Lua da Meia Noite
5 Crianças da Meia Noite
Notas iniciais
Os meninos ficaram bastante animados com a ideia de se exibirem, e logo criaram uma competição para ver quem pegava folhas em menos tempo, se provando o mais habilidoso em subir e descer os galhos. A recompensa deles foi a própria competição, que terminou com meu irmão e meu primo rolando no chão, uma vez que Nathanael reclamou a vitória para si por ser mais velho, mesmo que tenha perdido. Então Etienne pulou sobre ele. O doce Fabien apenas deu um beijo em sua irmã e deixou os amigos para trás.
Os deixamos se resolvendo enquanto juntávamos as folhas em três grandes baldes que Therese pegou do boticário de seus pais, e, como tudo que tinha de lá, soltava mais cheiros do que deveria e me fez coçar o nariz. Então, caminhamos todas em direção a tecelagem, onde encontraríamos agulha e linha, e eu tinha quase certeza que tio Masson não iria fazer objeção ao usarmos seu material de trabalho. Era pela aldeia, afinal.
Quando entramos na tecelagem, o mundo de roupas me cumprimentou, a loja cheia de manequins. Quando eu era menor costumava ter medo deles, mas hoje apenas me traziam desconforto. O sino comum nas portas do comércio tocou, e tio Masson estava como de costume: com o cabelo longo amarrado por um rabo de cavalo baixo e a fita métrica jogada no pescoço. Sorriu quando nos viu, apesar da confusão em seu rosto.
— Bom dia, meninas – ele cumprimentou de trás do balcão. – Mabelle, o que seria isso?
Olhei para minhas amigas, cada uma carregando seu balde de folhas, e pelo menos Katriane me deu um sorriso, o que me fez sorrir de volta. Coloquei meu próprio balde no chão e me ergui, colocando as mãos nos quadris e olhando o homem que beirava os quarenta anos na minha frente.
— Tio, precisamos de um favor seu.
Não foi tão difícil quanto parecia. Claro, meu tio deu algumas franzidas de sobrancelhas e uma ou duas vezes vi o canto de sua boca se torcer. Mas Katriane me ajudou a explicar a ideia, dando ênfase em como ficaria bonito – Therese já tinha deixado seu balde no chão e estava particularmente encantada com um manequim -, e, gentilmente, o lembrou que, afinal, nós já tínhamos pegado todas as folhas e seria rude desmerecer nosso trabalho. Então ele concordou.
A manhã já tinha ido embora quando, com dedos doendo e vários xingamentos soltados – Kat não achou que seria tão difícil -, nós finalmente terminamos o trabalho. Minhas costas doíam, mas eu sorria, e peguei meu agasalho, que havia tirado a um tempo, e pus sobre os ombros. Estava na hora do almoço e isso fazia de nós três garotas mortas de fome, levemente cansadas e grandiosamente satisfeitas. Deixamos nosso trabalho com Lenard e Damien, que juraram que iriam tomar cuidado (tiveram que jurar, aliás, com o olhar de Katriane neles) e fomos cada uma para sua casa.
Acabei encontrando meu pai no caminho, sentada em uma das mesas prontas junto com Mr. Giraud, as mangas da camisa fina levantadas até os cotovelos e o cabelo molhado jogado para trás. Ambos conversavam e bebiam em grandes canecas, celebrando o bom trabalho.
— Belle! – Papai me chamou, sorrindo para mim e estendendo a mão, a qual eu peguei. – Onde esteve a manhã toda?
— Responda, por favor, que estava com minha filha, querida Belle – Vernell disse em um sorriso. – Não me mate do coração.
— Pois estava, Mr. Giraud. – Sorri para ele. – Eu, Kat e Therry fizemos uma bela decoração para a festa de hoje à noite.
— Oh, e posso saber que bela decoração é essa, querida? – Papai perguntou arqueando as sobrancelhas, o braço jogado por cima do meu ombro, me fazendo sorrir de expectativa.
— Vai ver quando Lenard e Damien colocarem, papai, assim como todos.
— Ah, sua filha tem vontade, Patrick – Mr. Giraud balançou a cabeça. – O homem que casar com ela vai ter que ter mão firme.
