Lutando Para Amar.
5 Capítulo 4
Notas iniciais
Enquanto uma multidão de pessoas se reuniam numa fila desorganizada onde mostravam documentos que os identificavam para obter a permissão de entrar naquele reino, um jovem casal tentava achar um jeito de entrar no lado da muralha que menos existia sentinelas. Suas roupas velhas, e o cansaço escondido pela sua inabalável determinação revelavam que estavam na estrada à dias.
-- Temos pouco tempo até sermos notados por alguma sentinela. -- Alex informou. -- Tem uma casa perto o suficiente para nós pulamos neste lado do muro.
-- Acha que seremos notados por algum guarda? -- Thalia perguntou, como uma careta.
-- Não. A maioria estar ajudando a controlar a entrada de forasteiros pelo portão principal. -- Alex suspirou e estalou os dedos e o pescoço, encarando a longa subida que teriam pela frente. -- Pronta?
Thalia verificou rapidamente se a bolsa estava bem presa ao seu corpo e amarrou os cabelos ruivos num coque firme.
-- Pronta.
Sem trocar mais nenhuma palavra, os dois se puseram a escalar a muralha. Não era tão grande quanto à muralha do reino dos RealisAurum, mas isso não impediu que grande esforço e concentração fosse usada para subir aquele paredão que, aos olhos dos dois jovens, parecia não ter fim. Suados, com as mãos doloridas e as pernas trêmulas, eles chegaram ao topo da muralha. Como o nobre havia afirmado, longo a frente estava uma casa onde pessoas da alta sociedade parecia morar por causa do modo luxuoso como a casa fora construída.
Thalia puxou um pouco de ar dos pulmões, pois estava ofegante e se impulsionou com toda sua força para frente. Sentiu o rosto e o tronco doerem quando se chocou contra o telhado. Com um gemido de dor, se forçou a ficar de pé e fez um gesto positivo de cabeça para o companheiro. Imitando a mulher, ele tomou um forte impulso para frente, logo alcançando dolorosamente o telhado. Com sua audição aguçada, ouviu exclamações de surpresas e perguntas raivosas vindo de dentro da construção, não entendeu o que falavam, mas é óbvio que não tinham gostado de ter alguém em cima do seu telhado.
-- Você estar bem? -- Thalia interrogou, estendendo a mão para ajudá-lo a levantar.
-- Estou. E você?
-- Ótima.
-- Tá com a nossa corda?
-- Tô.
Com o auxílio da corda que traziam consigo, desceram do telhado e se apressaram em pular o muro da casa antes de serem descobertos. Não tendo mais muros limitando suas visões, puderam observar o reino que se estendia a sua frente.
Casas simples e mansões se misturavam dando origem a uma beleza bizarra e bem-vinda, o céu daquele começo de noite começava a revelar suas primeiras estrelas e seu astro frio que servia de testemunha para as coisas que aconteciam na sua noite temporária. Ao contrário do seu próprio reino onde predominava a natureza e os aspectos naturais da biodiversidade de fauna e flora, a beleza daquele reino estava mais voltada para as construções extravagantes, sem quase nenhuma vegetação tendo um território específico para poder extravasar sua rebeldia de crescer e evoluí suas raízes.
Pessoas seguiam com sua rotina, como se sua vida se resumisse a isso, sem olhar ou prestar atenção nos dois viajantes inesperados que emergiram do muro de uma casa onde obviamente não moravam. Essa antipatia fizeram Thalia e Alex hesitar muito antes de perguntar sobre o homem que vieram procurar. Recebendo uma rápida referência de uma adolescente acompanhada da velha mãe, seguiram na direção apontada.
Seguido as instruções daquela moradora, chegaram a uma casa bem construída. Não chegava a ser a maior e mais admirável construção daquele reino, mas dava para ver que não era morada de uma família classe média e sim de alguém influente. Thalia se aproximou e bateu na porta, depois se afastou para Alex tomar as rédeas da situação já que ele era melhor com palavras.
