Lucila
17 XVII – Impressões
DE UM EM UM, OS meninos iam à cozinha, beliscavam alguma coisa e voltavam para a sala. Ninguém queria deixar a jovem sozinha, até porque ela olhava de longe, curiosa... Mas não saía do tapete, ficava ali, comportada feito criança pequena que recebeu ordem.
Alguém tentava um “psiu” ou acenava, para ela reagir. Mas não passava disso.
O clima na casa era de suspense, todo mundo meio tenso... Sergio chama Ricky e Rubem num canto da sala:
— Devem ser umas nove e meia, caras. Daqui a pouco, D. Nena liga de novo para cá.
— Pensei também; a gente vai ter que passar em casa, pelo menos... Não sei vocês, mas eu tou com medo dessa menina. E agora, que que a gente faz? – Respondeu Rubem.
— Não tenho ideia – Sergio passou a mão nos cabelos desalinhados, a cabeça fervia.
— Não veio ninguém lá de casa para cá, porque é domingo – disse Ricky – e tá todo mundo dormindo ainda; mas deixa dar umas onze horas para ver se esse telefone não toca...! E se for D. Nena, tá até bom. O perigo vai ser se McGillins ligar! Aí a gente diz o que?
— Que que você disse para D. Nena quando a gente saiu?
— Que a gente vinha pegar um livro da Tia Oli. E D. Nena ligou para cá ontem, já... Aí eu menti de novo, Tia Oli viu, teve que inventar uma desculpa e me deu uma bronca por causa disso.
— Ei... – Rubem cutucou os amigos – Olhem ela.
A menina continuava sentada no tapete, olhando para os meninos atentamente... Sorrindo. Parecia achar graça da conversa escondida. Abraçava os joelhos e suas asas cobrindo seus braços. Olhar de brincadeira, de gracejo. E quieta.
— Será que ela está entendendo o que a gente diz? – Perguntou Rubem.
— Sei lá... De qualquer jeito, não podemos nos preocupar com isso agora. Voltamos os três para casa e os tios ficam de olho nela, ou alguém fica aqui? – E antes de Sergio responder – Você não.
— Ué, por que eu não posso ficar? – Perguntou Sergio, surpreso.
— A ideia de a gente ir lá no mato foi de quem...? Sua, esqueceu? Então essa encrenca aí no tapete olhando para nós é por sua causa. Se tem alguém aqui que merece voltar e dar explicação, esse alguém é você! Eu não volto sozinho para resolver essa bronca, de jeito nenhum!
— Isso de culpa não existe, até os tios disseram isso para mim e Rubem...! Você não viu porque estava com febre no quarto. Mas eles disseram que a gente fez bem em socorrer a moça. E tem mais, sou eu que consigo falar com ela, então eu vou ficar! – Sergio encarou o amigo gravemente.
— Bom, vocês me desculpem – Disse Rubem – Eu posso até ter cuidado da asa dela; mas aqui sozinho com ela, é que eu não fico!
— Por que você tá com medo dela, agora? Ela já parece mais calma, até.
— Não sei, mas não tou tranquilo com ela, não. A verdade é que a gente não sabe o que que ela é; e é bom você se lembrar que ela quase te mordeu!
— Como foi?! – Ricky já estava se irritando. O irmão mais velho de novo.
— É, Sergio foi tentar ajudar e ela reagiu; você estava no banho. Isso foi ontem ainda, antes da gente trazer ela para a sala. Só não pegou Sergio porque eu puxei na hora!
— Foi tudo isso não... – Retrucou Sergio, implicando – A coitada só tava com medo e sem ver nada. Daí ela rugiu!
— Rugiu...?
— Qual a surpresa? Ela fez isso antes e todo mundo viu. Depois a gente ajudou na limpeza dela e não teve nada demais. – E olhando para a menina – Se fosse para atacar, vocês acham que ela estaria assim?
Apontou para ela, que ainda sorria, silenciosa. Quando eles olharam, baixou o rosto.
— Viram? – Continuou Sergio. – E agora? Já que um não quer voltar só para casa e o outro não quer ficar aqui, por que vocês não voltam e eu fico?
— Deviam voltar os três... – Disse Rubem.
E Ricky calado, só pensando. Como foi que aquele inferno começou...?! Já tinha visto muita coisa absurda desde que entrou na banda. Mas tudo aquilo ultrapassava qualquer limite!
Por outro lado, sabia que nem ele nem seus amigos tinham culpa. Todo aquele problema porque tentaram ajudar alguém. Olhou para a menina: totalmente distraída, olhando os fachos de luz do Sol refletindo no teto da sala, parecia criança. Daquele jeito, nem podia afirmar que ela era perigosa... Mas também era cedo para confiar.
Da cozinha, Plácido avisa:
— Tenho um aviso importantíssimo.... Atualmente, andar na rua a pé usando pijamas dá cadeia. E mesmo vocês sendo menores, não posso garantir que cheguem em casa sem ser detidos por causa dos meus pijamas.
Verdade! As roupas deles estavam penduradas no varal. Olivia tratou de recolher tudo e jogou na máquina bem cedo... E as roupas de Plácido eram grandes para eles. Agora precisavam ficar mais umas horas na casa dos médicos, mas e se alguém ligasse, o que é que explicariam? Ou melhor, dariam qual desculpa desta vez? E pelo jeito, o veterinário escutou a conversa.
Sergio queria sorrir, mas se segurou... Afinal, os outros dois queriam ir para casa. Olhou para Plácido, que entendeu e desconversou:
— Aqui nessa casa, a pessoa não come se não se lavar antes, estão lembrados? Cada um num lavabo e depois, para a mesa, terminar o café. – Ordenou e, dando uma olhada para vigiar a menina, voltou à cozinha para ajudar sua esposa.
Aquele era o clima na casa: todo mundo meio tenso, de olho aberto e o tempo todo, todos atentos à jovem. Apesar disso, a rotina precisava existir; os médicos talvez já estivessem acostumados com esse equilibrismo entre tensão e vida comum. Os rapazes obedecem, subindo.
De repente, Sergio para na escada; volta-se. Os olhos dourados dela agora eram assustadores e não sorria.
“Ih, meu Deus...”, pensou o menino.
Fale com o autor