Lucky
4 Capítulo 3 – O Início
Depois da noite mal dormida previ que acordaria no mínimo com uma leve dor de cabeça, e foi justamente o que aconteceu. Levantei-me da cama um pouco zonzo por causa do sonho que tivera e da barulhenta tempestade da madrugada passada, pela janela eu pude ver os estragos da chuva. A rua estava quase totalmente coberta por folhas e gravetos molhados, uma fina garoa deixava o clima ainda bastante frio.
Tomei um banho e organizei os últimos detalhes para o meu primeiro dia de aula, era quase inevitável não sentir um frio na barriga, ser um aluno novo já era difícil, agora ser um aluno novo que possui poderes sobrenaturais e a qualquer momento pode matar alguém... Estava além das minhas expectativas.
Após vestir o uniforme escolar e pegar um casaco escuro desci para a cozinha, onde Phillip estava próximo ao fogão, na mesa havia algumas panquecas, jarras de suco e frutas. Abri um sorriso ao sentar-se.
─Bom dia, você preparou tudo isso?
Por um momento Phillip desviou sua atenção do fogão e assentiu na minha direção, tinha uma expressão alegre no rosto.
─Bom dia, pronto para a escola?
Enchi um copo de suco de laranja e comecei a comer uma das panquecas de Phillip, estavam bem suculentas.
─Não, aposto que não duro uma semana naquele lugar.
Phillip sorriu abertamente e tirou o avental da cintura, deixando pendurado num gancho fixado à parede. Logo ele também se sentou à mesa e começou a beber chá numa xícara, acompanhado de uma panqueca. Por alguns minutos ficamos em silêncio, até eu se lembrar do sonho estranho que tivera, de certo ele tinha algo a ver com as minhas novas descobertas. Comi o último pedaço da minha panqueca e tomei um longo gole de suco.
─Phillip, nessa noite eu tive um sonho, e acho que está relacionado aos meus poderes.
Ele descansou sua xícara no pires, me fitando com um olhar sombrio, vi que eu teria de se acostumar, também, a esse suspense que Phillip fazia sempre que citávamos esse assunto.
─O sonho... Trouxe alguma mensagem?
Sua voz soava num tom baixo, um pouco misterioso, como se escolhesse as palavras da forma mais cautelosa possível. Vasculhei minha memória atrás de algo importante que ocorrera no sonho, por sorte as lembranças ainda estavam bem nítidas e eu pude lembrar-se da frase que escutara.
─Ah, acho que sim, uma voz falou ‘‘eles estão por toda parte’’, ou algo do tipo, e me pediu para tomar cuidado... – Minha voz sumiu, uma súbita hipótese surgiu na minha mente, tentei fervorosamente acreditar que eu estava errado. ─Espere, você acha que isso se refere àquele grupo do qual você me falou?
O homem alegre que estava a minha frente havia sumido, Phillip tinha agora um ar tenso, que lhe fazia parecer ter uma idade mais avançada que a verdadeira. Ele mordeu um lábio e se encostou mais à cadeira, deu uma rápida olhada no relógio de pulso e pareceu satisfeito, levantou-se depressa dirigindo-se à saída da casa.
─Conversamos sobre isso mais tarde, você está quase atrasado.
Ele pegou um casaco e as chaves do carro, saindo apressado. Suspirei fundo, eu queria falar mais sobre aquilo, mas decidi que seria melhor não tratar desse assunto logo pela manhã. Segui Phillip até o carro mantendo uma expressão de aborrecido, ele estava claramente me escondendo algo.
Ao chegarmos à escola os irmãos Madson nos esperavam perto das vagas de estacionamento, aproximei-me dos dois com um sorriso, esperando que eles realmente me ajudassem com tudo aquilo.
─Olá, estou muito atrasado? – Perguntei.
Ao longe um sinal soou alto, fazendo uma multidão entrar no prédio rapidamente. Havia alunos para todos os lados, aquela era com certeza uma das maiores escolas das redondezas, o que eu achava estranho considerando a nossa condição. Os uniforme da escola era um tanto social, com uma camisa branca e gravata listrada em tons de amarelo e marrom, as garotas usavam uma saia quadriculada.
─Não se formos rápidos, até mais Phillip. – Disse Valerie, pouco antes de me guiar, juntamente com Paul, para o interior da escola.
Mal tive tempo de me despedir de Phillip, em pouco tempo chegamos ao corredor principal, apinhado de armários e cartazes afixados nas paredes. Por dentro as vozes ecoavam provocando um som absurdamente alto, os corredores estavam lotados de alunos eufóricos, tomei cuidado para não se perder de Valerie e Paul. Percorremos apenas alguns metros, logo Valerie apontou para um armário simples, sem todos os adesivos e enfeites colados nos outros.
─Esse é o seu, você deve estar com a senha, mas deixe para abri-lo depois, a aula já vai começar.
De fato Phillip me entregara um papel com a senha do meu armário na noite passada, o qual eu esperava que estivesse na minha mochila. Segui os dois até uma sala com grandes janelas e cadeiras dispostas atrás de mesas longas, num canto havia uma estante com vários livros, aparentemente antigos. Na porta uma placa dizia que aquela se tratava da sala de literatura.
