Lua da Meia Noite

4 Como Folhas no Outono


Notas iniciais
Oie oiee ♥ ♥ Obrigada a Laix, Rezenae, Salayne e Yoonmin pelos comentários lindos ♥ ♥

Papai ainda estava furioso.

Havia se sentado ao meu lado na fonte depois de ter me levantado e rodado, examinado meu rosto e me abraçado. Ele havia perguntando a razão da manga do meu vestido estar levantada, mas não me deu tempo de responder antes de amaldiçoar minha mãe outra vez, e isso foi o bastante para abaixá-la novamente e fazê-lo esquecer.

Acabei tendo que o puxar para um canto, o afastando da fonte e das pessoas, e o abraçando como uma moça não devia fazer em público, mesmo com seu pai. Senti as batidas irritadas de seu coração contra seu peito e observei enquanto elas normalizavam e suas mãos passavam em meu cabelo.

— Se pudesse, ah, Belle, se pudesse teria me distanciado dela a anos. Mas com você e Etienne, e não há como...

— Papai, você não tem culpa alguma. – Não o deixei terminar a frase. Não porque me deixava infeliz, de forma alguma. Era verdade que essa havia sido a primeira vez em que papai falou em voz alta seu desejo de ter uma vida sem minha mãe, mas isso era óbvio. Falei para ele não se culpar. Não era culpa dele que o casamento era um compromisso até a morte, e não havia nada para mudar esse fato. Papai estava ligado a Eveline até seu último suspiro, ou o dela. – E eu estou bem, vê? Mrs. Blanchard... – A lembrança de seus olhos fez meu coração se aquecer, pois aquele dourado havia me feito sentir segura. – Ela me ajudou e pôs mamãe para ir embora com o rabo entre as pernas, está tudo bem.

— Rowena... – Ele respirou seu nome, me soltando um pouco e olhando em volta. – Tenho de achá-la. Agradecerei de joelhos se for preciso. Ela lhe protegeu e nada irá mudar isso. – Papai me deu um beijo e um carinho no rosto, seus olhos, idênticos aos meus, brilhando um pouco mais acalmados. – Suas amigas estão vindo, irei procurar Mrs. Blanchard. Se cuide, Belle. Me procure se algo acontecer.

Acompanhei seu olhar para onde Kat e Therry avançavam timidamente, e com meu sorriso de confirmação, ele foi embora, definitivamente indo procurar Rowena. Com a saída dele, minhas amigas se sentiram confortáveis o bastante para acelerar a caminhada e logo Katriane se jogou em meus braços

— Belle, que horrível! – Exclamou me apertando tanto que achei que ia me partir. – Sua mãe, ela... ela não tem limites! Que bruxa! E Mrs. Blanchard, por Deus, nunca pensei que sentiria alguma coisa além de receio daquela mulher, mas beijaria seu rosto agora! Ouvi cada palavra e agradeci. Ela disse o que todos os aldeões têm vontade de dizer!

— Você está bem, Belle? – Therese me perguntou quando teve a chance, uma vez que Kat tomou a frente em meus braços e na fala. Mas quando a primeira se calou e me soltou, pude olhar melhor os olhos preocupados de minha amiga sonhadora. O que vi me fez sorrir e segurar suas mãos.

— Estou, sim, Therry, vê? – Olhei para mim mesma e depois para ela. – Quem ficou constrangida nessa cena foi minha mãe, que deve alegar amanhã não se lembrar de nada ou algo assim. – Encolhi os ombros e respirei fundo. – Mas, garotas, minha mãe se retirou e isso ainda é uma festa. Podemos deixar esse episódio para lá?

Elas concordaram, obviamente que concordaram. Éramos moças, e estávamos em nossa primeira celebração como tal. Em algum momento vislumbrei o vestido branco de Rowena, e vi papai conversando com ela. Parecia realmente a ponto de se ajoelhar, mas como agradecimento ou por outro motivo, eu não sabia dizer. Esse pensamento me fez rir enquanto dançava com Sorrel, depois com Katriane, e Lenard. Dancei até mesmo com Damien, o irmão mais novo de Lenard, da minha idade. E me diverti em um dos raros momentos em que pude aproveitar ter um irmão e girei Etienne no chão, fazendo-o rir.

