Lua da Meia Noite
3 Contos para Acordar
Notas iniciais
As coisas melhoraram com o passar dos dias. Não entre mim e minha mãe – que tinha um sorriso sinistro no rosto quando voltei para casa -, mas entre mim e Katriane. Com promessas e juras, minha amiga finalmente conseguiu se acalmar e agora parecia depositar toda a esperança de sua felicidade em mim. E estava. Olhava-me com olhos brilhantes e segurava minhas mãos com força, nunca deixando de me agradecer, mesmo que ainda não houvesse ocorrido nada.
Fiquei feliz por minha melhor amiga decidir acreditar em mim, e amei ainda mais meu pai, que cumpriu o que disse e estava arranjando tempo onde não havia. Já haviam se passado duas semanas e, oficialmente, Katriane ainda era noiva de Lenard, mesmo que toda aldeia soubesse que minha mãe estava tentando mudar isso.
Com sorte, pelo menos por agora, os aldeões tinham outra coisa para se preocupar. A lua estava praticamente cheia no céu, e isso fazia as pessoas começarem a sorrir com os lábios duros enquanto a família escolhida – os Foucher dessa vez – se despedia de algum animal para ser levado para a floresta.
Mesmo assim, escolheram por dar uma festa.
Não era exatamente uma festa, como mamãe fez questão de ressaltar, era apenas uma pequena celebração. Haveria uma fogueira, mesmo com o calor, e dança, comida, bebida e várias pessoas. Mas não era uma festa, pois não era dada por nenhum dos outros senhores. Era mais para as pessoas comuns, e por isso mamãe nem iria. Mas, também haveria os outros senhores lá, aproveitando a pequena dose de alegria e desprendimento que se permitiram tão perto da lua cheia. Então ela iria, mesmo com o nariz torcido, pronta para se juntar com algumas outras mães e tecer comentários maldosos sobre as pessoas ao redor.
Logo, por tabela, eu também estava indo. E papai. E Etienne. Sinceramente preferia gastar minha noite em algum livro ou me remoendo mais uma vez pensando em como livrarei a mim e a Lenard um do outro. Às vezes não agüentava os olhos desesperados de Katriane e eles me perseguiam até a noite, me deixando com olheiras no dia seguinte. Papai havia notado, mas sabia muito bem o porquê de eu estar incomodada, então não perguntou. E mamãe ainda não havia reparado, pois se tivesse me acertaria a cabeça com uma tora para eu dormir pesado.
O vestido que escolheu para mim era de um tom de verde claro, com irritantes mangas até os cotovelos. Eu devia agradecer, ainda, por poder ter meu colo descoberto, apesar do corpete alto que chegava quase na minha garganta. Mesmo assim, sua saia era leve e me ajudaria a não morrer de calor.
Mamãe, por outro lado, devia ter feito algum pacto com o Diabo, pois seu vestido – completamente fechado -, de um tom de azul escuro, não deixaria uma pessoa normal respirar, e talvez por isso ela estivesse levando um leque. Papai estava preso em uma roupa, provavelmente, escolhida por minha mãe: calças e blusas, jogadas com uma gravata apertada e o cabelo perfeitamente arrumado. Papai odiava gravatas e cabelo sem um único fio fora do lugar. Sinceramente, ele ficava muito mais bonito com o cabelo natural, mas mamãe não partilhava dessa opinião. E Etienne estava uma pequena cópia de papai, de mãos dadas com nossa mãe quando saiu de casa, ansioso para estragar a roupa rolando no chão com seus amigos.
O barulho era alto. Pessoas, música, conversas. Vi minha mãe escorregar para as outras mulheres adultas depois de falar alguma coisa para meu irmão, que se soltou de seu aperto e sumiu na multidão. Papai, automaticamente, foi para o lado oposto de minha mãe, e ninguém perguntou se havia acontecido alguma coisa ou algo assim. Todos sabiam que o casamento era basicamente de fachada. E antes que minha mãe me puxasse para me exibir para as outras mães e pais por aí, ainda mais os Pottier, procurei minhas amigas.
