Lua da Meia Noite

14 Escrito em Sangue - Aloys


Notas iniciais
Hey hey gente linda ♥ Aposto que cês nem tão acreditando que tem capitulo novo e ele, tipo, nem demorou três meses UHASUHAUSAH' Mas é galera, eu atrasei ai umas duas semanas, mas pro que estava antes, deu uma puta de uma melhorada, ao menos. Ainda não está bom, eu sei. Mas eu comecei a fazer academia essas semanas e ela tá me m a t a n d o. Eu costumo ir pra ela por volta das seis da tarde, e só volto quase dez horas da noite. Então janto e caio na cama, porque mamãe me deu horario pra dormir: 23 horas. "Nossa Lua, tua mãe te põe hora pra dormir?" Sim galera, desde que ela viu que eu estava indo deitar meia noite, uma da manhã, ela deu a louca que eu tenho que dormir "mais cedo". Porque, de acordo com ela, eu não durmo a noite e por isso chego em casa da escola e durmo até seis da tarde. Então minha rotina é escola e academia, quando, depois disso, eu chego, como e durmo. Eu estudo de manhã, pra quem não sabe, naquele horario lindo das sete as onze e meia. "Mas Lua, o que tu faz de meio dia até as seis?" Então, eu durmo. Aparentemente o plano da minha mãe falhou, thats life. Eu tenho uma puta de uma insonia (e sim, galera, eu tomo remédio pra isso), só que esse remédio já não deve tá bom, porque ele me apaga, mas noite sim, noite não, eu acordo duas, três, quatro da manhã e fico ali, varando a noite. Então chego em casa e durmo mesmo, sem vergonha. Então meio que só to tendo tempo no final de semana mesmo, sorry guys MAS, ainda estou trabalhando em uma grade de horarios bacana pra deixar vocês e eu felizes quando voltar a postar todo sabado ♥ ENFIM, obrigado aos leitores fieis que comentaram depois de tanto tempo sem nada para vocês. Esse capitulo, mais do que todos, é especialmente para vocês: Izzy, Maga Estelar, Caah Lummy, felicitysmok, Prinmononoke, Rezenae (Duda ♥), Valarie Lockwood, Leite, Ch4os, C M, Filha de Hades (Docinho ♥), InsaneDesire (Kath Mãe ♥), dead alice e Mrs Claflin. Agora, sem mais delongas, espero que aproveitem e até lá embaixo ♥ P.S. Ainda sobre os comentários: respira que vai, okay? Tô super sem tempo mas SEMPRE vou ir respondendo vocês, então não achem que estou ignorando, okay? Sabem que eu respondo ♥

Eu a conhecia antes mesmo dela nascer.

Seu nome havia sido escrito ao lado do meu e de Aimeé. Estávamos marcados para ficarmos juntos antes mesmo de nascermos, entrelaçados por uma magia muito mais antiga e poderosa do que mero destino. Soube no momento em que a vi pela primeira vez (enrolada em uma trouxa leve, dormindo como apenas os recém-nascidos dormem), no colo do pai. Eu tinha apenas dois anos e ainda me lembro do rosto pequeno que enxerguei atrás das saias de minha avó, os olhos fechados. Podia ouvir seu coração batendo, podia sentir — o meu batia na mesma velocidade.

Mabelle era seu nome e eu o repeti quase todos os dias dentro de mim. Mabelle, Mabelle, minha querida Belle. Ela viria para nós, minha avó disse. Era preciso apenas ter paciência. E eu tive, e obriguei Aimeé a ter. Por dezessete anos esperamos o momento em que nossa Belle viria para nós. Observamos ela crescer, tão diferente de tudo e todos naquela aldeia sem futuro. Seus olhos refletiam o mundo de forma diferente de suas duas amigas – a agitada Katriane Giraud e a mansa Therese Guillot. Elas poderiam oferecer todo seu companheirismo, mas nunca seu compreendimento. O que Mabelle era, o que nós éramos, estava além da compreensão de duas adolescentes humanas.

Não fui eu que a escolhi.

Foi a própria Magia.