A porta foi aberta por uma mulher de corpo esguio e expressões suaves. Com grandes olhos cor-de-mel e cabelos pretos e crespos.
-- Boa noite. -- Cumprimentou tentando esconder a desconfiança, pois não era normal alguém bater na porta de seu senhor a essa altura da noite. -- Em que posso ajudá-los?
-- Queremos ter a honra de conversar com o duque Brício. Somos forasteiros que vieram de muito longe para poder vê-lo e tratar de um assunto importante. Se pudesse, por favor, informá-lo da nossa chegada, seríamos muito agradecidos. -- Disse com voz educada e suave.
-- Aguarde alguns instantes, por favor. -- Pediu, voltando a fechar a porta.
Adentrando a casa, onde quadros coloridos e variados enfeitavam o corredor que dava para a sala de visitas, ela cruzou os cômodos que conhecia como a palma da sua mão e, já não sendo necessário pedir permissão para entrar graças a "intimidade" que tinha com seu senhor, simplesmente abriu a porta que dava para seu gabinete e entrou.
Sentado atrás da mesa onde organizava pergaminhos com concentração, estava um homem alto, de olhos escuros que nem seus cabelos milimetricamente arrumados que já apresentava fios grisalhos, com um postura autoritária e roupas elegantes. Ele aparentava ser muito mais jovem do que realmente era.
-- Senhor Brício, tem um casal de forasteiros pedido para conversar assuntos urgentes como você.
Franzindo a testa em confusão, o duque levantou o olhar para a sua serviçal. Por breves segundos permaneceu hipnotizado pelas curvas magras que, para ele, eram muito atraentes.
-- O que forasteiros iriam querer comigo, ao bater na minha porta? -- Indagou para si mesmo.
Rodeando a mesa, a mulher se posicionou atrás do seu senhor e pousou as mãos no seus ombros largos, inclinando a cabeça, sussurrou sensualmente no seu ouvido, fazendo-o se arrepiar:
-- Tem certeza que não sabe o motivo da chegada deles?
-- Mas já faz tanto tempo desde o último... -- Brício gemeu satisfeito e relaxado quando a amante iniciou uma massagem nos seus ombros.
-- Eu sei, querido. Mas não vamos nos basear no passado, não é mesmo?
A cada sussurro, ele se sentia mais excitado, tendo que usufruir de toda sua racionalidade para pensar no fazer na atual situação.
-- Deixem-os entrar. Quero conversar com esses forasteiros na minha sala de visitas.
-- Entendido.
Uma enorme onda de irritação e insatisfação tomou conta do conde quando a massagem parou e a sua serviçal seguiu sorrindo para a porta sem nem olhar para trás.
-- Ela me deixa louco. -- Murmurou balançando a cabeça negativamente.
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-- Thalia?!... Thalia!...
A ruiva soltou um gemido dolorido, sentindo suas pálpebras pesadas. A voz que lhe chamava parecia ecoar pelo seu cérebro, como se sua mente fosse um cômodo vazio e silencioso. Tentou se mover, mas sentiu seu corpo mole e sem ação, ao mesmo que sentiu algo macio tocar seu rosto sardento.
Invocando forças de algum lugar dentro dela que não sabia existir, forçou a si mesma a abrir. Pouco a pouco, viu o rosto de Alex ganhar forma. Seus traços belos e angelicais, mas ainda com o típico toque robusto dos homens, foram ganhando foco a medida que sua visão embaçada voltava ao normal. Percebeu que o toque que sentia era a mão do companheiro que estava espalmada na sua bochecha, e soltou um resmungo indignado ao perceber que sorria bobamente.
-- Você estar bem?... Te machucaram?... -- Apesar do rosto do nobre está próximo do seu, sua voz parecia distante e abafada.