Encontrei Therese junto a sua mãe. Mrs. Guillot tinha os cabelos cacheados que sua filha havia herdado, e olhos castanhos do tom natural da aldeia. Pelo que me lembrava, era ainda mais nova que meus pais, tendo apenas trinta e um, e possuía um sorriso fácil e olhos pesados da minha infância.
— Mrs. Guillot – cumprimentei quando cheguei na sua frente, sorrindo para Therese, que sorriu para mim. – Therry.
— Mabelle, por favor, sabe que meu nome é Adalene. – Ela sorriu, dando-me beijos no rosto. – Onde estão seus pais?
— Mamãe está ali – olhei para a roda formada por minha mãe, tia Deuphine e Mrs. Pottier, cujo primeiro nome era Vallerie. – E papai o mais longe possível dela.
Adalene soltou uma risada sufocada, pois sabia que não era certo rir. Mas não seria eu que iria repreendê-la.
— Então devo cumprimentá-la e deixá-las à vontade. – Deu beijos no rosto da filha e sorriu para mim antes de andar até minha mãe. Therese não perdeu tempo ao me brindar com um abraço e palavras preciosas sussurradas:
— Kat está com Lenard, me ajude a fazer com que ninguém note.
Isso, de alguma forma, me fez feliz o bastante para sorrir de verdade. Kat estava com Lenard, aproveitando momentos preciosos ao fugirem da vista de seus pais, trocando beijos e declarações, as esperanças dos dois, depositadas em cima de mim, mas não deixei que isso me amedrontasse. Não agora.
Agora me virei para segurar em seu braço, e sorri andando pela festa. Podia sentir até certa animação agora, em que sabia que Katriane estava bem e feliz. E uma vez que minha melhor amiga estava bem, minha outra amiga andava ao meu lado com passos vagarosos e cantarolando alguma melodia de sua cabeça e minha mãe ainda não havia me arrastado para ficar ao seu lado, eu pude observar quem mais estava na festa. De coração, estava procurando apenas uma família específica. Mas fiquei frustrada de não encontrar.
Os Blanchard raramente viam a aldeia. E quando vinham, era apenas uma, Mrs. Blanchard. Seus netos pareciam evitar o lugar a todo custo, uma vez que Rowena tinha de vir periodicamente por conta dos negócios da família. Talvez ela ainda aparecesse, esperava por isso. Não sabia por que, mas sempre que olhava nos olhos dourados de Mrs. Blanchard algo profundo dentro de mim se agitava e aquecia em reconhecimento.
Andamos, eu e Therry, por um bom tempo antes de Katriane se juntar a nós. Era possível ver seus olhos brilhando e o cabelo bagunçado, junto aos lábios levemente inchados. Eu nunca havia sido beijada, mas um dia gostaria de encontrar alguém que me beijasse dessa forma.
— Belle, ah, Belle! Você veio, e está deslumbrante! – Ela sorriu ao se atirar nos meus braços e me beijar o rosto. – Therry, me ajude. Meu corpete está quase caindo, rápido antes que alguém note.
— Se estou deslumbrante você está extasiada, Kat – sorri para minha amiga, que soltou uma risada para mim. Vê-la daquela forma apenas me deu mais confiança na minha decisão de impedir o casamento. Ela e Lenard seriam um dos casais mais felizes da aldeia mesmo se, com o passar dos anos, se amassem metade do que se amam agora.
Novamente ajeitada (Therry arrumou seu corpete e eu lhe ajeitei o cabelo), Kat foi chamada por sua mãe, que também havia se juntado ao grupo das senhoras da aldeia, e fomos atrás dela, pois as nossas também estavam lá. Não havia mais nenhuma criança ali, e já não seriamos mais excluídas das conversas das adultas.
— Mabelle, venha cá – minha mãe disse e fui para o seu lado, onde ela pegou-me pelo braço e se inclinou para minha orelha. – Arrume essa saia, garota, e não ria tanto, está sendo observada e homens gostam de mulheres reservadas. – Quando se endireitou, a mão como um punho de ferro em meu braço, exibia um sorriso cordial e rígido, que não tinha nada a ver com a lua crescente, e eu passei as mãos pela minha saia, alisando-a.
