Lumos! Interativa

9 Cheiro de Tempestade


Notas iniciais
Well...ME DESCULPEM! Eu demorei mais uma vez. Sim, eu sei, vocês já estão se acostumando com isso, logo logo desistem de mim -q Mas virada de ano pra mim sempre é complicado, e aconteceram algumas coisas que me deixaram, como posso dizer? Bastante incomodada, afetando minha inspiração e etc, etc... mas eu voltei! Uhu o/ Bom, desejo a todos uma boa leitura e espero que gostem. :3

Ano de 2017.

Em algum lugar, no quarto andar.

— Ah… parece que ninguém morreu. — Benjamin alegou, num tom cauteloso, enquanto mudava de posição. Scorpius, que se propusera a ditar o que lia no pergaminho – com várias interrupções devido a algumas mudanças na língua – mantinha-se de costas para uma Dominique sonolenta, que usava-o como apoio para suas costas.

— Você está esperando que alguém morra? — questionou a garota, unindo as sobrancelhas. O cachecol tampando seus lábios fazia sua voz sair abafada.

— De forma alguma, mas levando em consideração o medo que quem escreveu demonstrou sentir, pensei…

— Bom, ainda tem muita coisa… mas não faço ideia de qual é a relação entre o intruso e A Desgraça Rubra. O relato é bem resumido. — Malfoy contestou, pondo-se a coçar a parte de trás da nuca, o que obviamente tirou Dominique de sua posição confortável. A garota resmungou baixinho, incomodada, mas logo endireitou-se de maneira que pudesse olhar para os outros dois.

— Podemos perguntar a alguém daquela época…

— E quem diabos seria, os quadros?

— Poupe-me do seu sarcasmo…

Benj lançou seu olhar de um para o outro e suspirou. — Dominique tem razão. Se pensarmos direito sobre isso, há uma pessoa que podemos questionar. — seu habitual sorriso inocente cruzou seus lábios, enquanto ele colocava as mãos para trás das costas. — Proponho uma caça ao fantasma.

— Ao fantasma? Sei não, isso aqui está muito mais interessante. — Scorpius abanou levemente o pergaminho já devidamente enrolado. Por questão do próprio sono ou da falta de atenção, Domi murmurou num bocejo: — O que vamos fazer caçando fantasmas? Nós já temos de lidar com eles atravessando nossos corpos toda manhã… — e estremeceu brevemente, lembrando que a sensação não era das mais agradáveis.

— Francamente, vós estais a cansar-me! — o garoto alegou, subindo o mínimo possível do seu tom de voz para mostrar o quanto estava frustrado. Por questão de modos, Benjamin nunca gritava. Até esse aumento de tom era inusual para ele. — Pensais por um minuto…

— Uau, você está mais formal que o normal… que medo.

— Não se irrite tanto, Benj. — a menina sussurrou, pondo-se de pé e esfregando os olhos com os punhos. — Acho que entendo o que quer dizer. Hum… imagino que ela esteja por aqui.

— Ela quem? — Scorpius perguntou, começando a se incomodar com o fato de não ter pego a referência.

— Helena Ravenclaw. — Domi ajeitou o cachecol para se proteger do frio que fazia, dando mais uma volta em seu pescoço. — A Dama Cinzenta.

— O quê? — o loiro pôs-se de pé também, espanando o pó do uniforme. — Ela não vai falar conosco, faz anos que não fala com ninguém.

— Helena conversou com o eleito… — Benjamin estreitou os olhos ao citar isso, como se fosse algum tipo de assunto delicado para ele, o qual não gostava de tocar. Depois de alguns segundos, sua expressão voltou a ser a agradável de sempre. — Creio que possamos fazê-la falar, se a tratarmos com… delicadeza.

— Ou seja, faremos com que você não fale diretamente com ela. — Scorpius revirou os olhos. — Afinal, a Murta inundou o banheiro por causa de sua falta de tato.

