Luar Puro

14 Destinada


Notas iniciais
Eu não sei vocês, mas é tão difícil para mim obedecer minhas próprias regras. Como esse cronograma que fiz com tanto zelo, só para bagunçar ele todo. Agora eu estou com esse capitulo exorbitante que precisei dividir em dois, e ainda assim, tão grande. Bem, espero que não seja de todo um tédio, eu realmente estou passando dos limites.

O sonho era maravilhoso.

Eu corria pela floresta, o vento frio soprava pela pelagem densa e branca do meu corpo selvagem, a terra tremia por onde eu pisava, assim como a água cantava enquanto se derramava.

E há o som deles, correndo em desespero, alertas a um perigo persistente e natural. É apenas mais um ciclo, apenas mais uma vez, a natureza cumprindo seu objetivo.

No sonho eu sou loba e como uma mãe carinhosa a floresta me acolhe assim que começo a correr, a música silenciosa do sacrifício cantando e retumbando por meu sangue, os cervos correndo, impulsionados pelo pânico conjunto, em sua própria dança de vida ou morte.

Então ele emerge, uma forma negra como a sombra de um carvalho antigo, seus olhos como o sol me queimam profundamente, o significado do seu olhar é simples como o respirar, ele apenas aponta para a presa.Meu instinto queima diante da sua ordem, meu sangue canta com a ação automática do meu corpo, e nós lutamos, lado a lado, por vida, por morte, por restituição.

Simples assim, a morte deixa de ter o significado de antes, não temo mais, agora eu faço parte dela, do seu propósito maior, pegar e depois devolver.

Dessa vez, não sou eu quem mata, eu apenas faço a armadilha para o cervo indicado, é Sam quem o mata, cravando seus dentes no pescoço do animal, imobilizando ele sobre o solo até que pare de se debater, a vida escorrendo dos seus olhos assim como a água escorre pelo riacho. Quando se afasta, ele faz um sinal de oferenda, como se estivesse demonstrando mais uma vez, que a partir daquele momento, eu estava percorrendo um caminho muito curto e cuidadoso que significava coisas infinitas, mas principalmente a aceitação que eu almejava com tanto ardor.

Eu me alimento e faço sinal para que se junte a mim.

Assim que terminamos, esperamos pelo sinal da floresta, assim que devolvemos os restos mortais do animal a terra, o retumbar vem, o deleite do sangue derramado com permissão nos mostra o caminho de volta para casa.

Aceita

Meus olhos se abrem sonolentos, o sonho se dispersando numa letargia vagarosa, meu corpo se estica preguiçosamente, os músculos se soltando e expandindo por baixo da pele, há esse frescor no ar, o frio se mantém persistente lá fora, serpenteando em toda a extensão da janela, procurando uma forma de se apresentar no ambiente. O cheiro de terra entra por meu nariz e meus olhos procuram ao redor pela fonte, olho cautelosa para as minhas mãos, e meu corpo esfria instantaneamente, aguçando minha visão, me deixando rapidamente ver as pequenas partículas de terra e musgo por baixo das minhas unhas, suspiro aliviada quando o frio vai embora e dá lugar ao calor, normal e constante.

Não foi um sonho, foi real...

Suspiro suavemente e encaro o teto sentindo os cantos da minha boca se inclinarem tímidos para cima, não tinha sido uma comemoração de todo, era mais como um gesto de acordo, uma promessa de paz incitada por meu mentor lobo.

Meu sorriso se liberta acanhado, a sensação é estranha e libertadora, estar feliz era uma coisa com a qual precisava me familiarizar, as lembranças do dia anterior são agridoces, processar elas deveria ser a coisa mais lenta a se fazer, era bom prolongar todas as expectativas, ainda posso sentir minhas presas afundarem na carne macia, ou o sangue manchando minha boca, o pelo úmido da chuva, meu estômago quente de satisfação.

É bom demais.

A parte mais detestável, no entanto, tinha sido logo após nos alimentarmos, quando voltamos correndo mais uma vez, e logo em seguida na clareira quando Sam fez o sinal de que ia se afastar, se escondendo atrás das árvores, quando ele voltou do arbusto não era mais lobo, era homem, e estava vestido em um short jeans que provavelmente foi uma calça um dia.

Assim que o vi não pude impedir que meu lobo se lamente num uivo, e isso o fez rir, mesmo sem estar conectado a ele às vezes é como se pudesse interpretar pequenos gestos não humanos que demonstrava, isso me fazia sentir orgulhosa, poder me comunicar tão facilmente assim com ele.

Sua risada era algo novo, totalmente diferente de todas as facetas que ele mostrara antes.

— Você não tem culpa, estava muito excitada, com o tempo vai descobrir formas de sempre estar com roupas extras.

Se eu fosse humana provavelmente teria franzido o cenho em sofrimento, mas nessa forma, tudo que eu posso fazer é negar com a cabeça, me sentindo desconcertada pelo momento de nudez que viria.

— Pensando melhor, a baixinha provavelmente vai ficar chateada pela forma como você destroçou as suas roupas.

Os pelos da minha coluna se arrepiam instantaneamente com um flash rápido, a imagem é assustadora, uma Rosalie fora de controle me atacando por ter destruído as botas caras de salto que ela me emprestará mais cedo. É apenas minha imaginação, mas no fundo, sinto que Rosalie me fará pagar lentamente pela destruição das botas.

— Você sentiu não é? A febre e a raiva, mesmo sem a conexão, percebi em você.

Eu concordo emocionada, pois não sei lidar com toda novidade, todas essas novas e surpreendentes facetas que Sam mostrava de si neste momento. Então, como se tivesse escutado meus pensamentos, seu rosto se tornava sóbrio e fechado novamente, e ele parecia mais ele mesmo, me deixando mais aliviada.

