Era impossível dizer se era dia ou noite dentro da prisão na qual Kreisel os jogara, tudo que eles tinham eram imagens de diversas regiões do mundo sendo destruídas. Naquele momento, minutos depois de Daiana ter despertado, a fada estava sentada ao lado de Odete, que olhava para o telão mágico como se estivesse em transe. O silêncio imperava, ninguém ousava proferir palavra alguma, um acordo mudo de que nenhum deles se sentia inclinado a conversar. Mas então um clarão se formou em um dos pontos da prisão de sombras. Do clarão surgiu a figura de Kreisel e, ao lado dele, Lucille.

— Espero que estejam gostando da estadia. — O homem disse — E que o entretenimento esteja divertindo todos vocês. — Meneou a cabeça em direção ao telão mágico.

Embora Nikolaus falasse, os olhos de todos estavam em Lucille. Eles sentiam pena, e medo, e uma parcela de culpa.

— Mas eu suponho que o tempo de brincadeiras esteja chegando ao fim. — Nikolaus continuou.

— Deixe-nos em paz. — Odete gritou — Já não basta ter trazido aquelas criaturas horrorosas para a Terra, precisa também nos torturar, torturar Lucille. — As lágrimas escorriam do rosto cansado da bruxa mais velha, ela tinha os punhos cerrados.

— Lucille? — Kreisel soltou uma risada rápida — Ela não tem ideia do que está fazendo, se isso te preocupa tanto Odete. — Disse em tom de deboche — Lucille é um mero fantoche agora, mas você não precisa acreditar na minha palavra, basta observar. Lucille. — Falou com voz firme — Destrua a nossa querida Odete. — Todos na prisão soltaram exclamações de espanto, olhando para a bruxa mais jovem como se ela fosse uma bomba prestes a explodir. Mas para a completa confusão de todos, Lucille mal se moveu do lugar — Lucille — Kreisel repetiu, sua voz uma oitava acima do normal — Eu disse para destruir a Odete. — A irritação irradiava em cada palavra. Mas a bruxa nada fez, não se moveu ou deixou de encarar um horizonte distante — Por que você não me obedece? — Perguntou, seus olhos eram o retrato da loucura. Virou-se para Lucille, a segurando pelos ombros, fazendo com que a garota se virasse — Você me ouviu — Disse em tom baixo e ameaçador — Mate a Odete, ou então eu vou fazer. — Não houve resposta.

Kreisel olhou para os integrantes da ODM, que aguardavam incertos o desfecho daquela cena. De todos eles, os mais surpresos eram Odete e Elísio. Lembrando de tudo que conheciam sobre a pedra Nihil, era espantoso que Lucille não estivesse respondendo aos comandos de Kreisel, e eles mal conseguiam começar a teorizar sobre o que estava acontecendo. Nikolaus lançou seus olhos uma vez mais para Lucille — Isso não terminou Odete, da próxima vez que nós aparecermos aqui, será o seu fim. — E dizendo isso, saiu em direção ao clarão, que se apagou logo em seguida.

A bruxa mais velha e Elísio trocaram um longo olhar, e, sem dizer qualquer palavra, eles souberam o que o outro estava pensando. Será que Lucille seria capaz vencer a magia da pedra Nihil?

…

— Nós não sabemos o que dizer senhor. — As irmãs do contraste estavam encolhidas em um canto, junto da coisa que servia Nikolaus. O bruxo teve um rompante de fúria, destruindo todos os objetos que vira em sua frente. Lucille estava parada próxima ao que restava da escrivaninha de Kreisel. O homem se aproximou das irmãs, seus olhos ameaçadores e a respiração vindo em ofegos de raiva.

