Luz Negra I - Oculta
3 As rosas de Roseburg
Na tarde após a missa nós voltamos para casa para nos trocar e recolher as últimas caixas. Meu quarto era no sótão e não havia porta, apenas era necessário subir um pequeno lance de escadas para chegar nele. Uma escada velha, que rangia e entregava a presença de quem quer que tentasse subir.
– Pode subir.- avisei, ao ouvir os rangidos lentos. — Já estou quase pronta.
– Então, esse é seu sótão. Finalmente o conheci. — ele admirava o redor com a mão nos bolsos calça social, que era seu traje costumeiro. — Eu andei pensando e não acho realmente necessário você trocar de colégio... Já basta tudo o que passamos.
Mal pude acreditar, um momento de alegria em meio ao caos. Ficar perto dos meus amigos fora o que me manteve sã nesses tempos difíceis. Tentei manter a postura e não parecer um cãozinho feliz.
– A casa que comprei para nós é um tanto longe do colégio, mas posso te levar e buscar todos os dias. Não é problema.
– Eu posso ir sozinha, pegar um ônibus. — Era difícil pra mim. Não queria de maneira nenhuma que ele pensasse que sou dependente, mas Rick estava tentando melhorar as coisas, então logo me arrependi dessa frase.
– É só pelo resto do ano, você já está terminando o colegial, faltam o que? 20 Dias? Podemos pegar a Abgail e almoçar juntos todos os dias. O que acha?
– Abby. Ela odeia que a chamem de Abgail. — corrigi num murmúrio. Pensando sobre a proposta, estava ficando claro que ele estava tentando passar mais tempo conosco — Tudo bem, podemos fazer do seu jeito dessa vez.
– Dessa vez.- Ele soltou um riso, satisfeito — Sua mãe diria a mesma coisa.
Ele parecia realmente contente por eu ter dado uma trégua.
– Então, vamos? — peguei uma das últimas duas caixas que estavam no chão.
– Você vai gostar da nova casa. — Rick pegou a outra caixa e fomos descendo pelas escadas barulhentas, enquanto ele tagarelava sobre a nova casa — Ela não tem um sótão, mas tem um quarto espaçoso pra você. Lembrei de que sua mãe falava o quanto você gostava de ter praticamente um andar só seu aqui.
– Quando ela disse isso? Eu... — tentei lembrar — Eu não sabia que vocês conversavam. Ela sempre dizia o quanto você era ocupado. — "quando eu reclamava da sua falta de interesse" pensei, mas não disse.
– Foi em uma das cartas. A última chegou em fevereiro do ano passado e foi quando ela não respondeu que percebi que algo havia acontecido.
Por que ela não me contaria sobre isso? Não havia segredos entre nós. Até que comecei a pensar e algo parecia errado.
– Mas ela... A mamãe faleceu em Janeiro, como isso é possível?!
Rick pareceu confuso, mas depois deu de ombros e disse "O correio costuma se atrasar."
Apenas assenti. Um mês de atraso? Mas, bom, talvez realmente tenha atrasado.
Antes de sair, dei uma última olhada para a casa. Ela era cor de laranja. Não era um laranja queimado, opaco ou claro. Era laranja puro. "Para o sol se sentir confortável de entrar em nossa casa", dizia minha mãe.
– Não precisa tentar memorizar a paisagem. Sabe que vai voltar, não sabe?
Uma voz completamente conhecida e comum pra mim. Andrew, meu melhor amigo, estava parado com as mãos nos bolsos da calça jeans surrada. Dava pra ver claramente o apoio em seu olhar que era da mesma cor das árvores que circundavam minha casa.
– O que você está fazendo aqui? — fui em sua direção com um sorriso de orelha á orelha e lhe dei um soco e um abraço. O cheiro de madeira vindo do trabalho junto com o pai na madeireira era acalentador, ele cheirava á casa.
– Estava passando e vi vocês saindo. — ele deu de ombros.
– Ah, claro. — Era boa a sensação de segurança que ele me transmitia, mas sempre foi um péssimo mentiroso — Onde estava indo?
Andrew e eu nos conhecíamos desde criança. Os garotos costumavam o irritar no primário e, apesar de nos filmes acontecer o contrário, era eu quem o defendia. Ele era menor do que eu na época, esse era um fato que mudou logo com a chegada da nossa adolescência.
Sem saber como consertar a mentira, ele deu um sorriso sem graça.
