Notas iniciais
Não sei como cheguei aqui, mas não foi sozinha, só tenho a agradecer a vocês leitores. Estou emocionada. Este é um dos meus capítulos favoritos, foi uma delicia revisar ele, e fiquei ansiosa para postar. Espero que gostem. Beijos L.

— No que você pensou nas últimas vezes em que se transformou?

Meu cabelo estava úmido e grudava em minha nunca, o ar gelado transformava minha respiração em fumaça, o som da chuva sobre a terra parecia um retumbar rítmico, como se o céu cantasse uma canção antiga para a floresta.

Minha resposta era incerta, pois meus sentimentos mais recorrentes tinham nome e endereço, assim como uma montanha de fatores: A escola.

Sam provavelmente não se importaria com meu desabafo, quando tudo que importava para ele era o porquê de eu existir, ou como, ou se importava o suficiente para começar uma luta novamente.

Ele estava lá, de pé, em toda sua arrogância constante, vestindo apenas uma bermuda, ignorando o vento e a água. Ele tinha me explicado antes como sua temperatura podia ser alta, quão quente ele sempre seria, podendo suportar qualquer tipo de temperatura baixa do ambiente. A teoria parecia não se aplicar a mim de todo.

Carlisle tinha testado, na forma lupina eu era apenas normal, minha temperatura remetia a de um lobo comum, não a de um lobisomem, então enquanto permanecia debaixo da chuva a espera do término do interrogatório de Sam, meu corpo tremia levemente pelo frio que penetrava na minha roupa molhada.

Apertei meus lábios para fazê-los parar de tremer.

— Na maioria das vezes, medo. Ao menos foi assim na primeira vez.

— Isso é estranho, para nós a raiva é o que move a primeira transformação, pois quando a febre vem, as emoções se tornam mais agressivas, e perder o controle é o ápice.

— Febre... eu não me lembro de ter febre.

— Você era apenas uma criança, o estresse deve ter sido grande demais para seu corpo, a ponto de não perceber o que estava acontecendo com seu organismo.

Eu soube no mesmo momento o que ele estava tentando fazer.

Estava querendo que eu me lembrasse desse episodio em particular, da primeira vez em que me transformei, e isso, não ia acontecer, eu não queria e não iria.

— Preciso ir, tenho dever de casa.

Eu realmente tinha folhas e folhas de exercícios extras, então, eu não estava dando uma desculpa, apenas usando um fato, não olhei em seus olhos quando comecei a descer pela trilha que voltava para a casa dos Cullen, ele não disse nada enquanto eu partia, porque era assim, às vezes nos despedíamos, às vezes não dizíamos sequer um “a”.

O compromisso era simples, eu o encontrava, me transformava e depois lhe contava tudo o que sabia sobre minha vida perdida.

No caminho para casa pensei em como tinha sido embaraçoso o primeiro dia de aula, quando eu deixei aquela garota sozinha, sem dizer meu nome, sem entender o que tinha acontecido. Eu passei o resto do dia ignorando todos ao redor, os professores pareciam impressionados com meu desempenho nas atividades em sala de aula, e quando os elogios vinham eu apenas encarava minhas mãos e assentia, tentando ignorar o peso constante dos olhares ao redor.

No momento em que Jasper ligou no final do período eu já estava correndo para fora do prédio, ao entrar no carro me afundei no banco e permaneci em silencio por todo o caminho, meu guardião não disse nada, seu silencio condizia ao meu.

Nos três dias seguintes eu fiz o mesmo, entrei, assisti às aulas, respondi aos exercícios, me sentei fora do refeitório para comer e no final do dia corri para o carro onde Jasper me esperava pacientemente, seu silencio me deixando confortável e finalmente relaxada.

As únicas partes em que me sentia eu mesma eram quando estava com Sam ou Jasper, eles não precisavam das minhas palavras, apenas da minha força e atenção, era o mais perto de alivio que eu tinha nos dias.

Então, quando na sexta feira eu acordei sozinha em meu quarto fiz o que sempre faço, tomei banho, penteei meu cabelo, vesti um jeans preto do armário, e uma camisa branca de algodão.

Só me dei conta da diferença quando terminei de amarrar os cadarços do tênis.

Onde está você Alice?

Ela sempre era a primeira e a ultima pessoa que eu via durante o dia, sua preocupação com meu vestuário marcava todas as manhãs, então era estranho acordar e não tê-la vasculhando minhas roupas, as quais ela sabia de cor quais eram, pois as comprara.

