Lumos Solem
25 Capítulo XXIII
Notas iniciais
Sirius levou Pasca pela mão até um restaurante com uma pequena entrada, desviando de trouxas vestidos de roupas da mesma cor, destinados a algum lugar comum, eles marchavam animados para a mesma rua.
A fachada de vidro do estabelecimento exibia um lugar largado. Não havia móvel algum e o chão estava completamente empoeirado. Restos de máquinas de costura estavam espalhados pelo concreto, assim como fios de lã. Acima da fachada, havia um grande letreiro com as cores apagadas, onde lia-se “Le Manteau de Laine”
Crias de bruxos, os dois já conheciam locais como aquele: fachadas feitas para aparentar descaso e perigo, para que os trouxas não entrassem.
Sirius olhou ao redor antes de empurrar a porta escrito “VENDE-SE ligue para Peter Reginals”. Assim que passaram pela porta de vidro, não foram vistos pelos pedestres da rua e ninguém se preocupou com o sumiço dos dois.
Pasca sorriu ao encontrar um interior completamente diferente. O lugar era bem elegante, porém, muito confortável, com lareira, cadeira arredondadas de couro vermelho e mesas cobertas de toalhas brancas. A luz era baixa, a maior fonte de luminosidade era a lareira.
Eles se sentaram em uma das poucas mesas, a chama da vela acendeu-se com a chegada do casal. Havia por volta de cinco mesas, duas delas estavam ocupadas com bruxos, nem todos eles eram bons na arte de se enturmar com a moda dos trouxas.
— Como descobriu esse lugar? — Pasca perguntou enquanto o garçom chegava.
— Meu tio.
— Jovem Sr. Black, que prazer é tê-lo de volta ao Le Manteau de Laine. — O garçom disse com um perfeito sotaque francês.
O homem era alto e magro, com a careca já evidente, o cabelo preto circulando a base da cabeça branca. Ele vestia uma camisa branca com listras vermelhas carmim, calça preta. Seus olhos eram profundos, ele parecia muito presente.
— Boa noite, Thomas. Estou feliz de voltar. Esta é Pasca. — Sirius disse de forma muito educada e polida.
— Boa noite, senhorita! Espero que nosso restaurante a agrade.
— Thomas, sabe de algum feriado dos trouxas hoje? — Sirius perguntou.
— Ah, não, senhor, mas há certa movimentação nas ruas, certo? Posso recolher os casacos dos senhores? — Thomas pediu.
Os dois assentiram, o lugar já provocava-lhes um calor agradável. Thomas ajudou Pasca a retirar o casaco caramelo e Sirius virou o rosto para a direita, escondendo o rubor do rosto em vista do decote interessante.
— Sirius? — Pasca chamou.
— Hum? — Sirius voltou-se para ela, sem olhar na sua direção.
— Está tudo bem?
— É que você… — Sirius passou a mão no rosto, como se tentando deixar a vista mais clara. — Me deixa louco.
Pasca deu um pequeno sorriso, parecendo achar interessante provocar aquilo nele.
— Você nem faz ideia. — Sirius disse voltando a olhar nos olhos de Pasca, reforçando a última palavra, pensando em sua vida dupla.
Sirius lembrou de seus beijos, as mãos, os afagos, o cheiro dela e aquilo levou um arrepio passar por seu corpo.
— Aqui está o cardápio. — Thomas voltou com os menus em mãos.
Pasca sobressaltou-se com a quebra do momento, mas pegou o cardápio assim como Sirius. Ele deixou este cardápio de lado e passou a olhar o menu de vinhos.
— Não faço a menor ideia do que pedir. Tudo parece gostoso. E coberto de manteiga, o que é um bônus. — Pasca disse, fazendo Sirius soltar uma risada.
— Eu sempre peço a mesma coisa. Você gosta mais de carne, peixe ou frango?
— Gosto de todos. — Pasca disse dando de ombros.
— Então deixa comigo. — Sirius disse levantando o rosto do cardápio de vinhos e disparando um sorriso atraente.
— Estão prontos para pedir? — Thomas aproximou-se.
— Sim, o de sempre para dois com o Chablis Grand Cru.
— Perfeito. — Thomas aprovou tomando os cardápios de volta.
— Do que falávamos? — Sirius virou-se para Pasca.
— De como eu te enlouqueço. — Pasca disse como se eles estivessem falando de Hipogrifos.
Sirius desviou o olhar. — Melhor mudarmos de assunto, hum? Está pronta para a viagem?
Pasca sorriu ao responder. — Está falando da Ucrânia? — Sirius confirmou com a cabeça. — Nós ainda não passamos no teste.
— Você pode considerar isso gabaritado. Não se preocupe, faça as malas. — Sirius disse sorrindo.
— Sirius Black, você é muito confiante. — Pasca disse sorrindo como ele.
— Aaaah, eu tô até triste depois de comer tudo isso. — Pasca disse enquanto eles esperavam a sobremesa.
— Incrível. Para onde toda essa comida vai? — Sirius disse como se fosse uma pergunta real.
Pasca riu enquanto o bolo de chocolate com calda de chocolate branco era posto na sua frente. Sirius observou enquanto ela provava o doce, ele estava sentado confortavelmente na cadeira. O vinho havia intoxicado os dois. Sirius terminava de tomar a garrafa enquanto Pasca tomava apenas água agora para acompanhar a sobremesa.
Ela estava corada, efeito do álcool. O cantinho de sua boca estava sujo de chocolate e ele achou que ela ficava extremamente encantadora na luz da lareira.