A força que rege o mundo o faz girar. Em alguns lugares, tão viva e forte como um incêndio. Em outros, como esse mundo sem graça, não passava do sopro de uma vela. Mas ela está lá, sempre lá. É o que faz as estações mudarem, o que garante que o fogo queime, que a água flua, que o vento sopre e a terra permaneça firme.

Mas talvez eu esteja me apressando. As coisas aconteceram como tinham que acontecer e eu ficava imaginando qual seria a reação de Belle quando descobrisse toda a orquestra em que entrou e o pequeno bônus, tanto para mim, tanto para ela, que a Magia nos reservou. Se estava escrito em linhas de sangue e ferro que nos encontraríamos, com certeza não estava sendo dito, em lugar nenhum, que eu e ela seriamos mais do que companheiros de batalha.

Eu me lembro do dia em que percebi que a minha vida seria mais difícil do que já estava destinada a ser. Eu me lembro em cada detalhe – a memória queimava dentro de mim e se contorcia em meu estomago. Fazia um tempo particularmente longo que eu não pisava nos arredores da aldeia (eu, minha avó e Aimeé havíamos passado uma boa temporada em Amaranthe, o capital do Reino das Bruxas) e, como sempre, era dever meu e de minha irmã nos certificarmos que Mabelle estaria bem.

Tínhamos feito doze anos recentemente. Havia sido uns dos poucos aniversários que não comemoramos na casa onde nascemos, perto da floresta que era parte da nossa alma. Eu ria de Aimeé pelas primeiras paixõezinhas bobas que arrumava. Não adiantava dizer que, por mais que ela fosse bonita e até mesmo bem formada, nenhum dos brutamontes que caiam em seu interesse iria se aproximar. Seja pela sua idade ou pela sua posição social. Então ela beijou Rysax Nusmiate e me agradeceu por fazê-la desistir dos homens, por ora.

Como nossa avó tinha passado a gostar muito de dizer, finalmente havíamos entrado na adolescência. Aquele período infeliz de tempo, entre os doze e dezoito anos, que abrangia crises existências, busca por identidade e aceitação, começo da vida amorosa, descoberta dos desejos sexuais, mudanças drásticas no corpo, formação da própria personalidade e completo desespero e angustia interior. Para eu e minha irmã, também foi assim. Ainda estava sendo assim. Tínhamos apenas dezessete anos agora, mas era divertido lembrar em como as coisas começaram a tomar outra forma a cinco anos atrás.

Era sempre engraçado lembrar do dia em que minha avó teve que puxar Aimeé em um canto e lhe dizer que “seus seios estão começando a crescer, querida, logo vai ser necessário usar algo para segurá-los no lugar”. Eu me lembro que minha irmã bateu o pé, morta de vergonha, e virou a cara dizendo que não usaria nada. Algumas semanas depois ela humildemente foi até nossa avó quando percebeu que era doloroso o impacto dos seios subindo e descendo quando pulava de uma altura elevada.

Assim como minha irmã achava engraçadíssimo lembrar do dia em que eu fiquei rodeando a vovó o dia inteiro. Sem dizer nada, apenas a olhando, virando a cara quando ela olhava também, e inquieto. Finalmente, passado mais da metade do dia, ela finalmente disse “sim, meu bem?”. Então tão ou mais vermelho que Aimeé, eu balbuciei algo sobre cuecas maiores, já que as que eu tinha começavam a me apertar. Ouvi a risada de Aimeé da floresta enquanto o dizia, mas minha avó (abençoada e bondosa vovó) se contentou em sorrir.

Eu podia continuar falando de mais mil momentos como estes. Da primeira vez que fiz a barba (tirar com uma navalha bem afiada aqueles tufos ralos e esparsos de pelos da minha cara, não deu muito certo), e de quando os pelos de Aimeé começaram a aparecer também, e ela e vovó se trancaram no banheiro por horas para ela aprender a como deixar as pernas e outras partes lisas. Quando minha voz começou a engrossas, e ao mesmo tempo falhava em um agudo ridículo, e até mesmo a de Aimeé, apesar de ser menos notável.