— Eu não quero que digam nada. — Começou, fazendo com que elas se encolhessem ainda mais — Eu quero descobrir por que ela não está fazendo o que eu mando. — Sua voz foi aumentando a cada palavra, e, no fim, ele estava gritando — O que está acontecendo com Lucille? Ela não deveria ser capaz de resistir. Está usando a Nihil e ainda sim não fez o que eu ordenei. Vocês tem ideia do que isso significa? — A criatura feia soltou um arquejo de susto, fazendo com que Nikolaus se virasse para ele, os olhos azuis gélidos se contraíram, o servo soltou outra exclamação de medo. Num segundo Kreisel tinha estendido seu braço, e acertava a criatura com as costas da mão. Seu servo foi jogada ao chão com um baque, gemendo de dor — Saiam daqui, eu preciso pensar. — Disse, agora em um tom mais calmo. As irmãs levantaram a criatura que continuava jogada, e a levaram para fora. Kreisel se sentou em sua poltrona, o único imóvel que restara inteiro em seu escritório. Observou Lucille de forma intensa, sentindo as palavras da velha Agatha voltarem.

Na mente da jovem bruxa, já não havia mais só a voz de Nikolaus. De alguma forma, Lucille voltara a conseguir ouvir tudo que estava ao seu redor, e, embora ainda não estivesse em completo domínio de seu corpo, Nikolaus também não estava. A jovem teve que se agarrar a cada milímetro de força de vontade, para não ceder a ordem de Kreisel de matar Odete. Ainda não conseguia falar, e o esforço que ela fizera para se manter inerte naquele momento fora tamanho, que Lucille temia não ser capaz de repeti-lo por algum tempo. Foi com muito alívio que ela notou que Kreisel estava tão imerso em seus próprios pensamentos, tentando entender o que acontecera, que ele não ordenou mais coisa alguma. Poder pensar de novo foi um alívio, mas também um pesadelo. As memórias dos assassinatos estavam ali, embora no momento em que eles aconteceram, ela mal tenha registrado. Foi como lembrar de um sonho, algo que não parecia completamente real, e, ainda sim, ela sabia que fora. Lucille teria chorado se pudesse, mas no momento ela deixou a tristeza de lado, precisava recobrar mais de sua força. A jovem bruxa tinha uma noção do que estava acontecendo e esperava que fosse só uma questão de tempo até que a pedra Nihil já não fizesse mais efeito algum sobre ela.

Nikolaus ainda a observava, as mãos entrelaçadas sob seu queixo, olhava Lucille como se ela fosse uma obra de arte moderna, confusa, mas fascinante. Pela primeira vez desde que ele decidira abrir o portal da dimensão morta, Nikolaus sentiu medo. Durante toda sua vida, tudo que ele mais quis foi ter poder, o suficiente para que jamais fosse questionado ou intimidado outra vez. Queria ver a Terra sucumbir, que cada coisa bela apodrecesse, que cada brisa fresca se tornasse veneno. Ele nunca fora bem vindo no lado da luz, nunca tivera vocação para o bem, tudo que sabia fazer era pisar, e esmagar e destruir. E agora que ele tivera tudo aquilo, pensar que poderia estar prestes a perder, causou aquele desprezível sentimento de medo. Nikolaus fechou os olhos, se ele se concentrasse, conseguia ouvir os passos dos Miseri na distância. A contagem de mortos estava em mais de cem milhões, da última vez que ele se deu ao trabalho de pesquisar. Era nisso que ele deveria pensar, e não no que uma velha louca dissera. Se Lucille se provasse incapaz de receber mais suas ordens, ele seguiria por um plano alternativo. Extinguiria os Plenus da face da Terra.

O homem se levantou, seu medo controlado. — Eu receio que precise descansar agora, querida Lucille, até mesmo alguém como eu dorme de vez em quando. — Tocou levemente os cabelos da jovem bruxa com as pontas do dedo — Mas quando eu retornar, nós vamos tentar uma vez mais, e dessa um de nós realmente vai acabar com Odete. — E dizendo isso, deixou o escritório. Ordenou a Arabgar que vigiasse Lucille, ele não arriscaria ser surpreendido outra vez.