Lucky
2 Capítulo 1 – A Recepção
Hoje é o meu primeiro dia de liberdade, pelo menos o primeiro de que eu me lembro. Só pra constar eu passei os últimos doze anos preso num internato para doentes mentais e num orfanato, mas antes que você se pergunte, não, eu não sou louco. Segundo o meu histórico aos três anos eu fui encontrado desmaiado ao lado do corpo da minha mãe, no nosso apartamento que ficava no centro de São Francisco, a perícia constatou que minha mãe morrera devido a uma queda que quebrou seu pescoço. A partir de então fui levado para o internato, onde eu passei a ter constantes ataques de histeria e mau comportamento durante os primeiros anos de confinamento, que sempre precediam estranhos acidentes com enfermeiros e até pacientes do local. Tudo isso me rendeu um longo laudo de ‘‘Insanidade Mental’’. Depois de três anos convivendo com esquizofrênicos, psicopatas e outros pacientes acabei sendo transferido para um orfanato por ‘boa conduta e melhora no quadro psicológico’, mas claro que ninguém se interessava em levar um doente mental recuperado para casa.
Eu já tinha perdido as esperanças de ganhar uma nova família e se acostumara a nunca conviver durante muito tempo com os colegas de quarto, até que em um dos dias de visita fui notificado de que alguém me escolhera e já estava dando início ao processo de adoção, se tudo corresse bem aquela seria a minha última semana no orfanato. Tais notícias pouco me alegraram, provavelmente esse ‘‘alguém’’ desistiria antes do fim do processo e eu continuaria ali, confinado até completar a maioridade. A semana se passou e eu continuei a desacreditar naquela história de adoção, na verdade a ficha só realmente caiu há poucos minutos, quando ultrapassei os portões do orfanato carregando apenas uma mala de mão.
A sensação de liberdade ainda era algo novo para o meu cérebro, um carro preto tipo USV estava parado a alguns metros da entrada do orfanato, e um homem de meia idade permanecia encostado no capô do veículo. Só então achei estranho o fato que não ter conhecido meus futuros parentes antes de sair, era como me entregar a um completo estranho. Conclui que ou aquela pessoa era muito influente e rica, ou estavam tentando se livrar de mim de qualquer jeito, sinceramente eu acreditava mais na segunda opção.
Andei lentamente até o carro, eu usava as minhas melhores roupas de doação, uma calça jeans desbotada e uma camisa tingida de verde escuro, meus cabelos dourados e um pouco rebeldes se agitavam com o vento dali, como se festejassem o fato de eu finalmente estar livre. Ao chegar mais perto distingui melhor as características do homem a minha espera, ele tinha lustrosos cabelos grisalhos, aparados rente ao couro cabeludo e um cavanhaque que descia até o seu queixo, não aparentava passar dos quarenta e cinco. Ele sorriu, e seus olhos castanhos me deixaram mais confortável, diferente de todos com os quais eu convivera nos últimos anos.
─Então você é o famoso Axel Dushane... Deve estar curioso ao meu respeito, me chamo Phillip McNair, e sou seu novo... Tutor.
Por um segundo pensei que ele diria ‘‘pai’’, senti uma onda de alívio se espalhar pelo meu corpo. Seja o que fosse, aquele homem devia ter uma boa explicação para querer adotar alguém quase adulto e com um histórico de dar medo em qualquer um, resolvi ir direto ao ponto.
─Por que quis me adotar? Você já me conhecia antes de me mandarem pra cá?
Phillip abaixou os olhos, parecia desconfortável.
─Eu entendo que você tenha muitas dúvidas, mas precisamos ir por partes, ainda tenho que providenciar algumas coisas antes de poder lhe contar a verdade, vamos, entre no carro, por favor.
Ele pôs a mão no meu ombro e abriu um sorriso forçado, ainda relutante dei a volta e entrei no lado do carona, o carro era por dentro tão grande quanto por fora. Phillip também entrou e acelerou para longe daquele lugar.
O orfanato ficava numa área afastada e rodeada por uma área verde preservada pelo governo, enquanto tomávamos a estrada principal passei a pensar no meu futuro, que agora mais do que nunca eu sabia que seria diferente do que eu imaginara a vida toda. Logo os pinheiros foram ficando mais escassos e a imponente São Francisco foi surgindo, com suas ruas íngremes e grandiosos prédios ao lado de casas ainda bastante tradicionais.
Eu tinha poucas lembranças daquela cidade, mas sabia que passara os primeiros anos de vida ali e por isso alimentava uma grande afeição por ela. Durante todo o percurso tanto eu quanto Phillip nos mantivemos em silêncio, ele deixara bem claro que me daria as respostas de que eu precisasse, e no momento isso era a única coisa a qual eu podia me apegar. Paramos em frente a uma casa comum como a maioria das outras daquele bairro, tinha um telhado inclinado com três janelas grandes.
Descemos do carro ainda sem dizer qualquer palavra, a casa era rodeada por um gramado já bem espesso, pelo qual passei acompanhando Phillip, sem dar muita atenção. O meu tutor abriu a porta e eu entrei na casa logo após ele, o interior era bem aconchegante e arrumado, logo corri os olhos em volta, atrás do restante da família, afinal, pelo que eu sabia a política do orfanato vetava a adoção por pessoas solteiras. A casa toda estava em silêncio, o que me levou a concluir que éramos os únicos ali.
─Não há mais ninguém aqui? – Indaguei.
Phillip deixou a chave do carro numa mesinha de centro entre os dois sofás e sentou-se numa poltrona próxima à lareira.
─Não, somos só nós.