— Ela é uma Bertrant, meu caro amigo, a mão firme é ela – papai devolveu e deixou o copo na mesa, se levantando e apertando a mão de Mr. Giraud. – Agora, temos que ir comer, ou juro que começo a roer essa madeira.
— Também irei procurar algo para colocar para dentro, irei ser honesto com você, estou começando a ficar velho para essas coisas – Vernell reclamou, o que fez papai soltar uma gargalhada. Os dois se despediram mais uma vez, e ainda abraçados, eu e meu pai fomos em direção a nossa casa.
O cheiro de comida fazia, aos poucos, as pessoas se arrastarem para dentro de suas casas. Com o outono ainda recente, o sol de meio dia ainda era forte e quente, fazendo a sensação de fome se intensificar, principalmente nos homens, que haviam trabalhado pesado a manhã inteira. Um exemplo era meu pai, que quase me carregava em direção a nossa casa.
Quando chegamos, Etienne estava na sala e não havia sinal de minha mãe, o que era uma coisa a se comemorar e não fazer perguntas. Papai o pegou no colo e meu irmão começou a contar, de forma apressada, como havia nos ajudado a fazer a decoração e depois vencido a briga com Nathanael.
Sinceramente, acho que se tinha alguém com sangue Bertrant, era meu irmão.
O cheiro de comida ficou ainda mais forte e já até sabia qual era: pato com laranja. Senti meu estômago roncar enquanto me sentava ao lado de meu pai e Etienne do outro. Não pude evitar de encarar o assento vazio de minha mãe, mas não foi eu quem perguntou.
— Giselle – papai chamou a mulher que, silenciosamente, punha a comida na mesa, e ela o olhou. – Pode me dizer onde está a minha adorável mulher?
— Mrs. Bertrant não se sentia bem quando voltou da casa de sua cunhada, Mrs. Foucher. Deixou o pequeno Bertrant na sala e se retirou para o quarto.
— E ela especificou esse súbito mal-estar? Me parecia muito bem pela manhã. – A testa dele se franziu e seu olhar foi para cima, sabendo que, depois do almoço, por protocolo ou desencargo de sua consciência, teria que ir até o quarto de minha mãe. E isso apenas confirmou quando Giselle balançou a cabeça em negação, deixando claro que mamãe havia deixado isso no ar para fazer com que meu pai fosse até ela.
O almoço foi silencioso, uma vez que papai e Etienne se ocupavam em comer. Eu virava o rosto entre uma garfada ou outra, observando a janela, meu coração ameaçando esfriar com a consciência de que metade do dia já havia se passado, e não demoraria muito para a festa. Não demoraria nem um pouco.
Fui para o meu quarto depois do almoço. Papai iria sair depois de ver o que tinha acontecido a Eveline, e trabalharia mais um pouco. Voltaria, provavelmente, do meio para o fim da tarde, quando se arrumaria. Etienne havia saído para encontrar seus amigos e quase senti saudades de quando eu tinha sua idade.
Quando eu tinha dez anos, e Kat onze. Ela e Lenard estavam começando a sair, e vi pela primeira vez seus olhos brilharem. Parte maravilhosa da vida que foi aquela, quando nossas maiores preocupações eram que nossos pais não descobrissem nossos segredos tolos e paixões secretas, e podíamos fazer o que quiséssemos, contanto que não entrássemos na floresta.
Agora, fechada no meu quarto, cinco anos havia se passado. Ela e Lenard ainda estavam juntos, mas tanta coisa ameaçava isso. Minha mãe ameaçava isso, me usando como arma. Eu não iria permitir isso. O que iria fazer hoje... eu não fazia ideia do tamanho do estrago que iria causar. Mas uma coisa era certa: iria me impedir de casar com Lenard. E se conseguisse isso, aguentaria qualquer outra consequência.
Não me permiti pensar em como isso afetaria meu pai, ou Etienne. Provavelmente eu estava sendo egoísta ao não pensar neles. Mas meu irmão ainda era jovem, e meu pai me apoiaria. Ele me defenderia do que for, eu sabia. Mas não o deixaria se queimar por mim. Era uma mulher, era uma adulta, e agora meus atos caíam sobre mim. Observei meu quarto por um tempo antes de ousar mexer em meus tesouros em plena luz do dia. Olhá-los, meus segredos, meus atos de rebeldia escondidos, me fizeram ter coragem, e a visão da fita que havia ganhado de meu pai fez minha promessa ganhar força.
