Lucila
27 XXVII – Ecos
TUDO ESCURO. Escondida. Cheiro de sangue. Cabelo... Grande. De olhos fechados. Só respira. Respirar doeu. Tem medo. Medo de ar. De respirar. Aquele ronco... Ela respirando.
Cheiro de poeira. Abre os olhos devagarzinho. Asa. Asa. Asas?
Ela respirando. Voz. Ela quieta.
Voz de quem?
Tem homem aqui?
Essa voz não é a dele.
Dele... Quem?
Todo o corpo chiando... Não, chiando não. Papai disse que isso era formiga.
Formiga, aqui?
Olhou a pele e não viu nenhuma. Cadê, papai?
Papai?
Cadê você? Tá doendo. Você disse que a dor ia passar...
Descruza os braços.
Sombras. Chão frio.
Tá tudo escuro... Papai, acende essa luz!
...Papai?
Papai?
PAPAI!
Não grita, ela diz.
Ele já vem.
Não gritou. Não grita mais. Nunca mais...
Olho doi. Para de doer, para, para! Ai!
Espinho. Corte!
Tenta correr! Não dá!
Não dá! Sai, sai!
Corre!
Não consegue.
Ar.
Braços soltos... Está perto do teto. Papai deixa.
Vira...
De barriga para baixo, olha o chão. Lá embaixo. Alguma coisa se mexeu?
Tem gente aqui.
Olho doi. Não ver nada direito. Esse escuro!
Pai, a luz! Pai!!
Bate as asas!
Mas doi! Não quero operar. Não quero!
Bata as asas, eu mandei!
Você não manda em mim! Quero a minha mãe!!
Corre!
Mamãe!
Manhê!!!
Pé descalço. Chão frio. Sangue. Espinho. Corre!!
— MMAMÃÃÃEE!!!
Abraçados e escondidos atrás do carro de jardim, Plácido e Olivia assistem a jovem se contorcer de olhos fechados, perto do teto da sala. Ela bate as asas freneticamente, agita-se, gritando:
— O que ela tem?
— Deve estar sonhando. – Sussurra Olivia. – Que voz é essa...?
Plácido olha para sua esposa. Pensa no que viu. Pesadelos. Lá e ali na sala. Agora chove forte, troveja. Cai a energia.
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