Lua da Meia Noite

1 A Terra das Memórias Perdidas


Notas iniciais
Oi pessoal *-* Então, venho aqui dividir essa ideia que tive de uma hora para outra. Bem, vai funcionar assim: 1 - eu chamo todos meus Primeiros Capitulos de Capitulo Teste. É o capitulo que, se tiver uma boa repercussão, eu continuo a historia. Se não, excluo. Então se leu, deixe pelo menos um gostei. Vai fazer diferença pra eu continuar. 2 - se a historia vingar, postarei semanalmente. E, claro, o próximo dia seria sábado que vem. 3 - amo vocês por lerem s2

Eu devia ter quatro ou cinco anos e tudo era grande e alto demais de onde eu estava, escondida entre as pernas de meu pai. Era engraçado como algumas coisas simplesmente ficam impressas em sua memória, tão fortes como a história de um livro que leu mais vezes do que seria aceito. E, de todas as lembranças de minha infância, eu me lembro daquela. Especificamente daquela.

Foi quando os sinos tocaram. Uma. Duas. Três vezes. O rosto das pessoas se contorciam e os passos se apressaram, tentando entrar para dentro de casa o mais rápido possível, apesar de ainda ser de dia. Até mesmo meu pai interrompeu sua conversa com Mr. Giraud, olhando para os lados de forma inquieta, e mexendo as pernas, me fazendo agarrar com toda força dos meus dedos pequenos em suas botas para não ir de cara com a neve suja do chão.

— É hoje, hem? Pior dia, pior dia. – Mr. Giraud disse, exibindo os dentes amarelos enquanto esfregava as mãos. Estava mesmo frio. E eu sabia disso bem antes de sair de casa. Mas não queria ficar lá com mamãe e sua barriga enorme, cinco vezes mais insuportável do que o normal por conta da gravidez. Parecia incapaz de levantar da cama, o que a fazia gritar e reclamar o dia inteiro. Não era surpresa papai arranjar desculpas para passar o dia na rua, nem eu. Ela ficava falando, orgulhosa, como tinha certeza de que daquela vez acertaria.

Hoje eu sei que ela queria dizer que, daquela vez, sentia que iria ter um menino, para dar continuidade ao nome e riqueza dos Bertrant. Naquela época, eu apenas me encolhia e me olhava no espelho, procurando o grande erro que minha mãe alegava que eu era.

— Já está tudo certo, Vernell? – Esse era o primeiro nome de Mr. Giraud, e ele balançou a cabeça para cima e para baixo, fazendo com que o cabelo castanho e ralo salpicasse de neve.

— Sim, sim. Nossa melhor vaca. Uma pena, mas mês que vem serão os Pottier, e então quero ver o que farão para tirar o sorriso da cara. Acredito que darão o leitão, em um excelente golpe de sorte, pois a leitoa já está para parir.

— Não reclame, meu amigo. Mês passado tive que abrir mão de duas de nossas galinhas. Foi complicado, minha Belle gosta de colher os ovos e se afeiçoou aos bichos.

— Ah, uma pena, de fato – Mr. Girard se inclinou para mim e eu pude ver bem seus olhos castanhos, meio sombreados pelas sobrancelhas grossas. – Não se preocupe, Mabelle, foi o melhor.

Foi o melhor. Eu havia ouvido isso no mês passado, quando vi duas das nossas galinhas serem colocadas em gaiolas e levadas para dentro da floresta. Papai estava do meu lado, segurando minha mão, e abraçou-me quando percebeu que estava chorando.

Aproveitando que mamãe não podia mais me fazer segui-la de um lado para o outro, uma vez que se confinava no quarto ou, no máximo, na sala, eu pude fazer uma ou duas coisas que a fariam infartar e me dar alguns tapas de reprimenda, como cuidar dos animais. Isso não era certo de uma dama, mas eu realmente não me importava. Acabei me afeiçoando aquelas aves gordinhas que faziam um barulho engraçado, e me partiu o coração vê-las sendo levadas embora. Eu sabia que não as veria mais.

