Lua Vermelha

5 Capítulo 3 - Parte I


- Já chega Isabella. – Minha irmã levantou da cadeira e, pela primeira vez na vida, eu a vi irritada.

- O que foi cópia falsificada e mal feita de mim? Vai me bater? – Eu retruquei, enfrentando-a. Não havia coisa que mais a irritava do que falar que ela era minha cópia falsificada.

- Nossa, que legal princesa. Não vou gastar minhas unhas com isso. Ah, e por tocarmos nesse assunto... Olha que linda que está minha unha de melancia. – Ela disse me mostrando o dedo do meio. – Sabe o que você faz com isso?

- Sei sim – Eu disse, surpreendendo-a – Vem aqui que eu tenho mais dois para enfiar em você, sua gorda! – Ela me olhou atravessado, quase indo para me bater. Essa era nova.

- BASTA! – Mamãe gritou descendo as escadas quase voando. – Isabella, você está de castigo.

- Mas mãe...!

- Sem essa história de “mas”, Isabella, já decidi. Sem computador, sem sair e sem telefone. – Ao término da frase a Lorena começou a rir histericamente. Eu fiz cara de nojo. – E você, Lorena, trata de ficar quieta, pois você é outra que está de castigo. 10 dias sem computador, livros, música e esmaltes.

- E quantos dias eu vou ficar de castigo? – Perguntei, esperando ela me dizer que uns três meses seriam o suficiente.

- Vou conversar com o seu pai para decidirmos. – Ela falou entredentes. Que legal, agora ela e meu pai iriam entrar em um acordo. Lindo. Típico de minha mãe.

- Tanto faz. Nunca saio dessa prisão mesmo. Quer saber? Tchau. – Eu disse, batendo a porta da sala, e indo para a escola. Não era muito longe, só umas três quadras a cima da minha casa.

O mais perfeito de todos os primeiros dias que uma pessoa pode ter numa escola, entrando no primeiro ano do ensino médio. Era estranho como o ano passado havia passado tão rápido. Houve muitas coisas que eu não gostaria que tivesse havido.

Cheguei à escola e a minha melhor das melhores amigas, Samanta, veio correndo me abraçar. Quase cai quando ela pulou em cima de mim. Nós éramos como irmãs, estávamos sempre juntas, porém essas férias ela estava no Caribe (fez um tour por lá). Folgada! Enquanto eu estava aqui em Porto Alegre, ela estava no bem bom do Caribe. Sonho.

- Beeeeeeeeeeeeeeeeella! Que saudade! – Ela disse, ou melhor, berrou.

- Sá! Que saudade linda! – Eu falei, retribuindo o abraço. – Agora vai, me conta T-U-D-O sobre lá. Como foi? Tinha algum gatinho? O mar é mesmo transparente? Vocês nadaram com golfinhos? Viu algum tubarão? Ai, que saudade que eu estava de você! – Eu disse abraçando-a novamente e tentando recuperar o fôlego.

- Respira Bella. Tá, lá vai. Lá é lindo! Tinha um monte de gatinhos, mas não, não peguei nenhum. – Ela disse respirando fundo. Havia algum tempo que ela ficava com ninguém. Pelo menos não que eu soubesse.

- Whatever. Conta o resto. Viu algum golfinho? Fez muitas comprinhas? – Ela riu.

- Você e sua mania de bichos aquáticos.

- Animais marinhos – Eu disse, corrigindo-a. Ela deu de ombros.

- Você entendeu. Continuando, vi sim. Eles nadaram junto com o barco que estávamos. A água lá é cristalina, linda! E não, não vi nenhum tubarão. – Ela disse, respirando fundo de novo. Nós duas éramos amigas à tão pouco tempo, porém nossa amizade é tão forte... Pena que algumas pessoas têm inveja disso e ficam espalhando boatos ridículos por ai só para acabar com a nossa amizade. Já ouvi tanta merda sobre ela, que se eu fosse acreditar em tudo, nós nem nos olhávamos mais. – Mas agora é sua vez – Disse-me ela tirando-me de meu transi – o que você fez essas férias? Nem deu para ligar, e eu mal entrava no MSN...

- Meus pais vão se separar. – Eu disse, repreendendo-a, com os olhos enchendo de lágrimas. Eu sei que posso sempre contar com ela, pois é a irmã que eu nunca tive... Quer dizer, a irmã que eu gostaria de ter a mais. Estamos sempre juntas, gostamos de brincar que somos “one and the same” (música da Selena Gomez com a Demi Lovato, que significa “uma e a mesma”, mas que traduzindo para um bom português significava que éramos duas, porém as mesmas. Deu pra entender mais ou menos a bagunça?) e team wolfpack (por causa do nosso incontrolável vício de Crepúsculo. Stephanie Meyer, você é demais!), coisa que eu nunca fiz com a minha irmã. Com ela eu posso ser eu mesma, não rola aquela competição de irmãs para ver quem se veste melhor ou quem tira a melhor nota no colégio. Claro que nessa segunda opção ela sempre vence.

- Ah, Bells, vem aqui. – Ela disse ao me abraçar. Não aguentei e despenquei em seus braços, em meio ao choro. – Vamos lá para o banheiro. – Sugeriu, pois estávamos no meio da sala de aula. Pedimos licença ao professor, que acabará de chegar à sala e fomos ao banheiro.

Depois de me acalmar, voltamos para a sala e trocamos bilhetinhos sobre os novos professores e alunos o resto dos cinco horários. Quando eu vi a Lorena na hora do recreio, ignorei-a e pedi à Samanta para que saíssemos de onde estávamos.

