Lucky

3 Capítulo 2 – O Passeio


Acordei com a cabeça ainda latejando de dor, pelo visto tinham usado uma boa dose para me apagar. A luz do sol penetrava no quarto iluminando as paredes de forma a fazer o azul parecer mais vívido que no dia anterior. Tentei levantar-me, mas uma mão empurrou meu peito de volta para a cama, só então vi que alguém estava sentado ao lado. Com a vista ainda turva consegui distinguir uma garota, a mesma que estava na minha nada normal recepção. Ela me olhava com um sorriso tranquilizador, devido à luz da janela eu pude ver seus traços com perfeição, ela possuía longos e ondulados cabelos castanhos que combinavam com seus olhos verdes claros e sua pele branca.

─Não se esforce muito, Phillip teve que usar uma quantidade maior por causa do seu...

Vi seu olhar distanciar-se, por alguns segundos relembrei meus últimos momentos de lucidez e do pânico que eu provocara.

─Me desculpe por ontem, eu ainda não me acostumei com isso.

O sorriso voltou a preencher seu rosto e eu a retribuí, sorrindo como não fazia há muito tempo.

─Eu entendo, às vezes é difícil controlar.

Franzi o cenho ao ouvir aquela afirmação, então queria dizer que...

─Você também é uma...

Fui interrompido por Phillip que entrou no quarto com uma bandeja de café da manhã, ele estava com uma aparência ótima, diferente da última vez que o vira.

─Bom dia, vejo que já conheceu Valerie, isso é bom. – Ele deixou a bandeja próxima a mim e sentou-se na cama. ─Suas aulas começam amanhã, eu preferia que esperasse um pouco até estar mais habituado a tudo, mas temos amigos dentro da escola, a própria Valerie pode te ajudar, aliás, ela e Paul estão na mesma turma que você.

Peguei uma maçã da bandeja e comecei a comê-la enquanto ouvia Phillip. Durante toda a minha vida eu recebera educação quase que particular, acostumar-se a uma escola cheia de adolescentes seria mais um desafio que eu teria de enfrentar, porém, como Phillip mesmo dissera, havia Valerie, e ao que tudo indicava ela seria de grande ajuda.

─Humn... Paul?

Terminei com a maçã e dispensei as outras coisas da bandeja, colocando-a de lado.

─Ah sim, ele é o irmão de Valerie, você ainda terá oportunidade de conhecê-lo. – Phillip virou-se para Valerie e lhe entregou a bandeja abrindo um sorriso gentil. ─Você pode levar lá pra baixo, por favor? Preciso explicar mais algumas coisas para Axel.

Ela assentiu e saiu do quarto, eu queria continuar nossa conversa, suas últimas palavras realmente tinham me deixado confuso. Acomodei-me sentado na cama, já me sentia mais disposto que poucos minutos atrás. Phillip soltou um longo suspiro, o mesmo da noite passada, percebi que ele voltaria a falar sobre aquele assunto.

─Me desculpe por ontem, eu não queria chegar àquele ponto, mas foi preciso, mais alguns segundos e você poderia ter feito um estrago maior.

Abaixei os olhos, mirando a borda do edredom azul claro que cobria minhas pernas, um calafrio percorreu meu corpo só de pensar no que eu seria capaz de fazer.

─Mas, por que isso acontece? Eu não devia ter controle sobre meus poderes?

─Quem dera fosse assim, nós teríamos bem menos problemas, mas não, os poderes se manifestam espontaneamente em momentos de raiva ou desequilíbrio emocional, a única forma de controlá-los é aprendendo a dominar seus próprios sentimentos, — Phillip fez uma pausa, seu olhar tornou-se sombrio. ─O que, na prática, é o maior desafio de um influente.

Por alguns segundos digeri aquelas palavras, por mais estranhas que elas soassem eram agora a minha nova realidade, com a qual eu teria de se acostumar, querendo ou não.

─Hã, você é um... Influente? – Perguntei quase espontaneamente, afinal, Phillip parecia entender bem sobre o assunto.

─Não. – Ele soltou uma risada, se mostrando mais descontraído. ─Eu só conheci muitas pessoas como você, os últimos foram os irmãos Valerie e Paul, estamos protegendo-os há quase um ano.

Então era verdade, Valerie também era como eu, apesar de estar satisfeito em descobrir aquilo, algo na resposta de Phillip me incomodou.

─Protegendo-os? Do quê?

Phillip fez uma careta, como se tivesse falado mais do que podia.

─Não do quê, mas de quem. Você ainda não devia saber, mas eu teria que contar de qualquer forma.

Pela sua expressão se tratava de algo mais sério que o normal, fitei Phillip e atentei-me às suas palavras.

─Existe hoje em dia um grupo de pessoas que, da forma mais literal, caça gente como você, eles não medem esforços para capturá-los, e não ligam para quem tenham que matar para o fazer.

Enquanto ele falava percebi que absorvia uma expressão triste, como se aquele assunto lhe trouxesse más recordações, resolvi não prolongar a conversa.

─Ok, já chega de notícias ruins, eu preciso de um tempo pra pensar em tudo isso.

