividíamos o mesmo ar de tão próxima. – Mel, a tia Amanda não deixa me usar o vestido azul!- Esbravejou ela, enquanto saltava por cima de mim na cama. Abby era pequena, para os seus 4 anos. O cabelo dourado, preso em uma pequena penugem no alto da cabeça, fez minha mãe a apelidar de Calopsita.– Por que? -Perguntei ainda sonolenta.– Ela disse que eu tenho que usar o preto, mas eu não gosto dele!Preto, essa era a cor de nossa família hoje. A cor que deveria representar ao mundo a imensidão de nossa dor. Mas, eu não queria saber do mundo. No momento, só Abby me importava.– Você pode usar o vestido que quiser.– Qualquer um?Aquele sorriso despreocupado e inocente parecia destoar da aura de nossa casa.– Qualquer um que você quiser! — Tentei sorrir e em um instante ela já havia corrido do quarto. Levantei-me e caminhei lentamente até meu pequeno banheiro construído de maneira improvisada. Na verdade, uma parede de madeira fora colocada para criar a divisão do pequeno cômodo que contava com um chuveiro simples, a pia e um espelho de bordas douradas. Era simples, mas era meu. Recentemente havia criado uma necessidade surreal de privacidade. Saí do chuveiro, escovei os dentes e soltei o cabelo que caiu como uma manta longa e encaracolada. Tudo o mais lento possível. Olhando no espelho, reparei que nem a cor vermelha dos cabelos era viva como antes. Nem meu pai, nem minha mãe eram ruivos."Ruivos são fruto de um erro genético", recordei-me da frase do médico. Olhos negros, nariz mediano e uma boca que não via batom há séculos. Tudo me deixava um tanto longe dos padrões hollywoodianos. Enquanto buscava grampos na gaveta encontrei uma tesoura e foi impossível não lembrar quando aos 5 anos peguei uma tesoura e sem medo cortei minha franja. Ficou desregular e desarrumada, mas minha mãe disse-me que eu estava linda. Ela adorava quando éramos espontâneas e criativas. "Você é única e tudo que você faz sem pensar vem direto de dentro de você, isso torna essas coisas únicas também", ela me disse, compreensiva como sempre. Mães e suas filosofias que só elas entendem. Quando voltei para o quarto havia um vestido sobre a cama. Preto, cintura imperial e renda nos braços. Não fora comprado por mim, mas não fazia diferença. Eu não tinha um estilo definido. Simplesmente comprava o que precisava, quando precisava e se pudesse. Viver da renda dos quadros da mamãe não era fácil e conseguir emprego numa cidade de 12 mil habitantes onde o comércio era administrado pelos filhos dos donos era algo praticamente impossível. Coloquei o vestido como uma mortalha e calcei meu coturno preto, dispensando o salto baixo que deixaram ao lado da cama junto ao vestido. Desci as escadas, estava muito atrasada, mas aquele não era um evento do qual eu teria ânsia de chegar. Meus atrasos nunca foram novidade para ninguém. Por mais que tentasse, eu nunca chegava na hora.– Podemos finalmente ir? — Tia Amanda, irmã de meu pai, perguntou enquanto ajeitava desnecessariamente o coque alto já preso com perfeição. Acenei com a cabeça que sim. Estávamos rumo á missa de minha mãe. Fazia mais de um ano. Um longo ano desde sua morte.– Espere! — Subi correndo as escadas, abri a segunda gaveta e peguei a tesoura. Corri para o banheiro e em um picote, os cabelos foram ao chão. Lá estava a franja que ela adorava. Era assim que ela iria se lembrar de mim, pra sempre.– Podemos ir.- Eu disse, passando pela porta da sala. Amanda mantinha seu costumeiro olhar de julgamento. Ela nunca gostou de minha mãe e fazia questão de tornar isso público, ainda mais após meu nascimento há 17 anos. Dizia que mamãe nos criava soltas, que era uma hippie perdida. De fato minha mãe sempre fora alegre, criativa e nos incentivava a sermos o que quiséssemos. Ela não se importava com os julgamentos dos outros, só nos queria felizes. Ser assim não condizia com a ideia de mulher digna de tia Amanda que beirava seus 40 anos e esta sempre sozinha. De vez em quando sinto pena dela, mas ao lembrar que a separação de meus pais se deve á implicância da família dele, essa pena desaparecia um pouco.