Não podia deixar de dançar com meu pai, e depois fui roubada por meu tio, Masson, irmão de minha mãe, porém muito mais agradável que ela. Cheguei até mesmo a fazer alguns passos com Mr. Giraud e Mr. Guillot. Meus pés doíam e meu rosto estava suado, mas ninguém apareceu para me recriminar no meio da festa.

Quando enfim a música cessou e restava apenas brasas nas fogueiras, papai me estendeu o braço direito enquanto mantinha um Etienne apagado em seu colo com o esquerdo. Abafando o riso, segurei em seu braço e fomos para casa, me despedindo silenciosamente de minhas amigas que, eu sabia, estavam loucas para descansar. Bom, ao menos Therese estava, uma vez que já havia sentado a um tempo e seus olhos piscavam demoradamente. Mas Katriane havia desaparecido, e coincidentemente Lenard também, então acredito que os dois iriam suportar as dores e o cansaço mais um pouco. Haviam dançado juntos quase a noite inteira, mas acredito que para quem está apaixonado, nada nunca basta.

Não havia sinal de minha mãe no hall ou nas escadas quando entramos, então muito provavelmente ela estaria em seu quarto. Acordada ou dormindo não me importava, contanto que me deixasse em paz e não me estragasse o fim da noite. Papai me deu um beijo no rosto de boa noite antes de levar Etienne para seu quarto, para prepará-lo para dormir, e eu fui para o meu. Quando fechei a porta e me sentei na cama, tirando os sujos e gastos sapatos, eu ainda estava sorrindo. Havia sido uma noite incrível, e, no meu intimo, sabia que a devia a uma pessoa.

Mais tarde, refrescada por um banho e deitada em minha cama, fechei os olhos como se fosse orar. Mas não orei. Não do jeito tradicional. Em fato, apenas mentalizei olhos dourados de ouro derretido, e um sorriso gentil que acalentava meu coração.

Obrigada por hoje, Rowena.

Quando acordei não foi uma empregada me sacudindo, nem mesmo minha mãe abrindo as cortinas e me dando ordens. Foi Etienne. Senti meu irmão afundar na cama antes mesmo de abrir o olho, e, quando o fiz e acordei de vez para o que estava acontecendo, arredei imediatamente para o lado e o acomodei em meus braços.

Não chegavam a serem necessariamente gritos, mas vozes altas e irritadas cortavam o silêncio absoluto da casa. Ainda não havia realmente amanhecido, estava naquela hora da manhã em que o mundo não passa de silhuetas disformes. Não eram altos, na verdade, era perceptível o esforço que faziam para não acordar a casa inteira. Mas meu irmão, de sono mais leve que conheço, se levantou com isso.

Papai e mamãe estavam no meio de uma briga, e eu sabia exatamente o motivo. Eu. Me senti um pouco culpada, não por causar uma briga – até porque quem causou tudo foi Eveline -, e sim por meu irmão. Etienne se apertava contra mim como se pudesse o proteger das palavras raivosas que eram proferidas na madrugada.

— Porque eles sempre brigam, Belle? – Meu irmão perguntou em um sussurro, temeroso que pudesse chamar atenção indesejada para nós. Balancei a cabeça e beijei seus cabelos, do mesmo castanho que mamãe.

— Porque tem opiniões diferentes. – Respondi, mordendo a língua. Ele tinha apenas dez anos, e, apesar de saber de lendas e histórias de terror, ainda não era hora dele saber a crueldade de sua própria vida: filho de pais que se detestavam, acorrentados a um casamento falido e ele, uma criança, no meio do fogo cruzado.

Ele não disse nada mais enquanto se ajeitada em mim, e logo eu pude ver o cansaço vencer suas pálpebras despertas. Quisera eu poder dormir outra vez. Fiquei acordada até as vozes diminuírem e então se calarem, seguidas por duas batidas contidas de portas. Mesmo assim, com a casa em silêncio novamente, continuei acolhida ao meu irmão e olhando para o teto, o dia dando luz ao quarto vagamente.