Naquela época, com doze anos, eu não era mais do que um garoto recém entrado na adolescência, cuja voz ainda estava para realmente engrossar e o corpo a tomar forma. Eu não era muito mais do que uma criança, admito. Mas tinha idade o bastante para meus instintos herdados de meu pai aflorarem, especialmente um que dizia que quando um Lycan atinge idade sexual madura (o que é por volta dos onze a treze anos), já é possível que ele encontre sua parceira.

Sua parceira, ou parceiro, seria a outra metade de sua alma. Seria sua terra e seu céu, tudo por que você luta e tudo que precisa. É quando duas vidas se ligam em tanta intensidade que nada no universo é capaz de desfazer esse laço. As vidas se tornam uma, os corações batem na mesma velocidade, as emoções e os cheiros se misturam de tal forma que não se sabe onde começa um e termina outro. Isso é a pareceria. É amar cegamente, é reverencia, é posse. Seu parceiro é seu bem mais precioso na terra, mais precioso que você mesmo.

Imagine minha surpresa quando senti um martelo de guerra acertar minha cara naquela tarde, empoleirado na arvore com Aimeé em um galho abaixo, tirando a sujeira da unha com uma faca. Até hoje não sei como não cai dos galhos quando a avistei saindo de casa, de mãos dadas com seu pai, os cabelos castanhos claros reluzindo o sol de agosto. Meu coração parou e voltou rápido demais, cada osso do meu corpo se paria, cada musculo rugia para eu ir em frente, em direção a ela.

Se minha querida irmã não houvesse me segurado e me arrastado de volta para casa eu teria feito Mabelle Bertrant minha naquele exato momento.

Se minha avó ficou particularmente surpreendida pelo acontecimento, não demonstrou. Estava mais preocupada em acalmar meus nervos e se assegurar que eu não partisse a porta dos Bertrant em dois em busca da mulher com quem eu iria dividir cada respiração. Quando conseguiu que eu me acalmasse e fez com que minha irmã respirasse (nossa ligação havia feito ela sentir todo o impacto da coisa e ela estava mais branco do que seu normal), então pegou em minhas mãos e me disse exatamente essas palavras:

— Tenha paciência, querido, ela virá. Confie em mim.

E confiei. Confiei, literalmente, todo meu universo na mente brilhante de minha avó. Não sabia como, quando e nem porque, mas se ela havia dito que Belle viria para nós, para mim, então ela viria. Mais cedo ou mais tarde.

Foram cinco anos depois, cinco longos e torturantes anos depois, que finalmente aconteceu. Eu não podia resistir a espia-la toda vez que a via na aldeia, e acompanhar seu crescimento pela orla da floresta. Mas era fantástico como Mabelle havia se tornado uma mulher bela. Não, mais do que isso, era divina. Nunca achei que encontraria alguém mais bonita do que minha avó e me enganei. Minha Belle era a obra prima da própria Magia com seus ombros magros e rosto delicado, aquele cabelo castanho claro descendo até o meio de suas costas e os olhos... eram vivos. Vivos de verdade. Brilhavam com o que queimava dentro dela, brilhavam com magia.

Com o tempo, a proximidade do aniversário de quinze anos de Mabelle me deixava cada vez mais tenso – e, por tabela, a Aimeé também. A única pessoa que me parecia serena como água parada era minha avó. Ela continuava andando tranquilamente pela casa, para lá e para cá, com um livro de baixo do braço e aqueles olhos reluzindo e focados em nós, como se achasse graça de nosso nervosismo e estivesse esperando tudo explodir para finalmente começar a rir. E ela o fez quando nos segurou pelos braços para impedir que fossemos até a aldeia para pegá-la quando nos disse que sua detestável mãe, Eveline Foucher Bertrant, estava querendo arranjar casamento entre ela e Lenard Pottier.

Nossa avó riu tanto que se dobrou e quase caiu de joelhos, e talvez apenas essa visão tivesse nos parado. Não que ela fosse uma mulher séria, mas... suave. Não era dada a ataques de histeria. Seus sorrisos eram abertos e suas risadas delicadas. Então, quando finalmente se colocou em pé e parecia muito mais a nossa avó outra vez – com o cabelo arrumado e o sorriso pequeno e olhos brilhantes -, ela disse praticamente a mesma coisa de alguns anos atrás.