Porque foram levadas quando era noite de lua cheia, e nenhum dos animais que são levados em noite de lua cheia voltam.

— Bom, eu preciso ir, tenho negócios a resolver. Eveline me deu uma lista de coisas que quer, e se não conseguir vou perder a cabeça. – Papai deixou que se mostrasse mal-humorado com a ideia de andar de um lado para o outro, na neve, atrás do que quer que fosse as exigências da mamãe. Mas isso fez Mr. Girard rir.

— Ela está tão mal assim? É normal, sabe, com a gravidez. Não sei o que acontece com as mulheres, elas ficam loucas. Me lembro quando estávamos esperando a nossa Katriane, Senhor seja louvado, Dorianne simplesmente enlouqueceu. Acordava no meio da noite e só sabia falar de dor nas costas, então, de repente, me enchia de beijos e carinhos.

— Ah, meu amigo, eu sei. Vi tudo isso quando esperava minha Belle. – Papai passou a mão na minha cabeça, suas luvas de couro bagunçando meu cabelo já desarrumado pelo vento ocasional. Mas não importava, porque ele estava sorrindo para mim e seus olhos brilhavam. Papai tinha olhos fantásticos. De um castanho vivo, da cor de casca de árvore seca. – Mas agora está demais.

— Dorianne, no meu caso, parece que amoleceu um pouco. Uma bênção, isso sim, agora consigo dormir. Mas me diga, sei que Eveline é difícil, mas está realmente tão ruim?

— Meu caro, quem vai arrancar minha cabeça sou eu mesmo.

Eles riram mais um pouco e se despediram, e tive que me soltar das pernas de papai. Ele segurou minha mão enquanto me guiava pela avenida principal, em direção ao boticário. A neve afundava sob as botas pesadas dele, mas sob as minhas mal deixavam uma impressão forte, e eu me divertia com passadas longas e desequilibradas, sempre segura pela mão forte de papai, enquanto tentava fazer alguma dança estranha envolvendo minhas pegadas.

O pequeno sino tocou enquanto entrávamos na loja, a porta rangendo um pouco. Era mais aquecido do que o lado de fora, e cercada de prateleiras abarrotadas de potes com líquidos estranhos e ervas, um balcão central e uma porta nos fundos. O lugar era impregnado com uma mistura de cheiros interessante, tão diversos que sempre me faziam espirrar.

Mrs. Guillot já estava atendendo alguém. Eu podia ver suas costas longas cobertas pelo vestido azul profundo, destacando seu longo cabelo negro que se movimentava ao menor movimento de seus ombros ou braços, que deviam estar apoiados no balcão. A mulher era alta e transmitia um certo respeito, fazia alguma coisa dentro de mim se aquecer em reconhecimento. Mas não era como se eu não a conhecesse. Eu conhecia. Toda a aldeia conhecia.

Papai tirou sua capa apressadamente e a pendurou ao lado da porta, e eu fiz o mesmo, com a ajuda dele, mesmo que seus olhos não estivessem mais em mim. Era sempre assim. Desde aquela época eu já sabia. Eu via como seus olhos brilhavam, como sua boca abria, como seu rosto se transformava. Ele nunca havia olhado para minha mãe daquela forma. Nem mesmo uma vez, nem mesmo por um segundo. Mas sempre a olhava assim para ela.

— Mrs. Blanchard – ele cumprimentou, fazendo a mulher se virar para olhá-lo. Seus movimentos eram tão graciosos como uma folha caindo tranquilamente em direção ao chão. A base de seu vestido farfalhou de modo suave, e seu rosto apareceu, coroado de um sorriso educado.

— Mr. Bertrant, que prazer em vê-lo. – Sua voz se arrastou, quase como se cantasse, suave como patas de um gato. Seus longos cílios negros piscaram, e eu pude reparar o que sempre reparava nela. O que sempre ouvia mamãe xingando e amaldiçoando, falando coisas como “aberração” e “bruxaria” quando se referia a Mrs. Blanchard. Eu pude ver seus olhos.