Dominique levantou uma das mãos, num movimento deveras solene para ela. — Concordo plenamente com ele.

— Fácil de dizer… — Benj inclinou a cabeça para um dos lados. — Não é em vós que ela se agarra… de qualquer forma, vamos seguir. A Dama Cinzenta não deve estar muito distante.

Os outros dois ajeitaram-se e puseram-se a outra longa procura. Se Helena Ravenclaw, que estudara em Hogwarts na época em que tais acontecimentos sucederam-se, poderia lhes dar uma versão mais detalhada da história, talvez valesse a pena bajulá-la um pouco.

X-X

Ano de 997

O susto que o praticante de magia negra causou nos alunos, funcionários e nos próprios fundadores de Hogwarts não demorou muito para ser deixado de lado. Precauções foram tomadas, contudo… as feridas sararam, depois de cuidadas devidamente, mas uma certa desconfiança pairava no ar. Alguns alunos sentiam-na com mais densidade, outros a ignoravam e havia ainda alguns que não a haviam notado.

Passaram-se dias do ocorrido, e a rotina normal havia retornado. E, devo deixar bem claro, não demoraria tanto assim para que uma sombra macabra descesse novamente sobre a escola. Mas irei contentá-los com esse tempo agradável e calmo, que precedeu uma tempestade ainda pior.

De fato, agora gozando de uma boa saúde, mesmo depois de ter gastado todas as suas energias – e suas pernas – para que pudesse minimizar o estrago causado pelo intruso, Cateline Diot Slava vagueava pelos corredores mais altos, provavelmente sem nada para fazer. Ela havia decidido deixar Max em paz por um curto período de tempo, considerando que seus nervos ainda estavam a flor da pele desde o incidente com a manticora. A parte ruim dessa escolha era que não tinha mais ninguém tão covarde pra ela aporrinhar, o que acabava deixando-a com tédio.

Andrômeda patrulhava os corredores, afinal era seu trabalho, e Katherine deveria estar tentando seduzir algum desavisado, novamente. Quanto aos seus autointitulados rivais da Grifinória, Ian e Charllotie, não conseguira encontrar em lugar nenhum, e estava com indisposição para procurar qualquer um dos outros nomes que vinham em sua mente. Não seria uma surpresa encontrar Alana, todavia, afinal aquela jovem sempre surgia sabe-se lá de onde para fazer-lhe companhia, ainda que Cateline alega-se categoricamente que não precisava dela.

Enquanto mastigava uma mecha de seu cabelo ruivo, um movimento percebido pelo canto do olho chamou sua atenção, e ela girou a cabeça para observar sua causa: um rapaz de sua idade, com cabelos castanhos e olhos da mesma cor, tentando equilibrar alguns cavaletes e telas de pintura sobre os braços.

Houve um instante de reconhecimento, enquanto a jovem abria a boca para falar-lhe, com seu habitual tom zombeteiro: — Ora, ora… se não é o Aborto Tresloucado

Apesar de parecer uma ofensa, Cateline de fato não tinha preconceito para com ele. Na verdade, tinha até uma certa curiosidade, e muita frustração. Afinal, quem dera a aparência que Glen tinha ao chocar-se com Alana, não era ninguém menos que ela mesma. E a brincadeirinha saiu pela culatra quando o rapaz pareceu ficar extremamente conformado com os cabelos e olhos arroxeados.

— Eh? — Glen ergueu a cabeça, desequilibrando com o susto que levou ao vê-la, mas de alguma forma conseguindo manter-se em pé e não deixando cair nada no chão. — Ah, é você…

— Qual é a dessa reação, eu sou uma boa pessoa… — Cat estreitou seus olhos esverdeados, voltando a observá-lo de cima a baixo. — Parece que você voltou finalmente ao normal.

— Sim… mas não devo dizer que estou contente por isso. — ele apagou completamente a expressão assustada de seu rosto ao ouvi-la.

