Lua da Meia Noite

2 Quando a Lua Sobe


Notas iniciais
Hey hey ♥ Então gente, primeiramente, desculpe a enorme demora. Vou-lhes contar o que aconteceu. Estava eu, lindamente, já na metade do segundo capitulo dois dias depois de ter postado o primeiro, quando meu computador quebra. Sério, gente, ele bugou lindamente. De uma hora pra outra. Resolução: vou ficar sem escrever até ele voltar da autorizada. PORÉM, ele ainda nem foi. Deve ir nessa semana que tá vindo, e eles tem até 30 dias para me mandarem de volta, cês sabem como funciona. E eu não aguentei. Olhei o tempo que já tava sem escrever (duas semanas, quase um mês?), olhei o tempo que ainda ia ficar e falei HAHAHAHAHHAHA FUCK YOU BITCH E peguei o notebook quebra galho da minha mãe. No word 2007 mesmo, tendo que reescrever mais da metade do que já tinha escrito (porque se perdeu quando o note surtou /3), eu o fiz, em dois dias ♥ Porque eu estou APAIXONADA com essa historia, e queria pedir desculpas, sério, eu to MEGA empolgada com isso aqui, e quando eu to assim eu não atraso MESMO. Então foi só por isso gente, se não ia ter o capitulo postado com uma semaninha de intervalo, bonitinho, sem stress. MAS NÉ Anyway, im back, mesmo que meio capengando (argh, notebook meia boca) e queria agradecer MUITO pelos comentários lindos, diwos, maravilhosos que me deixaram hiper mega feliz. Então obrigada a InsaneDesire (Kath ♥), Izzy e Yoonmin pelos comentários, sério, amo vocês ♥ Enton, sem mais delongas, aproveitem o cap ♥

O orvalho da manhã já estava quase seco e não eram nem nove horas. Devia agradecer esse fato por ser verão, e o sol, tão raro em se fazer forte por aqui, esquentava meu rosto de forma cada vez mais gradativa, espantando da minha pele o frio do início da manhã. Mas não do meu coração.

Eu devia estar feliz, considerando que era verão. Considerando que era a época que eu mais gostava, em que podia sentir o sol forte e ficar na janela ou me sentar na varanda de casa, brincando de desenhar na terra seca. Eu devia estar feliz, considerando que havia feito aniversário a não mais que uma semana, e o fato de ter quinze anos ainda deveria me deixar extasiada.

Mas não estava. Aliás, essa havia sido a pior semana da minha vida.

A manhã do meu aniversário havia sido como todas as outras quatorze antes dela. Bem antes de o sol nascer papai havia entrado no quarto e me acordado com a luz da vela bem perto do meu rosto. Sua barba por fazer encostou-se à minha bochecha, me fazendo começar a rir, mas ele fez sinal de silêncio.

— Não acorde seu irmão. – Sussurrou, me fazendo morder os lábios para conter o sorriso, mas não os olhos brilhando. Era certo que mamãe possuía um sono de pedra, ainda mais com os soníferos que ainda pegava regularmente no boticário, mas Etienne, por outro lado, acordava por qualquer barulho, e tudo que eu não precisava era do meu irmão caçula querendo saber o que estava acontecendo. Ou pior, acordando minha mãe.

Então apenas me esgueirei da cama, vendo papai dar meia volta e sair do quarto, apesar das passadas pesadas, conseguindo não fazer muito barulho ao descer as escadas e quando saiu de casa, provavelmente deixando a porta aberta. Eu tinha que ser rápida, e fui. Saí de dentro da minha camisola e me enfiei em um vestido. Amarrei os cordões do espartilho eu mesma enquanto descia as escadas, me enfiando nas botas quando cheguei ao hall e sentindo o ar úmido e quente da madrugada de veraneio.