Quando entrei na cozinha havia mais estranheza, não foi Esme que encontrei e sim Rosalie, que fazia um sanduiche engraçado, olhei ao redor com desconfiança, coloquei minha mochila sobre a mesa e me sentei, quase imediatamente inspirei o ar em busca de cada membro da família.

— Estão caçando, somos só eu e você.

Não demostrei qualquer emoção facial, mas internamente meus órgãos se reviraram de nervosismo a perspectiva de ficar tanto tempo as sós com Rosalie, a única do clã que não havia se decidido sobre mim.

— Fez seu dever de casa?

Ela colocou o prato a minha frente, tinha um cheiro bom, mas sua forma ainda sim era engraçada, um pouco desleixada.

— Sim.

Não comecei a comer imediatamente, pois ela continuou ao meu lado, fiquei imóvel, esperando por sua próxima ação, quando ela se posicionou atrás e puxou a liga que prendia meu cabelo em uma trança desleixada que eu tinha tentado fazer, meus ombros relaxaram. Ela começou a desfaze-la e eu comecei a comer, e assim estabelecemos um padrão.

Ao menos eu achei, ao invés de refazer uma trança elaborada, ela apenas soltou todo meu cabelo sobre os ombros e o bagunçou para um pouco de volume.

— Você fica bem em tranças, mas seu cabelo é lindo demais para esconder, use-o solto mais vezes, vai fazer você parecer mais jovem e desleixada, ao invés de um soldado rígido.

O comentário ácido não era para ofender, eu entendi o conselho, e também me senti insultada, tinha trabalhado muito em minha postura e achei mesmo que estava fazendo um bom trabalho, da mesma forma como tinha tentando de verdade apreender a trançar o cabelo.

— Hoje eu vou leva-la para a escola, você precisa melhorar seu desempenho social, está um desastre.

Ela me deixou sozinha na cozinha, de boca aberta, enquanto corria em sua velocidade para o andar de cima e voltava colocando botas pretas de cano curto ao lado dos meus pés, numa ordem silenciosa e rígida para que eu trocasse.

Seus olhos encontraram os meus com cinismo, fechei a boca e terminei de comer meu sanduiche, quando me inclinei para pegar as botas senti meu rosto corar, os saltos eram grandes e grossos, eu nunca conseguiria ficar sobre eles.

— Não se preocupe, você ainda é metade vampira, seu equilíbrio nato vai mantê-la em segurança.

— Mas eu...

— Não.

Não. Apenas um não, autoritário e certeiro, simples assim, ela me tinha em suas rédeas, e eu não podia fazer nada mais do que tirar meus confortáveis tênis e ficar sobre botas de salto.

O tempo estava cada vez mais chuvoso, mas Rosalie dirigia como se estivesse andando sobre nuvens, flutuando sobre o asfalto, como se ele não fosse digno dos seus passos, sua presença subjugava o mundo.

— Você não é exatamente uma adolescente completa, há uma parte dentro de você que ainda exige tempo para crescer, e devido a tudo que passou também não é uma adulta.

Ela mais do que ninguém sabia que eu não gostava de tocar no passado, mas as alfinetadas de Rosalie eram sempre educativas, ao seu modo.

— Enfim, como está frequentando o ensino médio, precisa agir como uma coisinha pequena, fútil e rebelde.

Meus olhos se concentraram nela de forma critica, eu não gostava de como ela estava conduzindo as coisas, aqueles adjetivos não faziam parte da minha natureza, na verdade, eu acharia muito difícil me tornar... fútil, ou rebelde.

— Você quer que eu seja...

— Não que seja, apenas que aparente ser.

— Não consigo, não sou assim.

Sua parada abrupta fez meu corpo se impulsionar para frente, quando olhei ao redor percebi que tínhamos chegado à escola, Rosalie estacionou e desligou o carro, olhei para o painel enquanto tirava alguns fios de cabelo do meu rosto.

— É o seguinte, vamos fazer um pequeno jogo.

O cabelo de Rosalie estava preso em um coque solto, quando tirou os ósculos caros e elegantes vi seus olhos negros, mais um sinal do porque ela estava ali agora, me levando para um dia de aula normal.

Eu sabia que ela era como Jasper, ainda sensível à pureza do sangue.

