Lua da Meia Noite
13 Incêndio em Dois Tons
Notas iniciais
Os únicos barulhos que podia ouvir era sincronia curiosa dos cascos dos cavalos e as batidas do meu coração. A floresta era escura e densa e ficava mais a cada momento. Era impossível realmente enxergar alguma coisa e finalmente entendi isso quando Aloys me puxou para o banco, sua mão no meu braço dizendo “tudo bem, vamos manter a calma, a casa vai estar lá quando chegar”. Mas eu havia dançado demais, a noite estava fria e meu marido quente, então me desculpem se não resisti a fechar os olhos.
— Belle, acorde – a voz de Aloys me fez despertar, mas se dormi demais não fazia ideia, pois para mim se pareceu apenas segundos. Abri os olhos e me mexi, ignorando a risada maldosa de Aimeé e focando imediatamente na janela. – Logo ali, bambina. Sua nova casa.
Me esforcei para ver e consegui apenas quando chegamos perto o bastante para a Lua fazer seu trabalho de farol da noite. A Mansão Blanchard era maior que a casa dos Giraud, dos Pottier, dos Guillot, dos Foucher e dos Bertrant. Uma construção verdadeiramente magnifica, escondida nos confins da floresta, de quatro andares e duas vezes mais larga e comprida do que tudo que já tinha visto na vida. Com algum fenômeno incrível a casa foi construída tendo como base troncos de árvores antigas e fortes, que sustentavam tudo a quase um metro do chão. Uma escadaria em espiral levava até a porta de entrada, feita de madeira escura, e eu podia ver as dezenas de janelas refletindo a luz, algumas indo desde o teto até o chão.
O exterior era magnânimo, e eu sentia uma animação infantil para entrar naquele lugar. Então quando os cavalos pararam, fui a primeira a descer. Ouvi uma risada atrás de mim, e com os olhos brilhando na escuridão, Rowena me olhava.
— Aloys, guarde tudo, sim? Aimeé, dê de comer aos cavalos.
Os dois não protestaram ou hesitaram, trepando da porta da carruagem até o banco do cocheiro e indo em direção aos fundos da casa. Ali, no chão, observei o jardim na frente e uma grande construção de vidro que era apenas visível porque brilhava. Quando as mãos de Rowena tocaram meus ombros, percebi que estava sorrindo.
— É linda, não é? – Sua voz não era mais que um sussurro enquanto olhava para a própria casa de forma nostálgica. – Eu me lembro da primeira vez em que a vi. Eu tinha a sua idade, Mabelle, sabia disso? Quinze anos. Foi a tanto tempo...
Sua voz morreu e não tive coragem de a trazer de volta. Por um momento me senti curiosa sobre quantos anos Rowena tinha, exatamente. Ela era avó dos gêmeos, que tinham dezessete. Mas podia facilmente se passar por mãe deles, e não duvido que daqui a alguns anos – quando eles chegarem nos seus vinte e poucos -, irmã. Ela tinha um rosto belo e jovem com maçãs do rosto proeminentes e lábios definidos. A sobrancelhas arqueadas eram escuras e bem-feitas e seu corpo magro não tinha uma mancha ou ruga sequer.
Me perguntei se isso tinha alguma coisa a ver com a bruxaria, e se eu também poderia me manter jovem desse jeito.
Quando Aloys e Aimeé voltaram, Rowena começou a andar e eu teria feito o mesmo se meu marido não houvesse me pegado no colo. Soltei uma risada e um grito enquanto sentia meus pés deixarem o chão e meu corpo recebia o calor do dele com prazer, fazendo com que me sentisse arrepiada.
— Vamos fazer as coisas direito. – Sua voz, tão perto do meu ouvido, não ajudou com que eu me recuperasse e provavelmente eu estava com um sorriso imbecil enquanto subíamos as escadas e atravessávamos a porta aberta por Rowena e sua neta.
O lugar que me recebeu era tão grande que me fez perder o fôlego. Modéstia à parte, eu nasci rica. Cresci com luxo, do bom e do melhor. Mas todo o luxo de Melenuit não chegava aos pés do hall de entrada da Mansão Blanchard. O piso de madeira polida era tão claro que eu podia ver meu reflexo quando olhei para baixo, e as paredes, cobertas de tapeçarias, eram claras reluzindo ouro aqui e ali, em um brilho discreto. Segurei com mais força nos braços de Aloys e me esforcei para fechar a boca, fazendo-o rir. Em um movimento de dança, ele me girou e me pôs no chão, guiando meu corpo para ele e juntando os lábios nos meus.