— Vejam queridas, as novas mulheres da aldeia – tia Deuphine – uma mulher de trinta e sete anos, com lábios quase tão cheios quanto seu decote, de olhos e cabelos castanhos — deu um sorriso afetado enquanto olhava para mim, Therese e Katriane. – Ah, eu me lembro de quando eu tinha quinze anos, já estava subindo no altar. Diga-me, Adalene, já tem algum pretendente para sua Therese? É uma mulher muito bonita.
— Na verdade, não. – Mrs. Guillot respondeu com um dar de ombros de pouco caso. – Ela fez quinze anos não tem um mês inteiro, e não estamos com pressa.
— Mabelle já recebeu vários convites – minha mãe fez questão de ressaltar. – Mas estou esperando a resposta de uma proposta que eu mesma fiz. – Ela não foi nada sutil ao fincar os olhos em Vallerie, Mrs. Pottier, enquanto falava. Mas Eveline Bertrant não tinha fama por sua sutileza.
Vi o rosto de Katriane quebrar um pouco, e sua mãe, Dorianne, apertar a boca com força, provavelmente se impedindo de dizer algumas coisas que Mrs. Bertrant merecia ouvir. Quando abriu, não foi para dizer verdades, e sim para nos livrar e a sua filha de presenciar tamanha maldade.
— Querida – chamou-a – Fabien sumiu e estou preocupada, pode procurá-lo para mim? Deve estar brincando com seus amigos, mas quero ter certeza que não está machucado. Leve suas amigas com você, vai tornar a busca menos tediosa.
— Claro, mamãe. – Respondeu ao se virar para as outras mulheres, seus olhos fixos e raivosos em minha mãe, antes de murmurar “senhoras” em uma pequena reverencia e se retirar, sendo seguida por mim e Therese.
Apenas quando já estávamos longe o suficiente foi que ela começou a xingar. Minha amiga tinha um vocabulário sujo extenso, e usou-o todo em minha mãe. Não abri a boca para defender a mulher que me pôs no mundo nem uma vez, pois concordava com cada palavra, mesmo que pessoalmente usasse menos de palavras chulas. Quando enfim seu arsenal se esgotou, teve que parar para recuperar o fôlego e se virou, parecendo só notar agora que eu estava atrás dela.
— Sua mãe é uma... – Começou.
— Eu sei. – Estendi meus braços e ela não disse mais nada ao me abraçar com força. Ficamos alguns momentos assim, até Therese – que parecia ter acordado de um sonho -, dizer vagamente que precisávamos procurar por Fabien. Então saímos do abraço e, as três de braços dados como quando éramos crianças, fomos a busca do irmão mais novo de Katriane.
Fabien tinha a mesma idade que Etienne, dez anos, e eles eram amigos. Na verdade, era difícil ver os três separados: Etienne, Nathanael e Fabien, sendo o segundo o mais velho dos três, mesmo apenas um ano, tendo onze. Então era certo que onde encontrássemos um, iríamos encontrar os outros dois. Talvez até mesmo Vardan, irmão mais novo de Nathanael, de nove anos, que tentava a todo custo “entrar” no grupo dos mais velhos.
Sabíamos que era questão de procurar um local onde a terra estava mexida por brigas nela, e não demorou muito para encontrar os quatro (Vardan realmente estava com eles, mesmo que apenas observando). Estavam em uma das extremidades da praça, meu irmão e nosso primo conversavam seriamente, ou tão seriamente como crianças de dez e onze anos podem conversar, enquanto o irmão de minha amiga traçava desenhos no chão, tão concentrado como se estivesse pintando alguma obra de arte.
— Fabien – o chamado da irmã fez o garoto levantar a cabeça e sorrir. Fabien era um dos garotos mais doces que conhecia, ao passo que meu irmão e nosso primo apenas pararam de conversar e olharam para nós, como se fossemos perfeitas intrusas. Será que olhávamos para as outras pessoas assim quando tínhamos essa idade? Que irritante. – Mamãe quer saber se está tudo bem, disse que sumiu.