Sabia muito bem como ela se sentia, os cheiros às vezes eram tão fortes que me deixavam tonta, o sangue humano era tentador, nunca me permitiria, não mais, mas ele agora estava ali, ao meu redor, passando por meu nariz, preenchendo meus pulmões, fazendo meu coração bater mais forte e selvagem.

É uma luta controlar, mas se não fosse assim, eu não estaria ficando tão boa em ignorar.

Quando minha atenção se voltou para minha responsável percebi que estava divagando por um tempo, sua expressão era de paciência arrogante.

— Que tipo de jogo?

— Quero que você olhe para todo o estacionamento, observe.

Meu cenho franze imediatamente, não sei o que ela quer.

Então só olho, observo-os, estranhamente, começo a sair do meu corpo, como se estivesse me transformando, eu flutuei, minha mente fluindo com o fluxo de adolescentes se agrupando e se espalhando em um espaço tão simplório e temporário.

— Concentre-se e localize eles.

Meus olhos são atraídos para uma luz branca, uma luz que não brilha, apenas existe, porque é assim que ela se vê não é?!

Erin anda sozinha no meio de todos, seu jeito atrapalhado com a bolsa cheia, os livros espalhados pelos braços, seu rosto sempre perdido no meio de um pensamento, ela fazia muito isso.

— Você não vai querer andar com os desajustados, já chama atenção demais sendo o que é.

— Eu não...

Paro no meio da frase, porque sei que ela se refere a minha aparência, é não é uma das coisas que eu goste de discutir.

Escolha-os.

A voz é como uma lembrança antiga, sussurrando meu próximo passo.

Eu os vejo, quase imediatamente, não escolho é claro, é apenas a maneira como o riso fácil desliza pelo ar, ou como os sorrisos são reais, verdadeiros e divertidos, como se fossem eternos e nada além daquele momento importasse.

— Apenas preste atenção, na forma, no que parecem sentir, no que você provoca quando passa por eles, use isso como se fosse um manto, intimide-os, com pretensão de faze-lo.

O fluxo aumenta cada vez mais, e Erin continua lá, se movimentando, como se não se importasse em não se encaixar, com seu cabelo branco sendo empurrado pelo vento gelado, os olhos violeta procurando algo que sempre está perdido.

— Esquisita... foi assim que ela se denominou.

Ao meu lado Rosalie pareceu analisa-la também, sua voz soou até admirada quando falou novamente.

— Não vê?! ela usa isso a seu favor, para mantê-los longe.

Me virei para ela em confusão.

— Isso não é algo negativo?

— Sim, mas alguns preferem zonas de conforto das quais provém consequências.

Eu nunca escolheria algo assim, fiquei mergulhada na solidão por muito tempo, sabia quão ruim era estar sempre só, e mesmo que chamar a atenção não fosse meu objetivo, era complicado lidar com a que eu já tinha ao redor, com os Cullen e com Sam, todos estavam me observando.

— Eles, são eles.

Ela estava apontando para o grupo de jogadores de antes, os que riem da vida como se não houvesse amanhã, as brincadeiras podem ser infantis, mas eles estão uns com os outros, unidos. Então há ele, um garoto em particular ri com outra garota, como se fossem parceiros, não romanticamente, mas companheiros de luta, a luta contra o mundo.

— O que têm eles?

Meus olhos ainda estão presos nos dois amigos, agora ele está com a garota sobre o ombro, girando ela enquanto ri sem parar, não consigo prestar atenção nas palavras, só em suas expressões.

— Você precisa se infiltrar, adentrar a camada em que vivem, precisa fazer parecer que é uma deles, só assim, vai passar despercebida, mesmo que de forma que a esconda... eles serão seu escudo.

A borda fácil de seus lábios se curvando, o olhar brilhando em contentamento, a forma como ela fecha os olhos com força e seu sorriso se rasga em satisfação.

— Não acho que eles vão querer se juntar a mim.

Eu sei disso, porque nunca sorriria como eles, não acho que possa algum dia.

— Pare de duvidar de si mesma, agora vá, tente não cair, e sempre responda quando lhe dirigirem a palavra, faça o que seu instinto manda, sem se esconder e fugir, responda aquela voz cálida e caótica que fica no fundo da sua cabeça.

Que voz? Eu não conseguia entender metade dessas coisas estranhas e maravilhosas que ela disse.