Minha cabeça borbulhava demais para conseguir dormir, mesmo com o corpo cansado. A lua cheia seria amanhã, e, logo depois, a verdadeira festa da aldeia. Setembro havia acabado, junto com o verão. Agora, a aldeia daria boas-vindas a dias mais curtos e roupas mais quentes, gradativamente. As festas das estações sempre eram grandes. Sempre contavam com toda a aldeia.

Inclusive com toda a família Blanchard.

Quando enfim o dia venceu a noite e o quarto se iluminou, coloquei meu irmão na sua própria cama, onde seria acordado em alguns instantes por nossa mãe. Acordado outra vez, na verdade, pois assim que o levantei seus olhos se abriram, mas sabia que devia ficar na sua própria cama e esperar por nossa mãe, além do mais, o sono ainda pesava suas pálpebras preguiçosas.

Quando voltei para meu quarto, não fiz questão de esperar ser acordada. Não era mais criança e nem queria cruzar com minha mãe. Um banho me fez terminar de acordar e logo me vesti para aproveitar os raios tímidos da manhã. Ainda era início de outono, então havia um certo rastro do calor do verão na terra, mas não no clima frio que predominaria, no mínimo, durante toda a manhã, e por causa dele joguei um agasalho leve sobre os ombros.

Papai já estava na mesa quando desci as escadas, provavelmente tendo a mesma ideia que eu, e levantou os olhos quando ouviu o barulho, sorrindo quando me reconheceu. O beijo que me deu no rosto foi seu bom dia silencioso, enquanto comia tortines (fatias de baguete cobertas de manteiga e mel) e tomava uma xícara de café. Me sentei ao seu lado, escolhendo suco de laranja e brioches.

— Dormiu bem, Belle? – Papai perguntou com seus olhos preocupados em mim. Sorri para ele, esperando que não visse minhas olheiras. Talvez devesse tomar um pouco de café antes de sair de casa.

— Desmaiei na cama, papai, é mais correto dizer – encolhi os ombros com um sorriso. – E o senhor?

— Ah – ele soltou um suspiro longo e olhou para cima, onde o barulho de uma porta denunciou que mamãe havia acordado e estava, no momento, tirando Etienne da cama. Logo desceria para o café. – O tanto quanto pude.

Em duas mordidas ele terminou sua tortine, e pegou outra, agora recheada de geleia. Vi como seus ombros ficaram tensos e eu mesma fechei os olhos por um momento para desejar que minha vida e a de meu pai fosse outra, antes de minha mãe aparecer. Já estava completamente vestida e segurava Etienne, ainda meio preguiçoso, no colo. Seu rosto estava lívido e sem nenhum denunciante da noite anterior, ela, pelo visto, daria a outra face.

— Bom dia, papai. – Etienne fez força para descer do colo de minha mãe e ir para o de meu pai, ainda esfregando seus olhos para espantar o resto de sono. Papai o pegou no colo e lhe deu um beijo nos cabelos.

— Bom dia, rapaz, como foi a noite?

— Foi boa, papai – meu irmão respondeu enquanto olhava para mim e sorria, e não pude evitar de sorrir também. Mamãe se sentou na mesa sem que eu ou meu pai a recebêssemos, e agiu como se não houvesse notado ou se importado enquanto tomava chá e comia um ovo cozido com fatias de pão recheadas de manteiga.

— Etienne, se sente direito para comer – foi tudo que ela falou enquanto focava os olhos em meu irmão, que timidamente saiu do colo de nosso pai para se firmar em uma cadeira. Não resisti a olhá-la. Seu rosto que poderia ser belo, se não houvesse tanto desgosto o contorcendo. O rosto que me odiava, por alguma razão desconhecida. O rosto da mulher que havia tentado me bater em frente toda a aldeia, e isso me deliciava. Pois por todos esses anos Eveline havia se contentado com beliscões, puxões de orelha e cabelo, apertos no braço e castigos severos (como ficar duas semanas sem sair de casa por ter brincado de guerra de neve). Agora, ela havia se feito manchada por toda aldeia, e teria que lidar com isso.

— Algo de errado, Mabelle? – Ela me perguntou, os olhos castanhos me focando sem um pingo de remorso ou vergonha. Também a olhei. Não abaixaria mais a cabeça para ela, jamais. Fiz uma promessa a Mrs. Blanchard e a mim. Uma promessa de não ter mais medo. E não teria. Balancei a cabeça e tomei mais um gole de suco, depois de calmamente mastigar e engolir um pedaço de brioche.