Antes que ela pudesse testar seus lábios para responder a pergunta, uma voz se pronunciou primeiro:
-- Mas que cena fofa! Quase me fez mudar de ideia quanto à entregá-los aos seus perseguidores. -- Uma risada debochada e maliciosa chegou aos ouvidos de Thalia como o veneno de uma cobra que penetra fatalmente na corrente sanguínea. -- QUASE.
-- Vá a merda! -- Alex retrucou, aflito e irritado, o que impressionou Thalia.
Alex sempre fora calmo, nunca levantou a voz ou usou palavras rudes, isso era o tipo de altitude que ela teria. Mas o tom usado por ele para revidar a provocação a fez questionar o tinha levado ela a esse estado. Fechando os olhos, tentou se lembrar.
Lentamente, as imagens vieram até ela, que agarrava as cenas com os braços desesperados de sua consciência para tentar entender o que ocorreu. Lembrou que, depois que contaram sua história e o que os levaram até Brício, ele sorriu gentilmente e disse que disponibilizaria um quarto para passarem a noite ali e, no amanhecer, os conduziria até o lugar que queriam. Thalia achou que ele tinha cedido muito facilmente, afinal a Vila dos Nobres Plebeus, de acordo com o que ouviu, não devia ser revelada a qualquer um, pois havia servos reais que tentavam conseguir informações com os supostos espiões da vila. Mas guardou suas suspeitas para si.
O duque insistiu que não deviam dormir no mesmo quarto, pois este era muito tradicional e ambos os dois forasteiros não eram casados. O nobre e a plebéia acabaram aceitando. Mas a serviçal que os atenderá lhe ofereceu uma taça de vinho no caminho para seu quarto, e como estava exausta e fazia um bom tempo que não se deliciava com um bom vinho, resolveu aceitar. A última coisa que se lembrou foi da cozinha luxuosa girando em sua visão, e do barulho da taça ao deslizar das suas mãos e se quebrar no chão.
-- Eles nos enganaram. -- Se ouviu sussurrar, percebendo que sua coordenação motora já voltava ao normal.
Alex a puxou com delicadeza para seu colo, a colocando sentada no mesmo e a apertou em seus braços, parecendo aliviado. Thalia olhou em volta, percebendo que estavam em uma espécie de cela. O chão era de terra fria, negra e úmida, barras de ferro estava entre eles e um corredor iluminado por tochas, uma pequena claridade vinha de uma pequena janelinha do tamanho do rosto de Thalia estava a cerca de 3 metros do chão, onde barras de ferro também predominavam.
-- Bem vou dar privacidade ao casal em seus últimos momentos juntos. -- Ouviu o que reconheceu como sendo a voz do conde, mas não conseguido identificar da onde vinha, embora tivesse ouvido passos largos ecoando pelo lugar onde estavam.
-- Eles nos enganaram. -- Repetiu, se afastado apenas o suficiente para encarar os olhos celestes de Alex. -- Por que?
-- Não sei. -- O príncipe suspirou. -- Mas temos que dar um jeito de sair daqui.
A mulher ainda se sentia um pouco tonta, mas ignorou isso e ficou de pé num pulo, estendendo a mão para o homem que prontamente a aceitou. Não foi difícil perceber que não tinham saída: Seus pertences tinham sido confiscados, as grades de ferro eram inquebráveis para seres humanos e a janela era muito pequena para passarem, e mesmo assim era tomada por grades também.
Tentaram arquitetar um plano, mas não conseguiam pensar em nada útil e que realmente funcionasse. Pensaram em fugir assim que porta fosse aberta quando os soldados chegassem para buscá-los, mas não conheciam a casa para ir direto para a saída e também não viria apenas um soldado para capturá-los. Pensaram em subornar o duque, mas ele já era bastante rico, e estava com suas bolsas onde estava o dinheiro que tinham, além do mais a recompensa que deram para quem os entregar as autoridades do reino dos RealisAurum devia ser muito mais do que possuíam. A noite cedeu seu lugar a madrugada, ambos os dois sentiam sono, exaustão e cansaço. Mas não conseguiam de jeito nenhum dormir, a angustia impedido que eles se rendessem ao sono.