— Se acalmem, os dois. Mabelle não tem o menor desejo ou interesse no jovem Lenard – que, por acaso, está enamorado de sua melhor amiga. Ele e Katriane Giraud, eles sim, não esconderiam nem se quisessem a paixão que os consome. Eveline está tentando romper um noivado que já estava praticamente firmado entre dois amantes em nome de seu egoísmo e ganancia. Confiem em mim, queridos, que Belle não deixará isso acontecer. Confiem nela.

E confiamos. Tivemos que confiar. E em nome da Lua e da Magia, não nos arrependemos nem um pouquinho. Claro que, quando ela chegou em casa depois de comparecer a alguma ridícula festa na aldeia, e nos contou o que Eveline havia tentando fazer com nossa Belle, ela precisou que mais do que as mãos para nos manter em casa e impedir que fossemos até lá arrancar os dedos daquela mulher um por um, seguido do punho, então até o cotovelo e os ombros.

A boca de Aimeé estava aberta e as presas aparecendo, sedenta por sangue. Ela ficaria feliz em segurá-la para mim enquanto eu fazia o trabalho. Por mais que quisesse, não me atrapalharia. Mabelle era minha e era de minha alcunha defende-la, mas estaria mais do que feliz em me ajudar. Nossa avó precisou nos lacrar dentro de casa com magia e metade da sala já estava em pedaços quando ela conseguiu nos enfiar goela abaixo uma poção para nos acalmar os nervos.

Acordamos no dia seguinte com a casa já recuperada e pedimos desculpas para nossa avó. Mas ela sabia, e nós também, que iriamos fazer Eveline pagar. Não importava quando, ela iria se arrepender.

Quando a noite da Festa da Estação chegou tudo que eu queria era vê-la. Saber como ela estava, se estava bem, se estava machucada, se estava lidando bem com tudo. Eu sabia que os malditos e gananciosos Pottier, com olhos grandes na fortuna dos Bertrant, estavam dando passos cada vez mais longos em direção ao noivado do filho com Belle. Também sabia que nem o garoto e nem ela, estavam felizes ou sequer queriam isso, mas estavam de mãos atadas. Ao menos, Lenard estava. Sabíamos que seria naquela noite. Mesmo que nossa avó não houvesse nos beijado e sussurrado para estarmos prontos, sabíamos. O ar estava pesado, nosso sangue corria, nossa alma rugia.

Seria naquela noite em que Belle traçaria seu caminho para nós.

Não perdi tempo em procura-la no meio de tantos rostos espantados e tediosos quando cheguei. Eu a achei em meio segundo. Mabelle brilhava como um farol, seus olhos focados em nós como com aquela chama aprisionada. Senti minhas pernas tremerem com o impulso de ir até ela e puxá-la para mim, Belle estava deslumbrante! O vestido lilás lhe dava um ar jovial que eu e minha irmã nunca tivemos – ar de quem desconhece o peso que carrega nos ombros. Seu colo era aberto e a parte mais física em mim ficou satisfatoriamente feliz ao ver que seus seios tinham um tamanho agradável de se olhar. O cabelo estava preso e cacheado e a bochecha havia sido apertada. Isso me fez franzir as sobrancelhas, Belle não precisava de cor nelas. Eram sempre tão naturalmente rosadas, de uma saúde impecável. E... Estava bêbada.

Vi tudo isso nos segundos em que ela se ocupou observando Aimeé, e então quando se voltou para mim, eu já olhava para o outro lado. Quando vovó desmontou e nos deu seu melhor sorriso, senti que tinha forças para entrar naquele lugar sem arrancar os olhos tão pateticamente arregalados de todos eles. Aimeé, por si mesma, prometeu que tentaria e isso era o melhor que poderia vir dela. Não ousei olhar em direção à Belle enquanto entravamos, mas, quando nossa avó se sentou, isso não fazia parte de nosso papel.

— A olharemos da floresta, vovó – nos inclinamos para ela, falando cada um em uma orelha. – Ela parece confusa. Talvez precise de algum incentivo.

Vovó apenas balançou a cabeça e sumimos floresta adentro.