Fico parada esperando meu instinto indicar algo, mas só consigo ficar olhando para o grupo e pensando em como eles eram cegos, protegidos pela ignorância, eles nunca saberiam o que é estar desse lado do mundo.

— Ah por favor, vá logo.

Sua impaciência move meu corpo, pego minha mochila e sequer arrisco um ultimo olhar para Rosalie, apenas desço e sinto o chão se estabilizar sobre meus pés, a sensação é a mais estranha, eu estou mais alta, até mesmo minha postura se tornou mais inclinada para trás, como se fosse a única forma de me impedir de cair para trás quando começasse a andar. Fecho a porta do carro e Rosalie arranca imediatamente, sei que ela fez de proposito assim que dou dois passos cautelosa para me afastar do carro.

Ela queria chamar atenção ao sair, porque ela era assim, agora toda aquela atenção estava concentrada em mim.

Quando começo a andar em direção ao prédio principal não posso me impedir de olhar para os meus pés, pois mesmo que esteja andando normalmente, ainda me preocupo que meus pés virem a qualquer momento, atravesso o estacionamento, sentindo o olhar mortal de Rosalie, como se ela estivesse logo atrás, vigiando cada passo, uma caçadora desafiando sua presa a se esconder.

Eu não era uma presa, nunca era, então lenta e paciente eu ergui meu olhar, o vento soprando e levando minha jaqueta para trás, pareço estar em câmera lenta, minha pele se arrepia assim que vejo-os se afastando, como se abrissem caminho para a noiva na igreja.

Sinto o sangue subir quente para o meu rosto, sei que minhas bochechas estão coradas.

Estou perto, muito perto para quebrar este encanto amaldiçoado, só preciso aguentar mais um pouco e não desviar meus olhos nunca da frente.

Como uma criança muito curiosa, não posso me impedir de sentir aa presença deles, do grupo ao qual Rosalie me designou, então com a teimosia surgindo como uma ladra, meu olhar é roubado de mim.

Em uma respiração nervosa eu vejo-os, todos parados, me encarando abertamente, as brincadeiras morreram com algo mais, seus olhos acompanhando apenas a minha aparência.

Mas não o casal de amigos, não, eles continuam conversando entre si, sua intimidade prevalecendo sobre qualquer outra coisa, ao menos era o que eu pensava, pois no segundo seguinte, como se atraídos pelo meu olhar, minha curiosidade gritando para eles.

Eles me viram.

Ambos se virando ao mesmo tempo, em sincronia, o movimento sutil, a consciência descompassada.

O rosto da garota se fecha, sua expressão se torna intimidadora instantaneamente, da mesma forma que Rosalie dissera para eu fazer, mas não consigo não é, está não sou eu.

Tudo que eu faço e segurar seu olhar e ficar encantada com sua humanidade.

Ela é bonita, para uma humana, seus cabelo castanho ondulado e olhos cinza são algo mais, famintos, fico impressionada com sua força, era como se ela tivesse muito pelo que lutar, muito o que proteger, desconcertada desvio meus olhos instantaneamente e entro no prédio, fingindo que todos os outros não existem.

Ao contrario de tudo que Rosalie premeditou, me vejo obrigada a me aproximar da albina, pois ela tem seu armário ao lado do meu, e quando seus livros se derramam ao chão não tenho outra opção se não se agachar e ajudar a pária.

— Você não precisa me ajudar.

— Você não conseguiria equilibrar tantos livros com apenas dois braços e quarenta e três quilos.

Ela parou de pegar os livros e me encarou com a boca escancarada em um perfeito “o”, seus olhos me encarando com uma descrença visível demais.

— Ok... isso foi estranho, até para o meu padrão.

Fiquei parada esperando por uma explicação, estava assustada demais por sua reação, e mais ainda pelo o que eu tinha acabado de falar, uma adolescente não deveria saber o peso em ossos e carne de outra adolescente, ou a estimativa de sua força, ou que seu sangue lembrava a mel e canela.

Estranha

Fiz o que eu fazia melhor.

— Me desculpe.

Não ajudou muito, ela parecia um pouco encabulada, suas sobrancelhas translucidas se franziram, o efeito era catatônico, sua pele do cenho se franzindo em varias camada, cada uma com um sentimento de estranheza diferente, estagio um, estagio dois...

— Você não é daqui né?!

Refleti sobre o que me entregara.