— Venha Belle, depressa – papai sussurrou, me pegando pelo braço e puxando em direção à avenida principal. Ninguém havia acordado ainda, e por isso não fomos vistos quando entramos na loja da família, a joalheria, e fomos até os fundos. Por um instante, pensei que meu pai havia me desconhecido e iria me dar alguma jóia de presente. Um belo anel ou colar, digno de uma moça com recém feitos quinze anos, um presente aprovado pela minha mãe, e detestado por mim. Mas não me decepcionei, meu pai me conhecia, e sabia que o podia abraçar o quanto quisesse quando vi o seu presente.

Uma pilha de livros me esperava em sua mesa de escritório.

Apenas sua visão foi o bastante para saber que eram caros. Suas capas de couro não possuíam desenhos, mas eram de cores fortes como verde musgo e vinho. Não havia títulos que se pudesse ver, apenas números nas lombadas, dourados, numerando meus novos preciosos de um a três. E como um embrulho perfeito estava uma única fita vermelha, que eu sabia que também contava como um presente.

Um presente secreto, assim como os livros. Um presente que precisaria ser escondido, como todos os outros, bem guardado debaixo da minha cama, em um fundo falso que papai construiu. Tudo para minha mãe não ver, porque, se visse, faria questão de fazer uma fogueira e me obrigar a vê-los queimar.

Vermelho não é uma cor decente, Mabelle. É a cor das meretrizes e do Diabo, do pecado. Uma dama de respeito nunca trajaria algo de cor tão infame.

E dessa forma, minha cor favorita era sempre banida de qualquer canto das minhas roupas ou adereços. Até agora. Segurei na ponta da fita, sentindo a textura macia da seda, a cor rubra me chamando. O nó do laço se desfez em apenas um puxão suave, e meus dedos foram nervosos para a capa do primeiro volume. Uma rápida lida nas primeiras linhas me pareceu um romance de aventura, bem como papai sabia que eu gostava.

— Papai, como conseguiu...? Onde...? – Eu estava sorrindo, venci o espaço para envolver o pescoço de meu pai com os braços. Não foi fácil. Eu não era particularmente alta, e papai era. Aos seus trinta e três anos ele me segurou em seus braços fortes e me ergueu do chão, me girando como se eu estivesse fazendo cinco, e não quinze anos.

— No vilarejo vizinho. Custou-me um pouco mais do que esperado, mas não é todo dia que sua filha vira mulher.

Corei enquanto ele me deixava no chão. Algo no modo em que ele disse isso me fez ficar, mesmo que por um momento, orgulhosa. Eram quinze anos, afinal. Agora eu poderia ficar na roda de conversas das “mulheres adultas” e não seria mais enxotada, tratada como uma criança. Pois não era mais uma. E por um momento me permiti ficar feliz com isso, com meu amadurecimento social. Quando papai falava sobre ele, não era nada além de alcançar maiores níveis de privilégios.

— Quinze anos, Belle – ele me puxou dos meus pensamentos, com as mãos nos quadris. – Eu estou mesmo velho.

Soltei uma risada e amarrei meu cabelo com a fita. Nada elaborado, apenas um rabo de cavalo frouxo e baixo, e peguei um espelho de mão que já me esperava. A cor ficava muito bonita no meu cabelo, castanho claro, o fazendo empalidecer, e quase aparentar loiro, ao invés do costumeiro tom de caramelo. Já meus olhos, da mesma cor de casca de árvore viva de papai, pareciam escurecer, ficando muito mais profundos e interessantes do que realmente eram.

Larguei o espelho e corri para outro abraço, sentindo o cheiro almiscarado de papai. Se tivesse que buscar nas memórias da minha infância, diria que os anos apenas o melhoraram. Seu rosto ainda era marcado pelo maxilar e nariz, e suas costas retas. Os braços me levantavam e giravam com a mesma facilidade que teve a vida inteira.