— Tudo bem, faça seus preparativos... na verdade, tente ser você mesma o máximo que puder, não deixe que os outros interfiram nisso. Os anciãos precisam te ver como você é de verdade.

Me ver como eu sou de verdade... isso implicava tantas coisas e significava apenas a mais primordial delas: mostrar minha verdadeira natureza, nem loba, nem vampira.

Minha concordância é automática, os olhos do lobo continuam em Sam, mas minha mente flutua num pânico rastejante se construindo lentamente por meu estômago.

— Vá para casa, nos encontramos amanhã, no mesmo lugar, mesma hora.

Eu não queria ir embora, tinha medo de que se fosse embora, então essa fantasia explodiria em pequenos pedaços de falsa esperança, e então toda essa alegria repentina se tornaria apenas uma ilusão de um desejo muito forte.

— Vá Ayira.

Era a primeira vez que ele dizia meu nome, a primeira vez que indicava que me reconhecia, e talvez fosse por isso, por sua expressão calma e aliviada, que eu tenha me curvado mais uma vez, um aceno gentil, o qual Sam copiou, e como fosse liberta das correntes que me arrastavam, eu me virei e parti.

Farejando o cheiro das minhas roupas rasgadas, eu cheguei ao lugar do qual saímos mais cedo, não estava errada sobre as botas, estavam totalmente destroçadas, já podia ver a imagem do rosto de minha “tia” se tornando uma massa cinzenta de raiva.

A brisa trouxe um cheiro mais distinto e bem vindo, olhei para a direção da casa e comecei a seguir a linha brilhante que o odor de Alice deixou pelo caminho, segui a trotes enquanto chegava a uma árvore forte e bem enraizada, logo atrás dela havia roupas dobradas e dispostas numa embalagem plástica para proteção contra a chuva.

Se eu não fosse uma loba, provavelmente teria sorrido e não mostrado os dentes afiados.

Recebi com prazer a dor dos ossos quando voltei a minha forma humana, e me vesti rapidamente, sentindo-me satisfeita em poder colocar o vestido azul céu longo que Alice escolherá, minha risada ecoou na floresta quando vi sapatilhas, minha ideia era outra, pegando as sapatilhas nas mãos comecei a caminhar de volta para casa.

O vestido resvalava pela terra molhada, manchando o vestido de lama na barra, nem sequer esse pequeno detalhe poderia tirar o sorriso do meu rosto.

— Foi uma refeição saborosa.

Meu corpo se balançou sobressaltado, estava tão distraída com minha própria felicidade que me esqueci de manter os sentidos mais básicos em alerta, por isso não senti o cheiro ou a movimentação dele nas escadas.

Edward sorria, seus dentes pontudos brincando sobre os lábios, fico tocada pela afeição em sua voz.

Não consigo sorrir, mas aceno com a cabeça.

— Foi muito bom... acho que você sabe o que significa.

Dessa vez, não há brilho em seus olhos, apenas um sorriso triste que provavelmente surge em sua bela expressão há muito tempo.

Se havia algo que me fazia confiar tanto em Edward, era o fato de compartilharmos uma infelicidade constante em relação aos nossos dons.

— Eu sempre sei.

Nossos olhares se seguraram por alguns segundos, eu queria saber o que dizer, mas também sentia que não havia necessidade de palavras, meus pés se curvaram afundando na grama, escovei eles sobre ela até que a lama estivesse fora de vista, deixando apenas o suficiente para Rosalie sentir o cheiro. Com esse pensamento ergo meus olhos, Edward sorri abertamente dessa vez, e me permito deixar a diversão chegar aos olhos.

— Venha, tem uma festa esperando por você.

Paro instantaneamente, sentindo um calafrio nervoso no fundo do estômago.

— Ela...

— Sim, ela fez.

Eu ainda me pegava surpresa por ainda ser surpreendida por Alice e suas demonstrações espalhafatosas de carinho, decidi não pensar sobre isso e apenas segui para dentro.

Foi melhor do que eu esperava, e enquanto os minutos passavam, a tensão ia se esvaindo também, o ambiente estava tão bonito e aconchegante, decorado com flores róseas e balões azuis da cor do vestido que eu usava, Alice foi efusiva com seus presentes é claro, mas o sorriso no rosto de todos, até mesmo o malicioso de Emmett, me fazia esquecer de qualquer desconforto ou timidez. O momento foi pontuado por Rosalie, por quem esperei de pernas bambas enquanto ela caminhava na minha direção segurando uma grande caixa nas mãos, seu rosto estoico.

Poderia ter desabado quando peguei a caixa e descobri do que se tratava o conteúdo.

Eram botas pretas de salto alto grosso, idênticas às que ela me emprestará mais cedo.

O som que borbulha no meu estômago viajando em euforia por todo o caminho, se expandindo por meus pulmões numa caótica risada, foi tão inesperado que meus olhos se arregalaram, e tão rápido quanto apareceu a gargalhada foi embora, deixando sangue acumulado nas minhas bochechas e uma Rosalie totalmente nova e mais assustadora ainda.

Uma Rosalie que sorria.

Era a primeira vez que eu entendia o sentido de piada interna.

Depois de toda a comoção nos reunimos na cozinha enquanto eu me alimentava, os Cullen discutiram sobre os preparativos sobre minha visita aos anciãos, todos pareciam tão bem alimentados quanto eu, seus olhos brilhando num dourado topázio, estava feliz em vê-los bem, por não estar dando trabalho como na maioria das vezes.

Emmett continuava a fazer pequenas piadas, Rosalie ainda me tratava com a frieza que podia, Esme ficava totalmente encantada em poder fazer mais pratos diferentes, Alice... bem, com todas suas impressionantes proezas, e Bella em me guiar, Carlisle me ensinando, Jasper me fortalecendo e... Edward me lembrando do exame de habilitação no dia seguinte.

