Lucila
15 XV - Âmbar
NATURALMENTE, ninguém estava à vontade na cozinha. Até os bichinhos da casa estavam defensivos. Afinal, somente Ricky tinha voltado para o quarto e os outros observavam da copa se a garota acordaria.... E se ela, sem enxergar nada ainda, resolver sair voando pela casa? Sergio e Plácido num passo e noutro: deixavam o café na cozinha, iam conferir do corredor; voltavam para a cozinha, adiantavam um pouquinho, voltavam para o corredor... Rubem, quase com enxaqueca porque estavam em jejum – e assombrado – nem tentava. Isso, todo mundo tentando se mover na cozinha sem fazer barulho nenhum! Olivia estressou-se:
— Vocês dois, parem com isso! – Reclamou, puxando o marido e o menino pelos braços, cochichando – Vão acabar acordando essa moça e a assustando de novo! Terminem o café de vocês, pelo menos!
— Querida, estou com medo justamente que ela acorde – explicou Plácido – porque nós estamos na cozinha e daqui não daria para fugir.
— Tem a área de serviço e dá para pular direto para a rua do quintal – ralhou a pediatra – ou vocês acham que desde ontem não penso nisso? Agora fiquem quietos e deixem ela em paz, pelamordedeus... Sergio, meu filho, sente e coma logo. Você também, Rubem; desde ontem que não engole nada.
Coitada da médica, estava uma pilha de nervos... Dormira mal, preocupada com o marido que ficou na sala vigiando o sono da moça. Era calma, geralmente; mas já estava nervosa com tudo aquilo. Que clima horrível! Parou e mudou de tom:
— Está certo... Desculpem. Estou com medo, como vocês. – Beijou as cabeças dos rapazes – E cansada também. Preocupada com todos aqui e com ela, não sei o que ela é.
— Ninguém sabe. – Veio o marido dar-lhe um abraço – Ninguém sabe, Oli. Tá tudo bem.
— Tia, desculpe... – Sergio nem levantava os olhos. Chorando. Ora bolas, eram meninos no final das contas! E aquela não era a casa dos tios doutores como eles sentiam. Na cabeça dele, era tudo sua culpa! Cansou e desatou a chorar, falou mais nada. E Rubem só pôde dar um abraço no amigo. Veio a velha amiga puxar o rapaz:
— Venha cá. – Abraçou-o – Você não tem por que pedir desculpas. Nenhum de vocês tem por que pedir desculpas, só fizeram o que podiam. Não achamos que vocês fizeram mal a ela, nada disso...! Ouviu?
E ele respondia? Agarrado no pescoço da amiga, chorando de soluçar, o cabelo longo escondendo o rostinho. O outro, um grandalhão ameninado ainda, chorando porque viu o amigo chorar. Leitor, era um casal de adultos estressados consolando dois meninos impressionados... E se você fosse um dos meninos? Ou um dos adultos?
E tinha mesmo o problema de estarem encurralados na cozinha. E Ricky, fechado no quarto de cima, não notava nada. Aquela giganta reagindo, fariam o que?
O veterinário não conseguia despreocupar.
— Fica todo mundo aqui, vou olhar de novo. Meninos, se acalmem e tentem comer, vou ver o outro lá em cima e reparo nessa criatura também.
Afastou-se... E do corredor, voltou de ré!
— Ela está deitada perto do sofá, agora!
— E dá para sair daqui? – Perguntou Olivia.
— Está quieta, de rosto para o sofá.... Só não entendo como ela se mexeu sem ouvirmos nada.
— Deixa eu ver? – Pediu Sergio. – Se ela reagir, eu falo. Sempre que ela escuta a gente, ela acalma.
Os médicos se olharam.
— Vai comigo, olhando. Se ela avançar, jogo a primeira coisa que eu vir, nela, não quero nem saber! Entendeu? – Avisou Plácido.