Quando voltamos para casa já não estava mais tão escuro, e o sol arranhava as folhas das árvores no horizonte da floresta. Papai carregava os livros com facilidade em um braço, enquanto eu ia na frente, segurando a lamparina, vendo o reflexo de minha fita em alguma janela ou panela deixada para fora. Entramos com passos mais silenciosos possível, e nosso olhar compartilhado foi vitorioso por mais uma vez termos conseguido sair e voltar sem que nem ao menos os criados notassem, ou sequer se levantassem.

Papai me entregou os livros e eu subi as escadas, cada um indo para seu quarto. Etienne se moveu um pouco quando passei pela sua porta aberta – dez anos e ele ainda não se sentia seguro o bastante para dormir sem uma rápida rota de fuga para nossa mãe -, mas consegui chegar ao meu quarto e fechar a porta sem de fato me deparar com os olhos castanhos sonolentos de meu irmão.

Ergui o colchão com o maior silêncio que pude e contemplei meus tesouros passados. Em sua maioria, livros. Alguns eu arriscava deixar para fora, e trocava-os, de tempos em tempos, para mamãe não perceber nenhum número “exageradamente grande”. O problema era que três já se classificava nessa categoria, e as vezes me divertia pensando em seu rosto se soubesse que, além dos três velhos volumes que mantinha expostos na pequena prateleira que papai pediu para mim, eu ainda tinha mais trinta volumes escondidos por baixo da cama. Sem contar eles, pequenas preciosidades como blocos de madeira da minha infância, fragmentos do passado e, agora, minha fita vermelha.

Abaixei o colchão e me enfiei em uma camisola para voltar a deitar na cama. Ainda eram cinco da manhã, e eu deveria ter por volta de uma hora antes de levantar. Quando fui acordada e desci para o café da manhã, mamãe não disse uma palavra de congratulação para mim, apesar de ter me olhado com os olhos brilhando. Mas não era o tipo de brilho que uma mãe olharia para filha no dia do seu aniversário, era um tipo de brilho intenso, como se tivesse ganhado, como se ela merecesse congratulações. Apenas Etienne, em sua inocência, e ainda não completamente envenenado por mamãe, foi capaz de me dar um beijo no rosto e um feliz aniversário.

Quando saí para encontrar minhas amigas, todas elas me parabenizaram. E eu realmente fiquei feliz com isso. Fantina, que havia se afastado de nós desde que noivou, veio me dar beijos no rosto, dizendo que logo seria minha vez. Katriane me abraçou tão forte que me deixou sem ar, mas riu, dizendo que agora que eu finalmente não era mais criança, ela não sentia mais vergonha de conversar comigo, e para ter cuidado, agora éramos rivais, e eu ri com ela. E Therese, doce Therese, que sempre parecia viver no próprio mundo e havia feito seu próprio aniversario dias antes de mim, também quinze anos, me presenteou com uma coroa de flores trabalhada, feita de cravos e margaridas.

Mas com o passar do dia, e da semana, minha alegria se transformou em terror e solidão quando, bem no final do dia do meu nascimento, voltei para casa e encontrei minha mãe me esperando. Eu sabia o que estava acontecendo antes dela sequer abrir a boca, fechada em uma linha fina.

Seu vestido verde claro cobria todo seu colo e ia até seus cotovelos, como, de acordo com ela, uma verdadeira dama devia se vestir. Ela até mesmo era bonita. Os cabelos castanhos claros, aos quais eu tinha puxado, e os olhos castanhos escuros. Também tinha apenas trinta e três, a idade de papai. Mas eu nunca conseguiria pensar em minha mãe como uma mulher bonita, e era culpa dela. Seu nariz era empinado demais, a boca franzina e apertada demais, os olhos desdenhosos demais. Eveline Bertrant sempre parecia estar criticando ou julgando alguma coisa, e era certo que se achava melhor do que metade da aldeia. Talvez até de metade do mundo.

— Finalmente, Mabelle, você virou uma mulher.

Havia muita diferença de quando ela disse isso, e de quando papai disse. Quando meu pai falou, eu me senti orgulhosa, feliz, realizada. Quando minha mãe falou, foi como a sentença de um crime, e seus olhos brilhando de vitória apenas confirmou que meu inferno tinha começado.