— Você está nervosa?

Os olhos dele diziam o quanto já sabia pelos meus pensamentos, agora que eu deixava mais do lobo aparecer era difícil bloqueá-lo.

— Eu nunca pensei que estaria mais nervosa com um exame do que com minha apresentação a uma alcateia de lobisomens.

— Você não estará indo aos cachorros tão rápido, precisa passar pelos enrugados antes.

Rosalie é toda espinhosa, mas a intenção é clara, ela queria apenas me informar a etapa dos acontecimentos, e assinto educadamente, como se levasse em conta seus insultos, internamente eu gemia toda vez que ela se referia a eles dessa forma.

— Não se preocupe, você vai se sair muito bem.

Eu queria estar tão confiante quanto ele, talvez por sua fé ser tão grande nas minhas habilidades eu tenha respirado normalmente e deixado o assunto passar.

Depois de terminar minha refeição informei que precisava subir para meu quarto, pois ainda não tinha feito o dever de casa, Esme se despediu com um beijo terno em minha tez e os outros manifestaram suas saudações.

Eu tomei um banho demorado e preguiçoso de banheira, contemplando as bolhas espalhadas pelo meu corpo e depois de colocar calças de algodão e uma regata eu me coloquei sentada à mesa e comecei a responder os exercícios de matemática.

Quando estava terminando a última folha, senti o ar ao meu redor mudar, seu cheiro se espalhando pelo ambiente como se fosse uma presença personificada, paciente ele aguardou que eu terminasse, seu corpo podia estar imóvel e seus olhos fixos em um ponto qualquer, mas eu podia sentir, como uma lufada de ar, aquele sentimento estranho de amplificação, como gasolina alimentando o fogo.

Minha felicidade atravessou meu corpo mais uma vez e eu suspirei em contentamento, um sorriso tímido de lábios surgindo quando dei impulso na cadeira giratória e encarei meu guardião.

— Eu posso sentir você agora.

Ele franziu seu cenho e fez uma mensura.

— Me perdoe, me esqueço de quão influenciador eu posso ser.

Eu faço um gesto de negação com a cabeça e trago minhas pernas para cima, abraçando elas com os braços.

— Não é nada invasivo... é bom saber que você aumenta esse tipo de emoção.

Seu silêncio conforta enquanto seus olhos fazem uma varredura pelo meu rosto, seus olhos sussurrando: proteger, proteger, proteger...

— É bom vê-la assim, faz seu rosto parecer mais jovem.

Eu sabia o que ele queria dizer: um rosto sem dor e sofrimento, o rosto de uma criança normal e alegre. Tinha visto esse rosto no espelho e pensado ser o rosto de uma estranha, porque minhas lembranças nunca deixariam a dor desaparecer.

— Eu... eu estou realmente feliz, obrigada Jasper.

— Você não precisa sempre agradecer, suas últimas conquistas são mérito seu.

— Eu sei, é que, eu me sinto tão agradecida por ter você e Alice, não que eu não me sinta assim pelos outros... vocês me escolheram.

— É como Alice disse, você estava destinada a vir até nós... eu nunca fui um crente no destino Ayira, meu mundo se tornou diferente após a transformação... e quando Alice veio, me ensinou o amor e todas as possibilidades do futuro, ela me fez ter fé.

— Um dia, eu espero ter tanta fé neste mundo quanto você.

— Não se preocupe, Alice e eu estamos aqui para isso, assegurar seu futuro, afinal, somos seus pais, Ayira Angeline Hale.

Meu peito se aqueceu, o sentimento transbordando em um sorriso emocionado, posso sentir meus olhos queimarem, mas controlo as lágrimas, por que apesar de Jasper e eu sermos tão ligados, ambos também evitávamos grandes cenas, como chorar.

Pisco meus olhos com força e me sobressalto com um pensamento súbito.

—Você me lembrou de algo.

Corri para minha bolsa aberta em cima da cama e peguei o pequeno papel, entregando-o imediatamente para Jasper, que o analisou de forma minuciosa.

— Erin.

Ele testou o nome em sua língua, analisando os números.

— Eu não sei como, mas de alguma forma essa garota humana não fica muito longe, ela está sempre arrumando desculpas para estar por perto.

Seu sorriso é irônico, apenas um puxão de um lado da boca, feroz.

— Você fez uma amizade.

Meus olhos se arregalam momentaneamente e empino minha coluna.

— Eu fiz?

Ele entrega o papel em minhas mãos e encaro-o com um novo olhar, de admiração.

Como um simples rabisco em um pedaço de papel pode significar que me liguei a alguém?

— Sim, esta é a forma das crianças da sua idade demonstrarem intenção de construir laços, ela passou o próprio número para dar o primeiro passo.

Levanto minha cabeça de supetão e encaro em desespero.

— O que eu faço agora?

Ele apenas dá de ombros, tão humano repentinamente que me faz repetir o gesto testando.

— O que você quiser Ayira, é escolha sua.

Minhas bochechas ardem e eu começo a caminhar de um lado para o outro, o papel balançando em minha mão, parece mais um tijolo, pesado de indecisão.

— E-eu, eu não sei por onde começar.

Quando gaguejo, sinto minhas orelhas pegarem fogo.

— Apenas siga seu instinto.

Franzindo o rosto eu suspiro cansada quando paro e me jogo de costas na cama.

— Não consigo extrair nenhuma direção deste conselho, meu instinto está sempre gritando para correr de todos eles.

— Eles?

Sua voz parece distante, abafada por minha ladainha interna nervosa.

— Erin, Silver, o garoto com sorriso feliz.

— Garoto?