Mais uma vez o pensamento de que o orfanato queria se livrar de mim veio à minha mente. Suspirei fundo e dei alguns passos pela sala, observando alguns quadros que a decoravam, eles retratavam pessoas com vestes de diferentes épocas, pareciam pertencer à mesma família, pois todas tinham profundos olhos azuis e cabelos loiros, características que eu também possuía.
─Seu quarto é o último do corredor, no armário tem algumas roupas novas pra você, é melhor se arrumar, pois quero que conheça algumas pessoas.
Virei para Phillip, ele segurava um telefone e uma agenda nas mãos enquanto apontava para a escada. Assenti com a cabeça e subi, ouvindo suas primeiras palavras ao telefone:
─Ele já está aqui, e precisa saber da verdade o mais rápido possível.
Tentei não criar conclusões precipitadas, aliás, durante toda a minha vida o que eu mais aprendi foi a ignorar acontecimentos estranhos. Atravessei o corredor como ele indicara e entrei na terceira porta, o quarto tinha um papel de parede azul marinho com algumas listras brancas em uma das paredes, parecia um quarto de adolescente qualquer, só que sem pôsteres, videogames e livros, apenas um espaço sem vida. Joguei minha mochila na cama e fui direto para o banheiro.
Depois de um banho demorado vesti uma bermuda e uma camisa do meu novo guarda-roupa, pela primeira vez em anos eu estava vestindo algo novo e que fora comprado especialmente pra mim, não posso negar que a sensação foi boa. Eu já podia ouvir as vozes lá de baixo, provavelmente Phillip iria me apresentar aos parentes e tudo mais.
Bom, vamos para a parte chata. – Pensei enquanto descia as escadas. A primeira visão que tive foi de um grupo de pessoas excepcionalmente normais reunidas na sala, eu mal sabia que ‘normais’ era a última palavra que eu poderia usar para defini-los.
─Boa noite. – Falei tentando esboçar um sorriso.
Todos conversavam baixo, mas ao me verem ficaram em silêncio e passaram a me fitar com um olhar curioso, logo Phillip interveio, ficando ao meu lado.
─Parem de olhá-lo desse jeito, ele não é nenhum animal num zoológico.
Aparentemente ele foi o único a rir da piada, mas pouco a pouco as pessoas voltaram ao normal, em questão de segundos eu estava recebendo o cumprimento de todos ali. Nesse momento eu pude dar atenção a cada um deles, e percebi que formavam um grupo nada comum.
O primeiro a me cumprimentar foi um homem baixo e rechonchudo, suas mãos gordas envolveram a minha num aperto forte, ele tinha olhos miúdos e um sorriso engraçado.
─Seja muito bem vindo Axel.
O máximo que fiz foi abrir um sorriso, e assim foi durante os próximos minutos. Quando grande parte dos presentes já havia me cumprimentado Phillip distribuiu taças com vinho para os mais velhos e refrigerante para os mais novos, só então avistei um grupo de adolescentes perto da lareira, antes que eu pudesse perguntar quem eles eram Phillip chamou a atenção de todos levantando sua taça.
Depois de cada um ter se acomodado eu vi que alguns tinham uma expressão séria no rosto. Procurei um lugar no sofá maior e sentei-me, pelo que eu esperava aquilo seria só mais uma situação constrangedora.
─Como já sabem, temos mais um integrante no nosso grupo, e precisamos contá-lo a verdade e deixá-lo interado do que anda acontecendo.
─Faça me o favor Phillip, pare de falar como se ele não estivesse aqui, conte de uma vez. – Interrompeu um homem magro de aparência severa.
Phillip lançou-lhe um olhar firme, mas soltou um suspiro e voltou-se para mim.
─Axel, você possui um dom que precisa ser treinado e controlado, e que oferece grande perigo a todos nós.
Pisquei algumas vezes tentando – inutilmente – entender o que ele dissera. Como se percebesse a confusão que se formava na minha mente, Phillip prosseguiu:
─Você é um dos que chamamos de ‘influentes’, em outras palavras, você consegue influenciar o que acontece com as pessoas a sua volta.
Aquela explicação pouco me ajudou, minha única reação foi soltar uma risada abafada.
─Isso é... Sério?
Olhei em volta atrás de alguém que denunciasse aquela brincadeira, mas todos estavam tão sérios quanto Phillip.
─Sim, e no seu caso, você consegue fazer coisas ruins acontecerem, se não controlar isso pode até matar alguém, como achamos que já fez.
Fitei-o com severidade. A quem ele se referia? Quando finalmente consegui raciocinar senti o chão sumir debaixo dos meus pés e os meus batimentos acelerarem-se.
─Você quer dizer que eu posso ter... Matado minha mãe?
Um jarro que estava sob o parapeito da lareira tombou para o lado, caindo aos pés de uma garota, ela soltou um pequeno grito e se afastou do local.
Meus nervos estavam à flor da pele, eu não podia acreditar naquilo, estava além da minha noção de maldade. Pus as mãos nos ouvidos tentando abafar os pensamentos que invadiam a minha mente como o mar invade o rio, sem pedir permissão. A minha volta a reunião passou de pacata para caótica, eu via vultos correndo de um lado para o outro enquanto objetos caíam, frascos explodiam sem nenhum motivo aparente e o lustre balançava ameaçando vir ao chão a qualquer momento.
Num certo momento Phillip se ajoelhou na minha frente e segurou meus braços, suas sobrancelhas juntas lhe davam um ar preocupado.
─Me desculpe. – Foi a última frase que ouvi.
Senti algo espetar meu braço e logo uma sensação de dormência se espalhou pelo meu corpo, eu sabia do que se trava, afinal, durante anos eu fora submetido ao efeito de sedativos. Minha visão escureceu e, já desacordado, caí de lado.
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