Lucila

7 VII – Jalecos


AINDA na faculdade de Medicina, quando contava dezenove anos, Olívia Bispo descobrira em uma rotina de exames, que seria estéril: um mioma crescera em seu útero, obrigando sua ginecologista a realizar uma histerectomia parcial. Ela ainda teria os períodos mensais, para que não tivesse que se arriscar em tratamentos de reposição hormonal. Afinal, aquela era a década de 60 e ainda não se sabia bem sobre as vantagens e riscos do uso de hormônios.

Era noiva de Plácido, médico veterinário recém-formado. Haviam marcado a data e com casa aprontada, já organizavam a entrada dos papéis... Mas os planos de ter uma família numerosa se desvaneciam. Ela preferiu contar-lhe sobre o diagnóstico e sobre não terem filhos. Afinal, ele tinha vinte e cinco anos e sempre quisera ser pai. Se quisesse terminar, ela aceitaria. Não imaginava ouvir:

“Oli, amor, você será pediatra. Certo, não seremos pais biológicos... Mas todos os que você atender, de certo modo, serão nossos filhos também. A única diferença é que a família será tão grande que não caberá em casa. Eu te amo.”

Bem, resolveram que ela se recuperaria e casariam em seguida. E assim, ela tornou-se a Sra. Olívia Vieira Bispo.

E já estavam casados havia trinta anos. Plácido acertara na “profecia”: Olívia era pediatra por vocação e amor aos pequenos. Conheceu a família de McGillins na juventude, foi colega de faculdade da irmã do empresário. Esta se decidira por Neurologia e fora clinicar fora do país. Assim, Olívia, já amiga da família, tornou-se a pediatra dos garotos quando McGillins assumiu os contratos da banda. Ela já cuidava dos meninos havia uns oito, nove anos...?

Quando um integrante chegava aos catorze anos, geralmente passava a ser cuidado por junta médica recomendada por ela. O histórico dele como paciente era repassado à junta e dali por diante ele era observado rotineiramente. E ela sempre em acompanhamento: ligava para os médicos da junta, cobrava condutas.

Ainda assim, os pacientes e ex-pacientes continuavam apegados à “Tia Oli”. Todos eles a visitavam sempre. Os álbuns de fotos dela e Plácido eram repletos de recordações: festas, almoços, domingos na piscina, praia, férias... O casal conhecia também as famílias dos garotos. Até de alguns ex-integrantes mais antigos, anteriores a McGillins. E claro, nem todas as histórias eram bonitas de ouvir. Havia as bem tristes. E seus laços.

Talvez por isso a casa dos médicos fosse encarada pelos garotos como um porto seguro: quando algum deles queria conversar e não sabia com quem, corria para lá. E aí, Plácido dava uma sondada no assunto, puxava conversa, perguntava com o maior jeito que pudesse. Se fosse “assunto de menino-homem”, como ele brincava, iam para a piscina ou para o terraço, levar vento e ele mesmo aconselhava. O muito comum era em torno de sexualidade... Normal, eram jovenzinhos virando adultos. Apareciam novos corações combinando com os deles... As responsabilidades e cobranças da vida pública interferiam... De todo modo, Plácido tinha uma máxima.

O que é uma máxima, leitor? Aquelas frases que só aquela pessoa tem e repete sempre; a de Plácido era:

— Achou a pessoa certa? Achou o resto da vida. E sem o resto da vida, que é que você vai fazer depois?

Quando era coisa da vida difícil deles, Olívia sentava no tapete da sala com o “filho-adotado-paciente” e muitas eram as vezes em que praticamente só ouvia. Quase não comentava, mas o menino sempre saía de lá com a impressão de ter ouvido um sem-fim de conselhos. É que aquela tia do coração, magra, miudinha de olhar ativo ouvia o dobro do que falava. Se bem que havia espaço para eventuais broncas de tia! Ora, menino é menino...

Era assim a casa dos tios doutores.

Assim os garotos chamavam o sobrado grande de jardim sem muros e com bichos de estimação, a quanto da casa deles, um quilômetro, dois? Para eles, um refúgio doado por Deus, pertinho a pé. Nem sempre dava para ir lá sozinhos, mas ligavam para os médicos. Aí, um deles acabava o plantão, pegava o fusquinha conversível (carrinho lindo, que a vizinhança inteira namorava) e passava na casa dos meninos. O “fugitivo” ficava de tocaia na janela do quarto, esperando o toque da buzina Paquerinha. Logo, Olivia ou Plácido chegava:

— Vamos passear? – E disparavam para o sobradão, cantando os pneus faixa-branca do charmoso carrinho. Sempre de capota arriada, para arejar o passeio. Os outros que ficavam em casa, já sabiam o que era; nenhum se metia, “indo passear” junto. Era uma das poucas válvulas de escape que eles tinham na vida. E tempo para todos eles, os tios sempre tinham! A “família que não cabia na casa, porque sempre aumentava”, como o bom veterinário e tio afetivo dissera trinta anos antes.

Ainda bem.