— Não, mamãe, não me sinto errada. Agradeço sua preocupação. Mas e você? Conseguiu dormir? Entenda, com o peso da vergonha e humilhação, é compreensível se não teve boa noite de sono.

A xícara quase se partiu com a súbita força que Eveline colocou nela, e seus olhos castanhos faiscaram. Se seu cabelo não estivesse tão perfeitamente penteado tenho certeza que alguns fios iriam subir pelo estresse.

— Cuide dessa língua, menina, ou...

— Ou o que, Eveline? – Papai costumava ser gentil. Sua voz era forte, mas nunca agressiva. Apenas marcante, junto com seu cheiro almiscarado. Mas havia momentos em que sua voz perdia a amizade, e parecia pronta para pegar uma cadeira e lançar em direção a minha mãe. Como este agora.

— Fique tranquilo, papai – respondi antes que mamãe pudesse o fazer. – Ela não irá fazer nada, ou serei obrigada a chamar Mrs. Blanchard para ela outra vez. E para sua sorte, mamãe, espero que ela não seja uma bruxa de verdade, ou terá que se cuidar. Rowena estava verdadeiramente irritada com você ontem à noite.

Vi o medo real cruzar seu rosto, e então a raiva. Mas o olhar de meu pai e a menção de Mrs. Blanchard fez com que ela voltasse a se manter em silêncio. Como nunca sentia muita fome de manhã, logo terminei minha parte, diferente de meu pai, que ainda comia. Pedi licença e dei um beijo no rosto de papai, sentindo sua barba me fazer cócegas, e na testa de Etienne. Então saí para fazer a única coisa que poderia nessa aldeia logo pela manhã: conversar com minhas amigas.

Como o esperado, pela noite anterior, Kat estava radiante e dolorida. Reclamava sempre de dor nos pés, mas nunca o deixava de fazer sorrindo. Therese ainda parecia cansada, e sabia que estava esperando o dia baixar para poder dormir outra vez. Outra coisa que se era esperada foram os murmúrios que seguiram Mrs. Bertrant quando enfim saiu de casa, logo pela manhã, como fazia em todas elas, acompanhada de meu irmão. A própria se mantinha firme em seu caminho, e nem ao menos virava o rosto enquanto seguia em direção a casa de tio Masson.

O dia e o seguinte passaram rápidos. O seguinte, mais ainda. Pois ele era o dia do mês que todos queriam que chegasse para, apenas e unicamente, passar logo. As seis horas, todos já estavam em suas casas, e Etienne, ainda com as histórias que Katriane contou na cabeça, pediu abrigo, mas agora para nossa mãe. Já era noite, e eu não devia, mas mantive minha janela aberta. Não ficaria assim, era só por um tempo. Apenas o bastante para observar a tão temível lua cheia.

Era linda, na verdade. Iluminava o céu como um grande farol, e as poucas nuvens ao redor não ousavam passar por ela, nem por um segundo. A casa estava silenciosa, todos estavam dormindo ou presos as suas camas. Eu devia estar nela também. Me lembrei, anos antes, quando meu pai havia me contado a lenda da aldeia. Havia sentido tanto medo que naquela e nas luas seguintes, por bastante tempo, quis que ele dormisse comigo. Quando me sentia corajosa o bastante para não precisar de meu pai, ainda era covarde o suficiente para me deitar antes mesmo que o sol baixasse, e não ousar me levantar até a manhã.

Mas aqui estava eu, o relógio marcando oito horas e a brisa fresca do outono no meu rosto. Por alguma razão, não sentia mais medo. Não assim. Meu olhar caiu na floresta: profunda, escura e impenetrável. Eu possuía uma vista privilegiada, e o vento me trazia seu cheiro. A floresta era algo tão belo, e tão proibido. O Lobo estava em algum lugar ali, nesse momento, rondando, esperando algum desavisado e se deliciando com o sacrifício desse mês, a vaca dos Pottier.

E mesmo sabendo que era um alvo relativamente fácil, mesmo sabendo que o Lobo poderia ver minha janela aberta e pular no meu quarto, continuei ali.