Ainda estavam acordados quando os primeiros raios começaram a surgir no horizonte, encolhidos de mãos dadas num canto da cela, tentavam sem muita esperança criar uma estratégia de fuga. Até que o barulho de algo caído no chão chamou sua atenção.
Ficando de pé junto da ruiva, Alex piscou, confuso.
-- Mas o que...?
-- Nossas bolsas! -- Thalia exclamou, indo em direção ao material e verificando se estava todos os seus pertences lá dentro.
Um movimento na janelinha fez Alex levantar o olhar, a tempo de ver um pedaço de pergaminho dobrado deslizar para dentro da cela. Pegando-o, passou os olhos pelos rabiscos que estavam desenhados na superfície e inclinou a cabeça, feliz e surpreso.
-- É uma planta arquitetônica da casa! -- Informou, fazendo a mulher levantar seus belos olhos do que verificava. -- Mostrando o caminho que leva para a saída.
-- Bem, só o que falta é... -- Thalia foi interrompida pelo som que molho de chaves fez ao atingir o chão.
-- Não falta mais. -- O príncipe cantarolou, pegando às chaves. Apressadamente, testou cada chave até que na sexta tentativa conseguiu abrir a porta. -- Primeiro as damas.
-- Que cavaleiro. -- Elogiou, debochadamente.
Com a ajuda do mapa, seguiram para a saída, percorrendo corredores e se escondendo dos poucos serviçais que encontravam. Em certo momento, ouviram som de variados passos, e Thalia se apressou em puxar o companheiro para a primeira porta aberta que encontrou.
-- Por aqui, senhores. Eu os tranquei no calabouço para evitar uma fuga desses rebeldes. -- A voz arrogante do duque foi levemente abafada pelo som dos passos dos soldados.
-- Estamos ficando sem tempo. -- Alex alertou.
Ainda mais rápidos, logo alcançaram a saída. O nobre começou a testar as chaves, nervoso e começando a suar, as tentativas foram várias antes de finalmente alcançarem a segurança das ruas. Já estavam longe quando o poderoso e influente conde Brício soltou uma exclamação de surpresa e choque ao não encontrar seus prisioneiros na cela. Dobrando esquinas, entrando em ruas e cruzando becos, o casal só parou quando uma carruagem parou na sua frente, ficando em seu caminho.
-- Subam! -- Uma voz masculina comandou.
Hesitantes, os dois recuaram, sem saber o que fazer. Mas a voz do comandante do seus perseguidores atrás de si, indicando que tinham sido localizados, os obrigaram a tomar decisões imediatas e precipitadas. Alex ajudou a ruiva a subir na carruagem, entrando logo atrás. No exato momento em que a porta se fechou, o meio de transporte medieval se pôs em movimento.
A carruagem parecia voar pela ruas do reino, Alex e Thalia tinha apenas uma vaga noção do que acontecia por causa dos gritos do condutor da carruagem para os pedestres saírem do caminho e as ordens do comandante atrás de si. Aquilo pareceu acontecer por horas, onde eles eram jogados bruscamente para os lados em qualquer curva feita pelo veloz meio de transporte. Até que eles pararam repentinamente e a porta foi aberta por um homem de barba branca e bem feita, cabelos desgrenhados e um olhar afiado e profundo.
-- Quem é você? -- Thalia teve a iniciativa de perguntar depois de uma avaliação rápida da aparência do homem.
-- Sou Marcus. -- Ele se apresentou. -- Desçam, rápido!
O casal obedeceu, mas permaneceram alertas aos movimentos do suposto aliado. Marcus andou até a entrada do beco onde tinha estacionado a carruagem e espiou as ruas para ter certeza de que era seguro permanecerem ali. Os dois jovens se aproximaram, observando o homem se recostar no muro e cruzar os braços sobre o peito, os encarando com olhos calculistas.