— Você é tão frustrante… não conheço mais ninguém que se sente feliz em ter a cor do cabelo trocada, por magia e sem a sua permissão. — piscou algumas vezes, logo abrindo um sorriso macabro. — Ei, posso fazer experimentos com você?

— Você não era uma boa pessoa? — ele afastou-se, o que fez a pilha chacoalhar de maneira perigosa. — Não pode, não!

— Qual é, preciso de uma nova vítima pra atormentar… ah, esqueci, você é estranho, provavelmente não vai ter graça, também. — Ela apagou o sorriso, levando um dedo a testa, pensativa. — Esqueça, esqueça… de toda forma, talvez eu pinte seu cabelo de novo uma outra hora. E, outra coisa… — Sua mão desceu até o próprio ombro, como se medisse a altura de alguém. — Se uma garota loira animadinha, deste tamanho, passar por aqui procurando por mim, diga que não me viu, certo?

— Hum… certo. — Glen mal sabia o nome daquela estranha, duvidava imensamente que fosse capaz de saber se alguém a procurava. Mas quando pensou em contestá-la, viu que a moça já havia virado as costas e começava a andar para longe dele. Teria dado de ombros se não estivesse carregando tanta coisa.

Ela mencionara uma garota loira e animadinha, não era mesmo? Por que aquilo lhe soava estranhamente familiar?

Como que para lembrá-lo, sentiu alguém chocar-se contra ele e dessa vez tudo foi ao chão, sem que pudesse fazer nada para impedir. Barulho de madeira batendo contra pedra foi ouvido, enquanto ele massageava a cabeça e observava quem havia derrubado-o. Não pareceu ficar surpreso com quem viu.

— Ai… ai, ai, ai… me desculpe, eu sinto muito…

— Existe um limite para quantas vezes você pode derrubar alguém, sabe? — Glen estreitou os olhos, com um tom de voz que beirava o divertido. — Alana, certo?

— Ah! — ela jogou os longos cabelos cacheados para trás e observou-o de frente. Estava literalmente caída em cima dele. Outra vez. — Hum… sim, sim… e você é… Garry…?

— Glen… e você está meio que me sufocando…

— Oh… perdão. — colocou-se de pé num salto, e logo estendeu a mão para segurar a dele, ajudando-o a se levantar também. — Já faz algum tempo… quase não te reconheci desse jeito.

— Verdade… — ele levantou, passando a coçar a bochecha com o indicador. — Bom, esse é o meu normal, afinal…

— Eu sabia que aquilo era algum tipo de feitiço! — Alana fechou o punho em frente ao peito, parecendo zangada. Só parecendo. — Os outros deveriam parar de fazer essas brincadeiras de mal gosto!

— Não é tão terrível quanto parece. — Glen suspirou, jogando os cabelos para trás e pondo-se a juntar a tralha que havia se esparramado sobre o chão. — Bem… meus pais me avisaram que poderia acontecer algo assim…

Vendo-o organizar as coisas, Alana agachou-se também para agarrar o que havia caído mais afastado. — Seus pais devem ser bem severos…

— Nem tanto, considerando que eu nasci sem nenhum talento para magia, ao contrário do resto da família… acho que eles são bem compreensíveis, até.

— Sei… — ela acabou de recolher o que estava ao seu alcance e correu para entregar-lhe, mas acabou pisando na barra do próprio vestido e caindo para frente, e a meia dúzia de telas voltou a se espalhar, dessa vez por cima dela.

— Também existe um limite de quão desastrada uma pessoa pode ser… — Glen lançou-lhe um olhar de profunda descrença, antes de retirar as telas de cima dela e ajudá-la mais uma vez a se levantar. — Se continuar assim, algum dia você vai se machucar.

— Não se preocupe, eu sou muito forte!