Me prometa, Mabelle, de que não terá medo.
Não teria. Coisas demais dependiam da minha suposta coragem, ou loucura. Seja uma ou outra, amarrei a delicada fita em meu cabelo, a vestindo em mim. Não teria medo.
Quando o dia caiu e a noite tomou o seu lugar, antes mesmo de terminar de me arrumar, eu já podia ouvir e sentir a festa. A música já começou animada e havia gente conversando. Até mesmo bebês de colo participariam e não haveria nenhuma alma dentro de casa, a não ser que fosse um infeliz quase morto.
Não havia visto minha mãe, mas uma criada havia vindo me arrumar, por ordens dela. Fui enfiada em um vestido de um lilás claro, de colo aberto e de mangas até os cotovelos. Meus cabelos foram presos no alto, cacheados, e minhas bochechas apertadas para uma melhor cor. Estava linda, mas apenas quando a criada saiu, pude estar realmente a vontade e, corajosamente, esconder a fita vermelha entre meus cabelos. Não teria mais medo.
Quando desci as escadas, papai já estava na sala me esperando, junto com Etienne e minha mãe, e nunca iria deixar de ressaltar em como ela não o merecia. Meu pai era jovem, bonito e cheio de vida demais para alguém como ela. Lá estava ele, com o cabelo penteado para trás da cabeça e os olhos marrons brilhando. A roupa impecável o dava o ar de aristocrata que era, mas os primeiros botões da camisa abertos lhe dava o ar de meu pai. O sorriso que me deu veio de orelha a orelha, e seus olhos brilharam. Me senti bem por estar bonita, até minha mãe me olhar.
Seu vestido era lindo: de um tom verde escuro, fechado e apertado. O cabelo estava preso para cima, e joias enfeitavam seu pescoço, orelhas e dedos. Suas joias eram bonitas, seu vestido era bonito, mas ela não. Tinha os olhos fincados demais, os lábios apertados demais, o nariz para cima demais.
— Belle, meu anjo, você está magnífica! Perfeita! – Meu pai sorriu, enquanto minha mãe apenas me olhava de cima a baixo, me aprovando com uma satisfação fria. Etienne estava ao seu lado, parecendo uma cópia de meu pai com cabelos mais claros.
— Não temos tempo para você estraga-la, mais ainda, com mimos, Patrick – Eveline nos apressou, andando em direção a porta. – Vamos.
Papai respirou fundo e me deu um beijo na testa antes de ir até ela. Mamãe o segurou pelo braço como se fosse um prêmio, e não acho que para ela seria diferente. Etienne segurou a mão livre de nossa mãe e, juntos, eles saíram para a festa.
Olhei pela porta para as pessoas girando, conversando e rindo. Para as luzes e músicos. Uma última vez passei a mão no cabelo e senti minha coragem loucamente escondida entre minhas mechas e também sai de casa.
A festa havia ficado maravilhosa. Olhei para cima, para as folhas penduradas sobre nossas cabeças, e sorri. Katriane havia tido uma ideia genial, e a deixaria aproveitá-la por um tempo. A energia vibrava entre nós, com as pessoas dispostas a esquecerem a lua cheia e verdadeiramente celebrarem a chegada do outono, de uma nova estação, de uma nova fase. Havia várias mesas, desde das compridas até as mais reservadas, e comida e bebida a vontade. Alguns casais ou grupos já estavam rodando e rindo ao som da música, mas havia outra parte (composta principalmente das famílias ricas) que estavam sentadas nas mesas reservadas.
Foi para lá que papai foi, acredito, meio que arrastado por minha mãe. Ela andava em direção a mesa dos Foucher, sua família de nascença, e cumprimentou seu irmão e sua cunhada, que estavam acompanhados por dois de seus filhos, Harriet e Emils. Nem Vardan e nem Nathanael estavam ali, o que fez meu irmão se contorcer para fora das garras de nossa mãe, beijar seus tios e ir procurá-los.
Eu sabia que não teria escapatória tão fácil.