- Sá, quer almoçar lá em casa? – Convidei-a no final da aula. Morávamos quase do lado uma da outra, porém eu vivo na casa dela, assim como ela vive na minha casa. Resumindo: éramos total e completamente inseparáveis. E algumas pessoas têm inveja disso, tanto que, como eu já disse, vire e mexe alguém vem me falar mal dela, vem falar algo para separar-nos, mas eu sei que isso nunca vai acontecer, pois nossa amizade é superior a tudo isso.

- Claro que quero. – Ela disse – Deixa só eu avisar minha mãe. – Os pais dela são separados, ela mora com a mãe e não é muito chegada ao pai. Quer dizer, ela foi com ele e o irmão, Thiago, para o tour no Caribe, mas os dois têm sempre uma briguinha aqui ou ali. Depois de avisar a Aline, mãe dela, Samanta e eu descemos para casa.

Cheguei em casa e nem dei muita moral aos meus familiares no sofá, diferente da Sá, que foi cumprimentar um por um. Malditas regras de etiqueta. Mas tudo bem. Subimos, conversamos, comemos e até nadamos um pouco. Foi divertido tirar meus pais malas e minha irmã ameba da cabeça. Por um tempo. Ela mal precisou pisar fora de casa para que minha irmã e minha mãe me cercassem. Ótimo. Elas nunca se cansariam?

- Olha aqui Isabella – Começou mamãe

- Você não pode fazer isso. – Continuou Lorena.

- Entendemos que está triste, que não quer aceitar a minha separação, mas tem que ao menos falar com sua irmã!

- É mana, você sabe que somos parça, né? – Terminou Lorena.

- Eu não quero ouvir mais essa palhaçada, até porque está na hora de Malhação. Você ainda gosta disso, né “parça”?! – Eu disse sarcasticamente, então subi para meu quarto.

Tranquei a porta, liguei a TV, deitei e simplesmente ignorei as duas tontas batendo na porta do quarto me pedindo para abrir a “porra da porta”.

Ao término de Malhação, destranquei a bendita porta. Tadinhas, elas mereciam aquilo.

- Ah, é?! Pois ela vai se ver comigo! Abre essa porta agora Isabella! – Gritou Rodrigo, provavelmente subindo as escadas.

Com um golpe rápido, sai da minha cama, bati a porta e a tranquei. E então ele começou a bater, quer dizer, esmurrar a porta, gritando “abre essa porra dessa porta, Isabella, porque se não eu vou arromba-la”.

Pois que arrombe! Ele não conseguiria nem com a ajuda de um tanque de guerra.

Tentei imitar alguns filmes que já vi em relação a colocar uma cadeira na fechadura da porta para ela não se abrir tão facilmente.

Alguns minutos depois, a gritaria cessou, mas meu querido papai foi mais esperto do que eu, e lembrou que guardávamos uma chave extra de nosso quarto dentro de uma caixinha escondida na sala, e conseguiu abrir a porta. Droga, o lance da cadeira não funcionou! Tenho que lembrar depois de olhar na internet para ver como faz isso direito.

- Isabella – Disse Rodrigo ao entrar no quarto. – Para fora desse quarto imediatamente. – Disse ele num tom de voz nada agradável.

- Não. Se tiver alguém aqui que deva sair de algum lugar aqui, é você do meu quarto. Quer dizer, da minha casa. Afinal você não mora mais aqui. – Eu respondi me levantando da cama para olha-lo nos olhos.

- Olha aqui mocinha, olha o jeito que a senhorita fala comigo. Sou seu pai, e você tem que me obedecer.

- Não. Quer que eu soletre? “N-A-O TIL”. NÃO. Você não é meu pai. Nunca foi. Nunca será. – Eu disse, com mais firmeza na voz do que realmente eu me sentia.

- Faz essa menina calar a boca agora, Cissa, porque se não eu vou dar uma surra nela. – Ele agora falava com a minha mãe, que estava pasma com o modo agressivo que estávamos nos tratando.

- Você não é homem o suficiente para isso. Se quiser vir me bater, vem. Aproveita e bate na cara, porra. – Eu gritei. E ele veio.

Derrubou-me na cama, e prendeu meus braços contra meus peitos. Mamãe e Lorena gritavam histericamente, mandando-o parar. Mamãe tentou tirá-lo de cima de mim, mas só o que ele fez foi empurra-la. Ele começará a me machucar.

- Me solta, seu louco! – Eu gritei. – Amanhã você verá o sol nascer quadrado! Idiota, me solta!

- Para de xingar, porra! O único que tem direito de xingar nessa casa aqui sou eu!

- Se liga, bipolar, você não é ninguém nessa casa. Ninguém aqui te respeita! A casa nem sua é.

Ele finalmente cansou de bancar o idiota, me largou e saiu resmungando. Típico. Ele nunca havia me feito isso, nem muito menos me batido. Problemas. Ele tem sérios problemas.

- Bella, você está bem? – Mamãe sentou ao meu lado na cama. Eu sentia as lágrimas escorrendo histericamente de meu rosto. Era sempre assim. Se eu me alterasse um pouquinho eu começava a chorar histericamente, de soluçar, mesmo sem querer. Aquilo estava virando um hábito diário.

Eu não consegui responder minha mãe. Aliás, eu não conseguia falar nada. A raiva estava apenas crescendo dentro de mim. Olhei para meus braços: mega vermelhos. Ótimo. Se não estiverem roxos amanhã será um milagre.

- Lo, vai lá na cozinha pegar uma água com açúcar para sua irmã, por favor? – Mamãe pediu à minha gêmea.

- Não. – Eu consegui dizer. Não estava a fim de tomar aquela meleca de novo.

- Pelo menos uma água, Bellinha. – Disse-me Lorena.

- Tá-a... – Eu disse soluçando.