Belle estava sentada na fonte da praça, os dedos com os nós brancos de tanta força que apertava a borda de mármore e a cabeça baixa. Definitivamente ela parecia confusa, e, sendo honesto, lutando para deixar a nevoa da embriaguez para trás. Ouvi um suspiro irritado atrás de mim e não precisei perguntar para saber que era de Aimeé.

Ela não vai andar para trás agora, ou vai? Ela não seria tão patética assim, Aimeé cantou com veneno em minha mente e eu respirei fundo.

Como sempre, irmã, você é a rainha da compaixão. A garota tem uma escolha muito importante para fazer. Deixe que tome seus momentos de consideração.

Se continuar considerando para sempre, teremos que fazer alguma coisa.

Não será necessário, olhe.

Mabelle estava olhando para nós. Não exatamente para nós, quero dizer, não acho que ela enxergava mais do que alguns vultos e talvez achasse que era alguma alucinação. Mas fiz questão de a olhar de voltar. Olhei bem fundo naqueles olhos castanhos, tão nublados de tantos pensamentos cruzados e confusos, seus ombros pesados com o peso do que ia fazer. Depois daquela noite, sua vida mudaria para sempre, e ela nunca seria capaz de voltar atrás. Mabelle tinha plena certeza disso. Mas a magia precisava que fizesse o que era preciso. Vovó precisava, Aimeé precisava.

Eu precisava.

Quando seu peito se estufou do ar que puxou para os pulmões e suas pernas se sustentaram firmes, eu sabia que não ficaria decepcionado. Uma bela fita vermelha estava entre seus cabelos, tão escondida e tão a vista que me fez sorrir. Ela a tocou enquanto andava, seu coração batendo pesado, eu podia ouvir. Mas seus passos continuaram firmes e decididos em direção a sapataria Giraud.

Depois disso, apenas o caos.

O fogo que consumiu a grama e parte das casas eram rápido e raivoso, o tipo de fogo que apenas as folhas secas do outono podem proporcionar. Aimeé queria se lançar em direção a ele e dançar, eu gostaria de pegá-las e senti-las na minha pele e puxar para minhas veias, mas mantemos os pés bem firmes onde estávamos.

Eu vi enquanto ela continuava parada observando o fogo arder, e quando sua mãe lhe segurou os cabelos, puxando com tanta força que vi sua fita cair. Um rosnado subiu de mim e de Aimeé, mas aparentemente nossa avó esperta estava prestando atenção, pois não fomos capazes de mexer um único pé. Então veio seu pai e a tirou do transe, a fazendo ir para casa.

Eu vi quando parou em casa e quando olhou para floresta. Olhou diretamente para nós. O fogo ainda ardia na aldeia, e tão próximo assim fazia com que quiséssemos nos atirar nele. O sorriso que lhe demos não durou mais de um segundo, mas também não deve ter sido menos que selvagem. Então Mabelle entrou, deixando o caos que criou para trás.

Ainda ficamos lá, observando os homens correrem para apagar o fogo. As mulheres, inclusive minha avó, corriam para juntar mesas, bandejas de comida e panos, qualquer coisa que estava espalhada e pudesse aumentar o fogo. Demorou duas horas para que apenas cinzas e poucas brasas restassem e o resultado foram prejuízos em mesas, comida e uma grande cicatriz de queimado na grama, além de bravos homens gemendo de dor.

As crianças foram mandadas para casa junto com seus pais. Apenas os representantes do conselho ainda ficaram ali, caminhando de forma pesada e cansada em direção a casa dos Pottier. E, quando a porta foi fechada, foi quando andamos em direção ao espetáculo acabado.

Aimeé dançava nas cinzas, mas eu interessava em um ponto vermelho, esmagado e sujo sob as cinzas e a grama quebrada. Peguei a longa fita que enfeitava o cabelo de Mabelle. De alguma forma, aquilo era especial para ela. Se não fosse, não estaria usando hoje, não teria a segurado com tanto afinco momentos antes de se decidir. Gentilmente, a guardei no bolso da calça.