Então quis matar minha cunhada.
— Por favor— Aimeé sibilou, me tirando dos braços de Aloys. O irmão olhou para ela, o cinza despontando, mas ela não cedeu, pois o dela também fez o mesmo. – Vocês podem, por favor, aguentar mais cinco minutos? Obrigada.
— Aimeé tem razão, querido. – Rowena colocou as mãos nos ombros do neto, provavelmente impedindo que ele começasse uma briga aqui e agora. – Porque não vai lá para cima e espera? Assim sua irmã poderá ir dormir em paz enquanto eu e Belle temos uma conversa.
Aloys não respondeu, mas assentiu com a cabeça, apenas meio feliz com a ideia. Segurou um punhado de palavrões na garganta e subiu as escadas, sumindo no qual quer que seja o andar dos quartos. Então Aimeé olhou para mim por um segundo e, milagrosamente, não disse nada antes de seguir o mesmo caminho que o irmão.
Acredito que esse foi seu jeito de me desejar boa sorte.
Sozinha com Rowena, outra vez, começava a me sentir mais do que confortável em sua presença. Não me importei em virar para ela e procurar seus braços como se fosse uma criança. Mesmo sabendo o que iria acontecer (e sabendo mais do que toda minha vida, justamente graças a ela) eu estava a alguns minutos de me tornar verdadeiramente uma mulher, de ter um homem na minha cama, de entrar em um mundo completamente novo.
E não havia problema em buscar abrigo nela, pois senti seus braços me segurando também e aspirei seu aroma profundo antes que ela se abaixasse. O dourado de seus olhos me refletia e seu sorriso fazia, aos poucos, meu coração se acalmar.
— Vamos subir e tirar essa roupa pesada, sim? Então você pode se sentar um pouco. As coisas não precisam ser tão imediatas.
Concordei com a cabeça e deixei que Rowena me levasse escadas acima em direção ao segundo andar. Um grande corredor nos recebeu, mas apenas três portas, uma razoavelmente distante da outra. Fui levada para a última e se tivesse que apostar, diria que era o quarto dela.
Enquanto entrava, comecei a me sentir um pouco envergonhada. Rowena já havia entrado em meu quarto, mas eu entrar no dela era estranho, de certa forma. Como se eu entrasse em uma parte dela que ainda não conhecia. Seu cheiro era bem mais forte ali, estava impregnado nas paredes e na cama, percebi quando me sentei. O quarto era tão grande que ele próprio era quase do tamanho da minha casa, e provavelmente era por isso que só havia três no andar.
Enquanto ela mesma pedia licença para pelo menos vestir um roupão, permaneci sentada. Olhar o quarto dela (em tons claros e com detalhes em dourado) era como abrir um tesouro antigo. Rowena era a parte mais velha dos Blanchard e eu me sentia péssima por ter vontade de vasculhar suas gavetas. Então alivio minha consciência dizendo a mim mesma que a fotografia estava no criado mudo ao lado da cama.
Por um momento achei que fosse Aimeé, mas essa mulher era mais velha do que ela. Parecia ter seus vinte anos e estreitava os olhos para a câmera, girando como se tivesse sido capturada no meio de uma dança. Os olhos, aliás, eram violeta e conseguiram passar toda sua malicia e vivacidade para a fotografia. Seu cabelo escuro estava preso para cima, em um coque bem feito, e eu podia ver o decote de seu vestido, ornamentado com joias. Suas feições finas e seu rosto magro me lembravam muito Rowena, mas sua expressão me lembrava Aimeé.
— Seu nome era Almira. – Eu não percebi que Rowena estava atrás de mim e bati nela com o impulso de me afastar, pega no flagra. Mas ela me segurou e não havia qualquer raiva em seu rosto. Na verdade, ela estava sorrindo. – Era minha filha e a mãe dos gêmeos.
A mãe dos gêmeos.