A aula consistiria num debate a respeito de um livro que o professor havia pedido que os alunos lessem, Valerie se encarregou de explicar ao docente que eu tinha acabado de chegar à cidade e Paul prometeu me emprestar o tal livro. Durante toda a aula permaneci quieto, Paul constantemente se pronunciava, parecia bem interessado no ramo literário.
Tivemos mais uma aula, dessa vez de biologia, a sala na verdade era um enorme laboratório, mas naquele dia a aula não passou de explicações básicas, aliás, para um primeiro dia de aula aquele estava sendo até bem normal e eu estava passando despercebido por quase todos, o que eu acreditava ser o certo a fazer. Agir normalmente, sem chamar a atenção. – Era o mantra que eu repetia vez ou outra.
Com a chegada do intervalo percebi que seria a hora mais difícil, eu mal ousava sair de perto de Valerie e Paul, ao pegarmos nossos lanches seguimos para uma mesa mais afastada, pelo que percebi já era de costume os dois sentarem-se ali.
Nós havíamos acabado de começar a comer quando um grupo de garotas supermaquiadas se aproximou da nossa mesa, eram três no total. Vi pela expressão de Valerie que elas não eram exatamente suas melhores amigas.
─É melhor vocês darem meia volta, aqui não tem nada do seu interesse, Katherine. – Rosnou Valerie, seus olhos fuzilavam a garota do meio, que tinha longos e lisos cabelos negros.
Katherine abriu um sorrisinho e pôs uma mão na cintura, enquanto fazia um sinal com a outra. A garota à sua esquerda era loira e tinha vários tons de rosa nos olhos, boca e bochecha, ao ver o sinal da líder ela apertou uma tecla de um mp3 que carregava tocando uma música bem conhecida, ante de ser pausada ouvi uma parte do refrão que conclui ser o nome da música, era Crazy in Love, ou algo do gênero.
─Fique quieta princesa das lágrimas. – As outras duas a acompanharam numa risada pouco convincente. ─Eu decido o que me interessa ou não, aliás, eu só vim dar as boas vindas ao novato. – Katherine virou-se para mim, seus cílios eram tão grandes e espessos que tiravam minha atenção. ─Olá, seja bem vindo, você não parece ter sido recebido da forma mais... Adequada.
Ela lançou um breve olhar aos irmãos do outro lado da mesa e, forçando-me a ficar de pé, me deu um abraço apertado, seu cabelo tinham um cheiro forte, provavelmente ela usava muitos produtos para deixá-lo naquele estado. Logo após ela abriu um grande sorriso, pronta para me fazer as mais inimagináveis perguntas. Lembrei-me do que Valerie dissera a respeito das pessoas daquela escola, com certeza ela se referia à Katherine e eu agora concordava com sua afirmação.
─Obrigado, mas eu não acho que...
Percebi que algo estava errado, virei para Valerie e a vi com os olhos vermelhos, como se estivesse prestes a chorar, mas não de tristeza, e sim de raiva. Troquei um olhar com Paul e entendi do que se tratava enquanto começava a sentir uma estranha angústia.
─Bom, nos vemos por aí. – Falei para Katherine na esperança de fazê-la ir embora, mas ela apenas piscou algumas vezes, parecendo um pouco confusa, e sentou-se junto a nós.
─Sim, mas, como você se chama mesmo?
Ela tentou abrir um sorriso e o máximo que conseguiu foi fazer uma careta que misturava expressões de medo e tristeza, mesmo assim ela permaneceu ali. Uma de suas amigas pôs as duas mãos na cabeça, como se não quisesse escutar os próprios pensamentos, tentei imaginar o que ela sentia, e logo entendi perfeitamente. As minhas piores lembranças começaram a se repetir mentalmente, algumas eu nunca vira, talvez por estarem no mais profundo abismo do meu inconsciente, e agora eu entendia o motivo por estarem lá.
─Kate, é melhor irmos, eu não... – Disse a outra garota, sua voz saía em meio a alguns soluços.
Nós parecíamos incapazes de formar uma frase completa, os olhos de Katherine já estavam quase transbordando lágrimas, ela parecia num estado de transe, com as sobrancelhas juntas, a boca entreaberta e os lábios tremendo.
Olhei para Valerie, implorando-a que parasse de provocar aquilo, mas no fundo eu sabia que era quase impossível parar, ela segurava na borda da mesa com força, suas unhas rangiam ao entrar em contato com o plástico rígido. Tudo durou cerca de cinco minutos, antes que mais pessoas fossem afetadas Paul levantou-se com um salto, chamando a nossa atenção, ele apontou para a testa de Katherine e gritou:
─Katherine, essa coisa na sua testa é uma espinha?!
Todos no refeitório viraram seus olhares na nossa direção e começaram a rir descontroladamente, já Katherine, saindo do estado de transe, levou a mão à testa e antes de sair correndo lançou um olhar furioso à Paul. As outras duas a seguiram para o banheiro.