Porque eu havia feito quinze anos. E em Melenuit isso significa uma coisa: casamento.

Era um esquema bem estruturado. As garotas da aldeia tinham dos quinze aos dezessete anos para noivar, e deviam chegar aos vinte casadas. Os garotos, por outro lado, tinham uma taxa de tolerância maior, tendo até os vinte para estarem oficialmente casados. E o terror que não deixava a luz do sol aquecer mais do que minha pele era que eu estava completamente sozinha. Olhava minhas amigas e não via qualquer abertura para ao menos sussurrar o que queimava dentro de mim.

Era apenas olhar Salene, a irmã mais velha de Fantina, com vinte anos. Já era casada e fazia questão que a chamassem de Mrs. Avery. Seu marido, Beoufort, era um homem simples, porem carinhoso. Podia dizer que era um casamento feliz e realizado, uma vez que Salene carregava um menino nos braços, seu filho Jesper, de apenas dois anos, e já tinha a barriga arredondada outra vez. Seus olhos brilhavam sempre que andava pela aldeia, segurando o marido com uma mão, o filho com outra e a barriga abrindo caminho.

Havia a própria Fantina. Ela não era muito mais velha que eu, tinha apenas dezessete, mas já estava noiva. Havia se afastado de nós (Katriane, Therese e eu) quando um anel foi colocado em seu dedo, e sempre dizia que quando fôssemos como ela, iríamos voltar a andar juntas. Afinal “eu não tenho muito que conversar com vocês, sinto muito, mas sou quase uma mulher casada, não posso mais andar com crianças”. Ela ria e fazia questão de usar a mão direita para tudo, de um modo nada natural. Seu noivo era Jaimin Dupont, e acho que ela estava mais feliz de estar a caminho do altar do que da escolha do noivo em si.

Não podia contar com Katriane, também. Sendo um ano mais velha que eu, já tendo dezesseis, e estava praticamente noiva de Lenard Pottier, o que era uma maravilha, pois os dois namoravam escondido desde que tinha doze anos. Estavam apaixonados e não podiam esperar para tudo ser firmado. Ela ainda estava aberta a propostas melhores, Mr. Giraud queria ter certeza de que casaria sua mais velha bem, mas acho que não apareceria coisa melhor do que o herdeiro Pottier.

E Therese, minha última esperança, não era esperança alguma. Ela olhava sonhadoramente para o horizonte, e aceitaria sem questionar e até com certa felicidade quem quer que seu pai, Mr. Guillot, escolhesse. Ela apenas queria ser uma boa esposa e construir uma família. Eu apenas queria que seu futuro marido fosse alguém capaz de apreciar seus sorrisos sonhadores e gentilezas profundas.

De todos os lados, eu estava sozinha. Pois todas elas, sem exceções, aceitavam. Aceitavam de braços abertos e olhos brilhantes o único destino que Melenuit oferecia. Elas o faziam felizes. O que eu poderia fazer ou para quem eu poderia pedir socorro se eu, ao contrário delas, não queria me casar?

— Mabelle, que pensa que está fazendo? — Minha mãe vinha pela rua, de mãos dadas com Etienne. Pelo visto havia voltado da casa de seu irmão, acabado o bate papo com sua cunhada, Mrs. Foucher, ou apenas tia Deuphine. Etienne estava um pouco desarrumado, com a camisa para fora da calça, o que significava que provavelmente havia ido por terra com Nathanael, nosso primo e um ano mais velho que ele. Eles sempre brigavam quando se viam, mas parecia algum tipo de cumprimento, pois não havia qualquer raiva ou rancor depois.

— Penso que estou sentada, mamãe – a respondi, olhando seus lábios fazerem a costumeira linha de reprovação enquanto chegava mais e mais perto, fazendo meu irmão trotar ao seu lado. Ela odiava essas respostas, e parte de mim as dada especialmente para vê-la irritada.