No dia seguinte, vovó nos torturou até o último segundo. Acordamos antes da primeira luz do dia e sentamos à mesa do café. Ela estava lá, com um livro na mão e uma xicara de chá na outra. Nos deu um bom dia gracioso e nos mandou comer. Aimeé abriu a boca para retrucar, mas lembrou a tempo que era inútil. Nossa avó, com sua mente diabólica e com tendência a tortura, esperou que terminássemos de comer e ainda nos fez esperar até que achasse que estava bom de leitura matinal. Então abaixou o livro sem pressa e dei um último gole de chá antes de olhar para nós.

— Eveline e Patrick Bertrant ofereceram a mão de sua preciosa filha mais velha a você, Aloys – seu sorriso lento era o mesmo que dava sempre que vencia alguma coisa, o que queria dizer... sempre. – Saímos em meia hora.

— Eu sabia! – Aimeé riu, se afastando da cadeira com tanto ruído e estardalhaço que ela caiu. – Eu sabia que aquela vaca ia ter que nos engolir! Vovó, planejou tudo isso?! Como sabia que ela ia colocar fogo na aldeia?!

— Honestamente, meu bem, eu não sabia – o sorriso de minha avó era discreto e seus olhos brilharam, enquanto encolhia os ombros. – Eu tinha certeza apenas de que Belle nunca permitiria o casamento, e, para isso, teria que tomar medidas drásticas. Algo grande para fazer ela ir de moça mais cobiçada da aldeia por seus incríveis dotes a alguém que nem mesmo toda a fortuna e status dos Bertrant valesse a pena. Mas eu não sabia que ela escolheria fogo... foi realmente interessante.

— Então era apenas questão de logica saber que os Pottier iam romper qualquer pretensão de noivado. E não apenas os Pottier, mas todos. Até sobrar uma última opção: eu. – Joguei a cabeça para trás e deixei que a risada viesse alta pela minha boca. – Senhora minha avó, você é simplesmente brilhante!

— E eu espero que vocês tenham herdado isso de mim, pelo menos um dos dois – suas sobrancelhas arqueadas demonstravam sua brincadeira, mas nem por isso deixamos de mostrar as presas um para outro.

— Claro que fui eu! – Respondemos ao mesmo tempo, fazendo-a rir, seus ombros se mexendo. Quando estávamos a ponta de discutir, de novo, nossa avó levantou da mesa.

— Vinte minutos, crianças. Rápido.

Fomos com a roupa do corpo e mais duas ou três mudas em uma pequena maleta encantada. Haveria mais nos esperando em Amaranthe, e não seria como se estivéssemos indo até lá para passar férias ou algo assim. É claro que vovó, como sempre, aproveitaria a chance e se poria a par do Conselho, mas nós (eu e Aimeé), tínhamos uma aliança para escolher. E eu gostaria de dizer que estava enganado ao pensar que seria difícil.

Foi tremendamente difícil.

As vezes sozinhos, as vezes com companhia de nossa avó, entramos em cada joalheria daquela cidade. Das mais famosas e frequentadas até as simples e esforçadas. Por cinco dias, andamos de um lado para o outro, sem descanso. Quando finalmente eu via algo que me parecia muito apropriado para ela usar em seu dedo, Aimeé achava algum defeito. E, quando ela e eu concordávamos em algo, o veredito final de nossa avó era negativo.

Grande demais, pequenas demais, detalhada demais, sem detalhe nenhum. As cores não combinam com ela, a forma não combina, ficaria horrível com vestidos de cor clara ou de cor escura. Por fim, no quinto dia, perdi a paciência. Sentei junto com Aimeé e pedi que desenhasse a porcaria de um anel. Um anel perfeito. Um anel digno de uma princesa. Um anel digno de nossa Mabelle. Com o nariz empinado e dizendo que “nada mesmo que o cruzamento da perfeição com absolutamente fantástico enfeitaria o dedo de minha futura irmã”, ela começou a trabalhar.

Diabolicamente boa, rápida e precisa (como era em tudo), minha irmã fez um esboço que consideramos suficientemente bom. Então levamos para nossa avó. Ela largou imediatamente os papeis na mesa e mandou que nos aproximássemos, melhorando o desejo ela mesma. Naquele mesmo dia, o desejo foi para o melhor joalheiro de toda Amaranthe e, no final dele, eu tinha uma pequena caixa nas em minhas mãos e as malas arrumadas para voltar para Melenuit.