Inconfundíveis olhos dourados.

Eles brilhavam, reluzindo como ouro, mas com calor e doçura. Mirou em meu pai, e então em mim, e me pareceu que sorriu ainda mais, me fazendo sorrir para ela. Não importava o que mamãe dizia, Mrs. Blanchard sempre havia sido extremamente agradável comigo em todas as vezes em que a via (certo que não era muitas, mas mesmo assim). Eu gostava dela. Às vezes, preferia que ela fosse minha mãe.

— Já lhe atendo, Mr. Bertrant. – Mrs. Guillot disse, atrás de Mrs. Blanchard, empacotando algo para ela. Como papai e Mr. Giraud, Mrs. Guillot possuía cabelos e olhos castanhos. Seus cabelos de um tom mais seco e olhos meio caídos, porém atentos, fazendo par com mãos precisas.

— Sem pressa, Adalene. – Esse era o primeiro nome de Mrs. Guillot, e seu marido, Mr. Guillot, não estava à vista. Eu sabia que existia uma sala aos fundos, onde os suprimentos eram mantidos e manuseados. Provavelmente ele estaria ali. – Como vai Warren? Soube que pegou um resfriado.

— Oh, sim, aquele velho – ela reclamou do marido, mas havia um pequeno sorriso quando o fez. – Naquela idade e de cama, como se fosse um menino. Achei que teria que ficar um bom tempo cuidando eu mesma de tudo por aqui, mas Mrs. Blanchard salvou-nos.

— Oh, que nada, não foi esforço algum. – Mrs. Blanchard posicionou o corpo de lado, uma das mãos ainda apoiadas no balcão, para poder conversar direito com meu pai e com Mrs. Guillot. – É apenas uma infusão caseira, feitas de ervas do meu jardim. Meus netos tem uma saúde de ferro, mas é bom manter na memória coisas assim.

— De fato. – Papai respondeu, apesar de que acho que não ouviu muito o que ela disse, de tão concentrado que estava em seu rosto. Eu seria capaz de rir, se minha própria cabeça não estivesse rodando desde o momento em que ela se referiu aos netos. Será que estavam aqui, na aldeia? Será que ele estava aqui?

— E é por isso que estou dando algumas lembranças de presente para Mrs. Blanchard. – Mrs. Guillot continuou, terminando de vez o embrulho e o oferecendo a Mrs. Blanchard. – Não tente recusar, Rowena, é o mínimo que posso fazer por tirar aquele imprestável da cama tão rápido.

Pelo sorriso vencido que Rowena – esse era o primeiro nome de Mrs. Blanchard – deu, ela já havia passado um tempo tentando persuadir Mrs. Guillot a não lhe dar nada, falhando miseravelmente. Então simplesmente estendeu as mãos, cobertas de luvas finas de pele, e segurou o pacote entre os dedos.

— Então só me resta agradecer. – Se rendeu em mais um sorriso. – Passar bem, Adalene.

— Você também, Rowena. – Houve uma troca rápida de sorrisos de despedida e papai já estava com a capa de Mrs. Blanchard nas mãos, pronta para ajudá-la a se vestir. Ela lhe lançou um sorriso de agradecimento, que eu pude jurar que fez papai tomar fôlego, antes de vestir a capa de um azul levemente mais claro que seu vestido, e então passou pela porta, deixando para trás seu cheiro esquisito e bom: flores, grama, árvores e natureza.

Papai ficou parado por um tempo, observando a porta por onde Mrs. Blanchard havia acabado de passar, como se esperasse que ela reaparecesse, fazendo o sino tocar mais uma vez, para conseguir mais alguns minutos de conversa. Mas ela não veio, e isso fez papai arrastar as botas com pesar em direção ao balcão, onde Mrs. Guillot o olhava de modo estranho.