— Mabelle – tia Deuphine me cumprimentou em um sorriso. Era uma mulher agradável e sempre tinha um pouco de pena dela, por ter que aguentar minha mãe durante todas as manhãs todo o santo dia. – Está magnifica, sobrinha. Seu tio estava justamente me contando que foi você e suas amigas que fizeram isso – ela apontou para cima, para as folhas. – Genial! Ficou encantador!
— Obrigada, minha tia – respondi em um sorriso. – Na verdade, foi ideia de Katriane Giraud, eu apenas ajudei. Eu e Therese Guillot. E, claro, meu compreensível tio, que disponibilizou os materiais e local para o fazer.
— Ah, eu sabia que meu marido ainda tinha algo de altruísta nele. – Minha tia riu baixo, olhando para meu tio, que apesar de dar de ombros enquanto beijava sua irmã, pude ver que sorria, feliz que havia sido estimado. Às vezes, quando era mais nova, me pegava olhando para tio Masson e tia Deuphine, e pensava que eles eram uma amostra de como os casamentos na aldeia podem dar certo.
Seu casamento havia sido puramente arranjado, e com certeza eles não estavam apaixonados quando subiram ao altar. Mesmo assim, com o tempo, se conheceram e viraram amigos, e da amizade veio a cumplicidade, que veio o amor. Demorado, construído com o tempo, com a convivência e a aceitação. Juntos, tinham seis filhos e um casamento feliz de vinte anos.
Mas então eu via meus pais.
Minha mãe, ainda agarrada ao lado de meu pai, empertigada como se quisesse ser a atração da festa. Provavelmente estava louca para seu irmão mais velho ficar quieto para ela poder ir falar com os outros casais dignos de sua atenção, para os mostrar seu vestido fino, suas jóias caras e seu marido rico e bonito. Papai estava ao lado dela, e sorria para tio Masson, mesmo que seu sorriso estivesse quase doente, rígido, pela proximidade de minha mãe.
Eles também haviam sido arranjados para se casar. Não duvido que mal se conhecessem antes de ser anunciados que estavam noivos, e papai e ela terem que, por tabela, passar tempo juntos. Quando subiram no altar, não se amavam. E o tempo não havia mudado nada neste fato, pelo contrário, o deixava cada vez mais claro. Eveline apenas se casou para garantir seu futuro com um bom marido, e fez sua parte lhe dando um filho – mesmo que de segunda tentativa. E meu pai apenas se casou por ser obrigado. Porém, tinha suspeitas que ele teria ido feliz para o altar. Com outra pessoa.
Era assim. Você nunca sabia o que iria acontecer. Acredito que toda vez que um casal fica noivo uma moeda é jogada, e de acordo com o lado em que cai, se define se o casamento será agradável ou um inferno. Eu nunca me senti atraída por essa moeda, por esse jogo de sorte. Casos como os de Katriane e Lenard eram tão raros, o amor e a real felicidade para se casar era tão rara, que era simplesmente a coisa mais linda que eu conhecia.
Não deixaria que Eveline arruinasse tudo.
Depois que ela conseguiu se livrar de meu tio, me deu um aceno de cabeça e sabia que era hora de irmos para a próxima família. Tive medo, e, como sempre, minha mãe os fez se concretizar quando foi direto para a mesa dos Pottier. Lá estava Mr. Jourdan e Mrs. Vallerie Pottier, juntos aos seus dois filhos, Lenard e Damien.
Não vou negar que Lenard era atraente. Tinha os braços fortes e uma falha na sobrancelha que havia criado de algum acidente de infância. O cabelo castanho era curto e os olhos, da mesma cor, eram brilhantes. Seu irmão não era nada mal, também, apenas teve a infelicidade, ou felicidade, de ser o segundo. Não herdaria o controle da fortuna da família, e por isso não era primeira opção de escolha. Com essa sorte, talvez ele conseguisse se apaixonar.
Todos eles se levantaram com a nossa chegada, e provavelmente eu tive tanta pena da cara do namorado de minha amiga quanto ele teve da minha.
— Mr. Bertrant – Mr. Pottier cumprimentou meu pai com um aperto de mãos. Era dois anos mais novo que papai, tendo trinta e um, e sempre me pareceu meio doente. Tinha olhos sonolentos e mãos trêmulas, e pegava mais resfriados e gripes que o recomendado. Na maioria das vezes, no mercado da família, era sua mulher que era vista. Seus pais deviam ter tanto medo que seu filho morresse, que casaram o jovem Jourdan Pottier com uma mulher dois anos mais velha que ele. – Mrs. Bertrant. – Cumprimentou minha mãe, que fez uma perfeita saudação para ele.