Phillip se deu por satisfeito e levantou-se da cama, já com um ar mais leve. Aproveitei para também ficar de pé, eu tinha que organizar minhas coisas no novo quarto, o que não seria muito difícil. Comecei a ajeitar os lençóis da cama enquanto Phillip se dirigia à porta.

─Certo, vou deixá-lo sozinho, se quiser pode descer e dar uma volta pela cidade, os irmãos Madson podem lhe mostrar alguns lugares legais.

Concordei com a cabeça e ele saiu do quarto fechando a porta logo após. Por alguns segundos fitei a paisagem vista da janela, poucas nuvens decoravam o céu naquela manhã, deixando o dia ainda mais convidativo para um passeio.

Fui interrompido por um carro que estacionava na entrada da casa, era uma caminhonete vermelha com aspecto antigo. Em poucos segundos as portas abriram-se e delas saíram um homem carrancudo – que eu reconheci da noite anterior – e um garoto de óculos escuros, os dois entraram na casa.

Afastei-me da janela voltando a fazer minhas tarefas. Depois de deixar a cama pronta desfiz a mala e, lembrando que agora eu tinha um novo e completo closet resolvi doar as roupas antigas, afinal, passar grande parte da vida num orfanato me fez entender as necessidades de um órfão.

Com tudo organizado tomei um banho depressa, em questão de minutos eu estava pronto. Desci as escadas e encontrei Phillip e o homem magro conversando na sala, o estranho me lançou um breve olhar, mas continuou sua conversa, pareciam bem entretidos. Antes que eu pudesse falar algo Valerie entrou e veio ao meu encontro.

─Hey, você concordou com o passeio, vamos, temos muito para mostrar.

Ela pegou meu braço a passou a me puxar pela casa, olhei para Phillip com uma expressão confusa, mas ele simplesmente sorriu e acenou, provavelmente estava se divertindo com a cena. Valerie me levou pra fora da casa, onde o carro de seu pai esperava estacionado, e, encostado nele, o garoto que eu vira entrar mais cedo. Chegando mais perto vi que ele tinha os mesmos traços de Valerie, os cabelos curtos e um pouco ondulados estavam bagunçados por causa do vento, e concluí que por baixo dos óculos escuros ele deveria ter os mesmo olhos verdes da irmã.

─Axel, esse é Paul, Paul, Axel. – Disse Valerie, nos apresentando.

Paul abriu um sorriso amigável e estendeu a mão para um cumprimento, parecia tão gentil quanto Valerie, diferente do que eu achara de seu pai. Retribui o sorriso e apertei sua mão.

─Olá Paul, Phillip me falou um pouco sobre vocês, ér, são gêmeos?

Olhei para os dois um tanto confuso, eles riram, mais descontraídos.

─Sim, nós somos irmãos gêmeos, o que significa que tenho de aturar essa coisa durante boa parte da minha vida.

Ele bagunçou os cabelos de Valerie e deu a volta no carro, entrando no lado do motorista. A irmã furiosa também entrou sentando-se ao seu lado e começou a lhe dar alguns tapas, dos quais Paul se defendia sem dificuldade. A típica briga de irmãos durou apenas alguns minutos, logo eles estavam rindo feito duas crianças. Entrei no carro e rapidamente saímos da frente da casa tomando algumas ruas menos movimentadas.

─Vamos até a escola, fica perto daqui. Nós moramos a quatro quadras da sua casa, então se acostume a nos ter por perto.

Valerie virou-se para trás e deu uma piscadela na minha direção, o que me deixou momentaneamente com um sorriso bobo no rosto. Dentro de alguns minutos estávamos parando na frente de um prédio construído com tijolos vermelhos, era uma característica escola norte-americana com altas árvores a rodeando, mas, por ser fim de semana, ninguém circulava pelo lugar. Na parte de trás havia uma grande quadra de esportes e ao seu lado um campo de beisebol. Na frente uma placa identificava o local:

Nob Hill High School

Observei a escola por alguns instantes, enquanto Valerie falava:

─Você vai gostar daqui, apesar de ser difícil lidar com alguns alunos é uma boa escola, pelo menos até agora não fomos expulsos.

Eu quase soltei uma risada, mas vi que para os dois aquilo não era nada engraçado, de certo eles já haviam passado por várias escolas e em todas aconteceu algo que ocasionou as expulsões. Engoli em seco, pois daquele dia em diante aquela também se tornaria a minha realidade, e por mais estranha que ela parecesse, eu não tinha outra alternativa.

Saímos da frente da escola em silêncio, cada um parecia estar absorvido na sua própria bolha de pensamentos, por alguns segundos achei que pensavam em mim, que viam no meu rosto os seus próprios há alguns anos atrás, quando descobriram a respeito dos seus poderes. Talvez isso os impulsionavam a serem tão amigáveis comigo.

O nosso próximo ponto de parada foi um bosque repleto de pessoas aproveitando o domingo ensolarado. Descemos do carro para dar uma caminhada, e percebi que o clima sério ainda nos circundava, o olhar de Valerie estava distante e Paul andava à frente, com as mãos escondidas nos bolsos do casaco.

