Lucila
31 XXXI – Leviatã
NÃO SE OUVE qualquer som nos instantes seguintes: Ricky correndo até a guarita, gritando com os seguranças, chuva desabando como se castigo fosse! Somente se ouve a inclemência da tempestade, o vento pior! José esbraveja com os seguranças, o portão escancarado balança como um arame enganchado no muro. Sergio vem atrás de Ricky, o segura para que não avance no segurança, D. Nena os segue, chorando, os outros atrás dela; Rubem a abraça. José corre para a garagem, liga a caminhonete que nunca usam; faróis apontam para a saída, a rua com águas cinzentas cobrindo as calçadas. Em minutos, malas são jogadas no carro e pneus avançam pesadamente levantando ondas de lama. Os cães latem, mas ninguém ouve qualquer som, voz nenhuma, somente chuva, vento zumbido, ar gelado cortando. Quem grita e esbraveja e discute não é ouvido. Quem responde não é ouvido. Uma urgência insana. No banco traseiro, a copeira soluça de medo e pelo menino sumido, Rubem a ampara. Ralphy agarrado no braço de Sergio, que procura sem parar pela janela do carro. Procura o quê?
Tudo escuro, somente os faróis na pista parecem dar sinal de vida. Ninguém nas ruas. Nenhum carro...?
Sergio tem um pressentimento. E se todo mundo saiu dali antes?
Os vidros embaçam, não dá para abrir as janelas e olhar. Tem alguém os vendo sair?
Eles ouvem apenas os pneus atravessando a água suja que não para de subir.
De repente, sentem os tapetes do carro úmidos... A água entrando pelo carro.
xxx
Robert exaure, não consegue mais pedalar, larga a bicicleta, a mochila pesa nas costas, ensopado, sujo, fome, medo. A água quase em seus joelhos, o jeans, os tênis e meias arrastando seu peso... Olha em volta “Onde eu tô?” pensa. Ou diz, mas ninguém ouve. Nada.
Chuva.
Vento.
Ouvidos zunindo... O vento afetou os ouvidos. Que rua é aquela, por que foi parar ali...? “A rua de tia Oli!”, pensou “Tenho que achar a casa!”. Tirou a mochila, carregando-o no colo. Procura a bicicleta, mas já sumiu embaixo da água. Olha para os lados, anda. O peito chiando, cansa. Respira pela boca, arde. Anda.
Aquela rua também é a do zoológico onde Plácido atende. Ele não vê o portão aberto.
Nenhum poste aceso. A água sobe ainda mais, ele sente a correnteza ficando mais forte. Força as pernas. Peito ardendo, cabeça doi. Procura onde se segurar; olha para a água. Andar, tem que andar.
xxx
— PLÁCIDO!! – Olivia grita desesperada, batendo na grade! A garota a surpreende, para planando diante dela! A médica grita de medo e cai por cima do carrinho de jardim. Plácido avança, mas antes que alcance a menina, ela o afasta com um golpe, sem acerta-lo. Seus olhos âmbar o ameaçam, parecem acesos!
— Vá emboraaaa... – Ela sussurra, sibilante. Sua voz parece um chiado reptiliano. Plácido gela de medo, aperta o cabo da faca na mão. A jovem flutua com suas asas tremulando. Ele percebe que ela é imensa! Esgueira-se para a parede oposta... Dali, vê a esposa caída sobre o carrinho, olhando apavorada para dentro da casa!
De repente, a jovem agarra as grades do terraço e como se fossem papel, as arranca das paredes!
Relampeja.
Gritos.
Mas lá fora, ouvem-se apenas os trovões.
xxx
José engata a caminhonete mais uma vez, Ignição. Nada. Outra. Nada,
— O tanque tem gasolina? – pergunta Ricky.
— Tem. O motor afogou, deve ter entrado água...!
Todos se olham. E é D. Nena quem dá a ordem:
— Aqui ninguém pode ficar, a água subindo! Vamos sair!
Antes mesmo que ela mande, Sergio põe Ralphy no colo e desce. Rubem a ajuda a descer, Ricky e o caseiro tiram as malas. O carro é abandonado, seguem a pé. Troveja, uma luz branca do relâmpago e tudo escurece de novo. Eles não têm lanternas. Só o barulho da chuva, a água subindo. Ali é perto da casa dos tios, mas eles não percebem onde estão. Robert está a quadras deles, mas é impossível enxerga-lo...
O portão do zoológico está aberto.
xxx
A garota sobrevoa pelo terraço, olha friamente para Olivia. Em pânico, a pediatra não consegue se mover, Plácido se arrasta para junto dela. Então a jovem os ignora, olha para as grades do terraço e avançando velozmente em direção a elas, arranca uma parte da grade! Consegue fugir!
— Meu Deus, Plácido! — Olivia corre para a frente da casa – Alguém vai vê-la! Ela não pode fugir...!
O casal olha em volta, para as nuvens, mas não se enxerga nada. O vento zunindo ainda mais veloz e gelado. A casa ainda não foi alcançada pelo alagamento. Olivia chora desesperada:
— Amor, ela vai morrer... Alguém vai vê-la. Vão matar a pobrezinha...
Ele a abraça. Olha ao redor. Onde estão os vizinhos?
xxx
Robert não vê mais nada diante dele. Olhos ardem, cabelos beliscando o rosto. Ele tem uma ideia; subir em alguma coisa. Um muro, uma árvore, achar um local aberto onde possa se esconder. Até a chuva passar... Teto preto?
Ele sente que vai desmaiar. Outro teto preto. Pisca os olhos, anda mais pesado, procura. É um perigo subir em árvores numa tempestade daquelas, mas no desespero, ele veste a mochila nas costas e agarra um salgueiro ali perto. Peito arde, sem ar. Isso é hora de ter asma? Controla-se, consegue subir num galho. Olha para cima, pensa em subir mais, mas está tonto e teme cair. A água sobe.
Dali, ele nota que algo corre contra a correnteza... Um volume imenso, com uma aparência sombria sob a água. Emerge lentamente. Dois pontos brilham. Olhos em um longo focinho!
O crocodilo Leviatã, uma das maiores e mais perigosas atrações do zoológico, escapara de seu tanque!
O garoto grita de pânico! Mas os outros ainda estão longe e não o veem. Ninguém o escuta.
Fale com o autor