– Vim ver se caibo na sua mala, sei que vai ser difícil viver sem mim...
– Seria, sim.
Ele estranhou eu não ter entrado na brincadeira e pareceu confuso.
– "Seria"?
– Seria, se eu não fosse continuar na escola.
– Sério? — ele sorriu.
Assenti.
– Vou ter de continuar olhando pra esse seu cabelo sujo todos os dias?
Meus cabelos não estavam sujos, nem costumavam estar. Esse era só o seu jeito de dizer que estava feliz.
– Não adianta, seu amor por mim continua explícito. — olhei para trás dele, Rick aproximava-se de nós.
– Pra uma melhor amiga, você me conhece muito pouco... — Andy pausou a frase assim que seguiu meu olhar e deu de cara com Rick — Bom dia.
– Bom dia rapaz. — Rick cumprimentou-lhe com um tom de pergunta.
– Esse é o Andrew, o Andy, meu melhor amigo desde a pré escola.
– Prazer senhor. — Andy parecia desconfortável e ele não deveria sentir-se assim. Era Rick quem estava chegando agora.
– O prazer é meu. Sei que é como se fosse da família.
– A Any é como uma filha pra minha mãe. Elas se dão muito bem e ela está muito triste por ela ter de se afastar.
Mais subjetivo, mas eu sabia que Andrew iria demonstrar sua insatisfação com minha partida. Ele era mais discreto, mas sempre agimos igual e eu faria o mesmo caso ele quem estivesse indo.
– Eu entendo... Mas é só do outro lado da cidade, meia hora até aqui. Sei que ela dará um jeito de vir vê-los e ficarei feliz e ajudar nisso. — Rick não havia se ofendido e parecia disposto.
– Eu agradeço.
– Andy e Any... Bem sonoro. — Brincou meu pai, a mesma piada que todos faziam há anos, mas nos esforçamos para rir. — Bem, é bom conhecer você e espero conhecer os outros.
– Daniel e Luna estavam viajando com a família dela. — comentei.
– Ele me ligou perguntando se você gostaria de ir conosco ao Dino daqui a pouco, deve ter esquecido que hoje era o dia da mudança.
Eu estava ansiosa para encontrar com Luna. Ela era como uma irmã. Ela e seu namorado — Daniel, que era novo no grupo, mas havia se encaixado muito rápido — haviam viajado há duas semanas para a casa da mãe dela em Connecticut. O padrão de vida da mãe dela era totalmente destoante do resto de nós, mas ela não é como você deve estar pensando. Ela é dona de uma rede de casas de massagem e o estilo zen de Luna não nega o da mãe. No resto do tempo ela mora numa casa de esquina na mesma rua que eu, com o pai, que é professor de história no nosso colégio.
– Pode ir. — Rick falou, quebrando o silêncio. Era óbvio que eu queria ir e ele sabia disso.
– Não, eu sei que quer mostrar a casa.
– Ah, você vai ter a vida toda para vê-la. Vá recebê-los.
Ergui as sobrancelhas. Ele estava sendo legal desde que chegou, mas aquilo era realmente legal da parte dele.
– Vamos, eu estou com a picape.
Andy ficou tão feliz que correu para o carro sem nem mesmo despedir-se de meu pai, como se devêssemos fugir, antes que ele mudasse de ideia. Apenas sorri pela primeira vez para Rick e corri para a picape preta.
Andrew comentou algo, mas não ouvi, pois estava observando as pessoas na calçada e vi uma menina. Ela parecia tão feliz, mesmo amontoada em casacos grossos. Correu chutando as poças na calçada, o que lhe fez levar uma repreensão da mãe, que a pegou pela mão e continuou caminhando enquanto falava ao celular. Percebi que eu sentia falta, não só dos momentos bons, mas até da voz que minha mãe fazia quando ficava brava. Simplesmente não combinava com ela.
– O que você disse? — voltei á realidade.
– Que você fica menos pior com essa franja.
– Um elogio, que milagre.
– Só estou querendo dizer que ela tampa sua tenta proeminente.
– Colocar palavras difíceis num insulto não o torna menos insulto. — Dei-lhe um soco.
– Proeminente é uma palavra super comum... Pra gente incomum. — ele riu.
– Não acredito que seu pai deixou você pegar o carro só pra vir até aqui. — afirmei. Andrew sempre era muito atencioso, morrendo de medo de causar qualquer coisa á picape.