Me prometa, Mabelle, que não sentirá mais medo.

Eu prometi, e iria me esforçar para isso. Mesmo que meu coração ainda gelasse e mesmo se o medo fosse a única coisa que conhecia. Era Outono, afinal, e nem de longe era minha estação favorita. Era onde tudo que antes estava tão vivo e quente na primavera e no verão começava a morrer e a esfriar. Mas, de certa forma, algo dentro de mim recebeu essa estação de braços quase abertos.

Outono era uma época de transição, e é verdade, tudo começava a morrer. Mas era preciso lembrar que apenas quando algo morre pode nascer de novo, mais forte e mais belo. Deixei a janela e a fechei o mais silenciosamente que pude, indo quase arrastada por mim mesma para minha cama. Naquela noite, os olhos esperançosos de Katriane e o sorriso nervoso de Lenard não me assombraram.

Porque eu não teria mais medo e já sabia exatamente o que fazer.

A manhã seguinte foi como todas as outras depois de uma lua cheia: portas e janela sendo cuidadosamente abertas, como se esperassem se deparar com alguma cena horrível do início dos tempos, antes da paz. Então, o ar era coletivamente soltado dos pulmões quando viam tudo da forma que deixaram no dia anterior. Nada de sangue, nada de destruição, nada de patas na terra.

Mais uma lua cheia havia se passado e o Lobo não havia entrado na aldeia, o que fazia com que todos pudessem sorrir enquanto se agasalhavam para a manhã de outono. Aliás, uma manhã bastante corrida de outono.

Como hoje à noite seria a festa da estação, as mulheres pobres já acordaram indo para a cozinha, para ajudar em sua parte na comida, e as senhoras entregavam o cardápio a suas empregadas. Os homens, por outro lado, começavam a preparar as mesas, e eu estava ansiosa para me juntar as minhas amigas e fazer a melhor parte: a decoração.

As encontrei no nosso lugar favorito, a fonte da praça, e não me surpreendi quando a cena que vi foi Katriane com o rosto vermelho de falar, e Therese, olhando para ela, as vezes a vendo, as vezes não.

— ... E então, Therry, podíamos catar algumas folhas que já começaram a amarelar, e passar um fio entre elas, pendurando-as sobre nossas cabeças, não ficaria lindo?

— Sim, Kat, mas como planeja pegar as folhas? – Minha amiga colocou as mãos em seu colo, franzindo as sobrancelhas. – Ainda é início de outono, não há folhas suficientes no chão. Se houver alguma, estão no topo das árvores.

— Podíamos dar trabalho aos nossos irmãos. – Respondi me sentando ao lado dela. Kat sorriu para mim e Therese me abraçou. – Eles são jovens demais para os adultos deixarem que façam trabalho pesado, e ainda são crianças. Se subissem nos galhos mais baixos para pegar algumas folhas desbotadas, iriam agradecer por terem algo para fazer.

— É por isso que eu te amo, Belle! – Katriane riu enquanto me beijava o rosto. – É sempre brilhante!

— E você me adula me elogiando assim, Kat – lhe fiz uma pequena reverência como pude, sentada, e ela riu, jogando os cabelos para trás.

— Fique esperta, minha amiga, ou pode ficar convencida – respondeu me fazendo rir. – Então vamos procurar os fedelhos?

Fomos. Katriane foi sozinha atrás de Fabien, e pude contar com a ajuda de Therese ao ir em direção a casa de meus tios, onde sabia que minha mãe já estaria. A casa dos Foucher não era muito distante das dos Bertrant. Na verdade, mais parecia uma ordem quase certa. A aldeia era praticamente circular, como se nossos antepassados tivessem se alojado em um ponto da floresta e criado um círculo quase perfeito para começarem a morar.

Na suposta entrada da aldeia era onde ficava as casas, separadas por um espaço grande o bastante para duas carruagens passarem. As carruagens eram raras aqui, e apenas duas famílias as tinham (a minha e os Pottier), que por conta dos negócios, faziam viagens frequentes para a cidade ou aldeias vizinhas. A partir desse espaço, na extrema direita, havia a minha casa, dos Bertrant, seguida pela extrema esquerda, dos Foucher. Éramos vizinhos, seguindo em direita e esquerda por: Guillot, Pottier e Giraud, nessa ordem.