— Ah… se você diz. — ele abriu um sorriso sutil, dando de ombros.

— Para onde está levando essas coisas? — A jovem questionou, cutucando com cuidado as telas que Glen voltara a segurar.

— Para o quarto que me cederam… eu ainda estou me mudando, sabe… quando se é um trouxa, as coisas sempre demoram muito mais. — ele piscou algumas vezes, pensativo. — Ainda estou me acostumando com a ideia de trabalhar aqui.

— Você tinha outro lugar em mente? — Alana começou, no entanto arregalou os olhos, tendo uma ideia magnífica. — Oh, você não gostaria de ser um cavaleiro ou algo assim?

— Não mesmo. — ele cortou, imediatamente, mas ao notar que poderia ter soado desagradável, logo apressou-se a explicar. — Bom… eu não tenho corpo pra isso. Sou muito fraco. E, quando se nasce trouxa – ou, no meu caso especial, como um aborto – você não tem muitas opções, sabe? Já que minha família é nobre, ainda pude escolher entre o exército e a igreja, mas… ser um cavaleiro, como você mencionou, não serve pra mim, e também não me agrada a ideia de me tornar padre…

— Ainda assim, acho que você daria um ótimo soldado! — ela afirmou, fechando os olhos e juntando as mãos.

— Tire isso da cabeça. — ele estalou os dedos bem próximo ao ouvido dela, de maneira que a despertasse de seus devaneios. — Até porque… meus interesses são outros.

— Quais são?

— Hum… quem sabe discutimos isso outro dia…

— Tudo bem. — ela não parecia estar se sentindo incomodada com isso. Sua atenção já estava voltada novamente para os cavaletes. — Você quer uma ajuda para carregar isso tudo?

Glen relembrou as escadas que ainda teria de descer, e pensou na sua desastrada companheira. Com um movimento lento com a cabeça, fez que não. — Está tudo bem, não se preocupe.

Ainda assim, Alana insistiu em ao menos empilhar as coisas e colocá-las sobre os braços dele. De alguma forma conseguiu não derrubá-lo fazendo isso, o que já era um pequeno milagre…

— Eu ia me esquecendo… — Alana disse, logo após terminar, jogando o peso do corpo ligeiramente para frente, ficando numa posição que parecia bastante com uma mesura, mas não o era. — Você passou pela Cat… digo, por uma moça de cabelos ruivos e olhos verdes?

Ele estreitou os olhos, focando-os no teto, e sorriu brevemente, apontando para a última direção que vira Cateline seguir. — Creio que foi por ali.

— Muito obrigada! — e mais uma vez o rapaz viu-a girar nos calcanhares e disparar na direção que ele havia apontado, sumindo de vista com uma velocidade espantosa. Glen suspirou, ajeitou o corpo uma última vez e continuou seu caminho.

X-X

— Como já foi avisado aos presentes, hoje continuaremos o treinamento para aqueles que querem tornar-se animagos. — Rowena começou, enquanto andava com passavas lentas de um lado a outro, em frente ao pequeno grupo reunido de alunos. Estavam todos ao ar livre, perto do campo de abóboras, onde havia espaço para aquela aula especial.

Animagos não eram recorrentes, pois para transformar-se em um animal sem precisar da varinha necessitava-se de muito estudo e prática. Ao contrário do que acontece com a transfiguração animal, onde necessita-se de outro bruxo para o alvo retornar a forma original, o animago mantêm sua consciência humana. Além disso, não existe uma escolha para que animal eles podem se transformar, sendo este completamente aleatório.