– Vai ficar parada? Quer nos atrasar como sempre faz? Pensei que ao menos para a missa de aniversário de sua mãe você faria um esforço para ser pontual.As palavras de Amanda me despertaram dos pensamentos – Infelizmente uma má criação não se conserta do dia para a noite, mas teremos muito tempo. Seu pai está esperando. – ela pegou a bolsa e caminhamos pelo jardim da frente até ganhar a calçada, onde Ricardo, meu pai, conversava ajoelhado ao lado de Abby. — Arrume esse cabelo. – Amanda sussurrou antes de nos aproximarmos deles. Após várias tentativas falhas de iniciar uma conversa comigo, meu pai desistiu e caminhava mais a frente com Abby pela calçada. Várias pessoas caminhavam na mesma direção. Mamãe era querida na vizinhança. Ela era o tipo de pessoa impossível de ser odiada, a não ser é claro, pela família do meu pai. O caminho até a igreja não era longo, na verdade era na mesma rua onde ficava nossa pequena casa. "Dois quartos, dois banheiros, amplo quintal com horta e lindos jardins. Varanda e sótão." Era assim que nossa casa estava anunciada no jornal, á venda. O sótão, meu sótão. Fiz dele meu canto; era melhor do que dividir espaço com os brinquedos de Abby. Só quem já sentiu sabe o que é a dor de pisar em um brinquedo. Esse pensamento me fez sorrir. Fazia tempos que eu não sorria, não espontaneamente.– Onde estão seus amigos¿ — Rick perguntou.– Viagem e trabalho. – respondi desinteressada, sem encará-lo.– Virão mais tarde¿ – Não.A conversa terminou alí. Quando chegamos á igreja já havia cerca de 20 pessoas sentadas e uma foto de minha mãe estava ao lado do palco. Aquele sorriso inconfundível, bem aberto. Os olhos azuis e o cabelo castanho. Tudo como eu jamais esqueceria. Enquanto passávamos pelos bancos várias pessoas acenaram, outras se levantaram para nos abraçar. “Não é para ser um dia triste”, eles diziam. Eu apenas sorria o mais convincentemente possível. Caminhei até perto do altar, onde estava uma escultura de Maria segurando seu filho no colo. Admirei seu olhar de amor ao bebê, quando de repente uma voz me fez saltar.– Mellany, minha querida! – o padre Edmundo aproximou-se de mim – Pensei que viria me visitar há meses, o que aconteceu¿– Desculpe Padre, é que... Eu não estava com muita vontade de sair. – fui sincera.Encarei minhas botas enquanto ele apenas apertou os lábios e assentiu. – Entendo filha, eu entendo. – ele pegou minhas mãos – Mas saiba, é muito melhor conversar. Não fique guardando tudo. Eu vou sempre estar aqui, você sabe.Ele olhou para meu pai e tia Amanda no fim da igreja conversando com que chegavam. – As coisas não têm sido fáceis. – assumi aos sussurros – Ele é um estranho para mim.– Ele é seu pai. Mesmo distantes vocês sempre tiveram uma conexão e sempre terão. Dê uma chance á ele.– Eu faria qualquer coisa para poder continuar morando com a tia Deborah, mas o juiz já deu a guarda. Mudamos hoje. Não sei o que fazer Padre, ela não nos quer na casa deles.Desde a morte de minha mãe eu e Abby moramos com Deborah, uma mulher que esteve ao lado de mamãe desde sempre e que chamamos de tia. Após conseguir nossa guarda, Rick nos levaria para morar com ele e tia Amanda.– Você vai ficar bem. Ore e creia, ele estará sempre olhando por vocês. Não duvide – o padre aproximou-se de mim e sussurrou – Há um propósito para tudo.Nesta hora senti um arrepio e um vento sobrou vindo da porta da igreja. Olhamos juntos naquela direção e vi apenas a enorme porta de madeira aberta, deixando sol forte entrar. – Você conhece aquele rapaz¿ — o padre perguntou com as sobrancelhas grisalhas unidas.– Que rapaz¿ – Aquele que estava parado na entrada. – o padre parecia confuso.Olhei para o rosto de todos que estavam perto da porta, em sua grande maioria mulheres. Não havia nenhum rapaz, apenas um garotinho.