Seu tom parece uma nota mais alta, mais rigorosa, e não sei o que significa, então me esqueço e volto a entrar em pânico.

— Sim, é apenas mais uma pessoa, como Erin e Silver, bem, não Erin, Rosalie diz para ficar longe dela, pois não faz parte da mesma cadeia que Silver e o garoto.

Ele fica em silêncio novamente, como se processasse toda minha angústia e quando fala é como nos treinos, focado e paciente.

— Bem, aqui vai um conselho, um que não vai fazer você pensar nestas pessoas como animais da cadeia alimentar que você deve caçar: São apenas pessoas, como nós somos, faça com eles o que faz conosco, converse, pergunte, escute, aprenda e sinta.

Meu rosto se vira para ele, mas meus olhos estão perdidos em um ponto qualquer no ar.

Ele vai até minha mochila e pega meu celular, seus dedos correm tão rápido pelo teclado digital que mal posso acompanhar, quando vira a tela para mim tudo que vejo é ERIN escrito sobre um número de telefone salvo.

— Isso é o que você está fazendo, salvando o contato dela, quando estiver se sentindo mais segura, calma e ligeiramente curiosa, você mandará uma mensagem e ela vai ser muito feliz em respondê-la.

Ele estende o celular e eu analiso a tela com cuidado, Jasper provavelmente decorou o número quando eu o entreguei em suas mãos, às vezes me sentia impressionada com suas habilidades, nunca me cansava disso.

Eu me sento lentamente e sinto o cabelo cair sobre os olhos, quando viro para Jasper tudo que vejo é seu peito, minha voz sai insegura.

— Tem certeza?

— Ela não estaria se esforçando tanto se você não valesse a pena.

E com isso, sem um adeus, ou boa noite ele se vai, me deixando sozinha, mas com um sentimento encorajador, reforçado por sua influência vampírica.

Depois de arrumar meu material escolar e colocar o celular para recarregar ouço uma batida educada na minha porta.

— Sou eu.

Me levanto rapidamente da cama e abro a porta para Bella, seus braços me circulando instantaneamente em um abraço afetuoso, comovida eu retribuo e seus braços se apertaram mais um pouco ao meu redor.

— Desculpe por não ter falado com você direito quando voltei.

Me afasto com um sorriso tranquilizador e vejo o brilho em seus olhos ao ver meu rosto.

— Está tudo bem.

Seu braço passa por meu ombro e ela nos leva para perto da cama se sentando comigo.

— Como tem sido seus dias?

Respiro fundo, sorrindo mais abertamente, mas dessa vez é um sorriso triste e cansado.

— Não sei explicar, é diferente de tudo que eu sempre conheci.

Ela assente e me observa, como se procurasse as respostas das coisas que não digo.

— Então, ansiosa para o exame de amanhã?

— Sim, toda vez que alguém comenta sinto minhas entranhas se revirando.

Sua risada é como música e me deixa mais relaxada.

— Tudo bem, vamos mudar para um tópico seguro.

— Como foi a caçada?

— Foi boa, você também andou se divertindo pelo que Edward me contou.

Ela já sabia de tudo, obviamente, não havia necessidade em estender os detalhes quando Edward reproduzia o momento tão bem quanto meu próprio cérebro fazia.

— Sim, nós caçamos juntos.

Seus olhos sorriem em alívio, a mão em minhas costas fazendo círculos preguiçosos que começam a relaxar meus músculos tensos.

— Vejo que Sam tem mudado seu comportamento para com você.

— Foi diferente, bom.

— Fico feliz.

— Vocês têm notícias?

Eu sabia que o silêncio e afastamento dela só podiam significar preocupação, eu quase podia sentir sua atenção sempre fixa em descobrir sobre o paradeiro de Renesmee e Jacob, e entendia, por isso respeitei quando ela começou a ficar distante.

— Não.

Meu coração afunda até o estômago.

— Sinto muito.

— Não se preocupe, se algo tivesse acontecido Alice saberia.

É tão ruim ainda sentir esse peso, o sumiço dos dois faz meu coração doer todas as vezes que fechava os olhos antes de dormir.

— Venha, você deve estar cansada.

Eu obedeço e deixo que ela me leve até a cama, onde me deito e tenho sua ajuda para me cobrir, seus olhos sondando meu rosto.

— Vamos fazer algo juntas quando você estiver menos ocupada, um passeio.

— Eu gostaria muito disso.

— Certo, estou ansiosa para saber sobre a escola, durma bem querida.

— Boa noite, Bella.

Ela se afasta e desliga a luz, quando fecha a porta meu corpo se desliga, o cansaço me consumindo.

Refletir sobre os acontecimentos do dia anterior revigora meu ser.

A sensação de euforia se expande pelo quarto, emanando de cada poro do meu corpo, apesar de estar pensando nesse encontro todo dia e toda hora, meu nervosismo se inclina apenas para a coisa mais simples e mundana possível: o exame para a habilitação.

Nervosismo arrepia os pelos dos meus braços.

Ainda tinha a escola, ainda tinham Erin e Silver, ainda tinha tanta coisa para descobrir, tanta coisa para entender e aprender.

A minha rotina estava se tornando algo empolgante.

Edward me leva bem cedo para o teste e como preverá, eu passo de primeira, como se não houvesse todo o tempo do mundo, fazemos uma viagem até Seattle, e fico mais uma vez impressionada com o caótico ritmo da cidade grande. Quando estamos dentro da concessionária ele me dá a difícil tarefa de escolher um carro, como um presente pela conquista, seus conselhos indicam carros elegantes e compactados, me sinto momentaneamente desnorteada por saber tão pouco sobre veículos, término implorando para que ele faça a escolha, pois não faço ideia do que estou fazendo, e felizmente ele toma a incubencia em escolher um Volvo, e é apenas isso que sei sobre o carro, além da sua cor branco no preto.