Me lembrei de Katriane, e da forma que falou da lenda de Almira Blanchard, e como Etienne e Nathanael tremerem quando terminaram de ouvir e notei o quanto isso era cruel. Almira Blanchard não era uma coisa inventada, não era um boato. Havia sido uma pessoa real, com uma vida real. Era filha de alguém, mãe de alguém. E tinha sua morte contada para assustar criancinhas. Olhando sua foto ela me parecia tão nova, tão cheia de vida, tão exuberante... senti minha garganta fechar ao perceber que cresci com medo de entrar na floresta pela história de como a mãe do meu marido morreu.
— Ela... ela era linda. – Consegui dizer, virando o rosto, morta de vergonha. Mas Rowena estava sentada na cama, e me puxou para lá. Ela mesma vestia, literalmente, apenas um roupão de seda azul (começo a desconfiar que ela realmente gosta dessa cor) e seus olhos nublados. Mas eles voltaram para o presente em uma piscada e se focaram em mim.
— Sim, ela era. Talvez um dia os gêmeos lhe contem sobre ela, mas isso não é assunto para agora. – Sua mão tocou meu rosto. – Como você está?
— É normal querer vomitar? – Minha pergunta fez ela rir enquanto se levantava outra vez. Notei que era a primeira vez que via as pernas de Rowena, por causa da abertura do roupão, e cheguei à conclusão que a metade da altura dos Blanchard se devia a elas.
— Oh, querida, é sim. – Ela sorriu. – Venha, eu vou te contar uma história.
Antes da história ela me deixou sozinha mais uns instantes, apenas para voltar com o copo de alguma coisa. Tinha um cheiro bom, quase doce, e eu bebi sem questionar. Não devia ser nada de ruim vindo dela, e apesar de uma voz dentro de mim se perguntar se eu devia confiar tanto em uma conhecida, a ignorei. Rowena me fez tirar meu vestido sem me dar tempo para ter vergonha, e me colocou em uma camisola de tecido suave antes de me sentar na sua penteadeira. Minha maquiagem estava borrada e meu cabelo um caos, mas gentilmente ela pegou uma escova e começou a trabalhar nele.
— Era uma vez... – ela começou, os olhos brilhando e o sorriso no rosto. Me senti uma criança outra vez, apesar de toda a situação, e sorri para ela através do espelho. – Uma garota. Ela tinha quinze anos e já se achava a dona do mundo, a senhora da verdade. Essa garota tinha um noivo que amava muito, e, logicamente, eles se casaram. Mas a garota tinha apenas um pai que era muito super protetor com ela – quase não a deixou casar! Aquilo não era problema, ela dizia para si mesma, pois tinha amigas mais experientes que ela que adoravam falar sobre a vida. Muita pouca coisa iria ser novidade para ela, se tranquilizava. Mas quando ficou sozinha no quarto com seu noivo ela deu meia volta e se trancou no banheiro pelo resto da noite.
— O que?! Não acredito! – Olhei em seu rosto, a risada escapando de meus lábios e dos dela também, que continuava a mexer no meu cabelo.
— É verdade, é verdade. Ela ficou tão nervosa que se trancou lá. Seu noivo, legitimamente preocupado, teve que arrombar a porta. Então sabe o que aconteceu? – Ela arqueou uma sobrancelha enquanto eu balançava a cabeça. – Os dois sentaram no chão do banheiro e ficaram lá até começarem a rir de toda a cena.
— Isso aconteceu mesmo, Rowena? – Perguntei, sorrindo, a risada ainda saindo em uma respiração ou outra.
— Sim, querida. – Meu cabelo já estava impecável e ela me virou, tirando minha maquiagem. – O que quero dizer é que não há problema em ficar nervosa, ou se trancar no banheiro. Aloys é seu marido e eu o criei bem o bastante para ter a mesma cabeça do avô. Vocês são casados, e o que não vai faltar é tempo.
Não iria faltar tempo, repeti para mim mesma. Não era vergonha não conseguir logo na primeira noite, tentei gravar na minha cabeça. Rowena não tinha conseguido, Rowena. Simplesmente a pessoa que conheço como a encarnação da sensualidade, que arrasta olhares por onde passa. Repeti isso para mim várias e várias vezes enquanto ajeitava meu cabelo, desamassava minha camisola e, com um beijo na testa, Rowena me deixou na porta do quarto que provavelmente seria meu. E de Aloys.
Bom, eu podia não conseguir, mas tinha que tentar.