-- Ambos são nobres? -- Perguntou sem rodeios.
O príncipe e a plebéia se entreolharam. Depois da experiência de quase captura que tiveram com o conde, eles aprenderam do pior jeito a lição que já deviam saber: Não confiar em ninguém. Marcus percebeu isso, pois não os pressionou, esperando pacientemente alguma manifestação verbal deles.
-- Por que estar nos ajudando? -- Questionou o nobre, estreitando os olhos.
Desviando os olhos para as ruas novamente, ele estalou a língua e deu um sorriso de lado, embora os olhos ainda fossem frios.
-- Eu ajudei a todos que caíram no truque de Brício.
-- Truque? -- Thalia inclinou a cabeça, curiosa e desconfiada. -- Que truque?
-- Ele espalhou para todos os moradores desse reino que era espião de... Bem... Vocês sabem aonde. Então, quando um rebelde nobre ingênuo caía na sua armadilha, ele o entregava de volta às autoridades de seu reino em troca de uma gorda recompensa. -- Esclareceu, coçando distraidamente a barba, havia nojo e repulsa na sua voz.
-- E ele não é? -- Alex perguntou, desanimado.
-- Não. -- Garantiu o mais novo aliado do casal. -- Mas eu sou.
Alex engasgou e os olhos de Thalia faíscaram, esperançosos.
-- Então a lenda é verdadeira?
Marcus voltou a encará-los, com a sobrancelha levantada. Seu olhar assumiu um caloroso brilho de deboche risonho.
-- Se achavam que era uma lenda, por que vieram a procura da vila?
-- Gostamos de uma aventura. -- Alex deu de ombros.
-- E não é como se tivéssemos algo a perder procurando essa vila. -- Thalia complementou.
Uma breve risadinha um tanto seca escapou dos lábios de Marcus, como se ele não sorrisse com frequência e tivesse problemas em forçar sua garganta a produzir esse som que deveria supostamente indicar alegria.
-- Interessante. -- O jeito como o mais velho os olhou demostrava uma espécie de credibilidade, como se tivessem passado na auto-avaliação feita por ele. Um olhar de pura aprovação. -- Venham comigo. Mas mantenham a cabeça baixa.
Tomado o cuidado de manterem uma distância segura dele, Thalia e Alex seguiram o homem que era praticamente um estranho para eles. Marcus não fez nenhuma espécie de protesto quanto a isso.
Filho de uma descendente distante da realeza e um príncipe que odiava as regras que nobres deveriam obedecer para manter a imagem de bom governante, ele ouviu até atingir a maioridade as histórias que membros da corte real contavam sobre o que passaram antes de chegar a vila. Alguns simplesmente não gostavam da pressão que suas funções tinham ou das regras que impediam de ser eles mesmos. Outros sofriam maus tratos e abusos de seus pais ou irmãos. Alguns desses relatos eram simples e um tanto chatos, outras eram hipnotizantes e cheias de ação. Mas em todas os narradores que viveram tudo que contavam apenas enfatizavam uma coisa: Não confie em ninguém.
Passando por uma feira onde vendedores já arrumavam seu espaço e preparavam as cordas vocais para poderem gritar o que vendiam o mais alto que conseguiam para superar a voz dos companheiros de mercado, numa voz mansa mesclada de um leve resquício de desespero. O trio seguia sútil e silencioso pelas ruas do centro do reino, obviamente não queriam ser incomodados, sua postura parecia dizer isso sem que suas bocas se movessem. As ruas do centro foi substituída pelo subúrbios da cidade, lentamente as casas ostensivas foram ficando lentamente mais humildes, até se tornar casebres feitos pelos próprios moradores. Parando em frente a uma humilde casa feita de madeira, Marcus tirou uma chave do bolso e usou para destrancar a porta pesada, dando espaço para o casal entrar logo em seguida. Ainda meio apreensivos, eles entraram, permanecendo alertas.
