Lua Negra
12 12 | vote of Confidence

Eu estou, oficialmente, há mais de vinte e quatro horas acordada e tudo o que posso dizer sobre isso é que pretendo nunca mais fazer isso de novo. A minha cabeça está doendo como o inferno.
Mas eu não posso dormir ainda.
Eu bebi um generoso gole de café, coloquei o copo de volta na mesinha e voltei a me ocupar em varrer a casa. Queria que tudo estivesse bem limpinho para a Lua Cheia. Por motivos óbvios como a chance de sermos rastreados e a nossa falta de recursos, faremos algo bem simples, mas isso não é exatamente o problema. Na Magia, não importa de verdade se você usa uma adaga de prata ou uma faca de pão.
É claro que, com uma adaga previamente preparada e consagrada, fica mais fácil de canalizar a Magia, mas, no final, Magia é Magia em todas as suas formas.
Tenho certeza que os Deuses entendem.
Eu juntei o lixo e coloquei na sacola de papel que Alek havia usado para trazer os pães no dia anterior. Depois, caminhei até a cozinha que, na verdade, usávamos como local para estender as roupas, já que não tínhamos nada para pôr lá ainda. Peguei as roupas que já estavam secas e subi para o quarto, dobrando-as e colocando-as dentro da mochila, para que não acabassem sujando com poeira.
Eu estava cansada, sinceramente. Depois da corrida com Quill de manhã e beber cerveja com a Bella e ser atacada por um vampiro de tarde, eu tinha pleno e total direito de estar cansada.
Levantei do chão, suspirando, e saí do quarto, descendo direto para a sala para terminar a minha xícara de café. Lavei logo o copo de deixei na pia da cozinha junto com uma panela velha que eu tinha encontrado num dos armários e lavado. Já estava quase na hora de Alek voltar, então provavelmente eu devia tomar logo um banho e me preparar para o ritual que faríamos mais tarde.
Com isso em mente, virei para subir a escada e então parei, sentindo algo estranho na borda do circulo que protegia a minha casa. Eu não entendi imediatamente, até ouvir as batidas na porta e lembrar que eu tinha permitido a entrada de Seth.
Suspirando profundamente, fui até lá abrir e dei de cara com, não apenas ele, mas uma garota morena que havia visto no dia da fogueira parada no lado de fora do círculo, com uma expressão séria no rosto e braços cruzados.
— Oi, Sel! — exclamou Seth sorridente, sacudindo uma sacola de plástico — Eu trouxe comida!
— E companhia — falei, numa pergunta silenciosa.
— Ah... — ele murmurou, e então riu, olhando para a garota por cima dos ombros — Aquela é a minha irmã Leah. Ela se recusou a me deixar vir sozinho, Paul conseguiu convencê-la que você é perigosa, eu acho. Acho que vocês duas vão se dar bem.
— Paul está certo, eu sou perigosa — retruquei, olhando para Leah — Atirei um vampiro furioso longe hoje cedo.
Leah arrumou a postura e me olhou ainda mais séria séria.
— Um vampiro?
— Você arrumou briga com um dos sangue-sugas? — perguntou Seth — O que houve?
— Um mal-entendido — dei de ombros e afastei o cabelo para mostrar as marcas roxas que ficaram no meu pescoço. Os olhos do Seth abriram tanto que pareciam prestes a saltar das órbitas — Não se preocupe, está tudo bem. E eu não sou humana, então o Tratado não foi quebrado.
— Foi um dos Cullen? — perguntou Leah, num tom de voz afiado, tão mortal quanto uma navalha.
Ela parece odiar os Cullen de verdade. Eu não devia ter dito nada.
— Esqueçam isso — eu disse, puxando o meu cabelo sobre os ombros novamente, então virei para o mais novo — Você convenceu Quill a falar comigo?
— O que? Eu não fiz nada! — ele exclamou, mas a mentira estava desenhada no seu rosto inteiro — Mas... Vocês se deram bem?
— Sim — respondi — Até dois lobos apareceram. Jacob e mais alguém, eu suponho, mas eu nunca vi vocês nas formas de l...
— Como você sabe que era o Jake? — perguntou Leah
Eu olhei para ela e abri a boca para responder, mas parei e olhei para Seth novamente.
— Sua irmã não vai me atacar, vai?
Leah bufou e Seth riu.
— Não, ela é do tipo que só ladra. A maior parte das vezes, pelo menos.