– Não deixou, na verdade.
– Ah, você tinha entregas?
Ele só tocava no volante daquele carro caso o pai precisasse dele para entregar madeiras em alguma loja ou direto nas residências. Roy, pai de Andy, era dono de uma madeireira pequena. Um negócio familiar mantido por ele, a esposa Clara, Andy e o pequeno Tim.
– Não. — ele respondeu brevemente.
– Você... — era difícil de acreditar — Você pegou o carro, sem avisar?
– Não exatamente.
– Ah, que susto!
– Deixei um bilhete.
– Andrew! — eu mal podia imaginar o que aconteceria á ele. Seu pai não era um homem muito controlado — Ele vai... Vai te jogar naquela máquina gigante que transforma as árvores em taboas!
– Ele só volta as 18h, se eu chegar antes disso posso guardar o carro, jogar o bilhete fora e nada terá acontecido.
Ele encarava a rua com um sorriso travesso. Os cabelos pretos ocultos pela touca da mesma cor.
– Ah, claro, ele não vai ver o tanque de gasolina.
– Fui eu quem enchi o tanque da última vez e ele não pegou desde então. Vou dizer que coloquei menos gasolina do que eu havia realmente colocado. — ele me fitou — Relaxa.
Mas eu prosseguia o encarando com julgamento
– Quero ver quando ele quebrar seus dentes e fazer sumir esse sorrisinho.
– Você é uma má agradecida, sabia?
– Só me preocupo com os seus dentes.
– Eles estão muito bem, obrigado. Agora, vamos comer e curtir enquanto você aproveita minha presença em silêncio.
– Perdão senhor.
– Está perdoada, mas que isso não se repita.
Ele riu, antes de sair do carro. Estávamos em frente a casa de Luna.
Daniel e Luna ficaram surpresos com minha presença, afinal, a esta hora eu estaria do outro lado da cidade. O nome real dela é Gabrielle, porém gostava de ser chamada de Luna. Ela tinha um estilo tão hippie, muito mais hippie do que minha mãe. Fiquei imaginando o que tia Amanda diria quando a visse. Ao seu lado estava Daniel. Apesar de já ter causado muitas confusões, ele é um cara engraçado e de bom coração. A cidade pequena e não muito conhecida onde todos nós vivemos chama-se Roseburg, fica no Oregon e é famosa por suas belas rosas, que enfeitam grande parte da cidade. Daniel era largo e forte, muito mais forte do que Andrew e fazia contraste com Luna, que era a menor entre nós quatro, com seus cabelos curtos e pretos e a pele muito branca.
Fiquei o caminho todo ouvindo sobre como haviam sido as duas últimas semanas. O casal falando sobre a viagem, Andy sobre um jogo novo que ele havia encontrado e sobre como estava viciado. Ninguém ousou me perguntar nada, mas quando todas as novidades deles havia se esgotado, chegou a minha vez. Apenas divaguei sobre como Rick estava se esforçando e sobre como Amanda emanava ódio pelos olhos. Andy fez novamente a piada ridícula sobre minha testa proeminente estar melhor com a franja por cima e todos concordaram.
– Deixa eu começar a falar sobre vocês. — esbravejei entre risos.
– Eu sou perfeito, quem falar algo estará mentindo. — Daniel comentou, sorrindo o sorriso super branco -do qual ele se orgulhava muito- contrastando com a pele negra.
– Ignorem... — Luna revirou os olhos.
– Somos dois. — Andy esticou a mão para que Dany tocasse no banco de trás.
– Olha esse nariz, gente! — brinquei com Andrew — A pessoa rouba o oxigênio do carro todo e quer falar algo!
– O que tem meu nariz? Ele é perfeito.
– Os homens antigos acreditavam que narizes grandes indicavam virilidade. — Dany completou.
– Você quem está inventando isso. — Luna riu.
– Eu li. Sério.
– Você não lê nem bula de remédio!
Então, eles passaram a discutir sobre o -não- gosto literário de Daniel, enquanto por aquele instante parecia que nada havia mudado em minha vida.
Dino era uma lanchonete bem antiga, no pequeno centro da cidade. O trajeto de casa até o Dino não era longo. Isso era uma vantagem, já que era nosso lugar favorito. Como sempre, Mag veio nos atender. Ela era uma senhora que parecia imortal, já que lembro de ela ter essas feições, desde que eu era criança.