Paramos em um certo ponto e sentamos num banco de madeira, Paul se dirigiu a um trailer que vendia sorvete para algumas crianças, me deixando a sós com Valerie.

─Valerie, eu preciso perguntar algo, seus poderes também são tão perigosos como os meus?

A pergunta pareceu trazer Valerie de volta à sua consciência, ela piscou algumas vezes.

─Ah, isso é algo relativo, se tem uma coisa que nós somos obrigados a aprender é que até as coisas mais bobas, quando em excesso, se tornam perigosas. – Ela suspirou pesadamente, tentando abrir um sorriso. ─O meu poder não pode ser lá muito forte, mas é como eu disse, em alguns casos eu posso até...

Seus olhos se desviaram dos meus, mesmo sem ela ter terminado a frase eu consegui entender o recado.

─Matar. – Falei.

Só de falar aquela palavra eu sentia um gosto amargo na boca. Valerie apontou para Paul que estava rodeado de crianças ainda tentando comprar um sorvete.

─Paul faz as pessoas felizes, quando está nervoso todos a sua volta começam a rir, mesmo sem motivos.

Tentei imaginar a cena, era um tanto cômica.

─É difícil entender como ele pode matar alguém assim.

─Entendo, mas eu já o vi em ação, é perturbador ver o jeito como as pessoas ficam sob o seu efeito, da última vez uma teve um ataque respiratório, foi difícil conter o caso.

Mordi o lábio inferior, de fato o que Valerie dissera minutos antes tinha fundamento, só agora eu percebera que alguém poderia morrer por estar feliz demais.

─E você? O que faz?

Tentei fazer a pergunta não soar tão constrangedora, mas acho que só piorei as coisas. Valerie fitou os seus dedos cruzados no colo, parecia prestes a cair no choro.

─Paul e eu somos como duas faces de uma mesma moeda, eu faço o oposto dele, deixo as pessoas tristes, a ponto de desejarem a própria morte.

As palavras saíam de forma difícil, ao terminar de falar ela respirou fundo e olhou para o céu, vi que seus olhos estavam lacrimejados.

Como por reflexo peguei segurei suas mãos, estavam frias e um pouco trêmulas.

─Olha, o seu não deve ser o pior poder do mundo, e você parece controlá-los melhor do que ninguém, não há muito o que temer.

Esbocei o meu melhor sorriso tipo não-fique-nervosa-e-me-mate-de-chorar para Valerie e nossos olhos voltaram a se encontrar, o verde dos seus olhos chegava a ser hipnotizante. Quando eu finalmente consegui arrancar um sorriso dela, Paul chegou equilibrando três sorvetes da forma mais engraçada possível.

─Hey, por que essas caras de enterro? – Ele distribuiu os sorvetes e logo entendeu o que acontecera. Sentou-se ao meu lado. ─Você deve estar um pouco assustado, eu lembro de quando descobrimos, eu até...

─Paul! – Valerie o interrompeu, provavelmente evitando que ele me deixasse ainda mais assombrado.

─Ok, ok... Como eu ia dizendo, qualquer coisa nós estaremos aqui, podemos te ajudar a controlar as emoções.

Paul se inclinou para o lado me dando um pequeno empurrão.

Depois de terminarmos os sorvetes voltamos para o carro e seguimos para a minha casa. Phillip e o pai de Valerie e Paul ainda estavam conversando, mas ao nos verem apertaram as mãos e se separaram, Phillip trocou apenas algumas palavras com eles e logo os três estavam saindo. Dei-lhes tchau da porta e voltei para o interior da casa, Phillip estava a minha espera na sala.

─E então, como foi o passeio?

Sentei-me numa poltrona, relembrando os momentos com os irmãos.

─Foi ótimo, eles foram bem gentis comigo.

Phillip sorriu e levantou-se, indo para a cozinha.

O resto do dia correu normalmente, na maior parte do tempo eu estivera organizando meus pertences para o dia seguinte, Phillip comprara todo o material e deixara no meu quarto, o que confirmou minha hipótese a respeito da sua condição financeira.

Já à noite, enquanto eu estava deitado na cama tentando dormir repassei mentalmente as várias situações às quais eu seria submetido no primeiro dia de aula, e como deveria agir em cada uma delas. Segundo minhas expectativas eu não duraria uma semana naquele lugar.

Quando o sono decaiu sobre mim eu tive um sonho nada comum. No sonho, eu estava num lugar fechado e pouco conseguia distinguir o que havia a um palmo de distância, apenas altas formas retangulares que se erguiam ao meu redor, formando um cubo, no qual eu estava preso. Em poucos segundo uma outra forma surgiu, algo mais baixo se aproximava de mim como se estivesse deslizando no chão, eu podia ver dois pontos azuis e brilhantes, como faróis na minha direção. Em seguida uma voz soou claramente: Eles estão por toda parte, tome cuidado.

Acordei com um sobressalto, os pingos de uma chuva torrencial colidiam contra a janela do quarto, resolvi permanecer acordado, no momento sonhos misteriosos não me ajudariam em nada.