— Deseja alguma coisa, Patrick? – Perguntou em uma tentativa – aparentemente bem-sucedida – de puxar papai de volta de onde quer que estivesse dentro dele. Provavelmente em algum lugar onde Mrs. Blanchard nunca teria ido embora.

— Ah, sim, Adalene – murmurou, levemente embaraçado. – Eveline me mandou atrás de algumas coisas, sinceramente, nem li o que são. Provavelmente quer algum sonífero para só acordar quando já estiver em trabalho de parto, ou algo para os nervos, ou...

— Ora, deixe-me ver – havia um pequeno sorriso em seu rosto enquanto apanhava o pedaço de papel rabiscado pela letra bem-feita de mamãe. Par algumas coisas ela sorria, outras, franzia o cenho, e, no fim, fechou os olhos e soltou um longo suspiro. – Mrs. Bertrant é sempre exigente, não é mesmo?

— Para se dizer o mínimo. — Papai concordou, enfiando as mãos nos bolsos e encolhendo os ombros, como sinal de desculpas por seja lá o que mamãe havia pedido.

— Não há problema. Não pediu nada verdadeiramente impossível. Mas algumas coisas daqui – ela parou por meio segundo, lendo algum item de novo. – Não estão prontas. Eu teria de fazer. Levará alguns minutos. Se importa?

— De forma alguma. Eu espero. – Papai não parecia exatamente feliz com isso, mas sabia que a culpa não era dela, e sim dos desejos loucos de mamãe. Se abaixou para poder falar comigo, e pude ver com clareza seu rosto marcado pelo maxilar quadrado e nariz reto.

— Belle, irei demorar um pouco aqui. Porque não vai brincar lá fora? Com certeza será mais divertido do que ficar esperando. Eu queria poder ir brincar. – Suspirou jogando as mãos para cima, o que me fez sorrir. – Lhe encontro lá fora, não vá longe, sim?

— Sim, papai. – E com dois beijos em meu rosto, me fazendo cosquinhas pela sua barba, ele me ajudou a colocar minha capa e abriu a porta, me permitindo que procurasse algo para me distrair. Isso era algo que mamãe nunca deixaria acontecer. Ela nunca deixaria eu sair por aí para brincar na neve, como um garoto. Eu devia ficar dentro de casa, bordando alguma coisa. Ou achado alguma amiga e conversado com ela, colocando em dia qualquer assunto que crianças poderiam ter.

Ela teria certo orgulho de mim, pois fiz, mais ou menos, o que devia. Mas foi uma amiga que me encontrou.

Fui bruscamente puxada pela capa para trás de uma pilha de lenha úmida e tive minha boca tampada por mãos pequenas. A garota que havia me puxado não era muito mais alta que eu, e possuía o mesmo cabelo castanho escuro e olhos castanhos de seus pais. Katriane era apenas um ano mais velha do que eu, mas, às vezes, para proveito próprio, invocava esse fato de forma desonesta, como se isso lhe desse direito de ter o melhor biscoito, ou se sentar no melhor lugar. Mas eram falhas perdoáveis, pois nunca conseguia ser egoísta por muito tempo, e sempre acabava dividindo ou abrindo mão do que me tomava.

— Kat, que susto! – Resmunguei me livrando de suas mãos e arrumando minha capa, que havia sido puxada com tanta força para trás que me enforcava.

— Psiu, silêncio, Belle! Olhe! Eles estão aqui!

Não precisei perguntar quem. Apenas um eles causavam esse tipo de comoção, e eu já sentia meu coração batendo mais depressa, minhas mãos suando apesar do frio. Estiquei meu pescoço o máximo que pude, buscando o que meu coração queria ver. Era tão, tão raro eles virem até a aldeia... mas devem ter vindo fazer companhia a avó.

Rowena, aliás, estava ao lado dos cavalos, amarrados a uma cocheira, guardando os pacotes de Mrs. Guillot em algum compartimento da cela. Seus lábios se mexiam e eu daria tudo para ouvir o que dizia, pois estava dizendo diretamente para seus netos, ambos escorados à margem da floresta, como se quisessem voltar para ela o mais rápido possível.