– Oi Mag, como está tudo por aqui?
– Parado, como sempre. — ela bocejou — Vocês sabem, as novas redes de fast food dominam tudo. — Mag retirava o bloquinho de anotações do bolso, quando recostou-se na mesa ao lado.
– Você está bem? — Daniel levantou-se para apoiá-la.
– Estou ótima, só me sentindo cansada.- ela sorriu — Vocês vão querer o de sempre?
– Sim, por favor, mas seria bom você sentar.
– Vou sim. — Mag agradeceu.
Assim que ela se retirou, Daniel sussurrou.
– Ela parece mal, vocês viram aquelas olheiras?
– Eu acho que ela já está com muita idade para levantar cedo e ficar aqui o dia todo a espera de alguém. — murmurei.
– Esse lugar é tão legal e o hamburger é enorme. Não sei por que preferem as outras lanchonetes.
– As pessoas sentem necessidade de fazer o que os outros fazem. O governo nos ensina isso desde sempre — Luna comentou.
Ela sempre era da opinião de que: Se algo está errado, a culpa é do governo.
– Vocês sentiram aquele cheiro? — respirei profundamente, sentindo o — agora leve- odor que havia chego com Mag.
– Cheiro? — Luna apertou os olhos — Não.
– De podre.
– Nossa, a velha tá podre? — Daniel sussurrou curioso.
– Daniel! — Luna repreendeu-o.
– Um cheiro de carne podre. Não sei explicar...
– Aqui está. — Mag voltou com nossos lanches e refrigerantes.
– Obrigado Mag. — Andy agradeceu e ela se foi.
– Sentiram?! — perguntei novamente.
Todos ficaram respirando cuidadosamente.
– Não. — Andy falou.
– Nada. — Luna olhava ao redor.
– Também não, mas se não começarmos a comer vou fazer vocês sentirem um cheiro agora mesmo.
Todos agarramos nossos pães, ninguém queria arriscar.
Uma hora depois, ainda estávamos conversando e rindo, até que um sino soou com a abertura da porta da lanchonete, o que nos fez olhar por reflexo. Estava passando pela porta um homem e nos milésimos de segundo que se passaram desde o soar do sino, ele olhou pra mim. Um sorriso rápido surgiu em seus lábios avermelhados, tão rápidos que pensei tê-lo imaginado. Então, ele desviou o rosto.
Ele sentou-se na mesa atrás da nossa, fazendo Luna e Dany ficarem de costas para ele, enquanto ficava de frente para Andrew e eu. Alguns minutos depois, uma garçonete jovem apareceu em sua mesa. Ela parecia mais demorada que o costume para atendê-lo.
– Eu sugiro bolo de nozes. Eu quem faço — ela deu um sorriso tímido.
O sorriso da menina contagiaria qualquer um. Não posso negar que ele também despertava atenções, mas algo em seu olhar me fazia sentir insegura.
– Ficarei contente em provar, então. — ele pareceu cobrir seu rosto com gentileza e ela afastou-se satisfeita.
Enquanto a garota voltava para a cozinha, o homem olhava em volta sem parar um segundo. O queixo apoiado nas mãos, os cotovelos sobre a mesa. Uma posição serena, mas que nele dava ares de inquietude. Um olhar calculista encontrou os meus e fui obrigada a desviar, sentindo-me constrangida por tê-lo encarado por tanto tempo.
A garçonete aproximou-se novamente com o prato de bolo na mão.
– Tomei a liberdade de colocar sorvete e calda quente, acho que você vai gostar. — ela ficou para ao lado da mesa, como se esperasse por algo, mas evitei olhar e passei apenas a ouvir — Qual seu nome? — ela insistiu.
– Enzo. — ele respondeu.
– Bom, está tudo pago. Vamos? — Daniel voltou á nossa mesa.
– Vamos. — Luna levantou-se.
Eu a segui, enquanto Andrew parecia disperso.
– Vamos? — perguntei á ele, fazendo-o despertar, mas sem antes perceber que ele também encarava o homem.
– Vamos. — ele disse secamente e fomos em direção da porta.
– Você conhece? — ele murmurou enquanto dávamos os primeiros passos e eu soube que ele havia me visto encarar "Enzo".
– Não. — dei de ombros. — Por que?
– Ele estava olhando nossa mesa, desde lá de fora.
– Como assim? — perguntei enquanto saía pela porta principal.
