Lucila
25 XXV – Cargos
APENAS O ruído do ar-condicionado quebrava o silêncio na sala do Delegado, que encarava gravemente o veterinário. Era audácia daquele doutorzinho de meia pataca querer se meter nas investigações. Mas percebeu que Plácido não tinha medo de ninguém ali. Ou pelo menos, não demonstrava ter. E para o Coronel Diego, medo é uma das indicações de culpa, assim era o que queria descobrir.
— Sabe que eu posso mandar prendê-lo por isso. – Rosnou o Delegado.
Plácido não se alterou. Manteve-se quieto e nota o esforço do Delegado em não demonstrar irritação por sua postura. Tempo pairando, o escrivão e os dois policiais não tiram os olhos do veterinário que finge não vê-los. Voltando-se para estes, o Delegado ordena ao escrivão:
— Albella, conclua o registro deste interrogatório e emita requerimento ao Ministério... Para envio de equipe investigativa ao endereço do Doutor Vicente Alcântara. Solicite autorização para interditarmos o local e levarmos o depoente. Informe ao Secretário que o próprio depoente, Doutor Plácido Bispo, manifestou iniciativa em participar da averiguação in loco. Solicite a interdição de abertura do local para se realizar de hoje a no máximo, oito dias. Caráter urgente.
O barulho da Olivetti volta a incomodar, o Delegado acende um cigarro. Plácido sente as têmporas gelarem. Como se para quebrar o clima pesado, o Delegado ordena ao policial:
— Água para todos, Julio. Gelada! – E, observando Plácido em silêncio, sugere: — Creio não ter mais perguntas, doutor... E pelo que vejo, o senhor também não. – Refestela-se na poltrona, quase rindo; traga o cigarro, bafeja a fumaça para o alto sem desviar o olhar do veterinário, que sente sua vigilância sem encara-lo:
— Realmente, não me vem mais nada à cabeça... – Diz, pondo as mãos nos bolsos e agora encarando o delegado — Apenas a dúvida de se estou de fato preso por ter feito uma pergunta.
O Delegado quase enfurece, mas se controla! Ordena:
— Albella!
O escrivão interrompe. O Delegado continua, voz entre dentes:
— O depoente tem uma dúvida...! Aguarde para registrar...!
— Coronel, lamento se pareceu um desrespeito meu, afinal sou civil... Mas estou me colocando à disposição da Lei para colaborar com as investigações e mesmo porque o falecido foi meu colega de faculdade, me sinto no dever de ajudar. Ora, sou apenas um profissional de saúde. Trabalho detectando os sintomas de meus pacientes para diagnostica-los. Portanto, somente poderei dizer mais sobre o que se está tentando descobrir quando puder ver mais indícios acerca do evento. Isto significaria que estou preso...?
Silêncio.
xxx
Na mansão, o clima é movimentado: ouvindo o carro de McGillins dar partida, Sergio desce as escadas e ainda não notou que os dois pequenos assistem a tudo escondidos. O rapaz espia detrás das cortinas da sala; o carro do empresário para antes do portão e ele conversa rapidamente com um dos seguranças. “Não duvido nada que sejam ordens para não sairmos de jeito nenhum sozinhos.”, pensou Sergio.
Deitado no sofá, Rubem cochila. Do corrimão no primeiro andar, os pequenos se afastam, escondidos. Ninguém os percebe, Sergio continua a olhar pela janela, vendo o carro de McGillins deixar a mansão e os portões sendo fechados. Um dos seguranças olha em direção à casa e o rapaz tem certeza. Pensa na Tia Oli e na menina. “Como que eu vou sair daqui agora?”.
Na cozinha, Ricky não sabe o que fazer diante de D. Nena:
— Não, D. Nena... De jeito nenhum, eu iria mentir para a senhora! É que.. Queee.. Eeu ESQUECI! – Respondeu, quase gaguejando – Eu esqueci o livro na casa deles! Fomos para lá pegar! Daí eu li o livro lá mesmo e acabei nem trazendo! Foi isso! É, foi isso!
E a copeira o encarando gravemente, braços cruzados. Ricky sabe que não vai adiantar...
— Me diga uma coisa – pergunta ela – Como foi que o carrinho de jardim sumiu na noite que vocês foram para a casa dos médicos?
O carro! Ricky tinha esquecido, todos eles tinham esquecido! Sem ter o que dizer.. Ela continua:
— Os jardineiros só vieram hoje de manhã. Tiveram folga no fim de semana. Só eles usam esses carrinhos, e como é que um sumiu? E sumiram outras coisas de usar em canteiro, também.
O mais velho da banda não sabe o que dizer, morto de medo. Aquilo era uma bola de neve, uma mentira puxando outra! D. Nena insiste, ela sabe pelo olhar de qualquer um deles quando tem algo errado:
— E por que Rubem voltou usando roupas do Tio Plácido? E esse corte no seu braço?
O rapaz não diz nada. Não sabe o que falar.
xxx
Tudo o que Plácido precisava para ver nos olhos do coronel a raiva por não conseguir um “acusado” para apresentar como sucesso de investigação ao querido Secretário de Segurança... Passos no corredor.
É o policial com uma bandeja cheia de copos com água, serve a cada um.
Abrindo e fechando gavetas de sua mesa, o Delegado enraivece, sem ter como argumentar:
— Mediante pagamento de fiança, o senhor está liberado, Doutor Plácido! Até as investigações acabarem, contudo, o senhor deverá manter-se neste domicílio municipal. Julio, conduza o depoente á secretária para o pagamento da liberação...! Conclua, Albella!
A Olivetti volta a correr teclas. Burburinhos de repartição pública, carimbos batendo furiosamente.
Em minutos, Plácido é liberado e quando se dá conta, já entrou em seu Fusca.
Sente-se automático! Parece que tudo dói, mas não, não é dor... É nervo! O veterinário tem a impressão de que o zumbido do ar-condicionado ainda está em seus ouvidos... No banco de carona, seus pertences devolvidos ao sair. Guarda-os no porta-luvas. Tudo parece estranho, como se não reconhecesse o que já viu tantas vezes. Pensa no que viu na mesa de provas... O que eram aquelas amostras nos vidros vedados? Por que o Coronel Diego perguntou se ele conhecia venenos? Aqueles instrumentos de cirurgia, por que Vicente usaria, se não era a área dele...? Pensou em sua esposa e a estranha em casa, alertou-se! E os meninos?
.
Cinco e quinze da tarde, ele dirige velozmente para casa!
Medo.
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