— Está tudo bem, Kat. – Ele respondeu, inclinando o corpo estrategicamente para frente, para esconder os desenhos no chão.
— E o que estão fazendo, posso saber, Etienne? – perguntei para meu irmão, que encolheu os ombros e deu um sorriso muito parecido com o de nossa mãe.
— Nada, Mabelle. Apenas conversando. Estou bem também, vê?
— E eu também. – Nathanael falou, com certeza o mais velho e o líder. – Então já podem ir embora.
— E quem é você para nos mandar embora, pirralho? – Katriene lhe beliscou, lembrando que estava lidando com uma mulher mais velha que ele, e não um dos seus amigos, o que o fez recuar um pouco. Ela normalmente não beliscaria garotos mais novos e petulantes alheios, mas aparentemente ainda estava de mau humor pela minha mãe.
— Desculpe – murmurou, esfregando o braço. – Mas é uma conversa de garotos.
Aquilo não me cheirava bem. E pelos olhares que vi em Kat e até mesmo em Therry, elas pensavam o mesmo. Fabien era doce, mas esse era o problema, era facilmente dominado por Nathanael e não falaria. Varnel queria muito ser aceito para fazer qualquer coisa que contrariasse o líder. Então sobrava meu próprio irmão, que com o sangue Bertrant era o único que dava merecidos murros e chutes em nosso primo.
— Etienne – o chamei, fazendo-o olhar para mim. – O que está acontecendo? E se disser nada, irei agora à mamãe e falarei que você está todo sujo. Sabe que ela odeia desorganização. – Vi seus olhos se arregalarem enquanto reparava em seus joelhos sujos de terra e a camisa desarrumada. Ganhei.
— Estávamos pensando em entrar na floresta para procurar o Lobo, foi idéia de Nath.
Therese deu um passo para trás e a cor saiu do rosto de Katriane. Eu mesma senti meu coração falhar uma batida, um frio enraizado me assoprando a nuca. Imediatamente peguei na mão de meu irmão e de meu primo, como se eles fossem correr em direção a floresta a qualquer instante.
— Mas que ideia estúpida foi essa, Nathanael? Seus pais vão ficar muito decepcionados com você. – Repreendi olhando para ele, e logo para meu irmão. – E você, Etienne? Estava concordando com isso? Onde estava com a cabeça?
— Mas eu não estava. – Ele se defendeu com as bochechas ganhando uma cor mais forte de vergonha. – Estava dizendo para ele desistir. Mamãe me mataria se chegasse perto da floresta, e tia Deuphine o mataria.
— E qual sua desculpa, Fabien? – Katriane segura os ombros do irmão com força, as sobrancelhas franzidas de raiva por tamanha idiotice. Seu irmão abaixou a cabeça e disse com a voz embaraçada:
— Eu apenas... Desculpe Kat, mas seria fraco de não ir.
Soltei o ar quando escutei isso, Vardan já havia fugido para longe da bronca. Crianças. Eram crianças. O mais velho tinha onze anos e não sabiam nada do mundo. Pior, eram garotos. Queriam explorar e provar sua coragem perante um aos outros. Eles não tinham a menor idéia do real perigo da floresta, ainda não. Ainda mais agora, com a lua cheia tão próxima. A inocência de uma criança pode ser sua maior virtude, ou a razão de uma morte precoce.
— Mas por quê? – Nathanael perguntou amuado. A perspectiva de sua ideia genial ser entregue para os pais havia o deixado como realmente era: uma criança, e não um pequeno e arrogante líder como aparentava com seus amigos. – Não iríamos muito longe, era apenas para vê-lo, afinal, qual o problema? Não é lua cheia ainda.
— Não é mesmo, pequeno Foucher. – Therese disse inclinando a cabeça, fazendo seus cachos deslizarem pelos ombros. – Mas a última pessoa que se aventurou na floresta teve um fim terrível e deixou para trás um mal tão escuro quanto o que vem quando a lua enche.