Seria minha aparência, sempre um chamariz composto de cabelos pretos cor de corvos, ou os olhos, tão distintos, um da cor da terra e outro da cor do céu, ou talvez fossem minhas roupas. Acho que no final Alice estava certa em insistir que eu soubesse o que estava indo vestir. Quer dizer, ela não poderia saber o que eu...

— Seu sotaque é tão elegante, de onde é? Espanha? Brasil? Portugal?

Oh. Foi isso... de todas as coisas estranhas que ela poderia questionar, o que me delatou, mas não de forma a por alguém em perigo, foi a forma como eu falava.

Itália

Meu cérebro sussurrou em desespero a resposta que nunca sairia por meus lábios.

— Eu... eu viajo muito...

— Ai caramba, você é uma daquelas meninas não é?! Com pais do exercito, ou excêntricos ciganos que viajam de país para país, devorando todas as culturas e línguas até chegar a uma linha tênue de incerteza...

Ela estava divagando, e sua divagação salvou-me de ter que inventar alguma desculpa que eu provavelmente falharia em construir. De qualquer forma, as pessoas ao redor começaram a reparar, afinal, ainda estávamos agachadas no chão, peguei os últimos livros e automaticamente guardei eles no armário aberto, o que não me pertencia é claro.

— Sim, é isso.

Ela também levantou, mas daquele jeito dela, quase caindo e levando os livros junto, não caiu, ainda bem, acho que ela estava muito acostumada com seu próprio corpo falho.

— Isso é tão incrível, eu adoraria viajar pelo mundo, na verdade gostaria de ir para qualquer lugar que não ficasse a menos de 14°, mas ai outra coisa aconteceria, tipo minha pele hipersensível pegando fogo como se eu fosse uma maldita vampira de Bran Stoker...

— O quê?

Me tornei muito gelada, fria, suas palavras zumbindo nos meus ouvidos.

— Ah nada, só estou nervosa sabe, e quando fico nervosa começo a falar um monte de coisas sem nexo...

— Pare de ser bizarra Bates.

Erin é interrompida bruscamente, por ninguém menos que a morena do grupo que Rosalie escolherá, ela para casualmente, como se não tivesse nem pensando em faze-lo, e assim, continua, seus olhos não se dirigem a mim.

— Pare de assustar a novata, ela vai pensar que o resto de nós é como você.

Meus olhos piscam apenas uma vez, tudo que faço é observar, a arrogância que goteja da menina de olhos valentes, o encolher de ombros da albina.

— Ayira.

Não faço ideia do porque acabei de falar meu nome, e a próxima reação das duas é em sincronia perfeita.

O quê?

Seus olhares se cravam totalmente em mim. Esse deveria ser o momento em que eu fujo, mas se eu fizer isso, de alguma forma, Rosalie vai descobrir, e não posso imaginar o que ela me faria. Respiro fundo e mantenho meu olhar alternado entre as duas.

— Meu nome é Ayira, como vocês se chamam?

— Erin.

— Silver.

Elas falam juntas novamente.

Eu fiz outra coisa errada, por que enquanto Erin sorri como uma louca, a morena, Silver, tem essa expressão quieta demais, como se tivesse perdido suas próximas palavras, prendo minha respiração enquanto ela se decide.

Seu rosto delicado cora e sem mais nem menos ela se afasta rapidamente, fico observando seu caminhar apressado e o sinal toca, indicando que minha primeira aula está prestes a começar.

Me viro para a albina, que ainda sorri, só que dessa vez admirada, molho meus lábios com a ponta da língua.

— Foi um prazer.

Saio antes que ela diga alguma coisa, passo toda a aula pensando:

Silver, Silver, Silver, Silver...

Tão adequado, feito exatamente para expressar sua essência, seus olhos feitos de cinzas, sua força como ferro, ou suas emoções como nuvens pesadas.

Apenas Silver...

Porque eu estava tão impressionada com Silver e não com Erin?

Quando chegou a hora do almoço decidi que talvez devesse ir para o refeitório, no meio do caminho vi Silver e seu amigo rindo e indo na mesma direção, meu corpo retrocedeu automaticamente, acabei me escondendo em um dos boxes do banheiro, eu sequer estava com fome, então fiquei lá, olhando para a tela do presente de Jasper, esperando os segundos passarem para a próxima aula.