Abri a porta tomando excessivo cuidado com cada movimento. O quarto era do tamanho do de Rowena, mas não era ela que estava lá. Era Aloys. Ele levantou a cabeça assim que entrei e seus olhos se focaram em mim. A festa não o tinha cansado nem um pouco, e eu estava com o coração batendo rápido demais para o sono vir.
Meu marido ainda vestia a mesma roupa da festa – com exceção da gravata, paletó, colete e dos sapatos. Ainda estava de calça e camisa, ambas pretas, contrastando com sua pele. Seus olhos, tão cinzas quanto violetas agora, me seguiram pelo quarto e fizeram minha pele arder. Mas seu sorriso ainda era bonito e sua mão estendida para mim era algo que não iria recusar.
— Deixa eu adivinhar – quem falou foi ele e apenas quando eu já estava em seus braços. Apesar da voz controlada e do sorriso, acho que já o conhecia bem o suficiente para poder olhar além. Para algo profundo que vinha do fundo de sua garganta e uma sombra selvagem que pairava em seus olhos, escurecendo seu cinza a cada instante. – Minha avó te trocou, não é? Ela realmente não confia em mim, bom, acho que nisso não é para se confiar mesmo.
— Confiar no que? – Arqueei uma sobrancelha enquanto um dos braços de Aloys estava na minha cintura, e uma mão segurando a minha.
— Que o vestido iria sair inteiro. – Ele sorriu, mas algo em meu rosto o fez se conter. De forma que contradizia seus olhos, o nó de seus dedos em meu rosto foi gentil enquanto me analisava cada centímetro do rosto. – Você está bem com isso? Sabe que não precisa ser hoje, não sabe?
— Sei – respondi levando minha mão até a dele e a apertando. Olhei em seus olhos, tão violeta e tão cinzas e me lembrei que não tinha o que temer. Era Aloys ali. Ele nunca me machucaria. – Mas eu quero tentar.
Acredito que meu marido não precisou de mais permissão ou consentimento do que isso. Sua mão deslizou de meu rosto até a parte de trás de minha cabeça, seus dedos longos se afundando no meu cabelo e o segurando, fazendo minha respiração sair alta. Seu braço ainda me mantinha segura pela cintura e colada a ele, mas seus lábios não foram em direção aos meus. Foram para baixo, para meu queixo e então para o lado, subindo pelo maxilar até minha orelha.
Eu não sabia qual era meu elemento, mas sabia o de Aloys, e eu tinha certeza que não havia qualquer outro para ele ser. Sentia minha pele em brasa, minha respiração se transformando em fogo em meus pulmões. Queria tocá-lo. Era tudo que eu queria, era tudo que eu precisava. Então busquei seu cabelo e afundei minha mão nele. Ousei fazer o mesmo que fez comigo, entrelaçando os fios macios entre meus dedos e os puxando e algo profundo e primitivo dentro de mim se acendeu e inflou quando ouvi a resposta dele subir do fundo de sua garganta e escapar pelos seus lábios.
Meu coração pareceu dobrar de peso e velocidade no momento em que suas mãos já não eram mais suaves. Quentes e fortes, elas seguraram minha cintura e me puxaram em sua direção. Parecia estar nos planos de meu marido grudar cada pedaço do meu corpo no dele, e, enquanto suas mãos foram em direção ao meu quadril e seguraram minha bunda de tal forma que meus pés saíram um pouco do chão, cheguei à conclusão que não tinha objeção nenhuma em relação a isso.
Na verdade, ainda não estava satisfeita.
Icei minhas pernas para cima, buscando sua cintura e me segurando com o máximo de força que conseguia. Não me importei se estava, talvez, colocando força demais. De qualquer forma, Aloys não emitiu qualquer sinal de reclamação e não esperava que emitisse. Me segurei ali, totalmente presa à ele – pernas na cintura, braços nos ombros e olhos na mesma altura. Meu corpo tremeu ao ver aqueles olhos – tão violetas, tão brilhantes, tão escuros. Ele poderia me devorar naquele momento e tudo nele me dizia que iria.