-- Vocês não responderam minha pergunta. -- Marcus apontou, fechando a porta atrás de si e abrindo a janelinha para que a luz natural do sol iluminasse o cômodo. -- Ambos são nobres?
Era uma sala modesta, um lugar não muito grande, com uma lareira pequena, obviamente não era para aquecer mais de uma pessoa, e uma cadeira de balanço de madeira. Aquele ambiente trouxe um estranho conforto para Thalia e Alex, mas eles não abaixaram a guarda. Olhando o suposto aliado nos olhos com confiança, o príncipe falou sem emoção na voz:
-- Não. Só eu sou um nobre. Minha amiga é uma plebéia que me ajuda e me guia na nossa jornada.
-- Aham. -- Marcus arqueou as sobrancelhas, segurando uma gargalhada seca. -- Amiga. Sei.
As faces de ambos ficaram coradas e eles se entreolharam, envergonhados. Sua ligação era tão óbvia assim?
-- Vai nos ajudar? -- Thalia questionou, querendo mudar de assunto.
Marcus se sentou no chão em frente a lareira, coçando a barba pensativo. Ele olhou de forma intensa para eles, antes de falar calmamente:
-- Veja bem, tenho um amigo na muralha, um amigo que me deve certos favores que posso cobrar. Também conheço um soldado que nos ajudaria se molhamos bem a mão dele. Consigo passar vocês pela muralha sem documentação, ajudando na fuga para fora desse reino. É o que posso fazer.
-- Já é mais do que suficiente. -- Alex garantiu. -- Mas tem mais uma coisa. O principal motivo de temos procurado o conde Brício.
-- E qual é? -- Questionou o mais velho.
-- Eu e Thalia não sabemos por onde começar a procurar pela vila. Sabemos que seus membros se movimentam regularmente, sempre mudando de localização, mas nada do que estudamos apontou um lugar específico.
Marcus fez uma careta de desgosto e irritação. Aqueles dois pareciam ter pesquisado a fundo a suposta lenda, conseguido informações que nunca deveriam ser liberadas sobre a vila. Mas claro que sempre havia um que não sabia manter o bico calado. Suspirando, ele deixou escapar um bufo indignado, embora reconhecesse que essa liberação de informações ajudasse muitos nobres.
-- Na última carta que recebi de minha saudosa mãe, ela me disse que estavam além das Três Colinas Gêmeas do Sul.
-- Ainda temos muito que percorrer. -- Thalia lamentou.
-- Com certeza, por volta de dois meses de viajem. Mas como estão a pé... Bem, acho que cerca de três meses e meio ou mais. Isso sem nenhuma parada ou descanso. -- Marcus observou.
Alex suspirou e ficou de pé, batendo nas calças para tirar a areia do chão.
-- Temos que comprar o triplo de mantimentos na próxima cidade que passamos. Aquela região não tem nenhuma espécie de fixação de moradias.
Como membro da realeza, Alex tinha obrigação de saber sobre os reinos existentes nos seus arredores e as áreas com maiores concentrações de vilas e cidades. Somando esse conhecimento, os relatos detalhados que ouviu de viajantes e pessoas mais velhas, ele conseguiu criar um mapa teórico na mente sobre quase todas regiões. Ele ficou feliz de ter acumulado todo esse conhecimento geográfico, estava sendo muito útil.
Marcus avaliou atenciosamente o casal. Estavam magros demais, abatidos, pareciam que se forçavam a permanecer em pé, orelhas profundas de um negro arroxeado marcavam seus olhos, suas roupas estavam empoeiradas e surradas e pareciam não tomar um banho decente a muito tempo, apenas banhos rápidos em riachos, lagos e rios.
-- Tomem um banho, comam algo, se tiverem vistam outras vestes e durmam. Vamos sair às duas e meia da madrugada e precisam que estejam com toda sua disposição.
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