— No chão, como se fosse um animal? Levante-se daí. — me deu um puxão forte no braço, mas não ousei abrir a boca para protestar sobre sua força. Apenas a obedeci. – Já tem quinze anos, menina, não pode mais se comportar como criança. É uma mulher. Ficar sentada no chão como uma criança sem modos, que absurdo! Ande, vai se limpar. Estava brincando com a terra? Só não lhe bato aqui e agora, pois já está grandinha demais para isso, mas não me tente, ou juro por Deus que te ponho nos trilhos! Já para o banho, e depois vá até seu pai, me parece que ele tem algo a tratar com você. Mas volte depressa, não é de bom tom uma jovem dama se enfiar sozinha em uma loja.

Não me incomodei em responder, em verdade, apliquei uma especialidade que havia desenvolvido através dos anos de não ouvir. Era mais fácil não ouvir minha mãe, pois tudo que saía de sua boca eram embebidas em veneno ou temperadas com arrogância. Eram palavras duras e desprovidas de qualquer carinho, e desisti de me perguntar a razão de tal hostilidade vinda de minha própria mãe. Ela sempre esteve lá, e apesar da clara má vontade, me criou. Eu ainda preferia que outra pessoa fosse minha mãe, e sorri ao passar por Eveline, imaginando como seria minha vida se tivesse alguém de olhos dourados para correr.

Limpei-me como achei que deveria em um banho de água fria que me refrescou o calor da manhã, e coloquei outro vestido, de um marrom desbotado que combinava com meus olhos, fazendo-os ficarem mais vivos. Desejei poder colocar minha nova fita, mas guardei o desejo bem fundo dentro de mim, antes que mamãe pudesse lê-lo em meu rosto.

O verão era a única época do ano em que se podia andar pelas ruas de Melenuit sem se preocupar em escorregar, seja em neve ou lama, e as moças – me incluindo nisso -, aproveitavam o chão sem perigos durante o dia para circularem com refrescantes calçados baixos, invés das pesadas botas. Também era a época para os vestidos mais leves, como o meu, sem mangas e com poucas saias, e ficar o mais tempo possível fora de casa, aproveitando cada brisa fresca que aparecesse.

Quando saí na rua, tomando cuidado com a poeira que subia do chão seco, aproveitei para buscar alguma de minhas amigas, e não me surpreendi quando encontrei Katriane e Therese sentadas na fonte da praça, engajadas em uma conversa que deixava as bochechas da primeira coradas e os olhos da segunda bem abertos. Isto era relevante porque era normal Kat se exaltar, mas completamente incomum Therry olhar para você com mais do que meia atenção.

As duas se calaram quando eu me aproximei, e isso quase me fez dar meia volta e ir procurar meu pai, como devia estar fazendo. Mas meus pés chegaram até elas antes que eu pudesse refazer a rota, e pude notar o quanto estávamos às três desconfortáveis. Therese não olhava para mim e sim para a água na fonte, e não havia nada de incomum nisso, a não ser pelas suas mãos apertadas no colo, denunciando seu desconforto. Katriane, ao contrário, olhava-me bem. Seus olhos castanhos encontraram os meus e havia certa raiva e mágoa neles, apesar de tristeza ser a maior. E eu devia estar parecendo uma verdadeira idiota, com um sorriso sem jeito no rosto. E iria parecer mais ainda, porém Kat não me deu a chance.

— Você sabia? – Sua voz estava falhando e minha amiga parecia à beira de lágrimas. Queria esticar a mão e perguntar o que estava acontecendo, mas algo em seus olhos me mantinha afastada.

— Sabia do que? Kat, o que está acontecendo? Você está bem? – Perguntei tentando soar menos desesperada. O que havia acontecido? Katriane não era de chorar, era forte, então que tragédia a havia estilhaçado dessa forma?