– Eu não vi ninguém Padre, o senhor está bem¿– Sim, estou sim filha. Devo ter me confundido. Vamos iniciar a cerimônia. Fui para o meu lugar no primeiro banco ao lado de Rick, tia Amanda, Abby e tia Deborah que chegara naquele instante. Abracei-a fortemente e ficamos de mãos dadas no banco. “Liane era uma mulher devotada ás filhas e aos amigos. Sempre ajudando á todos. Quem nunca recebeu em uma casa alguma das verduras que ela plantava em sua horta...” o padre começara a cerimônia falando sobre minha mãe. A missa já durava cerca de 40 intermináveis minutos quando decidi respirar um pouco. Era tudo muito sufocante. Aquelas pessoas nos olhando com olhares de complacência. O padre falando sobre minha mãe. Tia Amanda criticando tudo. “Vou tomar um ar.” Avisei á tia Deborah e me retirei pela porta lateral enquanto todos olhavam. Respirei fundo e suspirei, caminhei um pouco encarando o céu claro até avistar um balanço preso a uma árvore com correntes já enferrujadas, há muito esquecido ao lado da igreja. Sentei-me nele e fiquei em silêncio balançando-me lentamente de olhos fechados fazendo com que as correntes rangessem, até que senti um perfume muito bom e próximo. Abri os olhos e nada vi. Então ouvi passos entre as árvores atrás de mim. Levantei-me do balanço e encarei a pequena mata densa. Nada apareceu. Dei alguns passos e ouvi o barulho novamente. Caminhei para trás e bati em alguém, virei-me assustada e dei de cara com Rick.– Ah! – afastei-me com o coração disparado. Respirei aliviada.– O que está fazendo¿ — ele encarava as árvores atrás de mim com desconfiança.– Nada. – voltei a trata-lo com a frieza de sempre.– Eu estava pensando... Vamos jantar no Pasta Di Angelo? — perguntou meu pai. -Vai nos alegrar um pouco. Nós sempre íamos lá. – Nos alegrar? Nós íamos? – soltei uma risada involuntária — Você nunca ia. Você nem estava aqui. — Minhas palavras demonstravam o abismo entre nós, estava claro que um prato de macarrão não mudaria isso. Virei-me para voltar á igreja, mas Rick segurou meu braço. Encarei-o nervosa.– Você chega, vende a nossa casa e agora acha que vai resolver tudo me levando ao restaurante que ela me levava quando eu ficava triste por... — cortei a frase, não queria parecer uma dramática, mas a verdade é que eu ficava triste por ser meu aniversário e ele não estar aqui. — Vocês nem gostavam dela! — soltei — Mesmo quando nós precisamos, vocês não vieram nos ver nenhuma vez, nem um telefonema!Ele ficou em silêncio. Desde as primeiras conversas entre mim, ele e o juiz havia ficado claro que uma reconciliação não era meu desejo, mas acredito que ele esperava resolver tudo facilmente quando nos tivesse por perto. Visivelmente sentido, Rick erguia a mão e baixava novamente, buscando argumentos.– Eu sei que nunca fui um bom pai, mas já faz mais de um ano e eu estou aqui agora e eu estou tentando! — ele parou e decidiu me encarar, talvez para passar mais confiança — Eu não quero ficar no lugar dela e sei que por um tempo também não vão me aceitar no lugar de pai, mas eu vou continuar tentando e nós vamos ter que aprender a conviver juntos. Você me odeia agora, mas pelo menos, me dê uma chance. Eu não queria ter ido. Não foi uma decisão só minha. Sinto muito por ter feito você sentir que eu não me importava, mas eu pensei em vocês. — eu não queria encará-lo agora — Pensei todos os dias. — ele completou.Eu queria dizer "Eu não odeio você, mas sinto muita, muita falta dela! Eu não quero ir embora de Roseburg, eu quero a minha casa, quero a minha mãe de volta!" mas meu coração não iria se abrir. Não tão facilmente assim.– Isso descobriremos com o tempo.Não era a resposta emocionada que ele desejava, mas dizer que "com o tempo descobriríamos" indicava que eu estava disposta a dar-lhe uma chance. Meu pai me abraçou e ficamos assim por alguns instantes, até que o sino da igreja tocou anunciando o fim da cerimônia.
Notas finais
É isso meninas (os), bem vindos de volta! Muitas saudades.
Aí está, espero que gostem. ♥
- Bia
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