Lucille - A Pedra Nihil

22 Um Brilho de Esperança


Fazia uma semana que os Miseri escaparam da dimensão morta. Eles se espalharam por todo o mundo. Tanto os humanos, quanto as criaturas mágicas estavam em pânico. Aqueles que, no início, tentaram atacar os monstros, ou morreram, ou desistiram e fugiram para áreas mais seguras. Exércitos foram abatidos logo nos primeiros dias, os humanos comuns, despreparados e ainda chocados demais para processar os últimos acontecimentos, notaram tarde demais que os Miseri não eram simples monstros ao estilo de Godzilla, mas sim seres providos de magia, e cheios de uma consciência perversa.

Nesse tempo, Nikolaus e seus comparsas aproveitaram o cenário de horror que se espalhava. Kreisel não se acanhou em usar Lucille para seus propósitos. Logo no primeiro dia, depois da dimensão ser aberta, o bruxo a levou para diferentes lugares ao redor do globo. A primeira parada foi em uma caverna, escondida num pântano envolto por uma névoa hostil. Lá ele encontrou uma velha bruxa, a mulher era o próprio estereótipo de uma feiticeira, com nariz adunco e pontudo, e verrucoso. Na caverna, um caldeirão fumegava, mas tudo mais estava empacotado em sacos, como se a bruxa estivesse prestes a fugir. Quando ela pousou seus olhos em Kreisel, soltou um grito agudo e pavoroso.

— Então você lembra de mim Agatha, muito bom. — Nikolaus disse, com uma calma inabalável — Você também se lembra de como me deixou para morrer em Berlim ? — A bruxa soltou um silvo de descontentamento.

— Você era e é amaldiçoado garoto. — Começou em um alemão quase ininteligível — Sua morte seria uma bênção, e veja só, eu estava certa. Eu sei que foi você quem trouxe os Miseri de volta, sei o caminho sombrio que trilhou para chegar até esse momento. — Disse, enquanto se aproximava dele, um dos olhos da bruxa estava embranquecido — Mas ouça as palavras de alguém que viu ainda mais anos do que você, isso não vai durar.

Nikolaus soltou uma gargalhada fria, que fez a mulher recuar alguns passos. — Os Miseri sabem que eu os ajudei, não vão se voltar contra mim. — Garantiu, era a lei de qualquer criatura, mostrar gratidão por aqueles que o ajudaram em momento de dificuldade.

— Não vai durar. — A mulher repetiu, cheia de convicção, olhando Kreisel firmemente nos olhos, e um pouco da confiança de Nikolaus esmoreceu — Agora eu acredito que você tenha vindo me matar. — Disse, seus olhos ainda sobre os do homem — Junto da Plenus que você escravizou. Vá em frente, meu único arrependimento é não ter me certificado de que você estava morto naquele dia. — Concluiu.

Nikolaus teve sua raiva renovada — Lucille — Gritou, e a jovem bruxa apareceu, andando como um zumbi — Acabe com ela. — Lucille, agora sem qualquer capacidade de resistir, lançou um feitiço de fogo sobre a bruxa. O manto que a velha usava se acendeu e Agatha deu mais um grito agudo, tentando apagar as chamas que a consumiam. Em poucos segundos ela caia sobre o chão da caverna, se desfazendo em cinzas.

…

Daiana acordou sentindo cada músculo do seu corpo doer. Não era comum para a fada estar de mau humor, mas no momento em que abriu seus olhos, e tomou consciência de que estava deitada sobre um frio chão de concreto, ela quis estrangular alguém com caules de flor. A garota sentiu um toque em seu braço, e se virou, encontrando Vitor e Evan, ambos não pareciam mais felizes. Junto deles estava Raquel, Odete, Elísio, ela também viu os quatro irmãos do apocalipse. Todos da ODM pareciam estar ali, embora ela não fizesse ideia de onde ali era.

— Você está bem? — Vitor perguntou.

— Eu não sei. — Daiana disse sinceramente — O que foi que aconteceu, eu só lembro de chegar até a dimensão e então minhas memórias ficam confusas.

— Nikolaus usou outro feitiço da coleção Umbra. — Odete falou — Nenhuma outra magia teria um efeito tão forte assim. Ficamos apagados por um longo período de tempo, eu presumo, alguns de nós acordaram antes, outros ainda estão desmaiados.

— Nikolaus continua usando as magias perversas, o equilíbrio mágico deve estar muito abalado. — Evan comentou, ao que os demais concordaram.

— Onde nós estamos? — Daiana perguntou, enquanto Vitor a ajudava a levantar.

— Nós não sabemos exatamente. — Elísio disse — Parece um tipo de prisão mágica. Eu tentei alguns feitiços, mas eles não surtem efeito algum. E também tem a visão…

— Que visão? — Agora de pé, Daiana sentiu como se o mundo estivesse dando voltas.

Sem responder Odete apenas apontou para um ponto atrás de Daiana, a fada lentamente se virou, hesitante. Logo acima dela, na distância, havia uma espécie de entrada de portal, como um buraco na realidade, e dele saíam imagens. Um telão mágico mostrava as ruas pelo mundo, onde os Miseri atacavam sem piedade, destruindo cada um que se interpusesse em seu caminho. A garota ficou horrorizada ante as imagens dos humanos, e criaturas mágicas, caídas em meio ao concreto das construções que foram destruídas. Não havia som, mas a fada quase podia ouvir os gritos de desespero e os sons dos passos pesados dos monstros. Daiana demorou até ser capaz de falar.