Vovó insistiu que fosse na frente. Era cedo ainda, não mais de sete agora, e suas palavras foram bem claras: esperem até por volta das oito e meia, então vão. A menina precisa de tempo. Concordamos e observamos ela partir – capa sobre o corpo, montada elegantemente em sua potra de prata. Quando sumiu de vista e calculei que, mesmo na calmaria com que montava, vovó já devia ter chegado, montamos nos mesmos nossos corcéis.

Olhe, tecnicamente não quebramos nenhuma regra ou desobedecemos nenhuma ordem. Estava implícito que nossa avó não queria que aparecêssemos na frente de Belle antes de oito e meia, ela não disse nada sobre espiar do lado de fora da casa.

Ouvimos toda a conversa. Fui obrigado, vez ou outra, a dar um ponta pé na canela de Aimeé para impedir que sua risada ficasse alta demais. Estávamos bem escondidos – tão alto nas arvores perto de sua casa e tão cedo. Mas não era preciso que ela literalmente gritasse que estávamos aqui. Quando vovó e ela subiram para o quarto para se aprontarem (os olhos de Aimeé quase entraram dentro da cabeça quando ouviu isso), contamos até duzentos e batemos à porta.

Patrick Bertrant estava como sempre esteve nos últimos dezessete anos que eu o conheço: barba bem-feita, roupas arrumadas e os mesmos olhos castanhos de Belle. Aimeé sorriu para isso como se soubesse de algo secreto, e realmente sabia. Me perguntei como ele ficaria com a verdadeira cor de seus olhos e se algum dia iria ter de chama-lo de “vovô”.

— Bom dia, Mr. Bertrant – cumprimentei, estendendo a mão para ele, que prontamente aceitou. Tinha os olhos estreitos e as sobrancelhas franzidas, mas nem eu seria capaz de dizer o motivo. Era por estar conhecendo o noivo de sua filha ou por estar conhecendo eu e Aimeé, de fato? Não me importava.

— Creio que nossa avó disse que estávamos vindo – os olhos de minha irmã não tiveram puder em se focar nos dele, brilhantes e selvagens, uma sobrancelha arqueada em impaciência. Isso fez as dele se franzirem ainda mais.

— Bom... Sim, sim, ela disse – e mesmo assim, ainda me parecia levemente em choque com o fato.

— Então poderia nos deixar entrar? – Foi minha vez de arquear a sobrancelha e, pobre homem, nos deu passagem sem pestanejar. Pude ver sua confusão ao fazer isso e quase coloquei as mãos em seus ombros para dizer que era natural, que ele nos reconhecia, assim como Belle. Mas minha cara irmã não deu tempo.

— Vovó? – Aimeé disse em alto e bom som, soltando a pergunta para dentro da casa, como se não soubesse exatamente onde ela estava. Passou por Patrick e parou no hall por meio segundo antes de ouvir a voz suave de nossa avó.

— Aqui em cima, querida – a voz vinha de cima das escadas, provavelmente do corredor dos quartos. Observei enquanto minha irmã as subia como se estivesse na própria casa, sem dar atenção ao dono desta que deixou à porta. Impedi um suspiro enquanto dava apenas um passo a frente, permitindo que Patrick fechasse a porta.

— Peço desculpas pela minha irmã, Mr. Bertrant. Nossa avó se empenhou para nos dar educação, porém eu já lhe expliquei que pedras não conseguem aprender nada – soltei um suspiro profundo enquanto olhava as escadas. – É nobre dela de não desistir daquele animal.

— Não há problema – ele encolheu os ombros. Não parecia muito à vontade sozinho comigo. Não pude culpa-lo. As únicas pessoas que realmente se sentiam à vontade em minha presença era Aimeé e minha avó. Rezava à Lua toda noite para que Belle também o fizesse. – Ela deve estar ansiosa para conhecer a futura irmã.