Minha ultima aula do dia era biologia, não achei que deveria me preocupar, não até estar em sala e ver Erin vindo se sentar ao meu lado, ela não tirou os olhos dos meus, soube assim que ela tinha calculado esse encontro. Seu cheiro invadiu meus pulmões no momento em que respirei fundo, desviei meus olhos, desconcertada pela queimação repentina na minha garganta.

Quando eu me alimentara pela ultima vez?

Ah... o sanduiche de Rosalie, eu não trouxe nada de casa e evitara andar pelo refeitório.

Mel

— Então... acho que somos parceiras agora.

Canela

— Sim.

Me afasto impondo espaço entre nossos corpos, evitando o seu calor.

— Você é sempre tão calada? Ou é só uma daquelas coisas de novatas?

Olho para frente, sentindo pequena picadas em minha garganta quando abro a boca e provo o ar.

— Eu falo.

Seu rosto se contorce em um sorriso tímido, sangue correndo para suas bochechas. Isso é uma tortura.

— Bem, isso é evidente, mas me refiro a conversar, tipo, papo furado.

Meu olhar devia transmitir toda minha confusão, meu esforço, minha dor.

— É que você é tão formal, parece até que estou tentando falar com minha mãe.

Ela não parece desconfortável, apenas, insuportavelmente curiosa e persistente. Ela se mexe em seu assento e seu cabelo cai para frente do rosto, fios tão brancos quanto à neve.

Canela

— Me desculpe.

Seus dedos rosados se levantam em um gesto de desdenho engraçado.

— Ah, não, não se desculpe, não é uma coisa ruim, é só que sei lá, parece um mecanismo de defesa, ou falta de traquejo social, sei lá, estou falando coisa com coisa de novo.

Continuo encarando seu rosto em busca de respostas, em busca de controle, em busca do porque de Erin estar aqui, agora, falando comigo, como se quisesse encontrar o algo que está sempre procurando.

Meu silencio parece estar a deixando desconfortável, porque continuando encarando-a, percebo com vergonha que estou fazendo exatamente o que Rosalie disse, estou intimidando Erin.

Porque parece mais fácil com você, e não com Silver?

A pergunta rói meus pensamentos assim como a fome ao meu estômago.

— Eu só não sei o que dizer.

As palavras tem um tom de desculpa, mas escorre impaciência infantil.

— Bem...

El parece confiante, animada e agitada, mas isso morre assim que a voz desliza até nós.

— Eu gostaria que a senhorita Bates se colocasse a frente da turma e ministrasse a aula no meu lugar, visto que ela se compromete tanto em estar uma nota mais alta do que eu.

Erin Bates estava em problemas, o professor a encarava com uma expressão de censura, seu desafio implicava um sermão, eu não tinha me dado conta de que a aula já tinha começado, estava realmente envolvida no derramamento de palavras da minha “parceira”.

— Ahn, não muito obrigado Sr. Emmanuel, estou confortável no meu lugar, sou ótima como aluna.

Suas mãos se cruzam sobre a mesa e ela ignora os murmúrio agitados da sala.

— Tem razão, está ultima afirmação é verdadeira senhorita Bates, você é tão ótima aluna, que já passou nessa matéria no ano anterior, tenho certeza que seu verdadeiro professor, da verdadeira matéria desse horário, vai ficar muito feliz em ter sua presença, não?!

O rubor de Erin era uma coisa a ser admirada, era como jogar tinta vermelha sobre uma tela em branco, toda sua pele era tingida, elaborando pequenas veias roxas e azuis que serpenteavam por cada pedaço de pele nua.

Mel... Canela...

— Nossa, não é que você tem razão!

O movimento de sua cabeça é mais agitado que de suas mãos.

—Sim, eu tenho.

— Bom, então, eu só vou me levantar, sabe, e sair, pela porta, essa que você está abrindo... nesse momento.

A sala toda rompeu em risos de deboche, e Erin se levantou, recolhendo seus pertences, a ultima coisa que fez antes de partir foi deslizar um pequeno pedaço de papel para debaixo de um dos meus cadernos, com um ultimo olhar lilás, ela saiu da sala, o professor acompanhando-a até que estava fora de vista.

A aula retomou o seu ritmo e eu ignorei o papel, mas ele parecia queimar debaixo do caderno, como se exigisse minha atenção.

No momento em que tudo terminou, e eu estava na segurança do estacionamento quase deserto, finalmente o peguei, pois estava em agonia, Rosalie tinha se atrasado e tudo que eu não podia mais suportar era ficar parada fingindo estar fazendo nada.