— Eu disse que ela não sabia, Kat – Therese disse, com sua voz etérea enquanto se inclinava para minha melhor amiga. Seus cabelos, de um castanho escuro cacheado, estavam soltos e ficavam evidentemente marrons no sol da manhã. Katriane não respondeu, apenas continuou olhando para mim com olhos quase acusadores e essa foi a gota d’água.

— O que eu não sabia? Therry, o que está acontecendo?

— Sua mãe, Belle. – Ela respondeu, me olhando com seus olhos pesados. – Ela ofereceu sua mão para os Pottier. Para Lenard, na verdade. E Mr. e Mrs. Pottier estão considerando.

Não. Eveline, minha mãe, ela não podia fazer isso. Não comigo, não com Katriane, não com Lenard. Eles se amavam, eles saiam escondido para namorar a anos, eles estavam radiantes com a ideia de se casarem. Por milagre, e nem sei qual foi a última vez que algo assim aconteceu nessa aldeia, um casal se uniria em matrimônio verdadeiramente feliz com isso, porque se amavam. Isso era lindo e era o que eu queria. Casar-me com alguém que amasse, se fosse para me casar. Mas esse alguém não era Lenard, não, não, não.

— Kat, eu não fazia ideia, eu... Desculpe-me, me perdoe, por favor... – Me sentei ao seu lado e a abracei, agradecendo quando ela fez o mesmo comigo. Ela chorou no meu ombro, seus sonhos e coração quebrados. Pois ela sabia, assim como eu, que casamento era um negócio, e entre as seis famílias que possuíam dinheiro na aldeia havia uma hierarquia.

Enquanto os Giraud estavam em sexto e último lugar, na sua posição de sapateiros, os Pottier estavam em quinto, sendo donos do único mercado da aldeia. Então um casamento entre Katriane e Lenard era comum, uma vez que não existia muita diferença de riquezas. Mas nós, os Bertrant, éramos os segundo mais ricos de toda aldeia, com a joalheria e ferroaria. Entre o último e o segundo, não havia dúvidas sobre qual família os Pottier iriam querer se unir.

— Sua mãe é uma bruxa, Belle, bruxa! – Ela se recuperou enquanto limpava o nariz escorrendo e piscava para interromper as lágrimas. – Dizem que Rowena que é uma, mas sua mãe não tem coração! Como ela põde fazer isso, Belle?

Porque ela é uma verdadeira vaca, e Mrs. Blanchard é uma das pessoas mais gentis que conheço.

— Como você soube? – Perguntei segurando em suas mãos, enquanto Therese, do outro lado, afagava-lhe os cabelos.

— Ouvi uma conversa dos meus pais. Não estavam nada felizes. Parece que não vão desistir tão fácil, e vão conversar com os Pottier para tentar manter as coisas como estão, mas no fundo já sabem que é bom começar a procurar outro noivo para mim. – Sua voz saiu tão desolada que o gelo que se instalou em mim desde que completei quinze anos chegou a parar meu coração, apenas para derreter sem qualquer aviso logo depois. Fui invadida por uma onda de calor, e apertei as mãos de minha amiga com força, a fazendo olhar nos meus olhos.

— Katriane, eu lhe asseguro, não vou deixar isso acontecer. – Me surpreendi em como minha voz saiu firme, e apesar da pouca esperança brilhar no fundo dos seus olhos, ela balançou a cabeça.

— Não há o que você possa fazer, Belle.

— Há, sim. – Respirei fundo. – Não tenho a menor pretensão de me casar com Lenard, ainda mais se isso significar sua infelicidade. Escute-me, Kat, eu não vou deixar isso acontecer. Não vou me casar com ele, e sim você. Vou garantir isso.

— E como pretende fazer isso, Belle? – Therese olhou para mim, curiosa, os olhos meio focados em mim enquanto fazia tranças no cabelo liso de Katriane. Respirei fundo e olhei em volta, para o movimento da aldeia, antes de voltar a olhar minhas amigas.