— Não acredito que gosta dele, Belle, ele é... – Katriane começou, mas eu não a deixei terminar. A segurei pela mão e a arrastei de onde estávamos, andando de volta para o boticário e para longe da linha de visão de Rowena e seus netos.

— Não fale nada, Kat, por favor – implorei, apertando as mãos uma na outra. Minha amiga ergueu o nariz e eu soube o que veria a seguir.

— É claro que não, sabe, eu já tenho seis anos. Não que você saiba, mas quando fizer os seus, vai saber, que nós, mais velhos, sabemos guardar segredos. Até mesmo os mais estranhos, como sua melhor amiga ficar corada toda vez que vê o Filho do Lobo.

Seus olhos brilharam, me desafiando a contestar, a dizer que ela estava errada, mandando-a não o chamar dessa forma. Mas não fiz. Isso renderia uma discussão que não queria ter, não de novo. Apesar de não me entregar a ninguém (se mamãe soubesse me daria uma bela surra), Katriane não entendia. Não podia entender. Ela não sentia o que eu sentia. Ela não via o que eu via. Ela enxergava com os olhos dos pais, de medo e distância.

Eu sempre preferi enxergar com os meus próprios.

— Belle? – Papai saiu do boticário e deu de cara com nós duas, na porta, cochichando e coradas. Como o bom pai que era, não fez perguntas, e deu um sorriso para Kat. — Olá, senhorita Giraud.

— Olá, Mr. Bertrant. – Ela sorriu para ele. – Tenho que ir encontrar mamãe, ela quer que eu ajude a escolher as coisas para meu irmãozinho. – Não pôde evitar de fazer uma careta quando disse isso, e não pude evitar de sentir pena de minha amiga. Eu também não ficaria feliz se mamãe me obrigasse a passar por isso. – Te vejo depois, Belle. – Me deu um beijo na bochecha e um sorriso para papai. – Mr. Bertrant.

— Passou minutos agradáveis, querida? – Papai perguntou enquanto segurava minha mão, habilmente segurando os pacotes do boticário todos com o outro braço enquanto tomávamos o caminho de casa. Arrisquei olhar para onde, a alguns minutos, a família Blanchard estava. Mas nem avó, nem netos e nem cavalos estavam mais ali. Não haviam sequer pegadas na neve. Abaixei a cabeça para esconder meu desapontamento.

— Sim, papai.

Quando chegamos em casa, aproveitei que mamãe estava no quarto e dei um beijo em papai antes de subir para o meu. Sem lições da tarde ou quaisquer obrigações, me permiti tirar a capa e as botas úmidas de neve, me lançando na cama. O tempo estava frio, e minhas cobertas agradáveis, talvez se eu fechasse os olhos, apenas um pouquinho, eu poderia me lembrar com mais detalhes do que vi tão rapidamente hoje.

Cabelos negros como os da avó salpicados de neve. Mas não como Mr. Giraud. Mr. Giraud havia algo de cômico em como os flocos caíam. Nele, havia algo de majestoso, como se cada floco traçasse uma rota certa, para cada um ocupar um fio, e pontilhar seu cabelo negro de branco.

E os olhos. Eu podia jurar que ele havia olhado para mim, por um ou dois segundos. Seus olhos eram tão ou mais incomuns dos que de sua avó. Eram diferentes dos meus, dos de papai, de Mrs. Guillot, Mr. Girard e de todo resto da aldeia. Eram violeta pincelados com cinza. Não havia olhos mais bonitos no mundo todo.

Mesmo que, para mim, isso se resumisse a Melenuit.

Naquela época, eu era apenas uma garotinha. Naquela época, eu não sabia o que queria, o que fazia, ou o que buscava. Naquela época, o garoto que fazia meu pequeno coração correr tanto que quase tropeçava era alguém digno de uma pintura. Eu não sabia muitas coisas sobre a vida, e o que sabia com certeza era mascarado com palavras bonitas e pensadas, feitas para preservar minha inocência o mais tempo possível.