Desdobrei um papel e fiquei paralisada por um momento.

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Ligue quando quiser melhorar sua comunicação

Bem vinda a Forks, novata.

O número estava escrito de forma elaborada, sua letra era elegante e tão formal. Diferente da bagunça falante e agitada que sempre estava esbarrando nas pessoas ou derrubando coisas pelo caminho.

Tinha ficado tão tensa antes, que o suspiro que dei sem seguida, relaxou todo o meu ser, antes que Rosalie chegasse freando de forma abrupta ao meu lado, fazendo todo meu corpo se sacudir impressionado com sua destreza.

Entrei no carro e esperei seu interrogatório, seu cabelo estava solto, o rosto fresco e os olhos dourados.

— Então, como foi à experiência.

Franzi meu cenho com suas palavras, mas suspirei aliviada quando as palavras se derramaram.

— Eu tenho dois nomes, e um número de celular...

Seu sorriso foi ferino, e tão assustador quanto qualquer uma das outras coisas que ela fazia quando se dirigia a mim.

— Eu lhe disse, agora, tudo ficará bem.

Quando pegamos o caminho para casa, me permiti virar para a janela e observar a paisagem fria e escura de Forks, um sorriso tímido surgiu em meus lábios, mas morreu assim que me dei conta do que eu estivera esquecendo quando fiquei ocupada com a pequena missão que Rosalie me impôs.

— Não, nada ficará bem, estou atrasada.

Meu coração se acelerou, e meu corpo todo ficou tenso novamente.

— Não se preocupe, o cachorro vai estar te esperando.

A voz de Rosalie assobiou com desdenho feliz.

— Não o chame assim, por favor.

Minha expressão se fechou em agonia, eu não gostava que ela dissesse coisas assim, e era totalmente inconveniente nesse momento, quando eu estava tão preocupada com esse deslize.

— Você não é nada divertida Ayira.

Não deixei sequer ela entrar com o carro na garagem, larguei minhas coisas, abri a porta e saltei com o carro ainda em movimento, meu corpo se petrificou instantaneamente e comecei a correr.

Minhas pernas estavam tão rápidas e leves, enquanto pulava pedras e troncos senti meu sangue retumbar mais forte, a sede queimando em minha garganta enquanto meu corpo queimava as ultimas reservas da minha força.

Quando senti seu cheiro quase desmaiei de alivio, ao invés de me desligar completamente eu derrapei na terra e encarei seu rosto, abaixando levemente meus olhos, a espera do sermão.

Havia nada em seu rosto, estava tão estoico e observador, minha respiração veio em arfadas que queimam meu peito, com esforço e com sede.

O silêncio da floresta era tão ensurdecedor quanto o de Sam, ele estava tão parado que me faz querer rasgar minha pele, a sensação tão forte que faz com que meu sangue esquente mais rápido, descongelando qualquer traço do vampiro em mim.

Minha pele parece mais suada, quente demais, me sinto febril.

Eu não gosto da forma como ele está me observando, sua arrogância ou desdenho ou impaciência são muito mais bem vindos do que esse silencio sem nome.

Meu corpo treme.

Eu me sinto na borda.

Uma centelha de fumaça prateada começa a me rondar.

Seus olhos se escurecem mais, um músculo da sua mandíbula se contrai.

— Vou leva-la até o conselho.

E assim, como se o mundo estalasse, aquela raiva borbulhante muda, fogo e gelo se tocam na minha alma, meu olhar suaviza, e meu coração bate mais forte, antes que eu irrompa em uma explosão de poder, uma cópia de sorriso ferino de Rosalie se rasga nos cantos dos meus lábios.

Quando me sacudo e me livro dos restos de minha roupa, levando meu olhar de lobo para Sam, quem tem um novo brilho em seu olhar, um que eu nunca esqueceria, meu corpo, minha mente e minha alma sentem um respeito, pelo homem, pelo lobo, e finalmente, eu faço uma reverência em reconhecimento.

Sam me dá um sorriso selvagem de lobo.

— Vamos caçar.

Eu corro e assim que sinto seu lobo emergir as minhas costas, corro ainda mais, com fome, com esperança, com redenção.

Notas finais
Eu gostaria mesmo de saber a opinião de vocês sobre a Erin e a Silver, e também suas expectativas em relação ao encontro de Ayira com os anciões. Espero ansiosa por seus comentários.