— Jourdan, como vai a saúde?
— Vai bem, vai bem – ele respondeu. – E você, Mabelle, como vai?
— Vou bem, Mr. Pottier – respondi imitando a saudação de minha mãe com perfeição, mas não na opinião dela, já que estreitou os olhos para mim como se eu tivesse tropeçado na barra do vestido e caído em cima deles.
— Está lindíssima, Mabelle – Mrs. Pottier me elogiou e pousou a mão no ombro do filho mais velho. – Não está, Lenard, querido?
— Está, mãe – ele respondeu sem prestar atenção, os olhos focados no chão, mas depois se corrigiu, provavelmente sentindo o aperto que sua mãe deu em seu ombro. – Senhorita Bertrant está maravilhosa. – Ele disse, agora olhando para mim, e eu sorri para ele, sentindo a coragem da minha fita.
— Provavelmente a senhorita Giraud está mais. – Disparei e os olhos de Lenard cruzaram os meus, a risada presa em seus lábios.
— A mais bonita da festa. – Ele concordou.
Senti a raiva de minha mãe e a tensão dos Pottier, mas meu pai sorriu, se controlando tanto quanto Damien e Lenard para não cair na gargalhada.
— Falando na senhorita Giraud – meu pai me salvou da ira de minha mãe. – Belle, porque não vai procurá-la? Leve com você minhas congratulações pela ideia dela – ele apontou para cima. – Ficou realmente espetacular.
Ao pedir licença e sair em busca de minhas amigas, pude ouvir Mr. Pottier soltar um elogio a Katriane, e agradeci ao meu pai. Pontos para favorecer Katriane, era disso que eu precisava.
Uma rápida busca me fez ter certeza de que todas as famílias já haviam chegado, todas menos uma. Mas nisso eu não tive tempo de pensar, pois juro que fui sequestrada. Katriane me puxou para trás com força, quase me enforcando, e me abraçou com tanta força que me senti esmagada.
— Kat, o que...?
— Eu ouvi, Belle! – Ela riu, me soltando. – Estava por perto, e ouvi! Você e Lenard, ah, a cara de sua mãe! Você é a melhor amiga que alguém pode ter!
— Eu apenas disse a verdade, olhe para você! – E não estava mentindo. Minha amiga usava um vestido azul claro, com babados em azul escuro, e seu cabelo estava trançado, caído pelas costas. A felicidade apenas acendia seus olhos e corava suas bochechas, a deixando ainda mais bonita. – Está magnifica, Katriane!
— Você acha? Acha que Lenard gostou? – Ela sorriu segurando as saias e rodando, me deixando vê-la em toda sua beleza.
— Acho que ele merece prêmios por não ficar atrás de você a noite toda, isso sim. – Ri enquanto ela sorria também, mordendo os lábios
— Não se preocupe que isso irei providenciar – ela riu e pegou-me pelo braço. – Venha, vamos achar Therry. Depois disso, tenho um presente para vocês. Nós, as moças mais belas da noite!
Não demoramos a achar Therese, sentada na beira da fonte, desenhando padrões que apenas ela conhecia na água. Estava belíssima, também. O vestido que usava era verde claro, que junto com seus cachos, lhe dava o ar de alguma garota inocente de um livro. Sorriu quando nos viu, mas não teve tempo para mais nada, pois Kat a segurou pelo braço e a puxou para algum canto junto comigo.
Logo vi que ela estava nos levando em direção a sapataria de seu pai, e não fizemos perguntas quando entramos. Mas quando ela desceu as escadas para o porão e abriu uma porta, revelando um privado escritório, tive que perguntar o que Sorrel, Lenard e Damien estavam fazendo ali.
— Kat, o que você aprontou, sua desmiolada? – Apesar de a chamar assim, eu estava sorrindo. Ela também, indo direto para os braços de Lenard. Deu-lhe um beijo, depois outro, depois outro e...
— Vamos ter que aguentar isso sempre? – Sorrel perguntou. Diferente de sua irmã, não tinha olhos perdidos ou pensamentos divagantes. Era, na verdade, muito preciso e observador.