Mas aquela noite era lua cheia.

E ninguém em Melenuit consegue permanecer inocente por muito tempo. Não quando somos educados desde o berço para sentir medo e trancar a porta. A ficar longe da floresta, e a acreditar na lenda. Não quando somos ensinados que há algo terrível nos circulando, e nem crianças de colo são poupadas dessa verdade.

— Belle? – Papai abriu a porta devagar e eu ergui a cabeça, saindo dos pensamentos apaixonados que uma criança de cinco anos poderia ter. Estava sem a capa e os cabelos castanhos bagunçados, provavelmente por ter passado a mão por eles mais de uma vez, o que fazia quando se sentia com nervos altos. Provavelmente tinha ido ver a mamãe.

— Sim, papai? – Perguntei me sentando. Ele sorriu para mim, um jeito que apenas ele sorria. Mamãe nunca havia sorrido para mim. Na verdade, não me lembro de seus lábios fazerem mais do que uma linha fina de desaprovação para minha pessoa. Mas papai exibia seus dentes para mim, e tinha um sorriso bonito que fazia seus olhos brilharem.

— Já está pronta para dormir? Sabe que hoje tem que deitar cedo.

Olhei pela janela do quarto, ainda estava claro. Não devia ser mais de quatro horas, e mesmo assim, eu sabia, devia estar deitada e com janelas trancadas as seis.

— Não estou com sono – reclamei fazendo uma cara feia, o que fez ele rir. Se sentou na minha cama, fazendo o colchão se afundar sob seu peso, e passou a mão pelo meu rosto.

— E se eu te contasse uma história, acha que conseguiria pegar no sono?

— Sim! – Pulei da cama, quase caindo por meu pé ter ficado preso nas cobertas, e disparei para seu colo, o abraçando pelo pescoço, sentindo a risada afastar um pouco do frio do inverno dos meus ossos. Mas parei, porque tinha uma coisa que queria pedir, e teria que fazer alguma cara séria para isso. – Mas eu quero escolher a história, papai.

— Ah, é? – Ele arqueou uma sobrancelha, imitando meu rosto sério, como se estivesse fazendo um negócio na loja. – E qual seria, meu bem?

— A lenda da aldeia. – Pedi. No mesmo instante suas sobrancelhas franziram e senti-o mudar os pesos das pernas.

— Tem certeza, querida? Justo hoje?

— Por ser hoje, papai! – Me ajeitei em seu colo. – Por favor, por favor, por favor!

Ele pareceu pensar por um tempo, mas por fim se rendeu e um pouco de seu sorriso voltou.

— Tudo bem, eu conto. Mas apenas se a senhorita comer seu jantar e tomar seu banho, entendido?

— Sim, senhor! – Pulei do seu colo, indo para a porta e descendo as escadas, buscando a cozinha e alguma comida. O jantar já devia estar quase pronto mesmo, e eu gostava de ficar na cozinha. Era onde eu conseguia roubar uma coisa ou outra, e as criadas não contavam. Sabiam que se chegassem aos ouvidos de Mrs. Bertrant que sua filha afanava comida da cozinha, principalmente guloseimas, então seriam dez batidas de vara.

Isso não é propicio de uma dama, Mabelle.

— Não se esqueça dos legumes! – Ouvi papai gritar lá de cima e fiz uma careta. Ele nunca deixava eu escapar de nada.

Depois de jantar e do banho, já eram seis horas e já havia escurecido completamente. O inverno deixava o céu cinza durante o dia, e fazia a noite chegar muito mais rápido. Mas eu já estava na cama, com as janelas firmemente trancadas, assim como toda a casa. A aldeia inteira era um completo silêncio e eu sabia que não havia uma alma viva andando pela neve. Estavam todos em casa, tão trancados quanto nós, colocando quanto de proteção fosse possível entre eles e o que vinha na lua cheia.

