Alek conseguiu um emprego muito mais rápido do que eu pensei ser possível sem um comprovante de residência, mas ele conseguiu de verdade, em uma livraria de Port Angeles. Eu, por outro lado, fui proibida de procurar um emprego durante esta semana, enquanto os pontos cicatrizavam.

E hoje, finalmente, vou retirar os malditos pontos.

Levantei empolgada porque a dor quase não existia mais, então decidi voltar aos meus hábitos antigos. Usando a última opção de roupa que tinha na mochila, uma calça de yoga com uma camisa, coloquei a minha bota e o casaco e fui dar uma corrida antes do café da manhã. Apesar de Alek ter dito para eu ir com calma no primeiro dia, eu não tinha nada para marcar a distância, então corri até as minhas pernas queimarem, então parei ofegante, praticamente em Forks.

Sorrindo, bebi água e resolvi ir andando até o consultório, já que já estava ali. Eu devo ter sido horrível quando estive da última vez, por que o Dr. Cullen pareceu sinceramente surpreso quando entrei sorrindo e saltitando no seu consultório.

Acontece.

— Bom dia! — cumprimentei — Estou aqui para tirar os pontos!

Ele piscou, me encarando como se estivesse processando dados novos, e então sorriu.

— Claro, pode deitar.

Ele era um bom médico, rápido e tinha a mão leve, então foi tranquilo. Enquanto ele preenchia os papéis que comprovavam que eu estava bem, fui incapaz de manter a língua dentro da boca e perguntei:

— Como você consegue ser médico?

Ele me olhou genuinamente confuso.

— Como assim?

— Quero dizer... — eu limpei a garganta e tentei pensar em como fazer a pergunta sem ele querer me matar para não contar para outras pessoas — Deve ser muito difícil ficar, você sabe, perto de tanto sangue, já que... — hesitei e olhei para ele, que me observava intrigado — Agh, okay, eu não sei ser sutil. Como você consegue ser médico e lidar com sangue sendo um vampiro?

Ele me olhou quase divertido.

— E porque você acha que sou um vampiro?

— Porque eu sou uma Bruxa, então não sou estúpida!

Ele encarou, parecendo não saber se eu estava dizendo a verdade ou tinha esquizofrenia, então decidi mostrar. Levantei, suspirando impaciente, e canalizei meu poder num simples feitiço de telecinésia.

Carlisle olhou, incrédulo, sua caneta e bloquinho voar na sua frente, seguido pela mesa e então a cadeira onde estava sentado. Ele moveu-se na famosa velocidade vampírica e, num piscar de olhos, estava no meu lado. Eu sorri e interrompi o feitiço, fazendo com que as coisas caíssem.

— Bom — falei, virando para ele — Agora que sabemos que não preciso dar uma passada na psiquiatria... Sério, como você consegue? Deve ser algum tipo de vampiro super-mutante para resistir ao sangue!

— Eu... — ele limpou a garganta, incerto de como proceder. Eu deixei ele ter seu momento para processar a informação — Eu não bebo sangue humano porque não quero ferir pessoas.

— Poderia beber de uma bolsa de sangue — comentei, curiosa — Você se alimenta do que, então? Quero dizer, se não for um incômodo dizer, é claro...

Isso fez ele sorrir levemente.

— Ser curiosa faz parte da sua natureza como Bruxa, eu presumo — comentou e eu sorri — Eu e a minha família nos alimentamos de sangue animal.

— Isso é legal, mas deve ser bem difícil — comentei — Bem, obrigada por me dizer. Estou liberada?

— Sim, mas... — ele hesitou, me encarando — Me perdoe pela intromissão, mas, presumindo que aquele jovem que te trouxe antes seja como você, o que Bruxos estão fazendo em Forks novamente, depois de tanto tempo?

Isso me fez hesitar, sem saber o quanto era seguro contar para ele

— Nós... — eu parei, balancei a cabeça e disse, olhando para ele — A nossa família esta passando por alguns problemas nesse momento... Eu e Alek viemos para Forks para ficar longe de tudo isso.

— Esses problemas são a verdadeira razão para a sua ferida com uma espada? — ele perguntou e eu assenti.

Não havia porque negar, essa parte era bem obvia.

— Entendo — ele disse, me entregando o meu papel de alta — Espero que consiga ficar longe do que estiver acontecendo. Odiaria ter que dar mais pontos em você.

Eu ri e concordei com a cabeça, colocando o papel no bolso.

— Eu odiaria ter que receber pontos novamente, acredite. Até mais, Dr. Cullen!

— Adeus, Srta. Martin.

Eu sorri para ele e sai do consultório, acenando para a recepcionista antes de ir para fora. Hoje estava um pouquinho menos congelante, mas ainda estava frio, então me encolhi sob o meu casaco, xingando sob a respiração. Quem disse que o inferno arde em chamas é porque nunca visitou Forks.

Eu só dei um passo, começando distraidamente a andar na direção de casa, quando quase fui atropelada por um garoto numa bicicleta desgovernada e caí com tudo de bunda no chão. O garoto, para a minha felicidade, caiu alguns metros depois, com a bicicleta e tudo.

— Oh meu Deus, você está bem? — perguntou uma garota, se aproximando de mim enquanto a outra do grupinho foi ver o garoto. Eu resmunguei que estava bem, mas outras duas pessoas, uma garota e um garoto, correram até nós e perguntaram de novo se eu estava bem. Já estava começando a me irritar.