Dito isso, é esperado que houvessem poucos alunos reunidos naquele local. Ian, Katherine, Ana e Anastácia se entreolhavam, provavelmente questionando a mesma coisa…

— Nós começamos com as bases ano passado, e alguns de vós tiveram um progresso visível. Os outros, no entanto, estão tendo problemas… creio que a aleatoriedade em que essa magia se apresenta tenha-os prejudicado de certa forma… — A fundadora continuou, mordendo brevemente o lábio inferior, pousando seu olhar exatamente sobre Ian e Ana. Eles haviam desenvolvido o talento para transformarem-se em animais mágicos em vez de comuns, o que lhes custava o dobro do trabalho. A pobre Anastácia não parecia melhor, era uma animaga coruja com problemas para alçar voo. Dali, a única que parecia extremamente satisfeita consigo mesma era Katherine. — A propósito… onde está Alana?

— Aposto que tropeçou numa escada, saiu rolando e enfiou a testa numa coluna… — Ana cruzou os braços, trocando o peso do corpo da perna esquerda para a direita.

— Ha… consigo imaginar sem problemas essa cena. — Ian alegou do seu lado, o que fez Anastácia protestar.

— Parem de brincar com isso, ela pode estar machucada!

— Eu duvido muito, aquela garota parece ser invulnerável, não importa o quanto caia, nunca fica estropiada. — a única sonserina presente riu, levando a mão a frente da boca.

— Já chega. — Rowena chamou a atenção, franzindo o cenho com sua melhor careta de reprovação (que não era nem de longe assustadora como a de Salazar, mas surtia o efeito desejado)— Não estamos aqui para brincarmos. Além do mais, Katherine e Alana são as que menos precisam dessas primeiras aulas. Afinal, não é preciso tanto conhecimento quando se é um animago gato…

Katherine soltou um resmungo mais parecido com um rosnado, mas manteve-se calada. Seus olhos azuis faiscaram com malícia, enquanto lançava-os em direção a Ian. — Mas, vejam só… creio que certas pessoas não conseguiram nunca…

A mão dele fechou-se bruscamente na frente do vestido dela, enquanto descia a cabeça e olhava-a mais de perto com uma expressão digna de um psicopata. — O que foi que você disse!?

— Se os dois não pararem, transmutarei ambos em ratinhos e os prenderei no poleiro. — Rowena voltou a intervir, e os dois alunos problemáticos acharam por bem ficarem afastados. Afinal, era bem capaz dela cumprir com a ameaça… virar jantar de coruja não lhes parecia uma coisa muito agradável. — Vamos começar… tentem transmutar-se.

Ela bateu as palmas uma, duas, três vezes, como se marcasse o tempo, e observou o resultado. Na sua frente havia, exatamente nessa ordem:

Um gato preto, de iridescentes olhos azuis, que sentava-se sobre as patas traseiras, balançando a calda. Sua postura demonstrava profunda prepotência;

Uma coruja, de plumagem marrom e cara branca, que mantinha-se sobre o pé de abóbora e lutava para se equilibrar, abrindo ocasionalmente as asas;

Um hipogrifo de pequeno porte, praticamente um filhote, com as penas de sua parte dianteira marrom-avermelhadas, assim como os pelos da traseira. Suas asas também batiam de maneira estranha, aliás, a criatura movia-se estranho, como se estivesse ligeiramente zonza;

E havia Ana.

— Parece que não conseguiu mais uma vez, senhorita Lisender. — A fundadora suspirou, enquanto abaixava um dos braços para que a coruja em que Anastácia havia se transformado pudesse subir nele. — Anastácia tem visíveis problemas com o equilíbrio, talvez seja isso que esteja inibindo-a e atrapalhando a aprendizagem do voo. Quanto a ti, Ian… — ela chegou mais perto do hipogrifo, franzindo o cenho. — Ao menos conseguiste se transformar, imaginei que teria tantos problemas quanto Ana…

A criatura bufou, aborrecida, ameaçando bicá-la, mas Rowena tirou a mão no último instante. O gato negro, que havia deitado folgadamente no chão e observava a cena, fez um barulho que poderia representar muito bem uma risada.