Por causa da viagem falto a aula, o que não parece incomodar os Cullen, então recebo o tempo extra que me sobra de bom grado para fazer uma revisão dos conteúdos que provavelmente perdi, Carlisle parece deliciado em me ensinar mais do que sabe.

No dia seguinte atendendo as exigências de Bella: jeans de lavagem clara e simples.

As de Alice: Suéter de cashmere preto.

E a assustadora Rosalie: as botas de salto alto que ganhei de presente, um lembrete das que eu destruí.

Eu me dirijo ansiosa ao presente e faço uma viagem dolorosa até a escola, em meu carro caro e chamativo. Assim que paro no estacionamento já sinto o peso da atenção, me sinto insegura em sair, mas de qualquer forma não há maneira de se esconder, tímida eu fecho a porta do carro e ignoro os olhares masculinos, todos estão encarando.

— Isso sim é um carro, como uma adolescente de 16 anos consegue comprar algo assim?

A voz não é nada do que eu esperava, ele está apenas muito admirado, seu tom excitado pela visão, não levanto meus olhos imediatamente, pois estou fingindo com afinco procurar por algo que não perdi.

Minha voz sai sem eu nem perceber.

— Não fui eu quem comprou... foi um presente, do... do meu tio.

Já estava cansada de repassar a história que os Cullen me deram para quando questionassem sobre minha família, Esme e Carlisle eram meus avós, Rosalie, Emmett, Bella e Edward eram meus tios, e Jasper e Alice eram meus pais, era engraçado e acolhedor saber que agora eu e Renesmee éramos primas, tudo isso era o que os documentos falsos diziam.

— Uau, seu tio deve ter muito colhão... Ai caramba, desculpa ser tão grosso, só tenho essa coisa por carros sabe...

Meus olhos finalmente se erguem e fico sem palavras, pois na minha frente está ele, o garoto do sorriso feliz, em carne e osso, nada de imagem perfeita e borrada, apenas um garoto alto, de olhos e cabelos cor de areia, um sorriso envergonhado e ao mesmo tempo insinuante.

— Certo.

Quando finalmente encontro minha voz, isso é tudo que posso falar, apenas encaro enquanto ele se desprende do momento estranho e sorri ainda mais, se é que isso é possível.

— Eu sou Julian.

Ele estende a mão e sorri sincero, minha hesitação em apertar sua mão é gritante, quando demoro demais para retribuir o gesto ele se recolhe e sorri envergonhado.

— Tudo bem, não estou surpreso, você deve estar pensando “esse cara é maluco, ele chega e elogia meu carro, e depois decide reconhecer minha existência”, sei como soa, muito babaca, me desculpe.

Paro de fingir estar procurando algo e começo a analisar seu perfil mais uma vez, ele tem olhos sorridentes, não é só a emoção, aquilo está impregnado nele, como se fosse a criança mais sortuda do mundo, intocável.

Sinto-me invejosa por sua inocência.

— Não é isso... meu nome é Ayira… Ayira Hale.

Os olhos dele parecem brilhar em reconhecimento, ele me observa por um tempo, da mesma forma que fiz com ele.

— Você é nova não é?

Dou de ombros.

— É o que todos dizem.

Novamente, ele sorri, como se esse fato o fizesse muito feliz, fico tentada a perguntar como é sempre sentir um sorriso a caminho e não conte-lo.

— Bem-vinda a Forks, o lar dos deuses de gelo.

Ele ri da própria piada, eu não, pois não é engraçada, não quando sua menção me lembra o tempo todo dos vampiros, as pessoas que são realmente feitas de gelo.

Apenas encaro seu rosto mais uma vez, seus olhos se acalmam e seu corpo se mexe sobre os pés.

— Obrigada, preciso ir.

Eu me viro antes dele respirar mais uma vez.

— Certo... até mais.

Mesmo longe, posso escutar sua despedida, meus ouvidos ecoando suas palavras.

Não tive contanto com Erin ou Silver, elas não estavam em lugar nenhum, parecia que depois de todos os momentos estranhos entre nós elas precisassem se ausentar para lidar com tudo, enquanto assistia as aulas me sentia cada vez mais incomodada com o sumiço das únicas pessoas com quem tive contato... quer dizer, agora havia Julian, o garoto sorridente.

Quando entro na última aula tudo começa a piorar, pois graças às novas tecnologias e doações extremamente vantajosas, a escola tinha um novo ginásio onde ficava a piscina aquecida, para que os alunos pudessem ter aulas de natação e assim poderiam competir em outros lugares.

A professora me entregou um uniforme padrão para natação, que consistia em um maiô azul escuro, touca, óculos de proteção e um short de lycra. Meu estômago afundou ao ver uma das alunas desfilando ao redor da piscina, seu corpo exposto em grandes porções de pele.

A professora foi enfática sobre a necessidade de eu me apressar para me trocar, eu me arrastei indecisa para o vestiário feminino e coloquei a roupa ultrajante, quando sai a maioria das garotas estavam juntas, o alarde era acompanhado de risadas e brincadeiras insinuantes, os meninos estavam muito perto.

Há muitos corpos seminus, muita pele, muito contato físico, me sinto retroceder cada vez mais, só paro quando esbarro contra alguém.

O choque do contato pele com pele me faz virar assustada.

Minha pele queima onde nos tocamos, cor tingindo meu rosto.

— Ei, é você.

É Julian, mais exposto do que nunca, mostrando tudo que eu não imaginaria conhecer em todas as circunstâncias possíveis, ele se expõe, não é mais apenas seu rosto feliz.