Seus lábios continuaram descendo pelo meu pescoço e pousaram em meus ombros, sua respiração fazendo arrepios cada vez maiores me atravessarem. Nem seus lábios nem suas mãos mudaram um centímetro de posição enquanto se virava e me fazia sentir a cama nas minhas costas. Agora que não tinha que me preocupar em não cair não fiz mais nenhuma questão em me preocupar com nada além dele: sua pele – quente; seu cheiro – de floresta e algo mais; seu corpo – rígido como pedra em cada centímetro, inclusive mais embaixo, encostando em minhas coxas, me fazendo corar. Sentia suas presas em minha pele e as queria em todo lugar. Seu ritmo lento não era o bastante, eu queria mais. Tentei me mexer para eu mesma buscar, mas suas mãos me prenderam na cama pelos pulsos – sem ferir e inegavelmente firmes.
— Não faça essa cara, Belle – foi a resposta dele a minha careta. Aloys estava em cima de mim, se sustentando com facilidade e com os cabelos negros caindo sobre os olhos. Seu sorriso fez uma onda de calor percorrer minha espinha e se instalar no meio das minhas pernas e eu as esfreguei tentando fazer com que aliviasse, ao menos um pouco. Fracassei. – Não há porque ter pressa, temos a noite inteira. E, sinceramente, eu esperei tempo demais para isso – seus olhos percorreram meu rosto, meu pescoço, meu colo, escurecendo cada vez mais. Com a destreza de quem sabe, ele mordeu o decote da camisola e a puxou para baixo, revelando meu seio esquerdo. Senti meu rosto esquentar e mordi meus lábios, esfregando as pernas outra vez. – E tenha absoluta certeza, querida esposa, que eu vou aproveitar cada segundo enquanto ouço você gemer.
Seus lábios envolveram a ponta do meu seio e isso fez todo o ar sair dos meus pulmões. Dei um puxão forte para me libertar de suas mãos e sei que apenas consegui porque ele ficou mais interessado em me despir. Uma de suas mãos deslizava pela lateral do meu corpo, suas unhas cortando a camisola com a facilidade de tesoura de costureiras. Não me importei se era da Rowena, não me importei com o fato de suas unhas serem assustadoramente afiadas, não me importei delas estarem tão perto da minha pele. Apenas me importavam que eu estava nua, finalmente, e minha pele ardia e queimava, todo calor vindo do meu centro, me fazendo ofegar.
Seus lábios estavam em todo lugar: no meu rosto, meus lábios, meu pescoço, meus ombros, meu colo e meus seios. Nos últimos, ele se demorava, dando mais do que beijos quentes ou caricias lascivas com seus lábios diabólicos. Usava a língua para contornar a ponta, os dentes para enviar pontadas pelo meu corpo e me tirando o dos pulmões, e os lábios em si para os envolver. As vezes colocava-os tanto quanto podia na boca, às vezes, só as pontas, e se revezava entre uma lentidão torturante que me fazia arquear as costas e uma força devastadora que fazia com que minhas pernas se contorcessem.
Mas, aparentemente, meu marido gostava de me torturar, pois assim que eu sentia que ia quebrar, sua atenção subia. Então me beijava os lábios, sua língua tomando conta da minha, me puxando para uma dança. Tão lenta e tão deliciosa como a que compartilhamos na festa, até mais. Seus dentes me mordiam ali, apenas o bastante para me fazer abrir a boca e sua língua envolver a minha com mais profundidade. Meu pescoço também era alvo de sua atenção, onde arranhava seus dentes afiados e beijava para tirar a ardência da minha pele. Sua língua também brincava ali, me provando, sentindo o gosto da minha pele já úmida de suor mesmo no inverno.
Mas eu duvidava que existisse inverno na terra que resistisse aquele incêndio. Pois era isso que aquilo era. Nada menos que uma devastação de natureza piromaníaca. Podia ver nos seus olhos, por Deus, aqueles olhos. Violeta-cinza, tão escuros e focados em mim, como se eu fosse a coisa mais preciosa em toda Terra, alguma obra rara que ele não podia piscar e arriscar perder algum segundo de contemplação. Seus olhos queimavam nos meus, eu podia literalmente vez a chama atrás deles e isso era o bastante para meus ossos se partirem, buscando aquele fogo, querendo que tomasse conta de mim tanto quanto ele, que tomasse conta do mundo.