— Você não viu nada – Damien resmungou. – Você não vive com ele e não é obrigado a ver essa cara de pateta o dia inteiro. “Ah, Katriane é tão bonita...”, “vamos nos casar e seremos felizes”, feito uma garotinha.
— Quando tiver a garota que você ama nos braços, irmão, me diga se não vai agir como uma garotinha – Lenard se libertou dos braços de minha amiga, olhando para o irmão de cara fechada, mas as mãos firmes ainda em sua cintura. Damien fez uma careta, mas Kat riu e rodou, ficando no meio da roda que, inconscientemente, havia se formado.
— Eu chamei todos aqui, pois é a noite de celebração do outono. – Ela sorriu, colocando as mãos na cintura. – Uma nova estação, uma nova fase, e isso pela primeira vez é de verdade nas nossas vidas. – Minha amiga deu uma pequena pausa e me olhou, sorrindo, antes de continuar. – Todos aqui estão na idade de se casar, de começar uma nova vida, de andar com as próprias pernas. E cada um de nós já recebeu os parabéns tradicionais por isso. Mas eu percebi que nós mesmos não comemoramos. Somos adultos, crescemos juntos, e ainda não nos demos os parabéns por isso. Então resolvi fazer algo a respeito.
Katriane andou até a mesa do escritório de seu pai e pegou uma garrafa de bebida. Me parecia vinho e balançou o liquido lá dentro. Não estava mais cheia, alguém já devia ter dado uns goles, e provavelmente era quem estava a segurando agora.
— Comemoremos, amigos.
O gosto da bebida desceu quente na minha garganta, e eu engasguei. Não fui pior que Therese, que cuspiu. Mas acho que realmente tinha algum sangue forte dos Bertrant, pois não parei até sentir a bebida como uma espécie de chocolate quente melhorado.
Ficamos quase duas horas ali, enfiados no escritório de Mr. Giraud e passando a garrafa de um para o outro. Lenard havia puxado Katriane para seus braços de novo, que não havia feito objeções. Therese se sentou ao meu lado, a cabeça em meu ombro, e voltou a desenhar traços. Damien e Sorrel pareciam cada vez mais interessados em uma súbita conversa sobre misturas de ervas.
Apenas quando já sentia minha cabeça mais leve do que o recomendado que mexi os ombros e me lembrei do contexto: festa, Eveline, eu tinha algo para fazer. Puxei Therese quando saí, sentindo que ela também precisava de ar, e de repente estava novamente na festa. Minha cabeça latejou com o barulho de música, que me fez querer girar e dançar, e o brilho da fogueira era perfeito. Mas não podia ficar o olhando.
Therese, que tinha os olhos quase fechados, precisava mais de minha atenção. A levei para a fonte e molhei seu rosto, aproveitando para molhar o meu também. Me senti um pouco melhor, e depois disso a deixei sentada em uma cadeira, esperando que se recuperasse logo.
A música era alta, o barulho me deixava um pouco desorientada. Desejei que silenciasse, mesmo que por alguns segundos, então eu poderia me lembrar o que estava acontecendo. Minha surpresa foi grande quando senti a atmosfera mudar, e os músicos pararam de tocar, as pessoas de dançar e a aldeia de respirar. Ou foi apenas eu. Não sabia. Era difícil prestar atenção em qualquer coisa. Toda a atenção, de cada pessoa, estava na entrada da aldeia. E apenas uma família ganhava tanta atenção assim.
O que vi primeiro foram os corcéis.
Eram tão negros como a escuridão de onde saíram, com crinas negras e olhos negros, trotando rápido em uma corrida acirrada entre eles. Pararam na entrada, com um firme puxão nas rédeas, fazendo com que ficassem em duas patas e soltassem poderosos relinchos. No silêncio súbito da aldeia, mais pareceu com uma trovoada. Mas os cavalos, por mais que fossem espetaculares, poderosos em sua negritude e selvageria, não eram praticamente nada perto dos cavaleiros.
Em uma tentativa de autoproteção, me foquei na garota primeiro. Mas foi inútil, pois apenas me fez discordar de Katriane. Nós não éramos as garotas mais belas da noite. Aimeé Blanchard era tão magnifica quanto seu irmão, quanto os corcéis, quanto a noite e a floresta. Seus cabelos negros estavam em uma desordem selvagem pela cavalgada, e acredito que ela era a única mulher no mundo em que cabelos bagunçados lhe caíam bem, lhe dando um ar selvagem e feroz.
