Lullaby
1 Em uma estrada tudo começa.
Minha irmã vive dizendo que esse emprego não é sensato, respirar esse ar que respiro.
"Agora você respira por dois" Dizia ela. "Trabalhar nessa cabine de pedágio não é seguro ao seu bebêzinho."
Os canos de escapamento nunca me assustaram, porém. Vivo fumando cigarros e cigarros, um atrás do outro, quando meus pais não estão olhando. Meu pulmões ainda estão mais fortes que um saco de chumbo, não serão estes canos que vão me aproximar ainda mais de um câncer.
Meu catarro já era amarelo muito antes que essa fuligem se infiltra-se por minhas narinas. Mas aí, começava a pensar em Flora, encaracolada bem aqui. Dentro de mim, nesta cabine. Pensava nos pulmões dela, mais rosados que a parte de dentro dos meus lábios, tão pequenininhos que caberiam em minha língua.
Achava que pareciam um par de asas de borboleta, crescendo-lhe dentro do peito. Imaginava sua primeira respiração, um tipo de suspiro tremulante. Os pulmões se enchendo e se esvaziando. O coração poderia ter acabado de escapar de mim. Pensei em como essa fumaça poderia fazer mal antes que ela pudesse ter a miníma oportunidade de respirar por si só. Que eu estava sufocando minha filha, só porque tentava ganhar dinheiro o suficiente para cuidar dela sozinha. Mas que porra!
A pior situação com que tive de passar aqui foi um vagabundo achando que podia me passar uma cantada, acho que ele não via a minha, já saliente, barriga lá de baixo, olhando para mim de dentro do carro.
Quando Flora tiver idade o suficiente para me perguntar o que a mãe dela fazia da vida, antes dela nasceu, eu lhe direi que sou uma artéria que ensina o fluxo de carros a fluir. Assim ela se orgulhará de mim, poderá falar aos amiguinhos que a mãe dela foi importante.
Poxa, vou até contar de onde tirei o nome dela. "Flora". Vi esse nome na placa de alguém que passou pela minha cabine, aquelas placas personalizadas, da Virginia. F-l-o-r-a. Todas as letras envoltas num azul-bebê. Flora. Li uma vez só, mas não consegui parar de pensar na beleza desse nome. Dei-lhe esse nome, mesmo antes de saber o sexo, afinal, ainda não sei. Não sei o sinal que as mães recebem sobre o sexo de seus filhos, mas quando pronunciei esse nome pela primeira vez, Flora. Flora ah ah. Senti uma chute tão forte, mesmo sabendo que meu feto ainda não podia fazer aquilo, eu chorei. Só sabia que a estava sentindo muito bem dentro de mim.
Eu estava cansada. Por Deus! Já passavam das onze da noite, meu turno terminaria em poucas e horas e então, Flora e eu poderiamos ir para casa descansar, antes de aguentar mais fuligem amanhã. Eu podia dizer que sempre tive sorte, mas seria mentira, afinal, faltavam poucos minutos para o fim do meu turno quando uma tempestade começou. Que porra que eu vou fazer? Foi a única pergunta que passou por minha mente naquela hora.
E então, como em um passe de mágica, sabe aqueles dias de sorte de seriados antigos? Puff, eis que me apareceu um carro, as janelas estavam abaixadas, mas pude ver uma silhueta feminina, ela me jogou seus cinquentas centavos, assim que abriu os vidros, pude ver de relance os olhos parecia a garota da livraria, Kyle já havia falado dela, algo sobre nunca confiar. Mas Kyle não estava ali, ela estava e em qualquer lugar que eu fosse, os pensamentos sobre o que o infeliz que largou a mim e a Flora, tudo bem que ele nem sabia da gravidez, pensaria me acometiam e me faziam ficar sozinha e na maioria das vezes, sem ajuda.
Sinceramente, eu só a esperei perguntar, quando sua boca, bem delineada pelo gloss, se abriu para falar eu já estava a arrumar minha pesada mochila em minhas costas.
— Já vi que aceita. Entra aí.
Ela abriu o banco do passageiro assim que deu uma boa olhada na barriga, acho que ela me olhou e pensou: "Ela é uma bola de boliche ou fez o que não devia?"
Bem, que eu saiba, não sou uma bola de boliche.
[...]
Sabe o bom de não conhecer uma pessoa e ela não estar afim de conhecer? Uhum, exatamente, o silêncio. Pude me encostar no vidro, olhar a paisagem e lembrar de Kyle, cada lugar daquela cidade tinha um pedacinho dele.
Enchanted, cidade com dois mil seiscentos e setenta e nove habitantes, na verdade, setenta e oito desde que Kyle deixou a cidade. Meu nome? Ah, meu nome é Lullaby e estou tentando contar a minha história, podem calar a boca? Obrigada. Kyle sempre foi meu melhor amigo, desde que nascemos, papai dizia que Ky tocava a barriga de minha mãe e esperava ansioso pelo meu nascimento, mesmo antes de saber que eu seria sua amiga. Nós crescemos juntos, lado a lado, eu morava com meu pai e ele com a mãe dele até que eles decidiram se casar, Ky e eu nós tornamos irmãos, mas eu não queria ser só a irmã dele. E dãr, quem disse que era para ser?Vocês devem pensar "Parabéns, Lully. Por pensar assim que você está prenha." Mas não, eu amei, sabe, amei com todas as minhas forças e Deus! Eu não me arrependo nada de o ter amado.
Notas finais
É interativa sim e me processem.
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