Ela havia ganhado a atenção dele. Na verdade, havia ganhado a atenção de todos. Etienne e Fabien a olhavam quase sem piscar, a respiração presa na garganta. Katriane se encolheu, como se um vento frio tivesse atravessado seu corpo, apesar do calor, e eu não me permiti olhar em seus olhos. Eles ainda não conheciam essa história, mas eu sim.
— Quem? Que mal? – Meu primo perguntou, falhando miseravelmente ao tentar manter a voz firme. Foi Katriane que respondeu, ainda segurando seu irmão pelos ombros, mas agora parecia mais um abraço, como se quisesse protegê-lo das palavras que diria.
— Os Filhos do Lobo.
Foi a minha vez de encolher, e de repente, eu queria alguma fonte de calor. Segurei meu primo e meu irmão na mão enquanto, em um acordo silencioso com Kat, os levava para perto de uma das fogueiras secundárias, perto da fonte da praça, onde era possível ver o reflexo da lua na água. Sentei-me perto do fogo, de mãos dadas com meu irmão ainda, e Nathanael, que pelo visto ainda não tinha percebido que segurava minha mão com força. Therese sentou no banco em frente a fonte, ao lado de Katriane e seu irmão.
— Vou contar uma historia para vocês, e quero que prestem bastante atenção. Coisas ruins acontecem com quem entra na floresta e se aventura em suas profundezas. Isso aconteceu há dezessete anos e foi uma mulher que entrou, seu nome era Almira. Almira Blanchard.
Dizem que era uma mulher de beleza extraordinária, e uma bruxa como a mãe. Muito parecida com Rowena, com apenas uma peculiar diferença física: seus olhos eram de um tom violeta vivo, e diziam que sempre brilhavam com alguma malícia. Almira era diferente, não se encaixava. Andava por ai com roupas provocantes, usando maquiagens fortes. E sempre desacompanhada. Alardeou que nunca iria se casar, e não casou mesmo. Mas deveria, pois talvez não encontrasse o fim que teve.
Um dia, em uma de suas muitas crises de nervos, Almira saiu de casa e se aprofundou ainda mais na floresta. O dia se transformou em noite, e considerou sorte quando encontrou refúgio em uma caverna. Ela entrou e se acomodou, e não demorou muito a dormir. Porém, demorou menos ainda para acordar com um homem a olhando.
Dizem que foi amor a primeira vista, e durante um mês a mulher ficou ao lado do homem, consumando o casamento silencioso. Até que a lua se encheu no céu e ela descobriu que o homem por quem tinha se apaixonado, era na verdade a besta. Era o Lobo.
Ela correu e fugiu, conseguindo voltar para casa. Durante meses, ninguém mais soube dela. Dizem que adoeceu e ficou tão fraca quanto uma criança e tão miserável como uma velha. Quatro meses se passaram. Quatro luas cheias. Então, na quinta lua, o ar estava pesado.
Mais do que o normal, havia algo de ruim no ar. Algo forte e sombrio. Desde a primeira vez em que o Lobo aterrorizou a aldeia não se tinha um sentimento assim. As pessoas estavam com gelo dentro delas, apesar de ser plena primavera. As trancas foram reforçadas e alguns diziam que, por algum motivo, naquela noite o Lobo quebraria a paz. Ele levaria alguém. Não era uma noite comum. Não seria uma lua comum.
Não estavam completamente errados.
Naquela lua cheia, o sacrifício não foi levado, mas tampouco alguém da aldeia. Muitos não conseguiram dormir tamanho o medo e contaram o que ouviram, e disseram que teriam pesadelos até o fim dos dias. Pesadelos sobre como a lua alcançou seu ápice e um uivo de tremer os ossos varreu toda a floresta, acordando bebês de seu sono e fazendo adultos se encolherem como seus filhos. O uivo do Lobo era o pior som que já ouviram, e nunca seriam capazes de esquecer. Era como um lamento perigoso, uma maldição lançada. Mas havia algo. Não era lamentoso, era uma saudação.