— Lucille… — Ela conseguiu dizer apenas.

— Capturada pelo que parece. Nikolaus nos enganou, deve ter entrado na dimensão sem que nós nos déssemos conta. — Odete informou — Andrew tinha sido atacado, Lucille eu e Elísio conseguimos trazê-lo de volta. Mas acho que ele, Abigail e os demais curandeiros foram mortos, eles não estão aqui. — A bruxa mais velha baixou seus olhos. Desde o momento em que acordara as más notícias vieram como uma avalanche. A mulher não podia deixar de sentir que falhara em seu propósito, e agora estavam todos presos ou mortos. A sensação de impotência era algo que a mulher detestava mais do que qualquer coisa, e, naquele momento, não havia nada para ela além da incapacidade de ajudar. Suas magias não funcionavam, não poderia lutar contra um feitiço perverso. Lucille estava nas mãos de Nikolaus e o mundo logo viraria um imenso cemitério.

— Por que nós ainda estamos vivos? — Foi Vitor quem ousou perguntar aquilo que já havia passado pela cabeça de todos eles — Só para nos torturar com essas imagens? — Os demais permaneceram em silêncio, sabendo que aquela era a resposta correta. Nikolaus não queria apenas que eles desaparecessem da existência, queria mostrar sua vitória, provar que era mais forte. E Lucille, eles a tinham perdido. Andrew e Abigail também, e os dois aprendizes, Marta e Carlos.

Os integrantes da organização caíram em um silêncio reflexivo. Alguns olhavam para a tela mágica, assistindo com pesar as imagens, outros ainda não tinham acordado e jaziam no chão frio. De onde estavam era impossível ver os limites do salão no qual foram jogados, com certeza mais um dos truques de Kreisel. Tudo que conseguiam ver era uns aos outros e o chão de concreto, que se estendia até paredes de sombras. Daiana olhou para baixo, e para os lados, e então para a tela, esperava ver algo que os ajudasse a fugir, alguma iluminação, ou, ao menos, qualquer ser vivo que não fossem eles. Não havia plantas, frutos ou flores, o lugar era cinzento e mal iluminado. Uma prisão, sem dúvida.

…

Kreisel tinha se vingado de boa parte de seus inimigos, no fim daquela primeira semana. Agatha porém, foi a única a não clamar por sua vida, e as palavras da mulher ainda soavam em seus ouvidos, e ele não ousaria admitir, mas por alguns segundos, temera que a mulher estivesse certa. Sua confiança só retornou quando, ao fim dos sete dias, os Miseri continuaram a deixá-lo em paz. As criaturas pareciam entretidas demais em seus massacres, e, no fim, restariam os Anemis e aqueles que os apoiaram, e uma nova era se iniciaria na Terra. As criaturas mágicas que sobrassem seriam escravizadas. E então, quem sabe, eles pudessem expandir seus domínios para outros mundos.

Naquele momento Nikolaus estava sentado em sua cadeira de veludo, a sua frente estava Lucille, os olhos perdidos num horizonte que ela não enxergava. — É uma pena que você não saiba sobre seu passado. — Kreisel começou — Você ficaria impressionada. — Por um longo tempo Nikolaus manteve uma vigília constante sobre todos os bruxos e bruxas que nasciam. A princípio é quase impossível dizer se um bruxo é ou não um Plenus, mas Nikolaus conhecia uma maneira mais rápida do que o teste de Merlin para saber. Corbris era um cajado que fora forjado por uma Plenus, quando os bruxos por completo estavam em seu auge. O único objetivo do artefato era para que Angeline, a criadora do Corbris pudesse se comunicar com os demais Plenus, e toda vez que ele se aproximava de um bruxo por completo, se iluminava. Nikolaus saíra pelo mundo testando em cada bruxo que ele conhecia.

Lucille fora jogada em um orfanato, mas sua história antes dele, a história de seus pais, era interessante. Os dois eram o que o mundo mágico chamava de Duo, bruxos com poderes complementares, como as irmãs do contraste. Em tese eles seriam uma receita perfeita para o nascimento de um Plenus, mas com a magia já tão diminuta na Terra, era impossível dizer se um bruxo por completo viria ao mundo. Lucille nasceu, mas ficar com ela seria demasiado perigoso, então eles a abandonaram, esperando que ela fosse criada como uma pessoa comum. Eles não previram o desenvolvimento acelerado dos poderes dela, nem que ela de fato seria uma Plenus. Ao menos aquela era a história que ele conseguira arrancar daqueles que a conheciam. Segundos as mesmas fontes, os pais da menina tinham morrido em uma encontro contra feiticeiros necromantes, há dois anos.

— Uma pena. — O homem repetiu, olhando atentamente para Lucille. Nikolaus caiu em pensamentos. Família era um tópico que ele há muito odiava. Kreisel também tinha uma história de abandono, seguida de vários anos de sofrimento, que ele ainda tentava esquecer. O homem estava preso demais em suas próprias lembranças dolorosas, e mal notou o leve brilho de consciência que se iluminou nos olhos de Lucille, como uma pequena chama em uma geleria — Eu acho que chegou a hora. — Disse assim que levantou seus olhos novamente para a bruxa — Vamos fazer uma visita aos seus colegas da ODM.