Papai entrou no quarto com uma camisa cinza para dormir, e as calças com suspensórios baixos. Tinha os cabelos mais bagunçados ainda e parecia cansado, mas mesmo assim não deixou de sorrir quando me viu, e nem de me dar um beijo na testa ao se sentar ao meu lado na cama, acomodando suas longas pernas e me deixando praticamente subir em cima dele.

— Como mamãe está? – Perguntei sentindo seu cheiro forte, meio almiscarado, tão seguro que já me fez fechar os olhos e respirar fundo. Ele não respondeu rápido.

— Cansada e com os nervos à flor da pele, carregar um bebê não é fácil. Temos que ser pacientes com ela.

— Não quero ser paciente, papai. Ela nunca é paciente comigo. Mamãe é má comigo, ela não gosta de mim.

— Não fale essas coisas, Belle. Claro que ela gosta, é sua mãe. Ela só tem... um jeito diferente de mostrar.

Ele não parecia convencido, e nem eu estava. Mas ele estava fazendo seu papel em não incentivar meu desamor pela minha própria mãe.

— Queria que Mrs. Blanchard fosse minha mãe. – Consegui murmurar e senti papai prender a respiração. – Ela é linda, e é sempre tão gentil...

Dessa vez, o silêncio foi maior. Bem maior. Não ousei olhar para o rosto do meu pai, deixei ele ter sua privacidade. Me contentei em fechar os olhos e ouvir as batidas pesadas de seu coração, me embalando devagar. Quando ele finalmente falou, eu já estava quase dormindo.

— Sim, ela é – soltou o ar devagar. – Vai querer ouvir a história ou não, mocinha?

— Quero sim, papai – murmurei, já a meio caminho do mundo dos sonhos.

— Pois bem, começou a tanto tempo que ninguém se lembra ao certo quando. Mas tudo começou em uma noite como essa...

Era lua cheia e havia algo a mais no ar. Ninguém sabia explicar o que, apenas sabiam que tudo estava mais pesado, mais sombrio. As sombras pareciam se arrastar para fora dos cantos das casas, com dedos longos e afiados, prontas para puxar para dentro qualquer desavisado que não prestasse bastante atenção.

Apesar de todos tentarem seguir o dia como se nada estivesse acontecendo, era possível ver as pessoas olhando por cima dos ombros uma das outras e fazendo as coisas com mais pressa que o normal. Um ou outro cochichava com o camarada vizinho “tempo estranho, não é? ”. Era, de fato, um tempo muitíssimo estranho. Havia algo ruim rodeando a aldeia, e ninguém soube explicar o que.

Até que anoiteceu e a lua subiu no céu, e subiu, e subiu, até que chegou em seu ápice. Apesar do dia estranho que todos tiveram, havia um ou dois que tinham coisas a se fazer. Alguns dizem que eram um casal de namorados, se encontrando para fugir no meio da noite. Outros, que eram apenas miseráveis desafortunados, no lugar e hora errados. Ninguém ouviu seus gritos, na verdade não se sabe se houve algum. Apenas viram os resultados, ou o que sobrou para ver: dois corpos, ou algo que lembrava dois corpos. Faltava o braço de um e uma perna de outro, e havia tantas mordidas e arranhões que mais parecia que um bando inteiro havia atacado o par.

Mas não era um bando. Era apenas uma única criatura. Uma única fera. Uma besta.

Houve uma comoção, houve raiva, mas mesmo assim ninguém descobriu o que havia acontecido. O mês se passou, e na lua cheia seguinte a sensação voltou, ainda pior. Dessa vez, não houve ninguém que se aventurou a noite para fora de casa. Mas ele não se intimidou com trancas e madeira. Arrastou uma família inteira para fora e os devorou, tão rápido quanto um demônio. Quem abriu a janela para ver contou na manhã seguinte, quando não havia nada mais que corpos e sangue, que realmente não era trabalho de bando ou matilha alguma. Era apenas um monstro.