No dia seguinte, quando o Sol tomou o lugar da Lua, Almira Blanchard foi enterrada. A garota que encontrou o Lobo teve um fim terrível, repleto de dor em uma cama de sangue. Mas não morreu em vão, sem deixar nada para trás. As criaturas que saíram dela tinham olhos violeta misturados com cinza, e cabelos tão negros como a noite. A maldição que deixou sobre a terra foi um par de pequenos monstros. Aloys e Aimeé eram seus nomes, e eram gêmeos. Os Filhos do Lobo, as Crianças da Lua Cheia, os Demônios da Noite.
Os gêmeos Blanchard.
— Idiota! – Etienne foi o primeiro que teve uma reação, com os lábios pálidos e sua pequena mão agarrada a minha. – Nunca mais sugira algum assim, Nathanael!
Mas Nathanael não respondeu. Estava pálido, tremia e eu tive medo que algo estivesse errado, mas então ele balançou a cabeça, os olhos castanhos amedrontados e arrependidos.
— Me desculpe. – Foi tudo que disse, e tinha que dar algum crédito a ele, parecia apavorado. Passei a mão em sua cabeça.
— Apenas fique longe da floresta, fique longe de tudo de lá. – Katriane respondeu e me olhou nos olhos, e eu sabia que havia uma acusação ali. – Lembrem-se e nunca se esqueçam, todos os três: acreditem na lenda, e mais importante, cuidado com o Lobo.
Devolvemos os garotos para suas respectivas mães. Kat levou seu irmão, e eu não sabia o quanto ela iria dizer. Sei que eu não disse nada para minha mãe quando entreguei Etienne aos cuidados dela, escapando rápido para poder fazer o mesmo com tia Deuphine, que já não estava mais em sua companhia. Não havia necessidade de delatar meu irmão: ele não concordava com a ideia desde o início e ficou amedrontado o suficiente para quebrar os dentes de Nathanael se ele sugerisse algo assim outra vez. Então apenas entreguei meu primo para minha tia, e decidi que precisava de um tempo para respirar.
Andei pelos aldeões e meus pés me guiaram, não para casa, mas para o segundo lugar na aldeia em que eu podia chamar assim. A loja da família estava fechada, mas eu sabia como entrar e apenas estiquei o meu braço para achar a chave escondida. Entrei e me sentei na primeira cadeira que vi, sem dar importância para ligar alguma luz ou algo parecido. Senti-me melhor apenas com o barulho da festa abafado, mas sabia que estava tentando me afastar eram das palavras de Katriane.
Eu não concordava. Não era justo. E sentia vergonha de mim mesma por ter tanto medo quanto ela, quanto Therese, quanto os meninos. Os gêmeos Blanchard eram diferentes, tanto quanto sua avó, e serem chamados de tudo isso não deviam contribuir para sua socialização na aldeia. Não era sem razão que raramente davam as caras.
Perdi algum tempo da minha vida imaginando algum mundo irreal, onde o preconceito e medo não fossem tudo que se conhecia. Mas eu estava em Melenuit, e medo era tudo que se conhecia: medo do desconhecido, medo do que se não entendia, medo de se afastar do seguro e confortável. Uma aldeia repleta de pessoas com medo, vivendo suas vidas para terminar da mesma forma: sem razão. Uma parte obscura minha pensou que o Lobo realmente era uma maldição, mas uma maldição bem posta.
Pelo menos assim os aldeões tinham algo para sair de sua rotina.
Fiquei lá dentro até acalmar meu coração e conseguir parar de associar a imagem da minha paixão de infância com a terrível lenda que o rondava. Meu erro provavelmente foi ter ficado tempo demais, pois assim que sai e me afastei um pouco, voltando para a festa, senti um aperto familiar em meu braço, mas agora mais forte, me fazendo torcer a cara pela surpresa.
Minha mãe segurava meu braço com força, provavelmente deixaria marcas, e seus olhos estavam estreitos, fazendo um par perfeito com a linha fina de desgosto que eram seus lábios. Uma respirada foi o bastante para sentir o cheiro de álcool nela, que pelo visto havia virado algumas taças. Nada incomum. Mas nada bom para mim.