Os risos a minha volta me fizeram bem, por alguns minutos amenizaram os efeitos de Valerie, olhando para Paul percebi que aquilo não tinha a ver com os seus poderes, ele era naturalmente alegre e espontâneo, o que era drasticamente o oposto da irmã, só então percebi que ele pouco fora afetado por ela.
Depois que todos voltaram aos seus afazeres Paul abraçou Valerie e sussurrou algumas palavras ao seu ouvido, dentro de alguns minutos ela estava de volta ao normal, só parecia um pouco mais abatida.
Terminamos o nosso lanche e voltamos para as salas de aula. O resto do dia se passou normalmente, sem mais acontecimentos paranormais.
Na hora da saída o sinal soou e todos voltaram a lotar os corredores. Fui obrigado a se distanciar dos irmãos, pois seus armários ficavam em outros corredores. Procurei rapidamente o papel com a minha senha e felizmente o achei ainda legível, ao abrir o armário notei um bilhete cor-de-rosa no seu interior, nele estava escrito um número de celular e por cima deste, uma marca de batom vermelho estampada. Katherine. Eu não achava que ela desistiria tão facilmente mesmo. Amassei o bilhete e o joguei na lixeira mais próxima.
Encontrei Valerie e Paul na frente do prédio, os dois carros já nos esperavam. Antes de nos separarmos Valerie segurou meu braço e me fitou com seus grandes olhos verdes, ainda tinha um pouco da expressão de mais cedo, mas não tão assustadora.
─Me desculpe sobre hoje à tarde, aquela Katherine sempre me tira do sério, eu já estava até conseguindo se controlar perto dela, mas...
Seu olhar desviou-se do meu, e percebi que sua pele corava um pouco. Levantei uma mão e prendi uma mecha de cabelo solta na sua orelha, o que pareceu fazê-la ficar mais rubra ainda.
─Não foi tão grave assim, ela merecia coisa bem pior.
Sorri animado e Valerie fez o mesmo. Nos separamos, indo cada um para o carro da sua família, vi que o pai de Valerie nos observava de longe com sua expressão de sempre, acenei para Paul que já estava ao lado de seu pai e entrei no carro de Phillip, ele mantinha um sorriso ansioso no rosto.
No caminho ele me perguntou sobre a escola e eu o contei tudo o que acontecera, estranhamente sua reação foi a mais natural possível, talvez ele já estivesse esperando que algo do tipo acontecesse. Ao chegarmos em casa me apressei a subir e tomar um banho, mas antes que eu subisse Phillip me alertou:
─Não demore, tenho algumas coisas a lhe falar sobre o seu sonho, coisas importantes.
Só então vi que sobre a mesa de centro havia vários papéis espalhados, alguns tinham fotos e pareciam bem antigos.
Assenti e corri para o meu quarto. Depois de tirar o uniforme escolar tomei um banho quente e vesti uma roupa mais a vontade, descendo rapidamente. Phillip estava sentado na sua poltrona, me olhando com o mesmo olhar de mais cedo, quando eu contara sobre o sonho.
─Pode falar, sou todo ouvidos. – Falei sentando-me no sofá.
Ele se remexeu na poltrona e mais uma vez eu tive a sensação de que escolhia a melhor maneira de me contar algo.
─Acho que algum deles foi o responsável pelo sonho. – Disse Phillip, apontando para a pilha de papéis.
Agora de perto consegui distinguir bem os rostos estampados ali, peguei um aleatoriamente, parecia uma espécie de registro oficial. Pisquei algumas vezes, lembrando-se de algo. Ergui a cabeça e apontei para os quadros na parede, em especial para o que retratava a mesma pessoa da foto que eu segurava.
─Sim, são as mesmas pessoas, são seus antecessores. – Phillip respondeu a pergunta que eu nem mesmo fizera.
─Você quer dizer, descendentes? Família? – Minha voz estava um pouco embargada, novamente as informações eram fortes demais para a minha compreensão.
─Não exatamente, eles eram influentes como você, com o mesmo poder que você possui, cada um viveu numa época diferente, o último morreu quinze anos atrás, no mesmo...
─Ano em que eu nasci. – Adivinhei, as coisas começavam a fazer sentido.
─Sim, e por fazerem parte da mesma linhagem, às vezes eles podem se comunicar com o influente atual, por meio de sonhos ou visões.
Larguei o papel sobre a mesa e descansei no encosto do sofá, tudo ficava mais estranho a cada dia, e eu tinha certeza de que aquilo era só o começo.
─E sobre a sua pergunta de hoje de manhã... Eu acho que a mensagem se referia sim à máfia.
─Máfia? – O interrompi.
─Sim, é como chamamos os caçadores de influentes, mas não se preocupe, estamos dobrando a vigilância, eles não têm como aparecer de surpresa.
As palavras de Phillip não me animaram nem um pouco, afinal, elas não mudavam o fato de eu estar sendo caçado. O clima tenso permaneceu no ar durante o jantar e todo o resto da noite, só quando fui dormir eu tive algum momento de paz, felizmente os meus antecedentes não queriam me mostrar nada naquela noite.
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