Como um flash, todos os anos que passamos esperando vieram em minha mente. Todos os anos vigiando a casa, rondando a floresta, observando-a de longe. Principalmente depois da descoberta de que ela era minha parceira. Se eu arrancava meus cabelos, Aimeé vivia uma pilha de nervos. Belle era minha. Mas Aimeé e eu éramos gêmeos, gêmeos muitíssimo especiais. Isso fazia Mabelle dela também. Com esse pensamento, deixei um sorriso fechado desenhar meu rosto.

— Ansiosíssima.

Nesse momento, minha irmã desceu as escadas. Eu podia ver em sua mente o olhar assustado e deslumbrado de Belle ao se deparar com sua figura e contive a vontade de revirar os olhos ao seu sentimento de vitória. Minha irmã me lançou um sorriso afiado, a gargalhada cruel presa em sua garganta, bem no momento em que a mulher que representava meu centro no universo desceu as escadas.

Tive certeza que minhas pernas tremeram, mas se realmente as tivessem, Aimeé teria rido. Não. Foi apenas a sensação. Sensação de que todo o chão era puxado de baixo dos meus pés, girado e então colocado de volta. Seu cheiro me invadiu como uma bomba: verão. Ela tinha cheiro do verão em que nasceu, vinha até mim através de uma brisa suave, rodopiando a minha volta. Usava um vestido simples, e ela era tão bonita que isso não importava. Mabelle não tinha necessidade de rendas e bordados, de trabalhos e pregas e costuras refinadas: ela poderia usar trapos que ainda estaria mais bonita do que todo o mundo.

Seu cabelo castanho claro estava trançado – provavelmente feito por vovó. Uma trança longa que caia sobre seu ombro. Tive que conter minhas mãos. Eu queria tocar seu cabelo, queria descobrir finalmente se era tão macio como eu achava que era. Eu sempre o imaginava como um ótimo travesseiro.

E seus olhos... algo primitivo dentro de mim rugiu pelo modo com que ela me olhava. Era satisfação, era deleite, era cobiça (mesmo que não soubesse) e quase... desejo. Algo muito, muito selvagem se torceu dentro de mim, arranhando os limites da prisão onde eu usualmente o mantinha, desesperado para ir até ela, para toma-la. Então, como fiz nos últimos cinco anos, dei um chute na cara dessa parte e olhei para minha avó.

— Vovó, acho que voltarei depois – e então voltei a olhar em seus olhos. Olhei bem fundo, mas, principalmente, deixei que ela me olhasse. Esperei medo ou dúvida, talvez algum temor ou receio. Mas nada. Ela observava meus amaldiçoados olhos de duas cores e tudo que eu via eram os seus brilhando. – Não me sinto vestido apropriadamente para ficar de frente com minha noiva tão bem vestida.

A cor que subiu para suas bochechas fez aquela parte rugir outra vez, mas me esforcei para continuar a olhando. Paciência. Era o que minha avó havia pedido. Ela irá vir para nós, confie em mim. Eu confiei, eu tive paciência. E ali estava ela, minha noiva. Eu teria de novo agora. Eu teria mais alguma paciência, apenas o bastante para mais umas semanas. O que eram semanas quando se havia esperado cinco anos?

Eu levaria Mabelle Bertrant para o altar, e perante os homens, assumiríamos a tola e fraca união concedida por um padre. Ao menos, isso a faria minha diante dos machos humanos, isso era inegável. Mas no meu mundo, no nosso mundo, outro tipo de união era a que realmente se contava. Pelo menos, na minha espécie, em uma delas ao menos.

Mais cedo ou mais tarde, minha parceria com ela seria firmada. Então nada no Céu ou no Inferno, ou as linhas tortas da própria Magia, poderiam nos separar. Eu era dela, profundamente dela. E esperei cinco longos anos para o dia em que ela me pegasse para si.

Paciência. Era preciso apenas ter mais paciência.

Notas finais
E ai gente? Gostaram? Contem pra mim ♥ Bjs da tia! ♥ P.S. Ainda sobre os comentários: respira que vai, okay? Tô super sem tempo mas SEMPRE vou ir respondendo vocês, então não achem que estou ignorando, okay? Sabem que eu respondo ♥