Lucila

24 XXIV - Escuro


EM CASA, Olivia estava inquieta! Além de preocupada com Plácido, que já não dava notícia havia mais de uma hora, estava alerta o tempo inteiro por causa da menina. Até observava os bichos da casa mais que o costumeiro, afinal ainda não conseguia ter noção do comportamento da garota.

Se bem que até ali, esta nem dava sinais de risco. Muito pelo contrário: agora já até dava umas risadas vendo a gatinha e o cachorro correndo pela casa! E não, os bichinhos não estavam mais com medo dela. O que chamava a atenção da pediatra era a propriocepção da menina; se antes, ouvir e ver dependiam de fatores isolados como um movimento ou um som e ela não reagia à falta destes.... Agora ela agia normalmente, mas não dizia palavra. Enrolada numa manta, descabelada, até parecia criança brincando... Olivia sempre de olho nela, apercebia-lhe a conduta muito parecida com as de seus pacientes mais jovens em recuperação.

Mas era uma mulher adulta ali sentada no tapete! Quer dizer, a despeito das asas e do gigantismo... Olivia já ficando confusa com tanta informação. Morta de medo, quem não ficaria?

Por que Plácido demorava tanto?

Tentaria distrair a garota, aproximando-se com o maior cuidado (para não dizer medo) e disse:

— Vamos lanchar? Você já deve estar com fome.

A garota fixou o olhar, aproximou-se devagar e... Cheirou seu rosto.

Bem; era um reconhecimento? Olivia afastou-se para a cozinha, evitando dar-lhe as costas e prepara um sanduíche ás pressas. Volta para o tapete, senta-se de frente para a menina e oferece um pedaço do lanche:

— Então?

— ...

— Vai... Esse é diferente, eu caprichei. – Diz a pediatra apavorada, escondendo o medo com o sorriso. A casa silenciosa, a respiração ressonante da jovem assustava Olivia, mas ela teimava:

— ...

— Vamos ver se você me imita. – E cheirou o pedaço do sanduíche, aproximando-o da menina, que parecia um bebê conhecendo alguma coisa nova. Mas deu certo: ela cheirou o pedaço do sanduíche. E se afastou!

Recusou a comida e deitou-se no tapete, dando as costas para a pediatra, surpresa:

— Ora, você não quis? Não sei se me ofendo ou fico contente!

A garota não liga. Encolhe as asas, parece ter sono. Olivia arruma-lhe a manta para cobrir melhor. A jovem fecha os olhos, não reage.

— Será que você sabe que isto é uma casa?

Então, a garota se volta e encara Olivia... Silenciosa. Mas um olhar ameaçador, que paralisa de medo a pediatra, ela sente o sangue gelar...

De repente, tudo escurece ao seu redor!