Não me lembro do momento em que tirei sua camisa – não me lembro mais do que, em algum momento, ouvir o tecido rasgando. Mas Aloys estava sem ela e já não se sustentava acima de mim a muito tempo. De forma alguma, agora ele estava colado em mim. Eu podia sentir os músculos rígidos de sua barriga e braços e passar a mão por eles, inclusive suas costas poderosas. Conseguia ouvir os rosnados que saiam do fundo de sua garganta toda vez que revidava a pressão de seus dentes com a ponta das minhas unhas, seja onde for que estivessem – braços, costas, ombros, puxando para baixo, querendo ele mais perto de mim. Podia, inclusive, sentir seu membro duro encostado em mim – quente de forma fenomenal. Era como pedra e me cutucava, mas eu já havia passado da hora de ficar envergonhada com isso.
Eu odiava aquela maldita calça que ele ainda usava e não tinha vergonha de admitir (pelo menos para mim mesma) que estava salivando imaginando o que havia por trás do monstruoso volume naquela parte baixa. Mas meu marido não estava ansioso para tirá-la pois estava concentrado em mim, me arrancando suspiros e gemidos, me fazendo contorcer o corpo em ângulos que, até o presente momento, julgava impossível.
Suas mãos passavam pelo meu corpo, sentindo, explorando, apalpando. Descobrindo as partes onde o suspiro era mais profundo, onde fazia minhas costas arquearem e o gemido subir uma oitava. Se demorava em cada parte, variando de intensidade e gesto – as vezes, apenas acariciava. Outras, deslizava a ponta das unhas. Ainda corria a boca, a língua e os dentes, subindo e descendo, indo de um ponto ao outro, me fazendo agarrar seus cabelos e me arquear em sua direção, principalmente quando chegava em minha cintura com aquela mil vezes maldita boca.
Já fazia tempo que esfregar minhas pernas era algo relativamente fácil – e isso se devia ao fato da notável umidade que escorria de mim. Sentia ela no meu centro, chegando até a umedecer a pele mais próxima de minhas coxas. Se Aloys havia percebido, não se fez mostrar, sempre chegando até o final de minha barriga com sua língua esperta e lábios quentes e subindo outra vez, me fazendo choramingar. Não sabia o que queria, mas sabia que queria algo lá. Minhas pernas tremiam, mas minhas mãos ainda estavam firmes em seu corpo, o puxando para mim, querendo mais, mais, mais.
Com toda essa situação, não foi pouco surpresa que quase me sentei quando, mais uma vez, sua boca chegava até o final da minha barriga, contornando meu umbigo com a língua e mordendo a pele intocada. Mas, diferente das outras, ele continuou a descida. Um gemido ficou preso na minha garganta quando Aloys se desviou da parte de mim que pulsava e foi em direção as minhas coxas.
Agora, suas mãos e sua boca faziam o mesmo trabalho da parte de cima, me observando a cada detalhe, aprendendo cada nuance de reação a seus toques. Suas mãos fortes em minhas coxas, apertando-as com força o bastante para me fazer gemer, fizeram com que meu corpo agisse por vontade própria e as abrisse. Juro que não foi eu. Mas quando observei seus olhos incendiários em mim e vi o sorriso de lobo lhe desenhar os lábios, fazendo meu coração parar uma batida e voltar com força dobrada, então, aí sim, eu as abri mais.
O rosnado que saiu de sua garganta foi mais alto que todos os anteriores que tinha dado, e suas mãos deslizaram até quase meu joelho, me fazendo abrir mais. Eu não tinha vergonha. Não tinha vergonha nenhuma de Aloys. Suas chamas haviam queimado esse sentimento de mim, o transformado em cinzas em algum muito, muito distante desse quarto. Seus lábios desceram de novo, passando por panturrilhas e pés, me fazendo tremer de antecipação, literalmente. Engoli em seco sob seus olhos e tremi quando aqueles lábios voltaram, e foram voltando. Panturrilhas, joelhos, coxas, então desceram, chegando no interior, a parte mais sensível de lá. Por um momento, senti seu hálito bem ali, enquanto beijava a pele da coxa mais próxima. Então ele parou, como se me desse tempo de me acostumar com ideia, ou ao menos imaginar o que viria por vir.
Mas em nome de tudo que é sagrado nesse mundo, eu não estava preparada para aquilo.