Eles o chamaram de Lobo.

Por mais três luas cheias o Lobo continuou vindo, arrastando crianças das camas e dizimando famílias inteiras. Era forte demais para qualquer arma e passava por cima de qualquer sentimento de bravura. O pânico era desesperador e o medo parte do cotidiano. A floresta havia se transformado no lar da besta, e não era mais permitida. Até o mais corajoso dos homens se recusava a entrar nela sozinho, e mesmo com um exército, não o faria a noite.

Até que alguém, o nome se perdeu no tempo, sugeriu um modo de acabar com as mortes. Não um modo de exterminar o Lobo, pois já era mais do que claro que era algo aquém da habilidade de qualquer um. Mas sim uma espécie de acordo de paz. Quando a lua ficou cheia naquele mês, uma família escolheu seu melhor animal e o amarrou em um altar, em uma planície na floresta, logo pela manhã. Durante todo o dia, a expectativa fazia com que as pessoas olhassem o céu a cada momento, buscando a lua.

Então a noite veio, e todos se acolheram em suas casas. Puxaram trancas, ferrolhos e fecharam janelas. Pais deitaram abraçados com seus filhos, temendo ser o último dia a vê-los. Mas, no dia seguinte, quando o primeiro curioso olhou para fora, não avistou nada. Nem porta quebrada, nem sangue, nem corpos, nem destruição. Quando foram olhar na floresta, o animal havia sumido, e lá sim havia sangue e uma corda arrancada com a força de uma mordida.

Desde então, em cada lua cheia, um animal é sacrificado para o Lobo, mantendo o acordo de paz. Nós nunca quebramos o nosso lado, e o Lobo nunca quebrou o dele. Por todo esse tempo, nunca mais houve uma morte sequer. Mas as pessoas continuam com medo, trancando suas casas e ficando em suas camas nas noites em que a lua cheia sobe no céu. Pois tão real quanto o medo, é a lenda. Acredite na lenda, é o que dizem. E mais importante: cuidado com o Lobo.

Eu não me mexia mais, e sequer respirava. A história havia me parado o sangue nas veias, e mesmo assim o calor de meu pai conseguia com que eu não congelasse. Tomando como se eu estivesse dormindo, provavelmente pelos meus olhos fechados, papai gentilmente tentou se desvencilhar de mim, mas não deixei. Não agora, que imaginava uma besta irrompendo pela janela, toda garras e dentes. Então ele se deitou comigo, e eu me permiti me sentir segura com meu pai do meu lado.

O Lobo nunca havia quebrado a paz. Não havia qualquer razão para se ter medo. E mesmo assim medo era tudo que os aldeões de Melenuit conheciam. Eles transpiravam medo, e odor ficava particularmente forte em noites como essas. Em noites de lua cheia. Agora, eu também sentia.

Mas no meio daquele caminho confuso entre a realidade e o mundo dos sonhos, consegui pensar em uma coisa. A floresta era o lar da besta, era proibida e amaldiçoada. Desde aqueles tempos, ninguém se aventurava lá. Não mais do que se podia ir olhando para trás e ainda enxergando a aldeia. E se mais, havia sempre companhia. Um grupo inteiro de até vinte homens, sempre armados, sempre prontos, sempre com medo.

Havia um, porém, uma pequena questão que me fixou em meus pensamentos confusos que se transformavam em sonhos com luas altas no céu e um Lobo horrendo matando tudo que havia pela frente, não fazendo diferença entre crianças e velhos para satisfazer sua sede de sangue antes de voltar para seu covil, nas profundezas da floresta. A floresta, proibida. A floresta, que todos temiam. A floresta, onde ninguém sequer pisava. Todos os aldeões moravam aqui, na aldeia. Menos três. Todas as famílias, por centenas de anos, moravam ali, mantendo distância. Todos menos uma.

Os Blanchard moravam na floresta.

Notas finais
So, gostaram? Eu realmente espero que sim :3 Bjs da tia ♥