O rosto fino e de traços lupinos tinha um sorriso afiado como uma adaga, os lábios vermelhos imitando sangue. Os olhos violetas pincelados de cinza eram capazes de brilhar na escuridão, e faziam ter a sensação de a qualquer hora ela iria pular no pescoço de alguém, brilhando de uma ferocidade e malícia selvagem.
O vestido, pude ver, era negro. Marcava sua cintura fina e tinha um bom decote, mostrando o início dos seios. As alças dele contrastavam com sua pele alva como a lua que coroou seu nascimento, e o tecido se fundia na altura de sua cintura, como se embolasse. Então ela desmontou, junto com seu irmão e, dessa vez, não pude me impedir de olhá-lo.
Aloys Blanchard tinha as mesmas características básicas que sua irmã, fato que se devia, obviamente, por serem gêmeos. Seus cabelos eram negros e uma desordem, como se cada mecha insistisse em crescer em uma direção. Estavam um pouco para trás por causa da cavalgada, e a desordem também ficava impecável nele. Ele tinha um sorriso discreto para a irmã, de meia boca, e era tão lupino e soturno como o dela. Seus olhos, da mesma cor e tom que Aimeé, também brilhavam, e também eram ferozes, mas possuía uma selvageria e malícia escondida atrás deles, talvez esperando apenas o momento certo.
Mas Aimeé, por mais que fosse capaz de me fazer sentir uma aberração, não era capaz de fazer meu coração parar dessa forma. Ele amarrou seu cavalo e o de sua irmã, olhando por um segundo desinteressado a festa parada. Juro que não foi a bebida, ele olhou para mim nesse segundo. E o canto de seu lábio subiu, juro por Deus. Mas então virou o rosto e não pude ter certeza, uma vez que os gêmeos prestavam atenção na floresta, de onde sua avó vinha.
Calma como uma santa, majestosa como uma rainha e bela como um pecado, Rowena Blanchard vinha montada em uma elegante potra branca, que parecia reluzir as estrelas. Eu podia ouvir os queixos dos homens caírem em massa. Definitivamente Katriane havia se enganado.
O vestido que usava era vermelho, vermelho. As alças eram nos ombros, o que deixava seu colo e início dos seios amostra. O corpete marcava a cintura fina e a saia pregada atrás chamava uma leve atenção ao quadril. Seu cabelo vinha penteado, diferente dos netos, muito provavelmente por não ter corrido, mas não mais que isso. Não havia posto joia alguma além da qual os três usavam: os anéis da família no dedo do meio da mão esquerda.
Seus olhos dourados reluziam quando desmontou e Aloys amarrou a potra junto aos corcéis. Em um sorriso que fez os gêmeos assentirem, os três adentraram a festa, que, apenas agora e bem lentamente, voltava ao estado agitado que se encontrava antes.
Os Blanchard haviam chegado.
Mrs. Blanchard adentrou a aldeia ladeada de seus netos. Caminharam na velocidade que podiam em direção as mesas, e se sentaram na primeira vazia que viram. Olhando em direção a floresta, os gêmeos se inclinaram para a avó e disseram alguma coisa, a qual ela balançou a cabeça e eles se levantaram, sumindo na floresta logo depois. Rowena ficou sozinha pouquíssimo tempo depois disso, uma vez que Mrs. Guillot foi até ela, levando o marido, e logo viriam mais.
Era o esperado, uma vez que os Blanchard eram a família mais rica de toda a aldeia. Moradores da floresta e únicos que tinham coragem de ficar nela, era deles que vinha toda a madeira que a aldeia usava. Isso era muita. Absurdamente muita. Logo, Mrs. Blanchard se viu rodeada, e eu precisei me sentar.
Busquei um banco e abaixei a cabeça, sentindo que meu coração iria sair pela boca. Fazia bastante tempo que eu não o via, e era sempre a mesma reação. Já era tempo dessa paixonite de criança ter passado, mas ela se recusava. Passei a mão pelo rosto e olhei em volta. Não sabia onde estava Therese, nem Damien, nem Sorrel. Katriane e Lenard tinha uma ideia. Meu pai devia estar conversando em algum grupo, e logo iria ter com Rowena. Minha mãe devia estar conversando em algum grupo, e logo iria começar a disparar veneno sobre Rowena. Etienne com os primos e Fabien.