— Mabelle— ela sibilou enquanto olhava em volta. Ninguém estava nos observando ou prestando atenção, e isso a deu encorajamento para continuar. – Onde você estava? Imagine a vergonha que senti quando disse que iria buscá-la para os Pottier e não lhe encontrei! Menina irresponsável e desleixada, vá agora atrás deles e implorar perdão pela sua falta de modos!
— Mamãe, me solte – pedi sentindo meu braço latejar. Ela realmente segurava muito forte, mais do que o normal, e eu estava lutando contra a vontade de balançar o braço.
— Te soltar? Está me dando ordens? Quem pensa que é, garota?
— Penso que sou sua filha e você está me machucando. – Respondi movendo meu braço, mas isso apenas fez com que ela me apertasse ainda mais, suas unhas ameaçando perfurar a carne. Mordi a língua para não protestar. – Me solte mãe, por favor.
— Eu devia lhe dar uma surra bem aqui para você aprender a me obedecer. Deus me ajude, mas onde eu errei?! Tentei de tudo, mas você não passa de um fracasso! Mal arrumada, desleixada, sem modos, arrogante e...
— Arrogante? Eveline Foucher Bertrant falando sobre arrogância? Já se olhou no espelho?! – Disparei. Meu coração se apertou com cada uma dessas palavras, mas a chama em mim se alastrou junto com a dor. Era raiva. Raiva por todos esses anos, e ela me odiar sem motivo aparente. Vi em seu rosto o choque por eu ter devolvido um pouco de seu veneno, e então vi a raiva. A raiva que acabou com o resto do juízo e compostura que ainda restava em Mrs. Bertrant.
Bem ali, no meio da festa, minha mãe levantou o braço para me acertar o rosto. Mantive os olhos abertos, não os fechei, queria olhar em seu rosto enquanto o fazia. Mas o que eu vi não foi sua face contorcida de amargura, foi de pura surpresa, chegando ao choque e beirando o medo. Pois sua mão não chegou em meu rosto, uma vez que seu braço foi segurado no ar.
— Espero, Eveline, que não seja o que eu estou pensando – Rowena estava do nosso lado, e eu não sabia quando havia chegado. Na verdade eu podia jurar que ela não estava ali a um segundo atrás, mas mesmo assim estava. Eu me lembrava de como era sua voz, arrastada e cantada, suave como as patas de um gato no chão. Mas não estava assim agora. Pelo contrário, sua voz mais parecia a de um temporal, forte e potente, castigando a terra. E seus olhos, dourados de ouro derretido, estavam duros como uma própria barra de ouro, sem calor ou gentileza.
E estavam focados na minha mãe.
Agora, a festa inteira estava prestando atenção em nós. A presença de Mrs. Blanchard era o bastante para sermos o foco da atenção, e sua voz não havia sido baixa. Logo, o choque de minha mãe se transformou em vergonha, e a vergonha alimentou seu ódio, agora dez vezes maior.
— Não me diga como educar a minha filha, bruxa. – Nessa palavra havia tanta raiva e tanto ódio que não era humano. Era possível um ser humano ser tão odiosa por dentro, guardar tanto rancor do mundo?
— Bruxa? – Rowena inclinou a cabeça para frente, sua voz ainda fazendo com que tremores involuntários corressem pelo braço de minha mãe e prendessem a respiração da aldeia. – Sinceramente, Eveline, você não está um pouco velha para acreditar nessas coisas? Eu sei que fui ao seu nascimento prestar felicidades aos seus pais, mas isso já tem uns bons trinta anos. Acho que já passou da fase de acreditar nessas coisas.
Alguém riu em algum lugar. Na verdade, algumas pessoas soltaram risadas, e a cor vermelha nas bochechas de minha mãe subiu para seu rosto inteiro, a ponto que sua cabeça parecia um rabanete. A humilhação lhe subiu a cabeça e ela tentou se soltar, mas Rowena não mexeu um músculo.
— Me solte – rosnou, quase espumando pela boca, dos lábios desenhados de Rowena saiu um sorriso cruel, bem parecido com o de...
— Soltarei, detestável Eveline, pois não sou como você, e não tiro proveito físico de quem é mais fraco e amedrontado do que eu. Mas eis o que vai fazer: você irá para sua casa, e vai poupar todos os bons aldeões desse lugar de sua presença.
