Lucila

16 XVI – Incógnita


O DOMINGO TERIA ARES SORUMBÁTICOS, pelo jeito: a jovem finalmente abrira os olhos, mas não se tinha certeza da acuidade de sua visão; parecia ver bem em alguns momentos, em outros não correspondia. Mais uma estranheza para sua descritiva. Não falava, apenas emitia sons reagentes quando alguém conversava. Ou tentava se comunicar, pelo menos...

Agora, ela estava ali, sentada no tapete da sala, olhando em direção a tudo que se movesse ou fizesse barulho.

Preferiram manter Corto isolado na área de serviço, para que não latisse e assustasse a menina de novo. Da cozinha, fingindo tranquilidade, o casal de médicos observava. Ricky, com Eartha Kitt encolhida aos seus pés, sentado na escada e impressionado com a garota: agora sim, dava para perceber uma certa beleza.

Era um rosto estranho, sem sobrancelhas e isso fazia sua testa parecer um tanto pronunciada; o rosto era pequenino, os olhos miúdos, mas como a cor era muito clara, isso os realçava. Nariz, boca, tudo era delicado. Era um contraste com o resto de sua figura agigantada e musculosa. A pele albina, ao contrário de outros albinos, era grossa e imberbe. Não tinha unhas. Os queloides em suas costas já pareciam leves estrias... Como se sua pele conseguisse se recuperar tão rápido que as marcas estivessem se esticando para normalizar. E não era um tom rosado, mas muito branco, como o couro de certos animais albinos. Longa cabeleira de fios grossos como lã de carneiro, passava da altura dos joelhos. Ainda não a haviam podido vestir com alguma coisa, mas os meninos lhe enrolaram uma manta ao corpo. Nem dava para ser por cima dos ombros, por causa das asas.

Que ela mantinha baixas, em descanso. A membrana machucada já nem tinha cicatriz. As asas eram impressionantes! Uma ossatura finíssima, de falanges longilíneas, recobertas por uma pele flexível. Se moviam com sua respiração. Ela as podia dobrar, envergar, esticar. Teria nascido com elas, ou será que apareceram depois?

Respirava o tempo todo pelo diafragma, aquela “respiração de criança”, que se vê inflar a barriga... Aliás, muito de sua conduta aparentava ser infantil. O olhar desconfiado, a atitude encolhida, o jeito de sentar no chão, com os braços arriados. Pernas e braços pareciam muito longos e ela sem postura para todo aquele gigantismo e anatomia de musculatura enxuta. Como ela conseguira chegar aquele ponto?

De onde teria vindo, que idade teria? Será que estava doente, ou com fome? Não parecia ter noção de sua nudez. Aliás, até Olivia tivera a impressão de que eles nem reparavam nisso, tamanho o susto da noite passada.

Preocupava mais descobrir quem era a estranha moça.

E seus pais? Sua casa?

Por que não falava nada...?

Notas finais
*Nota: existe a síndrome de Nagali, muito rara, em que o feto pode se desenvolver sem impressões digitais. Outro fator para ausência total de pelos no corpo é a Alopecia congênita. Nenhum dos dois distúrbios tem relação com albinismo. # Há também outro distúrbio congênito, particular a animais, chamado Leucismo: a pele do animal é parcial ou totalmente branca devido a ausência de melanina, mas não menos resistente que a dos animais de pele com melanina colorida. Difere do albinismo em fotossensibilidade.