Eram casas grandes, de dois ou três andares, luxuosas como podiam e em constante destaque com as casas mais ao fundo da aldeia, separadas por um pequeno pedaço vazio, onde as pessoas mais simples viviam em cabanas de madeira. Então, finalmente, chegava o comércio, onde ficava a joalheria de papai, o mercado dos Pottier, a tecelagem dos Foucher, a sapataria dos Giraud e o boticário dos Guillot.

E, no meio de tudo, mais puxado para o lado do comércio, era onde ficava a praça com sua fonte, meu lugar favorito e o ponto de encontro oficial entre minhas amigas e eu. Então, tivemos que andar um pouco até chegar a casa Foucher, mas assim que chegamos pudemos ouvir o barulho de crianças. A casa era cheia delas. Ao que parecia, tio Masson e tia Deuphine não pouparam esforços para deixar herdeiros. Diferente de minha mãe e meu pai, que apenas tentaram outra vez por precisarem de um homem.

Minha prima mais velha, Salene, de vinte anos, já havia se casado e se mudado. E a segunda, Fantina, minha antiga amiga, de dezessete, estava para sair de casa, também, noiva. Mas havia Nathanael, com onze anos. E Vardan, com nove. Emils tinha sete e a pequena bebê, Harriet, de apenas três anos. Quando uma empregada abriu a porta, estava com as bochechas vermelhas e segurava minha pequena prima nos braços. Com apenas três anos, Harriet tinha bochechas grandes e mãos pequenas, e puxava incessantemente o bordado do uniforme da pobre mulher.

— Bom dia, senhorita Bertrant, senhorita Guillot. – Ela abaixou a cabeça, acomodando a bebê da melhor forma que podia.

— Bom dia – respondi. Therese estava ocupada demais a olhando como observava alguma coisa rara e inusitada. A mulher não se ofendeu com a falta de resposta, todos sabiam como Therry era. – Gostaria de falar com meu irmão e meu primo, Nathanael. Pode chamá-los, por favor? Diga que daremos algo para eles.

— Oh, claro, madame – ela assentiu e já se virava para chamá-los quando a peguei pelo braço, tomando cuidado para não a desequilibrar e fazer o bebê cair.

— Mais uma coisa, não fale perto de minha mãe ou de minha tia, por favor? — Pedi em um sorriso, e ela me sorriu de volta enquanto piscava e entrava para dentro da casa.

— Porque não podem saber? – Therese perguntou enquanto traçava as linhas da madeira da porta com a ponta do dedo.

— No caso de minha mãe não é nem preciso explicar. Ela não deixaria Etienne vir pelo simples prazer de me contrariar, além de que, naturalmente não deixaria “um rapazinho fazer algo desse tipo”. E minha tia, bom, ela pode estar um pouco preocupada. Soube que Nathanael voltou um pouco assustado da festa.

— Kat devia ter se lembrado que eram apenas crianças. – Ela suspirou, mas eu balancei a cabeça.

— Crianças que estavam para fazer algo tremendamente perigoso. Era preciso.

Era preciso, claro que era. Muitas coisas na vida eram precisas. Era preciso se desfazer de um animal ou dois, dependendo de seu tamanho, na lua cheia. Era preciso ouvir histórias horríveis e lendas verdadeiras, mesmo quando elas deixavam pesadelos e olheiras em crianças. Era simplesmente preciso. Assim como, para mim, era preciso não ter medo.

Quando as crianças apareceram, com cabelos bagunçados e olhos brilhando pela recompensa que nem sabiam qual era, aprumei meus ombros e estendi a mão, os puxando para fora da casa e fechando a porta. Era preciso fazer certas coisas, ainda mais para essa noite. Essa noite que seria, muito provavelmente, o início do meu inferno.

Mas era preciso, por Katriane e por Lenard.

Era preciso, por mim.

— Garotos – me abaixei os olhando, um sorriso brincava em meu rosto. – Preciso que façam uma coisa para nós.

Notas finais
Gostaram amores? Contem-me :3 Bjs da tia ♥