Lua Negra
5 05 | the Coolest wolf

Assim que chegamos em casa, Alek saiu de novo e eu fiquei sozinha com os meus pensamentos. Isso nunca é uma coisa boa.
Suspirando, fui até o quarto e me sentei numa espécie de sofazinho sob a janela, observando as árvores de movendo ao vendo lá fora. Quase podia senti-los. Os elementais.
Fechei os olhos por alguns segundos, respirando fundo, apenas sentindo a magia que permeava a floresta.
Era mesmo como um paraíso para bruxas.
Eu balancei a cabeça e tirei o colar, o observando atentamente. Eu não tinha certeza se deveria apenas guardá-lo ou usá-lo, mas me parecia mais correta a segunda opção, já que eu precisava de poder para protegê-lo.
O Livro das Sombras da família. Ou grimório, dependendo do clã. Seja o nome que dessem, no geral, é a mesma coisa. Um livro de feitiços.
Todo clã, ou família, tinha o seu Livro das Sombras, o qual era passado de geração em geração, e a cada uma, novos conhecimentos eram inseridos neles. Embora eu não tenha sido nomeada formalmente, quando a minha avó o entregou a mim e me pediu para protegê-lo, me tornou uma Guardiã. Isso significa que o Livro me pertence agora e sou eu quem deve inserir novas informações.
Me preocupava um pouco o fato de eu não ter sido nomeada formalmente. Esse fato poderia acarretar em outros clãs se aproveitando disso para ter direito ao nosso Livro. Livros sem Guardiãs são sempre passados para outros Clãs, a fim de serem protegidos.
Suspirei e apoiei as minhas costas na janela.
Talvez fosse isso que Annora queria, afinal. Se tivesse matado a mim e ao meu irmão, o nosso Clã ficaria sem herdeiros, então nosso Livro poderia ser reivindicado por ela que, apesar de ter saído para outro clã quando se casou, ainda tinha o sangue da nossa família.
Ela teria conseguido isso, eu presumo. Com um pouco de drama e vitimismo, ela poderia ter convencido as pessoas de que era sua a responsabilidade de ser a Guardiã do nosso Livro.
Ela teria conseguido, se a nossa avó não tivesse aparecido.
Apertei o colar com as mãos e fechei os olhos. Não queria imaginar o que havia acontecido com a nossa avó. Se eu estivesse certa e esse fosse o plano da Annora, então ela deve ter ficado furiosa quando escapamos.
E a única pessoa em quem podia descontar sua fúria era...
Minha linha de pensamento foi bruscamente quebrada quando uma pedra atingiu a janela, me assustando a ponto de eu pular e meu machucado doer como um inferno novamente. Eu gani de dor e me curvei com a mão sobre o corte, como se isso fosse ajudar. É uma pena que bruxos não podem enfeitiçar a si mesmos, seria muito útil agora poder fazer um feitiço para diminuir a dor.
Outra pedra acertou a janela, finalmente atraindo a minha atenção, e lá fora estava Seth, acenando e sorrindo enquanto balançava uma sacola de plástico na outra mão. Eu suspirei e revirei os olhos antes de sair.
Obviamente, eu não atravessei a barreira. Ele parecia legal, mas a minha avó me ensinou que não podia confiar tão facilmente nas pessoas.
— Hey! — ele chamou, parando no outro lado da barreira — Eu, ér... Eu queria conversar com você...
— Você pode falar daí — respondi, cruzando os braços tentando não demonstrar que estava com dor
— É que... — ele parecia hesitante e tímido — Eu não sei, pensei que talvez pudéssemos ser amigos. — ele sorriu — Não existe regras contra sermos amigos de Bruxas, sabe?
Eu o encarei séria e ele ficou todo sem-graça por eu não ter rido. Não me importei. Ele parecia ser legal, mas eu não havia decidido se queria ou não me aproximar das pessoas da cidade. Eu não sabia quando iria embora.
— Eu trouxe comida — ele acrescentou, balançando a sacola — Macarronada. Emily fez um monte e eu achei que talvez você fosse gostar...
Eu mudei o peso de pé, de repente desconfortável.
— Nós não temos pratos e talheres ainda — respondi
Ele me olhou surpreso antes de sorrir novamente, animado.
— Eu posso ir buscar, Emily tem um estoque, por que nós, sabe...
— São lobos selvagens? — completei, cruzando os braços — Eu não sei se posso te deixar entrar, de qualquer jeito. Talvez seja melhor você só levar isso de vol...
— Eu não sou um inimigo — ele disse — Nenhum de nós é, embora... Bem, de acordo com Billy, as Bruxas não foram exatamente amigáveis no passado, é por isso que...
Ele hesitou e eu o encarei curiosa. Então havia mesmo uma história.
— Vamos fazer assim — eu disse, finalmente — Você vai buscar as coisas e eu te deixo entrar, mas se você tentar algo contra mim ou o meu irmão...
— Vai me amaldiçoar? — ele perguntou, de alguma forma soando mais entusiasmado do que assustado — Você pode fazer isso?
— Eu posso cortar a sua cabeça com a minha espada, também — dei de ombros
Ele sorriu para mim e assentiu.
— Feito, então.