– Eu o vi lá fora, antes de entrar. Ele já estava lá faz tempo.
Comecei a pensar que Andy estava apreensivo demais com um fato tão normal. Parecia lhe incomodar o olhar daquele recém chegado. O cara deveria ter seus 20 e poucos anos. Homens sempre ficam intimidados com homens mais velhos.
– Esse lugar tem uma energia muito forte.- disse Luna, algo no tom dela não me agradou, mas estávamos acostumados a esses seus comentários místicos.
Estávamos no outono e o clima mudava constantemente. Eu estava usando um jeans preto e cardigã azul. Luna puxou minha manga.
– Você sentiu a aura desse lugar?
– Você sabe que eu não sinto essas coisas Luna.
– Sinto uma aura negra aqui. As pedras não mentem!- ela disse, segurando o pingente de seu colar, era uma pedra de turmalina negra. Ela me dera um igual há muitos anos. — Você está com o seu colar?
– Estou mãe...- Eu disse, em falso tom de desdém.
– Ao menos você é mulher. — Daniel interviu — Ela brigou comigo querendo que eu usasse uma pulseira cheia de pedras "místicas". Vão pensar que sou do outro lado da força!
Todos nós gargalhamos. Era muito bom que nossos melhores amigos se amassem tanto, eles três, Abby e Deborah eram minha verdadeira família. Após a morte de minha mãe a um ano atrás eu e Abby ficamos aos cuidados de nossa vizinha Debora, que era a melhor amiga de minha mãe. Ela era uma mulher muito bondosa, nunca tivera filhos. Seu grande amor eram os gatos. Eu teria ficado morando com ela para sempre, era como uma segunda mãe, mas meu pai e tia Amanda chegaram reivindicando minha guarda e a de Abby.
Estávamos nos despedindo em frente a lanchonete, pois Luna ficaria na casa de Daniel que era alí do lado, quando a garçonete veio correndo com em nossa direção.
– "Está tudo pago". — Luna ironizou olhando para Daniel.
– Mas estava...- ele respondeu amuado.
– Um rapaz pediu para entregar-lhe isto. — ela ergueu uma caixinha na minha direção.
Eu sabia que deveria dizer algo, mas meu cérebro não conseguia mentalizar uma frase decente. Eu não queria dizer nada que me fizesse parecer boba, apesar de minha expressão facial não estar ajudando.
– Nós agradecemos muito.- disse Andy, pegando a caixa das mãos dela e fazendo-a voltar para dentro da lanchonete.
– O que tem aí? — Luna perguntou, curiosa.
– Não faço ideia.
Algumas gotas começaram a cair, cada vez mais frequentes. Chuva.
– Temos que ir. — Daniel pegou a mão dela. — Até amanhã.
– Vemos vocês na aula.
– De boa, é aula chá! — Luna gritou antes de virar a esquina.
Luna definia as aulas como café — agitadas-, ou chá -paradas-. Amanhã teríamos português e história. Era chá.
As primeiras gotas não denunciaram a real tempestade que veio á seguir. Andy e eu corremos para o seu carro que estava a poucos metros. Chovia forte quando conseguimos entrar. Andy estava a ponto de jogar a caixinha para o banco de trás, quando eu a peguei de suas mãos.
– Ei, isso é meu! Cuidado.
– Então, quer dizer que você estava flertando com aquele cara estranho.
– Eu só quero saber o que há dentro.
Era uma caixa pequena, coberta com uma estampa de rosas e fechada com uma fita vermelha. Dentro dela havia um doce muito fino, decorado com uma linda rosa vermelho vivo por cima. Nada parecido com as coisas servidas no Dino's.
– Nossa.- Foi o máximo que consegui dizer.
Toda molhada, com os cabelos desarrumados e pingando, continuei olhando para aquele pequeno bolo. De onde ele o havia tirado? Enquanto eu pensava, Andy pegou o bolo da caixa e em uma fração de segundo arrancou metade dele com uma mordida.
– Pronto, vamos pra casa.
– Eu não acredito que você fez isso!- eu disse, rindo.
– Achei que você estava com pena de comer, te fiz um favor.
– Você é inacreditável. — revirei os olhos.
Eu não estava realmente brava e sim, ficaria com pena de comer, era muito bonito.
– Ainda tem metade, você quer?- ele disse zombeiro, enquanto ligava o carro para irmos pra casa.
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