— Oh… não fique tão convencida, senhorita Katherine. — ela procurou em meio aos vários bolsos em suas vestes algo e no fim retirou um pequeno novelo de lã. Automaticamente, a gata ficou parada, sem se mexer, focando sua atenção nele. Rowena jogou-o de uma mão a outra, para no fim fazê-lo rolar até suas patinhas. O animal agarrou o brinquedo com avidez, começando a desfazê-lo, ao mesmo tempo em que acabava por ficar embolada nos fios.

Vou me abster de comentar… — Ana chegara a pensar, enquanto franzia o cenho.

— Como eu esperava… — A fundadora suspirou, tirando as mechas negras e longas da frente do rosto. — Retornem ao normal. — Pacientemente, ela esperou enquanto os alunos voltavam a forma humana e Katherine conseguisse se desembolar de todo o fio de lã, para poder continuar. — Qual é a diferença entre uma transmutação normal e a transmutação de um animago?

Anastácia levantou timidamente o braço direito. — Animagos mantêm a consciência humana e podem transformar-se sem ajuda. Uma pessoa que é simplesmente transmutada em um animal, por não lembrar que é um bruxo, não pode reverter o feitiço.

— Exato. E o que diferencia um humano de um animal?

— A capacidade de raciocínio, claro. — Katherine cruzou os braços. — Animais agem puramente por instinto.

— Sim. E esse é o grande problema, se não o maior desafio para um bruxo que decide ser um animago. Descartar os instintos desnecessários e manter apenas os que sejam necessários para sua sobrevivência. — ela continuou, desta vez unindo as pontas de seus dedos. — Imagino que todos tenham uma motivação forte para terem tomado essa decisão. O mundo, em geral, é um lugar perigoso, como puderam observar bem com o incidente da semana passada.

“Precisam ter em mente que sua forma animal pode salvá-los ou deixá-los ainda mais encurralados. É necessário que saibam a diferença, e como agir quando estiverem transmutados. O que podem aproveitar disso, e o que precisam jogar fora. Por exemplo… brincar com novelos de lã, no caso dos gatos. É uma reação animal involuntária, que pode atrapalhar mais do que ajudar. Creio que eu esteja sendo bem clara, certo?”

Houve alguns acenos de cabeça. Kat enrubesceu-se e desviou sua atenção para suas unhas, como se elas fossem muito importantes.

— Para ser bem sincera, acho que me equivoquei. Alana deveria estar aqui para ouvir isso. — Rowena finalizou, rolando os olhos com lentidão. — Onde aquela criança foi, afinal?

— Ao menos ela consegue se transformar, eu não consigo de jeito nenhum. — Ana exclamou, frustrada, enquanto Ian bufava, fazendo seus cabelos ruivos saírem da frente dos olhos.

— Isso é porque não consegue se concentrar em coisa alguma.

— Eu definitivamente não vou ouvir isso de você!

Enquanto a pequena discussão se reiniciava, Anastácia suspirava, fazendo sinal para que ambos se acalmassem. — Pessoal… por favor, relaxem.

— Ora, Ani, não se intrometa, foi ele quem começou…

— Mas… mas… — a tímida garota tentou argumentar, desanimada, mas ao ver a expressão no rosto da professora, apressou-se em se afastar.

E, como era esperado, já que Rowena Ravenclaw não ameaçava mais do que uma vez…

Certos dois alunos foram transmutados em adoráveis ratinhos cinzentos, que bateram um contra o outro tentando escapar e se enfiaram no meio das abóboras, como se aquele fosse o melhor esconderijo do mundo.

— Hahaha! Estão ridículos! — Katherine começou a gargalhar, rolando no chão e ficando coberta de grama, o que sem dúvida a deixaria de péssimo humor mais tarde, quando tivesse de limpar suas vestes.

— Comporte-se, ou irei transformá-la também.