— Estou bem, não se preocupem — eu virei as costas para cair fora, mas o garoto que quase me atropelou parou na minha frente e me segurou pelos ombros.

— Me desculpa, eu não te vi, você está bem?

— Ela já disse que está bem, cara — disse um dos garotos que vieram correndo

— Eu estou bem — repeti, irritada, e empurrei as mãos do garoto para que me soltasse de uma vez — Só me deixem em paz, por favor. E olhe por onde anda da próxima vez.

Eu passei por ele e segui na minha direção. Mal dei três passos antes que ele me alcançasse novamente.

— Ei, nós estávamos indo para a lanchonete, me deixa te pagar alguma coisa como um pedido de desculpas!

— Não, obrigada — resmunguei, passando por ele para seguir, mas o maldito me alcançou de novo

— Por favor, só um lanche!

Eu olhei para ele desejando poder jogá-lo longe com magia, mas infelizmente era um humano e isso seria injusto. Suspirei e apontei para a lanchonete que fui com o meu irmão antes.

— Estão indo para lá?

Ele assentiu apressado, como se estivesse com medo que eu mudasse de idéia. Quase revirei os olhos.

— Tudo bem então, você paga.

Eu saí andando na frente e ele veio atrás como uma espécie de cachorrinho, e logo em seguida o resto do grupinho. A garota que havia ido ver como ele estava quando caiu da bicicleta parecia irritada, então presumi que fosse o caso típico de garota gostar de um garoto babaca que está completamente não afim dela.

Nós sentamos todos juntos numa mesa perto da entrada e fizemos nossos pedidos. Todos ficaram num silêncio desconfortável por um momento, enquanto eu tentava ignorar a existência deles.

— Então... — o garoto da bicicleta pigarreou — Você é... Nova na cidade?

— Sim — respondi simplesmente, e o silêncio esquisito voltou. Suspirei. Certo, seja amigável Selene, eles são só humanos — Eu... Quero dizer, eu e meu irmão estamos morando numa propriedade da família, ao norte daqui...

— Ah, você tem um irmão? — perguntou a garota ciumenta — Como ele... Quer dizer, como vocês se chamam?

— Meu nome é Selene e o meu irmão se chama Alek — respondi

— Eu sou Mike — disse o garoto da bicicleta rapidamente — Estes são Jessica, Angela, Lauren e Eric.

Eles acenaram e a Jessica, a garota ciumenta, me deu um sorriso tenso. Eu quase achei graça. Teria achado, se não fosse tão vergonhoso.

— Que legal conhecer vocês — disse, tentando soar alegre. Não tenho certeza se consegui ou eles ignoraram a minha antipatia — Eu ainda não tinha conhecido ninguém em Forks, além do Charlie, quero dizer...

— O chefe Swan? — perguntou Angela, achando graça — Você foi presa ou algo assim?

Arqueei uma sobrancelha, imitando o jeito irritante que meu irmão me olhava às vezes, e a encarei até ela parecer envergonhada. Então sorri.

— Ele só me deu uma carona até a Reserva, estava curiosa para conhecer La Push.

— Foi até a praia? — perguntou Mike, entusiasmado — Você devia vir com a gente amanhã, a praia de La Push tem ondas incríveis!

Eu não respondi de imediato. Não tinha certeza se era seguro ou agradável ir até a território dos lobos, já que, com exceção do Seth, eles são uns babacas do caralho.

— Eu não sei... Eu tive a impressão que as pessoas de lá são... Reservadas...

— Sim, eles são — disse Angela, ainda meio constrangida — Mas não tem problemas com pessoas na praia, os turistas vão lá toda hora!

Eu dei de ombros e observei a garçonete vindo com os pedidos.

— Então tudo bem, eu acho. Alguém pode me dar uma carona?

— Eu posso — disse Mike sorridente

Eu sorri de volta para ele e comecei a comer. Apenas alguns instantes de silêncio depois, eles começaram a falar coisas inúteis sobre a formatura e sobre o discurso que a Jessica faria e, depois, sobre vestidos. Foi quando, num tom invejoso, Jessica tocou no nome "Cullen" que voltei a prestar atenção.

—...E eu acho que a festa que a Alice vai fazer vai ser incrível! Como será que é a casa deles?

— Deve ser algo escuro, com cruzes e fotos bizarras de família — disse Eric, num tom de quem conta uma história de terror.

— Não, você viu o carro deles? — disse Jessica, rindo meio debochada — A casa deles deve ser algum tipo de mansão luxuosa, com um lustre e...

— Você está imaginando um conto de fadas? — perguntou Mike, rindo — Qual é, os Cullen são uns esquisitões!

Eu queria muito fazer um monte de perguntas mas, sinceramente, humanos que acabaram de terminar o ensino médio dificilmente são uma fonte de informação confiável. Roubei uma batata frita do Mike e levantei com um meio sorriso, apoiando uma das mãos sobre a mesa.

— Bem, eu preciso ir agora. Nos vemos amanhã?

Mike me deu um sorriso enorme e iludido, assentindo veementemente.

— Podemos te pegar aqui na frente?

— Claro — pisquei para ele e acenei para os outros, antes de sair da lanchonete. Brincar com humanos era meio divertido.