— Mabelle... – Ela engasgou ao tentar falar, mas o dourado de Mrs. Blanchard a silenciou.
— Sua filha vai passar bem em minha companhia, de fato, creio que ela passa melhor na companhia de qualquer um que não a sua. – Seus dedos se abriram o braço de minha mãe foi libertado. Pude me deliciar com a visão de seus joelhos fraquejando enquanto Rowena continuava. – Apesar desse infeliz episódio, estamos em uma festa e Belle tem amigas com quem se divertir e ter uma noite agradável. Ao contrário de você, que não reconheceria algo bom nem se caísse em sua cabeça. Aliás, nunca reconheceu.
Houve o silêncio depois disso, e então a resignação. Minha mãe, Mrs. Eveline Bertrant, a segunda mulher mais rica da aldeia, recolheu o resto de dignidade que tinha, deu meia volta, e desapareceu em direção a nossa casa. As pessoas continuaram olhando, observando, e pude ver Kat e Therry de relance, prontas para me ajudar. Mas Rowena ainda estava ao meu lado, e isso mantinha todos a uns bons passos de distância. Não me importei ou pedi licença. No momento, não queria falar com ninguém, ou continuar no centro das atenções. Foi bem nesse momento que Mrs. Blanchard me pegou pelos ombros e me afastou dali, furando o círculo de pessoas, e me levando em direção à fonte.
Vagamente notei seu vestido, branco em detalhes dourados, feito de um tecido leve e fino, quase transparente na altura da barra da saia. Seu colo estava exposto e seus braços também, e seu cabelo negro fazia um contraste hipnotizante com seu vestido. Andava com passos suaves e decididos, enquanto sua perna direita ia para frente, a barra esquerda se movimentava, e vice-versa. As pessoas também voltaram a sua festa, agora comentando o assunto principal, que me envolvia. Não queria saber.
Quando sentamos na beira da fonte e pude olhar em seus olhos, Mrs. Blanchard da minha infância havia voltado. Com seus olhos reluzentes e gentis, e o rosto coroado de um sorriso cordial. Enquanto a olhava, senti que devia fazer ou falar alguma coisa, então tentei.
— Mrs. Blanchard, muito...
— Não, querida, me chame de Rowena, sim? – Ela pediu, seu sorriso me acalmando um pouco. – Dê-me seu braço, sua mãe lhe machucou, não foi?
Eu tinha até mesmo me esquecido. Mas quando estendi meu braço e Rowena o pegou, o senti latejar. Gentilmente, ela subiu a manga, e imediatamente viu a mancha dos dedos de minha mãe, roxos, com pequenas perfurações onde estavam suas unhas.
— Não sei o que deu nela – me peguei falando. – Deve ter bebido além do normal, ela é detestável, mas não assim.
— Infelizmente, Belle, algumas pessoas simplesmente não conseguem serem felizes. E descontam isso no que lhe for mais conveniente. No caso, você. – Seus olhos encontraram os meus e ela sorriu de um jeito mais secreto. – Me prometa uma coisa, sim? Da próxima vez que ela fazer algo assim, não tenha medo de revidar. Prometa-me, Mabelle, de que não terá medo.
Eu iria responder, mas vi meu pai vindo em nossa direção, passos largos e apressados, o rosto transtornado. Rowena molhou calmamente a mão na fonte e passou no meu braço machucado, e no mesmo momento senti a dor aliviando. Não esperou resposta ou a chegada do meu pai, e apenas me deu um beijo na testa antes de se levantar e entrar novamente na festa.
E enquanto meu pai me cercava, morto de preocupação e raiva de minha mãe, abaixei o olhar para meu braço. O braço com manchas de dedos e cortes de unha. O braço onde Rowena encostou, e senti a dor parar. Ele ainda estava molhado e a manga ainda estava levantada. A diferença era que não havia mais nada lá. Absolutamente nada. Mrs. Blanchard havia me curado, e então dei minha resposta. Apesar das lendas e histórias, prometi para Rowena e para mim que não teria mais medo. Seja do que for.
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