Ela colocou-se sentada novamente, levando a mão aos lábios para esconder os risinhos que ainda dava. Rowena, por sua vez, voltou a ajeitar seus cabelos e deixou escapar um resmungo baixo, questionando o porquê dos alunos serem tão perturbados.

Parecia-lhe que aquela aula ia durar mais do que o esperado. E seria ainda mais complicada, também.

X-X

— Você parece preocupada com algo, Lottie…

A moça inclinou a cabeça, com sua habitual graciosidade, fitando seu interlocutor por alguns segundos. Então olhou para a janela, e depois para ele novamente. — É apenas… algo que comecei a pensar.

— Que tipo de coisa? — Max voltou a questionar, enquanto acomodava-se no banco, abanando-se com o chapéu, na tentativa de afastar o calor. O braço ferido no confronto com a manticora estava cuidadosamente enrolado com faixas brancas e limpas, embora já começasse a cicatrizar.

— Hum. Não creio que eu deva discutir isso com sua pessoa…

— Que absurdo, você não confia em mim? — ele apontou para si mesmo, com seu habitual sorriso bobo.

— Não é isso. — os olhos azuis dela desceram uma vez mais, desta vez para o braço enfaixado. Piscou algumas vezes, não ficando naquela posição por muito tempo. Ainda assim, o lufano captou o olhar.

— Ah… olha, não precisa ficar preocupada de me chatear com esse assunto, de verdade. — Ele coçou a nuca com a mão boa. — Apenas diga o que está pensando… deve ser uma teoria mirabolante.

— Pensei que inventar esse tipo de teoria fosse sua especialidade… — ela abriu um diminuto sorriso, e então continuou. — Eu creio que… aquele invasor estava procurando algo na escola. Caso contrário teria feito vítimas diretamente, não ter agido como um ladino.

— Hum, não sei não, aquelas manticoras pareciam bem brutais e prontas para fazerem vítimas…

— Sim, no entanto eu tendo a imaginar que elas eram um adicional. Que ele só soltou-as pois viu que não havia outra escolha. Foi a forma que arranjou para poder fugir. — ela cruzou os braços. — Eu… não me sinto segura.

— Eles aumentaram as defesas e a segurança, você não devia pensar nisso, Lottie… — Max balançou metodicamente a mão. — Mesmo assim… Agora que você mencionou, o que acha que ele buscava aqui?

A jovem fechou os olhos, pensativamente, e pôs-se a enrolar uma mecha do cabelo escuro no seu dedo indicador direito. — Não sei dizer. Não consigo pensar em nada.

— Bem. Poderíamos investigar!

— Investigar o que, se você tem medo da própria sombra? — Cortou outra voz masculina, vindo diretamente de trás dele, o que fez com que o garoto desse um pulo de susto e quase desabasse no chão. — Olá.

— V-você não pode chegar como uma pessoa normal, Connor!? — a voz dele, ainda não tão grossa quanto deveria ser, levando em consideração sua idade, pareceu ainda mais esganiçada.

— Não.

— Bom dia, Connor. — Lottie entreabriu as pálpebras de madeira lenta, observando-o com os olhos estreitados. — Max propôs que investigássemos a razão daquele bruxo das trevas ter invadido a escola…

— Que falta do que fazer. — Connor alegou mais para si mesmo do que para os outros, com sua habitual expressão entediada.

— Mesquinho. — Acusou Max. — Não seja tão apegado a sua ajuda, ceda-a para nós!

Charlottie, que passara um tempo pensando sobre todas as impossibilidades gramaticais e semânticas daquela frase – ao mesmo tempo em que Connor o ignorava solenemente – logo deu-se por vencida e voltou ao assunto principal. — De qualquer forma, mesmo que não tentemos encontrar uma resposta, não deveríamos relaxar…

— Por que?