— Apenas farei. É uma promessa.

Mesmo depois de Katriane se acalmar o bastante para ser levada para casa de braços dados com Therese, e eu voltar a caminhar para a loja de meu pai, pensei em como tudo era sempre tão injusto. Não era justo com Katriane e Lenard. Não era justo comigo. Não era justo com ninguém. Ninguém devia ter seu coração dilacerado dessa forma, e eu sabia que se aceitasse e me casasse com Lenard, minha amiga – ou parte dela – nunca me perdoaria.

Eu faria qualquer coisa para isso não acontecer.

Quando entrei na loja, papai estava debruçado sobre um grande livro, provavelmente fazendo a parte que mais odiava no negócio: a contabilidade. Mesmo com o rosto sério e o cabelo caído para frente, não deixou de sorrir quando me viu.

— Belle, querida, que bom que veio. Tenho que falar com você sobre...

— Sobre mamãe estar me negociando com os Pottier? – Ele me olhou, estupefato por alguns instantes, então suspirou enquanto se levantava e ia até mim, me dando um beijo no rosto e segurando meus ombros.

— Como sabe?

— Acabei de encontrar Katriane e Therese na praça, papai, não pode deixar isso acontecer! Ela e Lenard se amam, não pode deixar que isso aconteça, por favor!

— Mabelle... – Ele suspirou, e eu senti como se todas minhas esperanças fossem quebradas. Meu nome era apenas usado por ele quando iria acontecer algo de que eu não gostava. – Sua mãe me mandou ir atrás dos Pottier no dia que fez aniversário, e eu procrastinei tanto que ela mesma foi. Vou tentar atrasar o máximo que conseguir, vou tentar ajudar os Giraud e sua amiga, mas não tenho muito o que fazer.

— Mas não faz sentido! – Bati o pé como uma criança. – Os Pottier não são tão ricos, não para mamãe! Não seria mais proveitoso me empurrar para Sorrel Guillot? – Perguntei quase em desespero. Sorrel era o irmão mais velho de Therese, com dezesseis anos, e herdeiro dos Guillot, que possuíam o boticário e eram os quartos mais ricos da aldeia.

— Para ela, é muito mais proveitoso que tenha “controle” das joias, tecelagem e mercado da aldeia. Acha mais vantajoso. – Papai me explicou com a voz pesada e eu senti vontade de chorar. Mamãe nasceu uma Foucher, a terceira família mais rica da aldeia, tendo seu dinheiro tirado da tecelagem. Praticamente todas as roupas eram feitas lá, junto com reparos e o que quer que envolvesse tecido.

— Isso não pode acontecer, papai, por favor... – Senti todo o mal que guardei durante a semana se romper em forma de lágrimas, e logo eu estava nos braços de meu pai, com ele me acariciando os cabelos e dizendo que tudo ficaria bem.

Mas eu não tinha mais cinco anos, e apenas carinho e o conforto de seus braços não bastava para me afastar todos os medos. Eu já tinha quinze anos, já era uma mulher, e sabia que o mundo era muito mais escuro do que se fazia acreditar. Também sabia que meu pai, assim como eu, estava de mãos atadas, e nada que fizesse poderia mudar o rumo do destino, apenas o atrasar. Talvez sobrasse tempo para Katriane e Lenard fugirem, mas para isso teriam que passar pela floresta, e na floresta existe o Lobo.

Tremi apesar do calor de quase meio dia e respirei fundo, olhando a grande fornalha, com peças de metais se aquecendo nas brasas. Eu cumpriria a promessa que fiz a minha amiga. Eu impediria esse casamento. E pedi desculpas ao meu pai do fundo do coração por fazer o que tiver que fazer. Pois não haveria volta e nem segunda chance. Mas, talvez, essa fosse a melhor parte.

Talvez eu não queira voltar.

Notas finais
E ai, lindxs, gostara? Espero que sim ♥ Bjs da tia! ♥ ♥