Lutando Para Amar.
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Havia poucas pessoas vagando pelas ruas naquela madrugada, entre elas estava um homem que aparentava acabar de passar dos vinte anos, andando de cabeça baixa e obtendo sucesso no seu objetivo de não chamar atenção.
Seus cabelos um tanto longos demais estavam parcialmente escondidos por um chapéu empoeirado de palha, os olhos azuis olhavam fixamente para o chão e as roupas simples e surradas escondiam sua origem nobre. A única coisa que chamava atenção nele era a pele anormalmente clara, quase branca, e a sua beleza que o destaca de muitos, senão todos.
A porta pesada de madeira rangeu intensamente ao ser aberta, como se quisesse anunciar à todos da sua chegada. Mas enquanto alguns simplesmente não parecia interessando em erguer o olhar para ver quem entrava no local, outros se encontravam desmaiados num canto com a lucidez afogada pelo álcool.
Alexandre RealisAurum, ou apenas Alex, passou os olhos pelo recinto e parou num par de olhos cor de âmbar que o encaravam com um brilho comum naquelas íris.
—- Então vossa majestade conseguiu mesmo sair do seu castelinho? -- A mulher indagou com deboche, um sorriso provocativo surgindo nos lábios finos e rosados.
—- Você achava que eu não estava falando sério ou ia desisti na última hora? -- Alex levantou uma sobrancelha.
—- Sim, era exatamente isso que eu achava.
—- Você é impossível, Thalia.
Nathalia Ohana, ou como era mais conhecida, Thalia, era muito diferente das outras mulheres da sua época. Enquanto as outras ansiavam por um marido leal, carinhoso e, de preferência, rico para lhe dar uma boa vida, ela sonhava em explorar o mundo, vagar por lugares belos e desconhecidos, viver aventuras. Para ela, a vida era muito mais que apenas casar, ter filhos e ser submissa a um homem.
Alex tinha esse mesmo desejo, não queria permanecer naquele reino, cercado de muros e tendo que calcular cada um de seus atos. Ele poderia ver lugares diferentes do que estava acostumado, aprender coisas que não são ensinadas em livros e ser muito mais do que seus antepassados foram. Não queria sentar num trono e dar ordens, queria sentar em alguma clareira depois de uma longa caçada, sorrir para o céu azul enfeitado de nuvens brancas e lembrar das situações agitadas que viveu.
E foi esse sonho ousado e supostamente impossível que por muito tempo os uniu numa profunda amizade... Até isso evoluí para algo maior, mais intenso e mais puro que agitava seus corações.
O jeito ques se conheceram foi, no mínimo, embaraçoso: Era uma manhã ensolarada de verão, Alex tinha 12 anos e caminhava alegremente pelas ruas do seu reino, numa das suas fugas quase diárias, feliz por estar fora dos limites do castelo que vivia. Até que seus olhos visualizaram uma menina, parecendo dois anos mais nova que ele, encostada num muro alto com uma expressão emburrada. Nos primeiros segundos, ele apenas a ficou observando, pensando o quanto aquelas sardas que salpicavam seu rosto a deixava adorável. Então se aproximou e perguntou o que houve.
A resposta veio rápida e ríspida: Ela queria pegar algumas das maçãs que seu vizinho cultivava, mas sua baixa estatura a impedia de pular o muro. Talvez fosse seu extinto rebelde agido ou ele simplesmente e inexplicavelmente queria agradar aquela garota, mas se ofereceu para ajudá-la. O resultado foi os dois disparando pelas ruas e becos para fugir dos ferozes cães que os perseguiam, tentando não derrubar os frutos que pegaram e rindo como loucos da situação.
Acabaram saído ganhando no final. Pendurados numa árvore, usufruído da sombra de suas folhas, eles se deliciavam com as maçãs enquanto conversavam. Depois de várias gargalhadas e trocas de olhares, ambos se separaram no final da tarde, com a promessa de se reencontrarem ali novamente e sentido-se estranhamente aquecidos por dentro.
XXXXXX
O reino dos RealisAurum era cercado de uma enorme muralha, que os mais velhos afirmavam fielmente ter sido construída pelos deuses que abençoaram aquele povo.
Só havia um jeito de entrar e sair dali: Dois enormes portões de aço, um localizado na parte Sul e o outro na Norte. Esses portões eram constantemente vigiados por sentinelas, tendo que ter todos os papéis de identificação para entrar e um bom motivo para sair. Os habitantes dali achavam sua morada impenetrável, mas tinha uma coisa que poucos sabiam: Eram poucos os benefícios que os guardiões daquela muralha recebiam. Se você tivesse muito para oferecer, e um pouco do dom da persuasão, conseguiria burlar aquela segurança sem nenhuma burocracia.
Foi o que Thalia e Alex fizeram. Depois de conseguir negociar com um novato que não só os deixaria passar, mas também permaneceria de bico fechado, eles estavam se afastado velozmente do reino montados em cavalos que já os esperava fora da muralha. A brisa noturna batia em seus rostos lhe causando arrepios, os cabelos negros de Alex e os ruivos de Thalia se movimentavam de maneira esvoaçante no vento que uivava em seus ouvidos.
O dia já amanhecia quando fizeram a primeira pausa para dar descanso aos animais que usavam e tomar um breve café da manhã. Não poderiam perder muito tempo, sabiam que logo soldados estariam no seu encalço e queriam ter a vantagem de estarem a bons quilômetros de distância a frente deles.
—- Deve ser cerca de seis horas. -- Thalia informou, observando a posição do sol.
—- Bem, isso é bom. -- Alex, que verificava se suas bagagens estavam bem presas aos cavalos, disse. -- Temos algumas horas antes de perceberem meus sumiço.
—- Se não me engano. -- Thalia virou-se para ele. -- Você disse que ia deixar uma carta para sua família.
—- Sim. -- A mão de dedos longos, carejadas pelo treino com a espada, do príncipe acariciou a crina do cavalo. -- Nada muito específico. Para resumir, escrevi que ia fugir com uma garota e fiz alguns elogios falsos a meu pai. Imaginei que, se puxasse um pouco o saco dele, aquele velho ranzinza não viria atrás de mim.
—- E Becca?
—- Ela sabe que fugir com você, só não sabe pra onde pretendemos ir. -- Um sorriso brotou no rosto de Alex ao lembrar da irmãzinha na qual ele confiou para contar sobre Thalia.
—- Queria ter me despedido daquela menina. Becca é uma graça, mas tem que aprender a falar menos.
Alex assentiu, concordando com a companheira. Nos anos que sucederam sua amizade, ele tinha levado a irmã com ele algumas poucas vezes quando ia se encontrar com Thalia. A ruiva tinha achado o jeito tagarela da princesinha curioso, irritante também, mas curioso. Chegava a ser engraçado o jeito dela de falar descontroladamente, emendando um novo assunto assim que acabava de esclarecer outro, sem quase nenhuma pausa para pegar fôlego.
—- Vamos? -- Alex chamou, subido no seu animal.
—- Vamos. -- Thalia afirmou, também sumido no seu.
Logo eles estavam cavalgando novamente para longe dos territórios do reino dos RealisAurum.
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