Estava tudo absolutamente certo. Estava tudo onde devia estar. E mesmo assim eu não conseguia me mexer. De repente, me senti presa na cadeira, e a fita em meu cabelo virou algo terrivelmente ridículo. Coragem? Eu não tenho coragem. Não assim. O que eu estava fazendo? Não teria volta. Eu não fazia ideia do que iria acontecer comigo, com a minha família. Gostaria que minha mãe fosse para o Inferno, mas não Etienne. Não meu pai. Katriane e Lenard valiam isso? Minha família?
Ergui a cabeça e, na minha direção, havia dois pares de olhos violetas-cinzas. Os rostos eram vagamente distinguíveis tão na orla da floresta e longe das luzes, mas os olhos eram claros. Me fitavam com intensidade, como se esperasse alguma coisa de mim. Minha garganta secou enquanto levava a mão até a fita em meu cabelo, ainda bastante escondida.
Me prometa, Mabelle, de que não terá medo.
Era isso que queriam de mim? Queriam coragem? Eles ainda estavam me olhando, e depois de um tempo tudo que eu conseguia ver eram seus olhos, mesmo depois da floresta os ter engolido. Mrs. Blanchard podia ser uma bruxa, mas sabia o que falava. Até demais. Havia me feito prometer não ter medo.
E não teria.
Decidida, me levantei e voltei até a sapataria dos Giraud. Katriane e Lenard não estavam mais lá, mas a garrafa sim. Foi fácil a pegar, foi mais fácil ainda passar despercebida com ela pela multidão. Parecia que Deus queria que eu fizesse isso, pois nenhuma alma viva viu ou percebeu coisa alguma. Não havia nada em meu caminho. Nada me impediu de traçar um rastro de álcool da fogueira até a mesa de comidas principal, e nada me impediu de mexer em uma tora, fazendo uma chama ir para trilha. Depois nisso, nada poderia impedir o fogo de se espalhar. E não impediu.
A grama e folhas secas do outono apenas fizeram com que o fogo se espalhasse, e o calor me aqueceu os ossos. Não me mexi. Nem um músculo. Permaneci ali, rente a ele, para que soubessem quem o começou. Os gritos não demoraram a começar, e a fumaça me fez torcer o nariz e prender a respiração, mas não me movi. Não iria me mover. E não teria, até que fui puxada pelos cabelos para longe do calor das chamas, e reconheci a força no braço.
— Mabelle, sua menina tola, o que você fez?! – Minha mãe gritou enquanto me segurava o cabelo. Não respondi, meu pai a fez me soltar, e logo meu cabelo estava solto. Ele gritou alguma coisa, que não ouvi, e então me balançou, uma, duas, três vezes.
— Belle! Diabos, Belle! – Gritou e eu pisquei, o olhando. – Vá para casa! Pegue Etienne e vá para lá, e não saia! Vá!
Papai teve que me soltar. Teve que ajudar a apagar o incêndio que eu havia começado antes que engolisse a aldeia. Busquei Etienne, assustado, que procurava mamãe, e o peguei no colo, indo para casa. Já na porta, uma última vez, não pude evitar olhar para a floresta. E juro, juro por Deus que consegui ver duas figuras, uma muito parecida com a outra, com olhos violeta-cinzas, rindo do caos. E rindo de mim.
Dentro de casa, Etienne estava assustado, e eu o levei para o banho. Depois dele insistir que conseguia se lavar sozinho, deixei a porta do banheiro aberta e fui para o meu quarto, me sentando na cama. Um sentimento de total letargia tomava o meu corpo, mas junto dele a sensação de felicidade. Consegui. Fui corajosa. Salvei Kat e Lenard.
Um sorriso preguiçoso se formou em meu rosto, mas ele logo se desfez com uma pontada no coração. Havia perdido minha fita no meio da confusão, provavelmente quando mamãe me puxou os cabelos. Havia perdido minha bela fita, mas esperava que não tivesse perdido minha coragem.
Hoje havia sido apenas o primeiro momento a usá-la.
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