— Nossa, tá muito bom. Esse é o melhor bolo de chocolate que eu já comi. — Pasca disse revirando os olhos, fingindo um descargo elétrico. — Não quer provar?
— Não gosto de doce, mas claro. — Ele disse.
Sirius inclinou-se sobre ela enquanto pegava seu queixo, virando o rosto de Pasca em sua direção e beijando seus lábios. Logo sua língua permitiu permissão para entrar em contato com a dela. Ele sentiu o gosto do chocolate.
Sua mão que segurava seu rosto desceu para sua nuca, passando por sua mandíbula. Ele sentiu a pele dela se arrepiar, arrepiando a dele, como um choque elétrico passando de um para o outro. Este beijo não era como os outros, era calmo e lento, como um jantar em um lugar fino.
É aconselhado não misturar vinho com doce, mas Sirius achou que aquela combinação era perfeita e mandou todos os enólogos à merda. Aparentemente, Pasca concordava, pois seus dedos procuraram por seu braço, tendo alguma coisa dele para segurar.
Sirius se afastou primeiro, apesar do beijo ter sido calmo, foi intenso o suficiente para deixar o coração do garoto batendo forte contra as costelas e a respiração alterada.
Quando ela abriu os olhos, os dele estavam abertos encarando seu rosto e seus lábios cor de rosa.
— Gosto mais de doce agora. — Ele disse.
Pasca deu um pequeno sorriso envergonhado.
Eles agradeceram a Thomas e levantaram-se depois que Pasca acabar a sobremesa e Sirius o vinho. O garoto a ajudou a vestir o sobretudo e colocou a jaqueta sobre os ombros.
Sirius pôs a cabeça para fora do restaurante, checando a presença de algum pedestre.
Eles caminharam calmamente pela rua, Sirius a levando por um caminho mais longo, o qual ela não percebeu.
— Gostou do jantar? — Sirius perguntou.
— Sim, muito. Obrigada por me convidar. — Ela respondeu.
— Não diga como se eu tivesse escolha. — Sirius disse provocante.
Pasca sorriu e virou-se para observá-lo. Sirius continuava a olhar para frente, seu corpo era alongado, porém, ele não era tão magro, tinha músculos, ela percebia pela forma que sua camisa tomava. Mas aquela não era a melhor parte dele nem de perto. Seu rosto era claro, os cílios compridos e os olhos de um tom que parecia mudar o tempo todo, seus olhos sempre tinham um tom enigmático de perigo, de “afaste-se”, mas isso só parecia trazê-la para mais perto e o cabelo parecia bonito e bem cuidado todos os dias, apesar de ela saber que ele só passava shampoo. O maxilar era bem definido, assim como o queixo era másculo. Ele era bonito demais. Demais.
Sirius passou a caminhar de costas, de modo que poderia olhar para ela.
— Tem algo que você quer perguntar. — Ele disse com seu olhar zombeteiro.
— É, tem sim. — Pasca respondeu sem olhar em seus olhos.
— Nunca vou mentir para você. — Ele disse como se aquela fosse a fala mais natural do mundo, quando, na verdade, fez criar um calor no peito de Pasca.
— Vane. O que é que ela tem com você? — Pasca perguntou remexendo o cabelo depois que seu coração se acalmar.
Sirius suspirou e ajeitou o andar, suas mãos foram para os bolsos.
— Estivemos juntos algumas vezes e ela achou que as coisas eram sérias. — Sirius disse medindo as palavras.
— Estiveram juntos no sentido bíblico ou… — Pasca deixou a perguntar pairar no ar, com cara de quem julga, o que Sirius achou engraçado, fazendo-o rir.
— Não, não, o outro jeito. O quase bíblico. — Sirius respondeu indicando que eles não haviam transado.
— Se importa? — Sirius fez menção de acender um cigarro.
As sobrancelhas de Pasca subiram inconscientemente ao perceber que ele fumava.
— Não me importo. — Mentiu. — Você fuma?
— Hum, não de verdade… Correr com fumaça no pulmão não é legal. — Sirius pensou em sua forma de quatro patas enquanto acendia o cigarro. — Tenho parado. Agora é raro.
— O que te faz fumar então? — Pasca perguntou ainda observando Sirius.
Sirius puxou a fumaça para dentro de si e virou-se para Pasca com o cigarro fora dos lábios. Ele expirou a fumaça descartável, olhando fundo nos olhos da garota — havia um aviso ali- -, que foram emoldurados pelo rubor de seu rosto.
Pasca inalou a fumaça. Cheirava a canela, só canela, sem fumo. Os dois ficaram em silêncio, pensando sobre aquela parte da conversa.
— Como você deixou claro para ela que as coisas não eram sérias? — Pasca cutucou.
— O que? — Sirius virou-se na direção dela, já havia esquecido desse assunto.
— Vane.
— Ah, sim… Eu disse. Antes da primeira vez. Ela escondia bem o que sentia por mim naquela época.
— Ah, a obsessão? — Pasca disse de forma irônica.
Sirius riu, fumaça saindo de sua boca e narinas e se juntando ao ar frio que saía da boca de Pasca.
— Você é engraçada. O jeito que você fala as coisas é engraçado. — Sirius disse e puxou mais fumaça para dentro de si.
— Sou? — Pasca olhou na direção dele. — Ninguém acha isso.
Sirius deu de ombros. — Não sabem apreciar as coisas boas. Tipo, como você não namora?
Pasca olhou para a rua, seu vocabulário perdido por um motivo diferente desta vez.
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