Pisco meus olhos várias vezes, mais nervosa do que nunca, e lá está ele, me olhando como se estivesse muito, muito feliz com essa coincidência, seu sorriso se abrindo, os dentes bonitos e bem alinhados, o sorriso de Julian parece que vai me engolir em todo meu desconforto.

— Oi.

Balbucio enquanto desvio meus olhos das suas pernas longas e tonificadas.

— Duas vezes no mesmo dia, acho que o universo está tentando dizer algo.

Eu não concordaria com ele, destino era algo que ainda me deixava desconfiada, não era uma coincidência tão grande, nós estudávamos na mesma escola, a possibilidade de nos encontrarmos eram grandes, ainda mais se levado em conta que eu não tinha visto Silver, ou Erin.

— O que você está fazendo aqui?

Ele ri, como se eu tivesse dito a coisa mais engraçada, estreito meus olhos e fico totalmente aliviada quando alguém grita logo atrás de nós.

— Ei estrela na natação, venha aqui!

Um dos garotos que ficava tocando as garotas com brincadeiras chamou Julian, seus olhos foram na minha direção, mas se abaixaram imediatamente.

— Bem, isso responde a sua pergunta, eu sou o líder da equipe de natação.

Ele parecia muito orgulhoso de si, isso explicava porque a maioria dos garotos estava ao seu redor, ele era um líder, não um que tivesse aptidão, talvez por ele ser tão... feliz, isso se tornasse um poder para que ele exercesse sobre os outros.

— Então, as jaquetas não são do time de basquete?

Rosalie e eu estávamos enganadas.

— Não, levamos isso para outro nível, bem, meu pai levou.

Meu rosto se franziu, minha confusão era tanto relacionada a seu comentário quanto a meus pensamentos perdidos.

— Como?

Ele indicou a placa de inauguração grande e exposta numa das paredes, o nome era distinto.

Ryan Julian Rodriguez

— É você?

Meus olhos continuam na placa, pois é difícil olhar para ele com tanta pele exposta, sinto meu corpo corar toda vez que olho sem querer.

— Nah, eu sou Julian Junior, Ryan é o meu pai, foi ele quem doou o dinheiro para a construção do ginásio, não queria que nossa mudança de país comprometesse minha carreira de nadador profissional.

Era muita informação sobre ele, como Erin, Julian parecia não se importar em falar sobre sua vida pessoal.

— Eu vou ver o que os caras querem, foi bom te ver de novo.

Seu olhar permaneceu mais tempo em meu rosto e eu apenas encarei de volta sem saber o que significava, vendo que eu não diria nada ele se foi.

Caminhei até a arquibancada e observei as crianças reunidas num grupo cheio e animado, minhas mãos se crispam no tecido do short, como se minha agonia fosse a solução para distribuir o tecido o suficiente para tampar meu corpo todo.

As garotas parecem tão alheias e confortáveis enquanto partes de seus corpos esbarram nos garotos, as brincadeiras não pareciam inocentes de todo, era como se fosse proposital, o toque.

— Ok pessoal, vamos dividir grupos, meninos de um lado numa fila e meninas em outra, um de cada vez, mergulho, segunda plataforma.

Um de cada vez, um menino e uma menina, subiram pelas escadas e saltaram da plataforma, os níveis de habilidade variam, alguns pareciam atrapalhados, outros só queriam se mostrar com alguma gracinha, a maioria das meninas faziam de tudo para parecerem perfeitas, mas a inabilidade falava mais alto.

Quando chegou a vez de Julian sua expressão se tornou séria, concentrada, assim que ele se posicionou eu vi.

A forma como seu olhar se tornou profundo, uma centelha de malícia subindo no canto da boca, e então seu corpo esticando como de um gato quando se espreguiça, cada músculo magro se alongando com esforço, com três pulos breves ele pegou impulso, e seu corpo fez um movimento elaborado de cambalhota no ar antes de ficar rente novamente e mergulhar.

Não era perfeito, porque ele era humano, mas havia algo, talento.

Quando sua cabeça emergiu ele continuava sério, seu nado braçal lento e elegante até a borda, ao invés de pegar a mesma direção que os outros ele desviou fazendo o caminho mais longo, sem pressa, vindo em minha direção, seus olhos se encontraram com os meus e ele finalmente sorriu.

Eu queria poder dizer algo, fazer um elogio, mas no momento em que ele colocou as mãos na beirada e fez impulso para tirar seu corpo da água eu esqueci qualquer pensamento.

A água escorria por seu peito magro e definido fazendo caminhos sinuosos pela pele naturalmente bronzeada, ele caminhou lentamente até onde eu estava, sua mão arrancando a touca e o óculos, seu cabelo molhado caiu sobre os olhos, dando ênfase aos seus tons dourados.

Seu sorriso iluminava tudo.

— Você está na torcida?

Ele parou enquanto afastava o cabelo com a mão, seu peito subia e descia rápido pela energia gasta.

Mar e alecrim...

— O quê?

Prendi minha respiração quando ele chegou mais perto, perto o suficiente para algumas gotas de água espirrarem em minhas pernas.

— É que você está aí ao invés de na fila, não vai mergulhar?

Minha boca se abriu indecisa, mas nenhum som saiu, pois eu estava confusa com meus pensamentos, com essa nova emoção estranha.

A professora acabou me salvando, não da forma que eu desejava.

— Hale, venha aqui!

Mesmo não estando acostumada com meu sobrenome eu ainda respondia quando ele era chamado, um fio invisível dentro do meu corpo era puxado assim que ouvia o nome que me ligava a Jasper.

Eu me levantei automaticamente e andei até ela, o silêncio foi instantâneo, todos pararam suas coisas para observar a cena, quando parei na frente da professora Piper esperei, sua expressão franziu.

— Então?

Ela ficou esperando.

— O que você quer que eu faça?