— Continua falando essas besteiras para ver se eu não chuto o seu traseiro, pirralho — retrucou Leah
Eu entendi instantaneamente poque Seth achava que nos daríamos bem e, com um sorrisinho no rosto, passei por ele e parei no meio do caminho entre a porta e a borda do círculo.
— Eu vou liberar a sua entrada, mas se tentar me machucar...
— Eu não vou — ela revirou os olhos — E não acho que você seja perigosa, na verdade. Só não acho que seja confiável.
— Qualquer criança sabe que não se deve confiar em estranhos — retruquei, revirando os olhos — Se você confiasse em mim sem me conhecer, eu diria que é estúpida.
Ela não respondeu, apenas cruzou os braços novamente, me encarando seriamente. Não me importei e fiz o feitiço para que ela pudesse ultrapassar a barreira. Hesitantemente, Leah estendeu a mão para torar a barreira e, quando não sentiu nada, tomou coragem para entrar.
Eu virei as costas para ela e olhei para Seth, que sorria observando tudo.
— Não sei o que você está achando tão engraçado — retruquei, fazendo ele soltar uma risadinha — O que você veio fazer aqui, afinal?
— Jantar — ele respondeu — Seu irmão já chegou?
— Ainda não, mas vocês não vão poder ficar muito tempo, hoje é lua cheia — eu disse, então soltei um suspiro quando o rosto do Seth ficou em branco, claramente não entendendo nada — A lua cheia é importante para as Bruxas, eu e Alek vamos fazer um pequeno ritual hoje à noite.
— Ahh, eu posso participar? — ele perguntou animado. Eu não sei porque não previ isso.
— Eu não tenho certeza se... — murmurei hesitante — Seth, você está ligado com os outros lobos, tipo, uma ligação mágica, eu acho. Eu não tenho certeza como funciona isso, mas eu não sei se... Se afetaria os outros...
Um silêncio esquisito tomou conta do ambiente por alguns segundos. Seth olhava por cima do meu ombro, para a garota parada atrás de mim e eles pareciam estar numa espécie de conversa. Eu sei que a telepatia dos lobos só funcionava quando estavam transformados, mas parecia que eles estavam usando-a agora mesmo.
Era bizarro, mas interessante ao mesmo tempo.
Para a minha surpresa, quem quebrou o silêncio foi Leah:
— Que tipo de... Ritual... Você e o seu irmão vão fazer?
Eu virei para encarar ela, notando pela primeira vez que ela era mais alta do que eu, e tinha mais músculos também. O soco dessa garota devia doer.
Tomara que um dia ela soque a cara do Paul.
— É principalmente uma celebração, uma homenagem aos Deuses — eu respondi — Também pretendo... Me conectar — fiz uma pausa olhando para sua expressão confusa e ri — É difícil de explicar, eu sinto muito. Acho que a melhor palavra seria "sincronizar"... Eu pretendo me conectar e sincronizar com a natureza.
— Parece que você está falando de um celular — Seth riu e eu dei de ombros.
— Eu não sei como explicar melhor do que isso — encolhi os ombros e olhei de um para o outro entre os irmãos — Talvez seja melhor vocês irem embora, podemos jantar juntos outra...
— Não, tudo bem — disse Leah, me surpreendendo novamente — Acho que devemos a você um voto de confiança.
Eu consegui entender muito bem que aquele "devemos" não se referia à ela e ao Seth, mas à Alcateia. Eu não soube o que dizer por um momento.
Eu não esperava que isso fosse acontecer, mesmo que Billy tenha literalmente chamado a mim e ao Alek para morarmos na Reserva. Aquilo era totalmente diferente.
— Eu... — murmurei, então balancei a cabeça, tentando ordenar meus pensamentos — Não é melhor falar com Sam antes? Ou... Os Anciões, talvez?
— Tenho certeza que Billy aprovaria — disse Seth, animado — E o avô do Quill também! Ficará tudo bem!
Eu hesitei por mais alguns segundos. Aquele voto de confiança me intimidava um pouco, assim como me preocupava. Não queria que eles arrumassem problemas por minha causa.
— Não se preocupe com a gente — disse Seth, como se tivesse lido a minha mente. Bizarro — Eu estou morrendo de fome, vamos jantar?
Eu olhei para ele e não consegui parar o sorriso que se formou no meu rosto.
— Vamos jantar — respondi
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