Lucila

14 XIV – Desconfiança


ESQUECER A CORTINA ABERTA num quarto nascente nunca é boa ideia... Mas Rubem simplesmente caiu no sono e agora o sol lhe batia bem no rosto, iluminando tudo! Lentamente, sentou-se na cama, entendeu-se no quarto da casa dos médicos... “Então não foi pesadelo? ”, pensou. Dor de cabeça, cochilara com o cabelo molhado. A porta do quarto fechada; Ricky e Sergio, os médicos...

A menina.

Deu medo. Abrir a porta? Passou o ferrolho.

Pela claridade, eram que horas?

Catou o relógio nas roupas deixadas no chão. Oito e meia! Bom, era domingo. Sentou no tapete, olhava em volta. Várias vezes dormira na casa dos tios doutores; ele tinha doze anos quando entrou para a banda e Olivia tornou-se sua pediatra. Agora, se trancava no quarto de hóspedes da casa dela, morto de medo de descer à sala que conhecia como a de casa. Eles estavam estranhos, será que achavam que a menina tinha sido maltratada por eles? “Aaaah, Rubem! Pelamordedeus! ”, indignou-se, pensando. “Logo a gente, que eles sabem tanta coisa...” E preferiu mudar de pensamento. Que dor de cabeça... Fome? Estava havia horas sem comer.

Encostou o ouvido na porta. Silêncio.

Puxou o ferrolho beeeeem devagar, abriu a porta com o maior cuidado da vida...

.... No corredor, tudo quieto. Portas fechadas. Tio Plácido deve ter dormido no sofá, mas ele é embaixo do corredor de cima.... Cadê os bichos da casa? Nada.

Esticou o pescoço para tentar ver dali a menina e...

O!

CHÃO!

TÁ!

VAZIO!

CADÊ!

A!

MULHER????

Bateu porta, passou ferrolho, chave, tudo!? “Pai do Céu nas alturas!! Ela tá aonde? ”. Parecia que o coração ia voar pela boca! Gelou do susto! E agora, misericórdia? Tio Plácido dormiu no sofá, ela aproveitou e comeu ele!! Ela entrou nos quartos, atacou todo mundo!! Ela pegou a gata e o cachorro!! E...

Batem de leve na porta.

— Rubem? – Era Sergio. Voz mole, de sono.

O rapaz abre a porta, puxa o amigo pelo braço e fecha tudo! E Sergio, sem entender:

— Que foi, homem? Quê que cê tem?

— Você escapou dela! — Rubem, de olho arregalado, sem acreditar no amigo inteirinho na frente dele!

— Eu escapei...? – Sergio com cara tonta, de pijama enorme emprestado do Plácido, descalço, cabelo desgrenhado.

— A mulher, não tá mais no tapete!! Ela fugiu e pegou todo mundo e...

— E tu é um besta.

— Ahn?

— Vem aqui. – E abrindo a porta, Sergio aponta para Rubem sair.

— Vou não!

— Anda, deixa de tua bobagem. Ela vai é acordar braba com você batendo porta, isso sim!

E Rubem queria ir? Sergio cansa, arrasta o amigo pelo braço: — Vai, passa!

Coitado do altão, tinha só tamanho, mas era menino que só ele... O mais novo dos três ali. Olhava para o amigo, para o corredor... Daí Sergio aponta para o teto.

— Olha para cima, bobão.

Todo desconfiado, Rubem olha para cima, bem devagarzinho... Surpresa! A jovem ainda dormia.

Encostada no teto!

De frente para o chão e com suas asas cobrindo-lhe a fronte, mais ou menos do jeito que os morcegos fecham as asas ao dormir. O longo cabelo pendia entre as asas; dava para ver apenas parte de suas pernas, flexionadas; a pele das asas expandia levemente, ela respirava profundamente sem ofegar. Parecia sossegada.

Mas ali na sala, todos a observavam, espantados com aquela criatura que a todo instante os surpreendia com sua estranha natureza... Olivia e Plácido estavam especialmente preocupados. Ora, o veterinário comparou imediatamente a conduta de sono à dos marsupiais noturnos. Normal? Não podia afirmar nada por enquanto, afinal, a luz do sol entra logo para a sala, bem cedo. Ele cochilara alguns instantes e de repente, percebeu a jovem já dormindo próxima ao teto; se fotossensível, explica ter evitado a luz. As mantas estavam limpas, mas Olivia lembrava de tê-la deixado bem enrolada nelas.... Quer dizer que ela, mesmo sem ver nada, se soltou?

— Ela está planando? – Perguntou Rubem.

— Talvez.... Não está apoiada na parede. Espertinha, ficou perto do ar-condicionado. – Respondeu Plácido. – Dorme que é uma beleza, parece até criança.... Espantoso. E você, querida, o que acha?

— Acho que sentiu calor e tirou as cobertas – comentou a pediatra.

— Ela teve febre ontem?

— No termômetro, acusou trinta e sete.... Não sei se nela isso seria febre. Aliás Ricky, e você? – Pergunta ao rapaz, o aferindo. Ele tinha a pele esquentada e continuava alquebrado. Os arranhões desinchados, mas agora uma inflamação persistia. Deu ordem que subisse, ficaria de cama, novo antibiótico, alimentação... Isso, Olivia raciocinando sem tirar o olho da jovem. Não sabia porque, mas cria que aquele mal-estar de Ricky parecia ter ligação com ela.

E Plácido, evitava demonstrar sua apreensão aos rapazes. Ainda os cobraria explicações, mas no instante melhor. No momento, aquela jovem, imensa, estranha e agindo como um morcego, era seu maior temor.

O casal, sempre vigilante, levou Rubem e Ricky para a cozinha. Os bichinhos de estimação os seguindo.

A jovem alheia a tudo.

Sergio?

Sentado na escada, observando. Calado. E apesar de não ter medo, a intuição não o deixava em paz.