Lucila
8 VIII - Visitas
AQUELA NOITE, a Dra. Olivia estava especialmente cansada. O dia no consultório fora cheio de atividades, as consultas exigiram muita conversa, muita paciência, muito de seu ouvir. Mais por conta de mães preocupadas do que pelo dito de seus pequenos pacientes. Telefonara para o marido, também estava exausto! Tivera um atendimento no jardim zoológico de San Juan. A fêmea de elefante indiano parira uma cria de cem quilos, saudável e fofucho elefantinho. Plácido perguntou à esposa que nome ela achava que o enorme bebê deveria ganhar:
– Oh, céus... Deixe-me pensar... Que tal “Taj”?
Eis um novo no mundo.
Mas isso para eles era rotina; em casa, tinham. Corto, o poodle maltês e Eartha Kitt (isso mesmo, nome composto), a gata persa. Foram adotados por Plácido, após realizar seus partos. Ele bege e cinza; ela, totalmente negra. Sérgio era apaixonado por ela, vivia pedindo para ser o novo dono! E Plácido deixava? Sergio teimava de vez em quando, mas a conversa era sempre a mesma.... Imagine, leitor, o menino de cabelo longo andando atrás do médico, reclamando:
– Mas Plácido, por que eu não posso pedir a Kitt para mim? Eu já prometi que cuido bem dela...!
– Não, senhor! O senhorito mal tem tempo para cuidar de si mesmo e, vamos e venhamos, não podemos contar com uma babá substituta para cuidar da Ear-tha! – Plácido enfatiza sílabas quando reclama – E a Ear-tha é bicho de estimação que precisa de banho a cada quinze dias, dieta regrada, cuidados para evitar pragas de pelo, além de tempo para brincar, porque todo ele precisa de atenção como uma criança dum adulto! – E vendo Sérgio apertar os olhinhos emburrando, aliviava: — Não que você não possa ser um bom dono, meu rapaz. Mas já se exige demais de você, concorda? Quando estiver mais livre desta vida corrida que você tem agora, então eu prometo pensar em dar-lhe a patinha da minha filha peluda em adoção.
– Tá, mas...
– Não, e porque não e acabou-se... Estamos acertados.
Era isso toda vez que Sérgio ia à casa dos tios doutores e Eartha Kitt vinha até ele, dar-lhe boas-vindas enroscando-se em suas pernas, como qualquer gatinho. Olívia acha graça lembrar destas coisas, lembrar que os garotos se tornaram homens em diversos aspectos. Mas ainda birram como pequenos de vez em quando.
Chegava em casa um pouco mais tarde naquela noite. Plácido talvez já estivesse em casa?
Não; o carro ainda não estava na garagem. Deixou a bicicleta na varanda e, olhando em volta, entrou em casa. Atrás da porta, Eartha Kitt já a esperava sentadinha, comportada e abanando a cauda emplumada. Olivia sempre a pegava no colo ao chegar:
– Oi, minha querida! Veio dar o abraço da mamãe? Comportou-se enquanto estive fora? – Olhou pela sala, procurando Corto: — Onde está seu irmão?
E logo saía detrás do sofá, com ar sonolento, o peludo cachorrinho. Olivia desceu do colo a gatinha, que saiu correndo para a copa. Um sinal de que “mamãe chegara e era a hora do leite”. Corto, ganhando uns cafunés da dona, seguiu a irmã felina sem pressa. Já a dona, exausta do dia entupido de afazeres, largou sua enorme bolsa no sofá da sala e trocou os sapatos pelos chinelos. O relógio na parede da cozinha avisava sete e quarenta da noite. “Plácido deve ter ficado preso no trânsito.”, pensou. Conferiu a alimentação dos bichinhos e deixou-os na cozinha, subiu ao primeiro andar.
Não gostava de ficar só em casa após as seis da tarde. Não que aquela vizinhança fosse perigosa. Mas era um sobrado bem ao estilo norte-americano: sem muros, laterais da casa expostas, janelas nestas laterais. E o toalete no primeiro andar não a permitia ficar muito atenta à casa durante um banho, por exemplo... Da escada, observou as janelas. Preferiu deixa-las fechadas. Detestava não poder ouvir a campainha por causa do chuveiro, mas... O cansaço cobrava uma ducha! Chamou Eartha e Corto, que obedeceram seguindo a dona e ficando na porta do toalete. Mesmo assim, tomou com calma um banho.
Deu uma olhada pela porta do banheiro, ao terminar. Tudo quieto, os dois bichinhos sentados, esperando-a sair para descer à sala. Organizou o banheiro.
Desceu à copa de roupão e chinelos, Eartha e Corto a seguindo. No relógio, oito e dez... “Emergência bem na hora de largar, será...?”, pensava no marido. Evitava ligar para a clínica; se não atendesse, ficaria mais preocupada. Poderia ser até um pneu furado, e Plácido era daqueles que não ligava para avisar, saía logo resolvendo o problema e só depois ligava... Fazer o jantar a distrairia.
– Que tal uma sopa, queridos? – Brincou com os bichinhos, que pareciam entender o que ela dizia. Tratou de procurar a caçarola favorita de Plácido, legumes e verdurinhas na geladeira, temperos... Já se despreocupava.
De repente, tocaram a campainha. “Ué, nem ouvi o carro na garagem...”. Mas tocavam com urgência, vários toques! – Calma!! Já vou!! – gritou a médica, lembrando que deveria ter ficado quieta. E não paravam de tocar! Assustada, tratou de pegar um taco de golfe do marido. Era só... Precaução.
Corto começou a latir. Eartha farejou o ar e correu para a cozinha.
Olivia espiou por trás da cortina da janela, mas não conseguiu ver quem era. Então, ouviu:
– Tia Oli, sou eu!! Atende, por favor!!
Abriu a porta correndo e nem pensou, puxou o menino para dentro de casa, o abraçando. Ele chorava seco, doendo! Tentou acalmar:
– Calma, querido, calma! O que foi que houve...?
Então sentiu o roupão ensopar... Afastou o rapaz e notou suas roupas e o atoalhado do roupão cheios de sangue. Olhou pasma para o menino, que soluçou:
– Tia, por favor, ajuda a gente! Ela tá muito ferida!
Ouviram o barulho do fusca entrando na garagem. Eram nove e quinze da noite.
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