Ele e o menino foram à sala, sem fazer barulho. Realmente, ela desceu do teto e agora estava deitada de lado, as asas lhe fechando a fronte. Repararam nas costas: todo o dorso, marcado de queloides dos arranhões, mas nenhum ferimento aberto... Impressionante cicatrização! Respirava fundo, dormindo... Muito diferente da jovem agonizante da noite anterior. Mas quem se arriscava a chegar mais perto?
De repente, a porta do quarto em cima abre, rangendo.
— Tia, — Ricky, sonolento – tá tudo bem?
Não deu tempo de avisar.
— RRrrr... – Ela rugiu baixo!
Plácido se arma com um vaso da estante. Ninguém se move.
Vem a médica e Rubem da copa, correndo! Olivia nunca imaginou ter que se armar com uma faca em casa! Mas foi a primeira coisa que viu. Fazem sinal para Ricky não falar. Todo mundo quieto!
— Rrrr!
Ela se move, mas não abre as asas. Todo mundo estático. Mas ninguém conta com o cachorro; Corto, defendendo os donos, late alto!
Não podia ser pior! Urrando de raiva, a jovem acorda!
Todos correm para o andar de cima, até os bichos! A garota se descontrola! Às cegas, bate os braços tentando acertar o redor, tenta voar! Mas a asa ferida ainda está frágil, não dá para bater direito... E ela cai no tapete. Rugindo, tenta se levantar, não vê nada, tateia, se perde.... Ela começa a uivar, parece pedir socorro.... Ajoelha, engatinha no tapete, deita de novo se encolhendo toda.... Fecha as asas. Está chorando. Cair doeu.
Aquilo comove Olivia, que desce devagar a escada e se aproxima lentamente. Vem todos... Cercam a moça. Ela não tenta mais nada, parece frágil ali no chão. Sergio se agacha e tenta falar com ela, toca-lhe o cabelo, ainda meio sujo de sangue seco.
— Oi... Tudo bem, pequena. Não tenha medo. Está segura.
Ele tenta erguer um pouquinho o enorme corpo da moça para colocá-la em seu colo e ela percebe a ajuda; permite.
— Aproveito para limpar os olhos dela? – Pergunta Olivia.
Tentam; Sergio enxuga os olhos da moça com a blusa do pijama, alguém arranja soro fisiológico e aplicam com algodão... Rubem lembra:
— Vou fechar as cortinas, para ela não agitar com a luz.
A sala fica um pouco mais escura, mas Olivia prefere cobrir o olhar da moça com a mão... Agora sim, seus olhos estão mais limpos. Passando a mão no cabelo dela, Sergio pede:
— Abra os olhos... Você entende o que a gente fala. Pode abrir.
Lentamente, ela os abre e uma surpresa! São amarelos, como olhos de gato! Íris humanas, mas dum âmbar tão claro, que parecem douradas! A propósito, ela não tem sobrancelhas. Claro, o olhar perdido, sem foco... Estranha o ao redor, olha para tudo, parece com medo...
— Oi, menina – Sergio arrisca – Você vê a gente?
Ela olha na direção da voz. O garoto move a palma da mão de um lado para o outro. Ela acompanha! Enxerga sim!
— Que olho lindo, parece de vidro. – Diz Ricky. E ela olha na direção dele.
— Parece que enxerga, mas não muito bem, viram...? – Diz Olivia e a garota olha para ela ao ouvi-la – Age como uma criança míope. Só olha quando escuta ou quando algo se move... Façam silêncio e não se movam. Vejamos como ela reage.
Todos aquiescem.... Mesmo encostada em Sergio, a jovem procura o redor, como se não os visse mais, pois não os ouve. Olivia confirma a suspeita, mas não diz nada.
Já o veterinário, observa tudo apreensivo: para ele, aquela reação da moça parece uma falta da propriocepção, o resultado da união de todos os sentidos humanos. Uma pessoa normal não faz distinção de quando sua audição é usada simultaneamente com a visão e o olfato, os três sentidos atuam e pronto. Com a garota não é assim. Cada sentido parece depende de um fator isolado.
Morcegos apenas parecem cegos.
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