Lucila
32 XXXII - Latente
A ÁGUA já chega à altura dos quadris de Ricky, o que indica que D. Nena a tem quase em sua cintura... Ensopados, cheiro de água suja, chuva não aumenta mas não diminui. Postes apagados, os faróis da caminhonete enfraquecendo. O motor pode ter afogado, ou a bateria sobrecarregou. José pega duas lanternas; fracas, mal iluminam dois metros à frente... Sergio, com Ralphy no colo, olha em volta e estranha novamente.
Não tem ninguém ao redor!
Não há outros carros; deveria haver mais gente, tentando escapar como eles. Não daria tempo de todos fugirem antes deles, apenas... Não faz sentido, mas falar disso só assustaria os outros, mais do que já estão.
A mala pesa em suas costas, o mais jovem é grande para ser carregado, ombros ardem. Cabelo espeta o rosto. Ele olha para baixo e não vê mais através da água...
— Vocês ficam aqui enquanto tento buscar ajuda! – diz José.
— AQUI!? A gente não pode mais entrar no carro! – reage Ricky.
— Subam no teto dele, é o jeito! D. Nena e o pequeno não têm como seguir nessa chuva! E o outro menino sumiu!
— Então eu vou com você buscar ajuda – diz Rubem – você também não tem como ir sozinho!
— Não vamos ficar aqui de jeito nenhum! – gritou a copeira, arrumando bolsas nos ombros – Ou vai todo mundo, ou ficamos todos!
E Sergio nem tenta discutir; Ralphy começa a chorar de novo.
— Calma, pequeno. – diz o rapaz – A gente sai dessa.
Lembrou de Robert. Torceu para que tenha conseguido um lugar seguro.
Abandonaram o carro.
***
O delegado reúne todas as provas sobre a mesa e as esconde num armário alto, de aço. A água já chega aos braços do sofá. Pragueja. Pendura o cinto do coldre com a arma no pescoço, olhou em volta... Burrice ligar, o telefone não funcionaria. Irrita-se, busca uma lanterna no balcão da recepção. Mira a luz para fora; tudo escuro. O molho de chaves pendurado na parede, qual delas é a certa?, esqueceu de medo. Tenta uma. Outra. Mais outra. Perde a paciência, chuta a porta de alumínio, a fechadura entorta, soam os alarmes! “MERDA!!”, berra de raiva. Pensa nas provas e anotações do biólogo; volta ao armário, pega o que consegue e joga numa sacola. Chuta a porta de novo, o alarme não para, mas ninguém vai atender essa bosta mesmo, ele pensa.
Água nas pernas, se esgueira para a garagem. Embarca num camburão que a água já começa a invadir. Que se dane, pensa; liga a ignição, o motor só pega na segunda vez, dá ré sem olhar. A sacola com as provas pendurada no retrovisor. O camburão avança, formando ondas na lama. Some no escuro. Os alarmes param.
Nenhum resgate responderia. Nenhuma equipe de bombeiros. Ninguém.
***
— Amor, pelo amor de Deus, vão matar a pobrezinha! A gente não pode...
— Ollie, a gente precisa fugir agora! A água vai subir, veja! – Plácido tenta acalmar sua esposa, apavorada – Ela fugiu... Ollie, ela fugiu. Deve ter se escondido em algum lugar, ela pode voar.
Olivia o encara sem reação; ele tenta de novo:
— Vamos pegar Eartha e Corto e correr daqui enquanto podemos. Prometo tentar encontrá-la. Eu prometo, Ollie!
A água ainda não alcançou a casa deles; entram, pegam os bichos e Plácido começa a trancar a casa; através das grades da garagem, ele constata: as outras casas estão vazias. Olivia chora.
***
Robert olha em volta... Em pânico, não vê ninguém por perto, mas o crocodilo está bem próximo dali e agora submerso. A altura da árvore o ajuda enquanto a água não subir mais. Mas se subir, o galho onde ele está sentado ficará mais fácil de ser alcançado pelo animal... Ele olha para cima; um outro galho, perto dele o bastante! Tremendo de medo e de frio, ele consegue subir até este galho, mas o tronco é largo demais para ele aguentar muito tempo agarrado.
— Alguém tem que aparecer. Por favor, Deus, alguém tem...
Chora. Olha para baixo e vê a água se mover; é Leviatã nadando.
— SOCORRO!! SOCORRO!!
***
— As lanternas vão descarregar. – diz José.
— Alguém sabe em que rua a gente tá? – pergunta Rubem.
— Que diferença faz?
— É rua só de casas. – diz Sergio.
— Então por que não tem ninguém? – pergunta Ricky, olhando em volta – Que horas são...?
Ralphy olha o relógio em seu pulso. O digital parou às 19:43. Continuam andando.
***
Veloz.
Dor.
Luz. “Abra os olhos...”
Arde nos olhos.
“Que olho lindo, parece de vidro...” Eco.
Água. Bate no rosto. Ela se sente subindo, rápido, rápido, rápido!
Para onde?
Tanto frio!
Voz de criança. Eco.
Voz de gente. Eco.
“Volte...” Eco.
Barulhos.
Gritos.
“NÃO!!” Eco.
“SOCORRO!!” Eco.
Ela grita. Alto! Sobe ainda mais, o vento gelando mais e mais.
Mais gritos.
Não é sua voz. Não é ela gritando... Ela abre os olhos e está tudo escuro...
— SOCORRO!!
A dezenas de metros do chão, ela ouve a chuva, o vento, a escuridão.
— Mamãe... – sussurra. É ela sussurrando ou a chuva? Ela não entende o que diz. Planando com suas asas escancaradas, os pingos da chuva batem pesadamente contra a pele fina delas. O ar parece escorregar por sua pele imberbe; o coração acelerado, mas ela não sabe o que é aquela pancada no peito. Cabeça dói, ouvidos ritinam, ela ri desesperadamente das vozes incessantes em sua mente... Impulsiona para ainda mais alto e mergulha violentamente!
Rugindo!
Ela nasceu.
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