Ela apontou para o trampolim com autoridade, seus olhos faiscando com algo primitivo e humano.

Desafio

— Quero que a senhorita retire seu short e suba na plataforma, faça o mergulho, agora.

Meu corpo se tornou frio, puro gelo, cada poro congelando, e com relutância tirei os shorts e esqueci que usava maiô, ignorando meu corpo exposto, ou qualquer olhar diferente na minha direção.

O caçador dentro do meu corpo tremeu em ansiedade, prestes a dar o golpe, respirando fundo pela boca eu provei o ar, meu controle se restabelecendo por muito pouco.

Sem mais delongas eu subi as escadas, e andei pela plataforma, parando na ponta do trampolim, meu peso extra fazendo pressão para baixo.

Algo mais instintivo começou a cantar no meu sangue, uma força exibicionista, competitiva, a sequência que Julian fez passou pela minha mente, mais aperfeiçoada, angulosa e perfeccionista.

Eu só percebi o erro depois de ter feito.

Em questão de minutos eu atingi a água, mais pesada que o normal, me deixei afundar lentamente, meu coração diminuindo, cada batida mais lenta que a outra, meu corpo afundando como se fosse feito de concreto.

Eu não devia ter obedecido, não devia ter levado a sério o desafio na voz da professora Piper, eu não devia ter deixado a vampira tomar o controle.

Eu tinha feito o que ela exigiu, mas também dei algo a mais.

Algo que devia esconder, a perfeição dos vampiros não era para o mundo dos humanos.

Se não estivesse em choque, provavelmente teria me envergonhado, e também percebido há quanto tempo eu estava debaixo da agua, minha respiração presa por uma eternidade, minha cabeça se moveu lentamente, observando o fundo da piscina, cabelo cor de asas de corvo flutuando ao redor do meu rosto como um véu.

Meus olhos se fixaram na superfície, o barulho ficando cada vez mais caótico, os alunos pareciam agitados, alguns corriam pela borda como se procurando por algo, puxei as pernas para o peito e as abracei, meus olhos fixos num corpo se jogando no ar e atingindo a água com precisão.

Ele era muito bom, seu corpo ondulando enquanto nadava até mim.

Seu cabelo ficou mais claro, ele segurava o ar com afinco, seu cenho franzido com preocupação.

Deixei que ele me alcançasse, seus braços segurando os meus, ele me encarou em confusão, vendo que eu não protestava ele fez impulso e nos empurrou para a superfície, imitando seus movimentos de pernas, ajudando a nos emergir.

Quando o ar tocou minha pele senti cada pêlo eriçar, pois só naquele momento percebi que Julian ainda estava me segurando, suas mãos ao redor dos meus braços com força.

— Ele pegou ela!

— Graças a Deus!

— Chamem a enfermeira!

As vozes pareciam longe demais, só conseguia ver os olhos de Julian, transbordando de medo e confusão, eu continuava sem respirar, e deixei que ele me levasse até a borda, minhas mãos se apoiaram na beirada quando ele me largou para sair, logo em seguida suas mãos estavam me puxando.

— Deite.

Eu fiz o que ele mandou, meus olhos percorrendo cada detalhe do seu rosto que parecia oscilar em sentimentos conflituosos.

A água escorria do meu corpo para o chão debaixo das minhas costas, e tudo que eu podia ver era o rosto de Julian acima do meu, suas mãos tremendo, seus olhos castanhos com pintinhas verdes e medo.

— Respire.

Eu não tinha percebido quanto tempo estava prendendo a respiração, e mesmo não querendo, era preciso que eu o fizesse.

Eu respirei fundo, meu corpo zumbindo e minha pele se arrepiando quando o cheiro de Julian invadiu meus pulmões, fazendo minha garganta queimar.

Mar e alecrim...

— Achei que você...

Suas palavras foram interrompidas pela professora Piper que parecia fora de si, seus nervos a fazendo tremer e balbuciar.

— Não se faz esse tipo de coisa... você devia ter falado que não sabe nadar, não pular de um penhasco só para obedecer minhas ordens!

Depois que a enfermeira chegou fui escoltada para fora do ginásio, a última coisa que vi foi a expressão de Julian.

Ele estava com medo... mas não de mim, por mim.

Eu fui mantida até as aulas acabarem, a enfermeira fazendo perguntas repetidas as quais respondi de forma evasiva, no final eles decidiram ligar para Jasper, no caminho ele me ligou perguntando o que tinha acontecido, eu lhe disse que não queria falar sobre, na verdade não entendia o que tinha acontecido.

Só queria ir para casa, esquecer os olhares estranhos dos alunos.

No caminho para casa não falamos, o silêncio foi perpétuo, só que dessa vez eu me sentia culpada em não falar, pois se tratava de algo sério, tinha me exposto sem necessidade, mostrado um lado meu que deveria estar contido. Como nos dias anteriores, eu lutei com Jasper, deixando a adrenalina levar qualquer traço do vampiro, deixando meu mentor cada vez mais cuidadoso com os golpes que deferia, ele acabou desistindo, parando em um sequência e se virando para ir.

Me sentei em um tronco e esperei por Sam, que chegou no mesmo horário de sempre, e fez tudo o que sempre fazia, como se o dia anterior não tivesse acontecido.

Quando voltamos ele parou e disse apenas.

— Fique pronta, venho te buscar às sete.

Eu assenti e fui para casa, os Cullen pareciam dispersos em seus afazeres, tomei um banho longo de chuveiro e depois de sair finalmente comecei a me sentir nervosa, meu reflexo no espelho encarou de volta com olhos arregalados.

Era isso que eu queria?

Depois de tanto tempo pensando... eu tinha uma vida agora, toda a solidão parecia ir embora aos poucos, não tinha tempo para pensar nas coisas ruins do meu passado.

