Lusco-fusco
1 Capítulo único
Notas iniciais
Num dia que deveria ser comum, com as mesmas tediosas tarefas a cumprir, os mesmos colegas de trabalho para suportar com resiliência, as mesmas metas a alcançar e, portanto, a mesma pressão psicológica para lhe azucrinar, o funcionário mais esforçado da agência de consultoria financeira chegava ao seu limite de estresse. Às exatas dezessete horas e vinte e dois minutos, ele voltou do seu solitário cafezinho habitual empunhando a arma que trazia consigo desde quando saiu de casa, de manhã, empreendendo, por fim, o plano que elaborara há dias, tudo efeito de sua mente abarrotada de imagens sinistras, de comandos macabros, vozes advindas de algum ponto obscuro de si. O lusco-fusco da tarde que beirava à noite, incidindo através da grande vidraça, quase o cegou quando adentou à sala, mas ele nem ao menos titubeou para apertar o gatilho e explodir o peito do primeiro colega de trabalho que cruzou o seu caminho, como fez com todos os demais. Correria, gritos, pânico e tentativas de fuga apenas lhe causavam maior impulso assassino. Ele não iria parar, nada o deteria, sua ira era insaciável; queria mais sangue!
Um barulho irritante adentrou ao cérebro de Heitor. Ele despertou do pesadelo sentindo o coração aos saltos. No entanto, suspirou aliviado. Silenciou o despertador, ergueu-se da cama como o robô abatido de sempre e, após os preparativos habituais, foi para o trabalho.
O dia prosseguia de maneira normal, até que Heitor escutou um estampido característico e viu o colega do guichê ao lado cair no piso com sangue escorrendo do peito. Ao levantar o rosto, primeiro notou o relógio de parede afixado no alto acima da porta de entrada marcando dezessete horas e vinte e dois minutos, depois encarou o olhar psicótico do homem, outro colega, que tinha o rosto iluminado pelo lusco-fusco, enquanto mirava a arma e disparava em sua direção.
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