— Porque se nossas suspeitas estiverem certas, ele pode retornar. Daqui a um dia, uma semana ou um mês. Não temos certeza, no entanto essa pessoa ainda está lá fora. E é provável que tente outra vez…

Connor deixou-se cair sentado em uma cadeira, afinal estavam em uma das salas de aula. Ele batucou as pontas dos dedos contra o tampo de madeira das mesas, parecendo concentrado nisso. — E o que você sugere?

— Creio que… seja ideal que levemos nosso aprendizado a sério. Precisamos estar preparados para qualquer situação. Os fundadores e os outros responsáveis pela escola, até mesmo nossos pais…

— … Não vão estar sempre lá para nos salvar, é o que quer dizer… — apaticamente, o corvino completou.

E Max sentiu nitidamente um aperto no coração ao ouvir aquilo. E rezou para que nada ruim acontecesse.

Suas preces não foram atendidas, no fim das contas…

X-X

Andrômeda acabava de patrulhar os corredores, como sempre fazia nos intervalos, afinal era comum que estudantes engraçadinhos resolvessem fazer travessuras nesse horário. Existiam pessoas, contudo, que escapavam de sua ronda. Ela definitivamente não estava tão preocupada com elas no momento…

O rapaz de cabelos brancos e olhos vermelhos, que andava como se fosse um sonâmbulo, pareceu surpreendê-la minimamente. Normalmente ela se contentaria em cumprimentá-lo e seguir seu caminho, mas ele parecia vir direto em sua direção. Não era possível que ele estivesse mesmo dormindo, era?

— Qual é o problema, Dimitry?

Ele parou em frente a ela e ergue o rosto, alongando o pescoço para a esquerda, depois para a direita, como se realmente tivesse acordado naquele exato minuto. — Andrômeda… não estavas no salão na hora do almoço…

— É… me parece meio óbvio. — falar com Dimitry era sempre difícil, afinal lhe incomodava bastante aquele jeito sonolento dele, embora ela particularmente não o odiasse. — E dai…?

— Chegou uma carta… Katherine interceptou-a para lhe entregar, porém precisou comparecer à aula especial com Rowena…

— Está com você?

— Claro. — Ele procurou num bolso e entregou um pergaminho impecavelmente embrulhado. — Espero que não seja nada ruim.

— Não se incomode com isso, possivelmente é do meu irmão…

— Certo… nesse caso, retornarei meu caminho. — ele bocejou, educadamente levando uma mão a boca, e fez uma mesura com a cabeça, passando por ela e seguindo caminho. Andrômeda acompanhou-o com o olhar, e então voltou-o para o pergaminho em suas mãos. Um pressentimento ruim tomou conta dela, mas decidiu ignorá-lo.

Lerei no fim do dia…

Pensou, preparando-se para tomar o rumo para a próxima aula.

Notas finais
Bom, bom, bom... aqui estamos! Imagem do casal de divos, o indiferente Connor e a fofa Alana. . Finalmente sabemos quem foi que sacaneou com o cabelo do Glen (ninguém queria saber, mas de boas), quem mais haveria de ser além da Cat... mas ele sacaneou ela de volta, de certa forma... . Gente, não faço a menor ideia de como os animagos fazem para se tornar animagos e não acho a informação, então basicamente tudo que tá escrito aqui é teoria e especulação -q . Lottie, Max e Connor são os primeiros a desconfiarem das segundas intenções do Intruso, mas não quer dizer que os fundadores já não tenham chegado a mesma conclusão... também há fortes suspeitas entre eles, mas irei entrar melhor nesse tópico no próximo capítulo. . Aposto que estão curiosos pra saber o que há no pergaminho. Mas não vou dizer. Sentem e esperem eu ter paciência pra escrever a continuação.-q . É, Helena vai ser uma personagem recorrente, embora não tenha tanta importância ou foco como os outros. . Eu creio que seja só isso por enquanto. Qualquer crítica, dica, protesto ou algo nesse sentido fiquem a vontade para me dizer. . Kisses kisses para vocês todos, e até a próxima.! :3