O encarei por mais um momento antes de me aproximar para pegar a sacola. O sorriso dele aumentou, quando detectou o voto de confiança, e virou-se, correndo na outra direção. Não pode conter um pequeno sorriso que surgiu no meu rosto.
Lobos são esquisitos, mas talvez isso não seja totalmente ruim.
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Eu tenho quase certeza de que Seth está apenas engolindo a comida, ao invés de mastigar como uma pessoa normal. Aparentemente, na hora de comer, ele é mais animal do que gente.
Não era algo exatamente agradável de se assistir, então foquei em comer também.
Havíamos sentado no chão da sala, mas isso não pareceu incomodá-lo nem um pouco, o que me fez gostar um pouco dele. Isso e o fato dele ser uma pessoa legal, no geral.
Quer dizer, ele trouxe comida para mim.
— Você não vai comer nenhuma almôndega? — ele perguntou, após engolir uma enorme garfada
— Sou vegetariana — respondi — Meu irmão também é, então pode comer todas.
— Sua perda — ele sorriu — Almondegas são deliciosas!
— São restos de animais moídos — retruquei — Então não, obrigada.
Ele riu e comeu metade de uma almôndega enorme de uma vez. Credo, lobos tem um apetite enorme mesmo.
— Como é ser bruxa? — ele perguntou, de repente. O encarei por um momento, mas ele não soava como se estivesse tentando obter informações, ou algo assim. Era só um garoto curioso.
— Como é ser um lobo? — perguntei de volta
— É incrível! — ele exclamou — Quer dizer, a primeira transformação é horrível, mas no geral é incrível... — ele parou por um momento, encolhendo os ombros — Apesar desse negócio mental ser meio inconveniente às vezes...
— Então existe mesmo uma espécie de telepatia! — exclamei, curiosa — Funciona só quando estão em forma de lobo, ou quando estão parecendo humanos também?
— Só em forma de lobo — ele disse, e então riu — Mas às vezes parece que como humano também.
Eu ri dele e concordei com a cabeça, lembrando na cena de mais cedo. Eles pareciam todos conectados e sincronizados. Fazer parte de algo assim deve ser interessante.
— Ser uma bruxa também é legal, eu acho — falei, dando de ombros — Somos criados como guerreiros.
— Guerreiros? — ele perguntou, confuso e curioso — Eu imaginei algo como uma escola de magia, Harry Potter...
— Quem dera — eu ri, me sentindo meio nostálgica por um momento — Existem diferentes clãs espalhados pelo mundo, e esses clãs criam alianças entre si. Alguns deles querem ter mais poder e fariam qualquer coisa para ter isso... — eu abaixei a cabeça, olhando para a comida — É por isso que somos criados como guerreiros. Para nos defender e à nossa família.
Seth ficou em silêncio por alguns segundos antes de dizer:
— Nós aprendemos a proteger o território da aldeia contra os vampiros... Nunca lutei contra alguém como eu, deve ser... Difícil.
— Como eu disse, somos criados assim — eu olhei para ele novamente, dando de ombros — Isso é quase algo normal, acho.
— Foi assim que você se machucou? — ele perguntou, um pouco tímido novamente — Digo... Protegendo a sua família...?
— Sim — respondi, desviando os olhos de novo — Ele me atacou por trás, senão nunca teria me acertado.
— Eu não duvido — ele riu e eu olhei para ele curiosa, lembrando do que havia dito mais cedo.
— Ei... — chamei — Você disse antes algo sobre as Bruxas antigamente. O que você quis dizer com isso?
Ele hesitou, soando constrangido, e desviou os olhos antes de dizer:
— Eu queria te contar, mas as histórias da tribo são um segredo... — ele não disse nada por um momento, e então pareceu ter uma epifania e me olhou animado — ...Mas eu acho que agora você pode ouvir elas... Quer dizer, o Jake teve um Imprinting com você e...
— Espera, o que? — perguntei, e ele pareceu ficar pálido — O que diabos é Imprinting??
Ele olhou para os lados, parecendo um pouco desesperado, então o segurei pelos ombros, tentando fazê-lo manter o foco.
— Seth, para com isso. Só responde de uma vez!
— Eu não posso — ele disse, encolhendo os ombros — Me desculpa.
Eu suspirei, frustrada, e voltei a sentar, cruzando os braços.
— Eu sinto muito, de verdade — ele disse novamente — É só...
— Eu entendo — falei honestamente — De verdade. Conhecimento é poder e guardar os segredos da tribo é uma forma de se protegerem. Como a barreira que construí ao redor da casa — encolhi os ombros e suspirei quando ele me olhou alegre novamente — O que você pode me contar, exatamente?
— Bem... Eu posso te contar que eu sou o mais legal da alcateia — ele disse, sorrindo
— Idiota — ri, balançando a cabeça.
Foi esse o momento que o meu irmão escolheu para aparecer e congelou na porta ao me encontrar com um lobo dentro de casa.
— O que...?
— Ele é legal — dei de ombros
— E trouxe comida! — exclamou Seth, apontando o pote e os pratos — Venha logo antes que esfrie!
Alek me encarou incrédulo por um momento, mas se juntou a nós no chão.
Ele, assim como eu, acabou gostando de Seth com o passar das horas. Talvez ele fosse mesmo o mais legal da alcateia.
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