Lucila
28 XXVIII – Omissões
ENSURDECEDORA, a chuva despenca sobre a cidade, agora às escuras. Lá fora, encapuzados, os seguranças se organizam em torno da mansão. Há um gerador, mas funciona apenas em quedas breves de energia, o que não parece ser o caso. Ou seja, as cercas elétricas estão desligadas e as luzes dos muros apagaram. Viking e Hera são soltos dos viveiros e correm pelos gramados do jardim. Lá dentro, os garotos ainda estão no quarto.
— Puta merda! Mais essa, agora? – Disse Sergio.
— É só chuva, daqui a pouco diminui e o gerador liga. – Respondeu Ralphy.
— D. Nena está lá embaixo sozinha; melhor eu chamar... – Disse Ricky, tateando para se levantar e alcançar a porta.
— Ela vai ouvir a conversa da gente? – Perguntou Robert.
— Claro que não, ô Mané! Mas e se ela tropeça nessa escuridão? – Ricky reclamava, sentindo a ironia do amigo.
— Vocês ouviram...? – Disse Rubem.
— Quê? – Disse Ralphy.
— Os seguranças... Estão em volta da casa. Hera e Viking latindo, eles devem ter soltado.
— Ah, legal. Sair daqui agora, michou de vez! – Disse Sergio.
— Eu vou ver se acho D. Nena. Onde tem lanternas? – Perguntou Ricky.
— Ué, vocês devem saber melhor... Se sumiram com o carro de jardim? – Respondeu Robert.
Silenciam. O tom de voz do garoto é sarcástico... Robert quer mesmo ver até onde os três mais velhos conseguem levar as desculpas que ele tem certeza ser inventadas. E o temor dos três é perceber que ele sabe. Mesmo sem conseguirem ver nada no escuro, o clima é tenso. Ele continua:
— Vai procurar D. Nena, ou não?
Ricky se esgueira até a porta. Ouvem quando sai e a fecha, sem dizer nada.
Um relâmpago ilumina o quarto por instantes. Estão todos no chão do quarto, sentados. Ninguém diz nada.
Agora o medo é dentro da casa, também?
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A escada range sob os pés de Ricky.
— D. Nena...? Cadê a senhora?
— Aqui na cozinha. Onde você está?
— Descendo a escada; não venha sozinha, estou chegando aí. Onde tem velas ou lanternas?
— Temos velas em alguma gaveta aqui na cozinha; mas agora vai ser difícil procurar em cada uma.
— Damos um jeito – disse o rapaz, alcançando a copeira, sentada à mesa do jantar – Venha, vou levar a senhora para os sofás. Ali é mais seguro.
A chuva intensifica ainda mais, o som da tempestade, pesado como uma cachoeira sobre a casa, chega a assustar.
— E os meninos? – perguntou a copeira.
— Lá em cima num quarto. Todo mundo quieto lá, quando a chuva passar a gente desce. – Ricky tentava serenar a copeirinha, como se isso atenuasse o sentimento de culpa.
— Nessas horas, eu penso no meu filho...
— Ué, ele deve estar no quartel, não?
— Não sei. Às vezes ele não tem como me ligar. E eu gostaria que ele estivesse em um dos nossos quartos, agora. Assim, eu saberia onde vê-lo...
Ricky agora entendia. Não era uma tentativa de descobrir o que eles estavam escondendo, ou uma intenção de castigo. Para ela, eles eram tão importantes como seu filho. Estarem ali, todos em casa, era senti-los a salvo da chuva. Mas o filho dela é um soldado a serviço. A mãe daria tudo para sabê-lo em casa, ali com eles. Ricky intuiu um pouquinho e arriscou:
— D. Nena... O dia que um de nós lhe contarmos alguma coisa que não for completa... Somente lembre que foi para proteger a senhora. McGillins é um cara muito legal e devemos muito a ele. Mas a senhora é o mesmo que uma mãe para todo mundo aqui. Tem coisas que a gente aprende que a senhora não pode sentir junto, porque a gente não quer que a senhora se ressinta, ou Deus nos livre, sofra. A senhora conta tudo, tudo mesmo, o que McGillins manda, para a gente?
— Não, meu querido. Mas é diferente.
— Eu sei. Não contar nem sempre é esconder. Mas tem vezes que esperar para mostrar toda a questão é o melhor a fazer. Eu só vou garantir uma coisa para a senhora: nós cinco queremos protegê-la mais do que qualquer outro aqui dentro. Nós não estamos escondendo nada da senhora, estamos esperando a hora certa. Promete que vai acreditar nisso?
Nena sente um aperto no peito... Mas atende.
— Prometo. Mas olhem, vocês: se se meterem em encrenca com leis e polícia, vão arcar com as escolhas...
— Não, não... Não é nada disso. Eu garanto para a senhora que não é. Mas não posso falar muita coisa agora, só no momento certo.
— E por que tudo isso?
Ele pensa um pouquinho. E:
— Estamos tentando ajudar alguém. Essa pessoa não é famosa, não parece ter amigos nem família e talvez esteja até doente. Soubemos dela e agora queremos ver o que fazer. Mas como estamos sempre aqui na casa sem poder sair sempre, por causa dos fãs, isso atropela o que tentamos realizar.
— Mas e o carro de jardinagem... Foram vocês? E se é para ajudar alguém, por que não pediram ajuda ao McGillins?
Relampeja e o clarão ilumina todo o ambiente, trovões em seguida. Eles enxergam um vulto à porta de vidro que dá para a varanda, subir os degraus correndo. É José, o caseiro. Ricky abre a porta de vidro e um vento gelado invade a sala! Eles fecham a porta, para o que o vento não a arrebente. O caseiro está muito assustado.
— O que houve, cara?
— O rádio na guarita informou que a chuva vai piorar; um vendaval vai passar perto daqui. Os seguranças acham melhor irmos embora para outro lugar.
Mas como iriam dirigir um carro naquela tempestade?
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