Sua língua tocou, diretamente, um ponto especifico que me fez gritar e então desceu, e subiu, e desceu. Meus dentes chegavam a bater quando ele voltava naquele ponto, contornando-o com a língua ou tocando diretamente, o massageando com uma suavidade que não era desse mundo. Me parecia que, até mesmo ali, ele iria seguir o plano de me explorar, pois sua língua não tinha pressa em conhecer cada canto daquele lugar misterioso até para mim mesma. Quando mais ele fazia a língua dançar, mais segurava em seus cabelos. Meu coração bombeava duas vezes mais rápido e me parecia que todo meu sangue ia para o mesmo lugar – o ponto onde meu marido, de forma tão minuciosa, estimulava.
Eu estava ocupada demais me contorcendo e, provavelmente, deixando Aloys careca, para ver sua mão se movendo. Eu apenas senti. Senti quando um dedo seu, longo e fino, deslizou para dentro de mim. Isso me fez arfar e erguer a cabeça, então encontrei os olhos dele. Seu dedo continuou imóvel e meu sangue continuou quente. Eu ainda estava mordendo os lábios, imaginando o que aconteceria enquanto olhava em seus olhos quando ele se inclinou, colocou a boca toda sobre aquele ponto tão delicado e chupou.
Não foi com força, mas com precisão. Sua língua deslizou para fora e continuou massageando aquele ponto agora duplamente estimulado, contanto com os chupões regulados e lentos, feitos apenas para colocar estrelas na minha visão. Com isso, eu até senti quando seu dedo começou a deslizar cada vez mais para dentro, mas sempre que começava a processar a sensação dele dentro de mim, o chupão vinha para fazer com que meus ossos estralassem.
Em certo momento, eu notei quão facilmente seu dedo entrava e saia de mim. E ele também. Não parou o que estava fazendo em meu ponto quando apenas colocou um segundo dedo. Começou o processo outra vez, deixando os dois parados, apenas um pouco dentro enquanto me fazia ver estrelas com sua boca. Não foi surpresa quando, depois de um tempo, os dois também entravam em saiam de mim, deslizando por toda aquela umidade e me fazendo arquear as costas. Aquilo era bom.
Era tão bom que eu, sinceramente, considerei ficar viúva naquele exato momento quando Aloys parou.
Eu estava sentindo todos meus ossos quebrarem e o ar saindo dos meus pulmões, estava finalmente sentindo o fogo que queimava minha pele correr pelo meu corpo como uma onda em direção ao meu centro, pronto para ser libertado... quando ele parou. Rosnei para ele, mesmo quando ele se colocou entre as minhas pernas e se jogou em cima de mim, mordendo meus lábios, agora com força para sangrar. Meu marido estava mais besta do que homem agora. Não me importava, eu também estava.
— Se você gozasse comigo te chupando, esposa— a forma como disse, em um rosnado, me fez gemer. – Você não teria energia para mais nada. E eu ainda quero você muito, muito desperta. Agora abra as pernas o máximo que conseguir, não, eu disse o máximo — ele rosnou, me fazendo abrir uma abertura que não sabia que conseguia. – Isso, bom. Vai ser mais fácil para você.
Eu ia perguntar porque, ia mesmo, mas não perguntei. Não perguntei porque Aloys Blanchard, meu marido, tirou suas calças em um puxão, rasgando tecido como papel. Não havia mais nada no mundo que não fosse ele inteiramente nu na minha frente, me olhando com tanta fome como quanto eu olhava para ele. Senti minha garganta secar ao observar seu membro – rígido como pedra, ereto, poderoso. Não tive tempo para sentir receio, para pensar duas vezes. Como um animal, meu marido já estava em cima de mim, seus lábios nos meus e suas mãos em minhas coxas, garantindo que eu, de fato, abrisse as pernas o máximo possível.
Senti quando ele começou a entrar em mim. Senti, pois o ar faltou dos meus pulmões e eu fechei meus olhos, cravando minhas unhas em suas costas. Algo consideravelmente maior do que o espaço disponível estava forçando a entrada e isso enviou pontadas pela minha espinha. Engasguei quando seu quadril se moveu, mas não foi para frente, e sim para trás, voltando aquele mesmo ponto onde eu me contorci pela primeira vez.
Fez isso de novo e de novo, enquanto beijava meus lábios, meu pescoço e meus ombros. Cada beijo era uma caricia, uma promessa, o tempo que eu precisava. Aloys era bom observador e prestou bastante atenção a cada vez que voltava e ia outra vez até ver que, naquele ponto, não havia mais nenhum sinal de sobrancelhas franzidas ou lábios apertados. Então ia mais, cada vez um pouco mais, sempre parando e fazendo o mesmo ritual de ir e voltar, de beijar e prestar atenção.