Eu estava esquecendo eles...

Meus olhos queimaram em tristeza, a lágrima escorreu do olho azul, uma estranha tremendo e chorando me olhou de volta, seu cabelo molhado e bagunçado ao redor do rosto.

É por isso que eu preciso deles, preciso que me deem uma direção, para que eu possa ver meus pais pelo que eles eram, para recuperar o bom deles que ficou para mim.

Limpando freneticamente as lágrimas do rosto fui me vestir, como Sam dissera antes, eu precisava mostrar quem eu era, eu escolhi estar confortável, escolhi uma calça jeans de lavagem clara e um suéter branco de lã com uma jaqueta jeans por cima.

As botas de Rosalie me encararam com traição quando peguei um coturno marrom de escalada.

Quando Sam veio para me buscar eu já estava preparada para lidar com tudo sozinha, Jasper e Alice tinham dito que não poderiam entrar no território Quileute por causa do pacto, eu estava por minha conta e precisaria confiar em todos, assim como me controlar o suficiente para fazer tudo que Sam me dissesse.

Mesmo que a confiança estivesse se fortalecendo entre eu e Sam, ainda era difícil controlar meus sentimentos de rejeição, era impossível não me sentir pessimista.

Me despedi de todos, Edward me informou que alguns deles estariam na fronteira caso algo acontecesse, eu sabia que seriam Alice, Jasper e Emmett, minha guardiã ficaria atenta a suas visões, Edward seria quem iria alertar caso algo ruim ocorresse, Jasper e Emmett eram inteligência e força. Eu respirei fundo e abracei Bella antes de sair com Sam.

Minha cabeça girou uma última vez e eu os vi, todos juntos, a esperança brilhando em seus olhos, minha respiração se prende, só consigo soltá-la quando andamos todo o caminho até a estrada, onde havia um carro velho estacionado.

Meu mentor abriu a porta e eu entrei, quando respirei senti cada pêlo do meu corpo arrepiar, meu instinto gritando.

Lobo, lobo, lobo, lobo...

O carro de Sam estava infestado de diferentes nuances de lobo, como se toda a alcateia estivesse ali ao mesmo tempo, minha agitação chamou sua atenção quando ele engatou a marcha.

— Tudo bem?

Meu nariz coça e eu o torço nervosa.

— Eu sinto todos eles.

Seus olhos pareciam um pouco maldosos em minha direção.

— Meus garotos já estiveram nesse carro, não é atoa que você esteja sentindo o cheiro deles, incomoda?

Talvez ele tenha interpretado minha torcida de nariz de forma errada, pois seu tom era zombeteiro.

— De forma alguma, é só que, parece que estão todos aqui, me observando.

Meus ombros encolhem e eu afundo aos poucos no banco, puxei o cinto e encaixei ele.

—Você não precisa se preocupar com isso agora, espere só até chegar lá.

Provocação

— Devo me preocupar com algum ataque?

Ele soltou a embreagem lentamente e deixou o carro ganhar vida, o pequeno lutador fez alguns barulhos de esforço no começo, e aumentou ainda mais enquanto pegava aceleração.

— Não, você está sob minha proteção.

Ele queria mesmo dizer aquilo, com sua ameaça dando ênfase à frase. No entanto, eu escutei o resto não dito.

— Mas...?

Ele não facilitou, seu olhar foi como uma advertência, duro e direto.

Sam sempre esperava muito de mim. Diferente dos outros que possuíam mais paciência.

— Se houver, se defenda.

O resto da viagem foi um silêncio profundo, eu aproveitei o caminho para observar a vegetação, não apareciam mais casas, as árvores ficavam cada vez mais densas, quando entramos na estrada de chão sinto a diferença.

É tudo muito selvagem, intocado, tão lindo.

De acordo com Bella, a reunião seria na casa de Billy Black, o pai de Jacob, saber disso não me deixou aliviada, não, ver o pai de Jacob significava perguntas demais, as quais eu não saberia responder nem se quisesse.

No momento em que o carro foi desligado meu coração acelerou, bombeando sangue quente e agitado por minhas veias, minha pele começou a ficar muito quente.

Meu suspiro foi tanto de alívio quanto de preocupação, eu não estava liberando minha parte vampira, mas estava deixando o lobo passear pela borda.

— Você vai se transformar?

Ele podia cheirar isso em mim.

Não tinha forma de esconder isso do lobo alfa.

— Não, só estou um pouco agitada, posso controlar.

— Você não precisa, quando reprime a parte vampira não tende a piorar?

Não era bem assim, ao menos na prática, tinha aperfeiçoado meu controle.

— Acho que não.

— Bem, respire fundo, deixe seus sentidos livres, sinta eles, sinta a floresta ao redor, se conecte com a terra.

Eu fiz como ele instruiu, deixando minha boca entreaberta eu inspirei forte pelo nariz, sentindo lobo, floresta, terra e água, os sabores tocando minha língua quando soltei o ar pela boca.

Eles eram tantos, parecia um exército.

Minhas mãos tremem.

Fique calma Ayira, apenas fique calma, você está em segurança...

Sam abriu a porta e desceu, ele rodeou o carro e abriu a minha antes que eu estivesse pronta para descer, mesmo sabendo como era às vezes me frustrava com a forma dele fazer as coisas.

Minhas pernas pareciam prestes a falhar quando pisei no chão, Sam fechou a porta com uma batida forte que anunciou nossa presença, alguns rostos se viraram.

Mas foram as cabeças enormes e os olhares violentos que me chamaram a atenção.

Olhos brilhantes emitindo hostilidade.

— Se prepare.

Bem, talvez eu não estivesse tão segura assim.

Notas finais
Me digam, vocês preferem que os capítulos sejam curtos como antes, ou longos como agora?