Não havia pressa. Eu podia ver a fome queimando em seus olhos, o desejo consumindo seu controle, eu podia ver tudo isso através daqueles olhos focados em meu rosto. Mas, contradizendo tudo isso, seus beijos me faziam abraçar seu pescoço, o puxar mais para perto e confiar que por nada nesse mundo ele deixaria que eu tivesse qualquer lembrança de dor daquele momento. Até onde eu sei, talvez tenhamos ficado ali por horas até, finalmente, eu sentir sua coxa batendo na minha e ouvir o rosnado de sua garganta. Eu estava arfando, mas ainda quente, quase em combustão. Sentia-o todo dentro de mim, cada centímetro dele lutando para se acomodar no espaço inexplorado dentro de mim. Quando nossos olhos se encontraram de novo, foi com um sorriso de dentes afiados que ele me honrou, as mãos finalmente deixando minhas coxas e indo até meu quadril, o firmando contra o colchão. Fez isso com tanta calma que não esperei para puxá-lo em minha direção.
— Mais— minha voz estava rouca e minha garganta seca, mas não tinha dúvidas de que ele havia entendido. Seus olhos me diziam que sim, queimando mais do que nunca quando, em um movimento bruto e rápido, ele entrou e saiu de dentro de mim antes que eu pudesse piscar. Eu gritei, tive que gritar, e então seus lábios estavam na minha orelha, mordendo e beijando, enquanto sua respiração acompanhava o mesmo ritmo rápido de seus quadris.
— Mabelle... – Meu nome era quase uma oração enquanto ele entrava e saia de dentro de mim, rápido e forte, me abrindo e me tomando, me fazendo dele. – Ah, Belle...
Entrava e saia, rápido e forte, e então mais rápido do que forte e mais forte que rápido. Algumas vezes, nem um e nem outro, ficava lento, me fazendo sentir cada centímetro dele deslizando para dentro e para fora, mas a força era sempre a mesma, me fazendo sentir pontadas no fundo de mim. Minhas mãos estavam em seu cabelo, em suas costas, em seus ombros. Em qualquer lugar que fosse dele. Seu nome saia de meus lábios e, para mim, eram sussurros, mas poderiam muito bem ser gritos. Já o meu, mais rosnado do que letras vindo de sua boca, me fazia tremer e me agarrar a ele, enquanto seus lábios agora eram mais violentos, indo dos seios até o pescoço e então aos meus próprios lábios.
Não saberia dizer quanto tempo ficamos ali, com ele me levando à beira da fogueira e me puxando de volta no último momento. Em certo momento, já desprovida de qualquer dignidade, implorei por misericórdia. Aquele fogo estava me consumindo e cada vez que ele vinha, a volta era lamentável quando não libertado. Então pedi com mordidas em sua orelha para deixar que eu me queimasse.
E ele deixou.
A sensação que tive quando sua boca estava em mim e várias vezes enquanto ele me tomava veio cobrando por todas as veze em que foi sonegada e mais algumas. Meus ossos se partiram, minha boca se abriu e não fui capaz de registrar qual som saiu dela, exatamente. Não enquanto cada centímetro meu tremia e Aloys continuava implacável na busca de seu próprio incêndio. Apenas sei que, quando finalmente veio para ele, e meu nome saiu de seus lábios – abafados pelos meus cabelos – tudo que conseguia fazer era acariciar seus cabelos e ombros e beijar seu rosto.
Ainda o sentia dentro de mim e pude ver seus olhos me observando e seu sorriso. Seus olhos ainda estavam escuros, mas, quando sorriu, o violeta brilhou, e eu soube que grande parte do homem havia retornado, apesar de ainda não inteiramente. Quase ri do pensamento. Aloys nunca seria um homem inteiro. Haveria sempre uma parte fera, uma parte de olhos cinzas, dentes afiados e instintos. O segredo estava em não se perturbar com esse conhecimento, e sabia que não seria problema para mim. Pois eu sabia, no momento em que suas unhas tiraram meu cabelo suado da testa e seu sorriso se abriu, revelando a fileira de dentes pontiagudos, que eu não possuía qualquer problema com o fato dele ser meio, ou quase totalmente, fera.
Eu amava essa parte também.
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