Lua Negra
3 03 | Wolves

Foi a sensação de perigo eminente que me acordou. Eu não sabia o que era de imediato, mas uma súbita dose de adrenalina me fez levantar bruscamente, acordando o meu irmão no processo, e correr para a janela. A dor latejante no meu lado persistia, mas o medo me fez agir mais rápido apesar disso. Principalmente vendo os lobos enormes no lado de fora da casa, tentando passar pela barreira que construí há algumas horas.
— Alek, cadê a minha espada? — eu perguntei, quando ele finalmente me alcançou na janela. Bastou uma rápida olhada para fora, para ele se pôr em movimento.
Saímos do quarto para a saleta ao lado, onde estavam sacolas de comida e nossas espadas sobre uma mesa de madeira velha. Eu peguei a minha espada sem hesitar e fui direto para a porta, mesmo que estivesse andando um pouco torta. Isso não me impediria de defender a minha casa.
— O que vocês querem aqui? — perguntei, encarando os lobos através da barreira. São metamorfos, com certeza. Lobisomens são maiores.
Um grande lobo escuro rosnou e se transformou num homem nu furioso.
— Vocês bruxas não são bem vindas no nosso território desde que renunciaram ao Tratado!
— Eu não sei do que você está falando, mas não vou sair daqui. Esta casa é da minha família e por tanto não então está inclusa no seu território! — eu respondi — Agora saiam!
Meu irmão, que havia parado no meu lado, ergueu a espada ameaçadoramente quando um dos lobos começou a arranhar a barreira.
— Vocês deveriam sair — o homem rosnou
Eu não podia atacá-lo de dentro da barreira, mas sair no estado que estou seria suicídio. Rangi os dentes, com raiva, dor e frustração.
Parece que o mundo inteiro estava determinado a me matar essa semana.
Meu irmão pôs a mão no meu ombro por um momento, antes que desse alguns passos à minha frente, encarando diretamente o homem nu, que provavelmente era o líder daquele bando.
— A que Tratado se refere? — perguntou Alek, muito sério
— Sua família se recusou a participar — ele disse, e eu quase quis ser uma loba também para poder rosnar para ele. Não gostava do seu tom e muito menos da forma como agia. Como se nós fossemos os errados e não ele, quem literalmente está tentando nos expulsar da nossa própria casa.
— Eu e a minha irmã falamos pela nossa família agora — disse Alek, e ele estava absolutamente certo. Annora não é mais do nosso Clã desde que decidiu se voltar contra nós e, considerando que a nossa avó não está aqui e não sabemos se sequer está viva, somos agora o que restou da família. Os únicos descendentes vivos do Clã Estrela do Norte.
Espero que não os únicos de verdade, mas conhecendo Annora...
Voltei a minha atenção para a frente quando um dos lobos rosnou e se afastou. Talvez eles se comunicassem telepaticamente, se for o caso eles pareciam estar discutindo. Então o homem nu, provavelmente Alfa, ergueu o queixo e disse:
— Tudo o que queremos é manter a paz na região, portanto é proibido usar Magia nos limites da cidade.
Eu bufei e o encarei irritada.
— Magia faz tanto parte da nossa natureza quanto se transformar em lobo faz da de vocês! — eu disse, tomando a frente de novo — Como é justo vocês nos proibirem de fazer algo assim? E quem são vocês, de qualquer forma, para ditarem as regras sobre a cidade??
— Irmã... — Alec murmurou, tentando me acalmar, mas não adiantou nada. Eu queria acertar aquele lobo estúpido com um pedaço de madeira bem grande.
— Não! Eles não têm esse direito! — eu exclamei, sentindo uma fisgada quando dei um passo em falso. Eu grunhi e pus a mão sobre o ferimento, enquanto Alek me segurava para que eu não caísse.
— Ela está ferida? — perguntou, num tom completamente diferente, mas isso não impediu que eu o olhasse furiosa.
— Eu ainda posso expulsar vocês daqui — retruquei
— Sel... — repreendeu Alek, suspirando antes de olhar para o Alfa — Fomos atacados e este é o único abrigo que temos, então não podemos ir embora. Mas não podemos parar totalmente de fazer Magia, precisamos ter alguma forma de nos defender.
— Parece que podem se defender muito bem — ele apontou a espada na minha mão
— Não é o suficiente contra o que está vindo atrás de nós — disse Alek, sombriamente
O homem nu nos observou por um longo momento e, a julgar pelos grunhidos vindos do bando, presumo que estivesse havendo algum tipo de debate. Os ignorei, tentando me recompor. Eu esperava, sinceramente, que aquele maldito que me cortou tivesse um destino ainda pior e mais dolorido.
— Vocês podem ficar, por enquanto — ele disse, e tudo que me impediu de retrucar foi a mão de Alek apertando meu ombro — Amanhã devem ir à Reserva para falarmos sobre a situação.
— Estaremos lá — disse Alec, e os observamos se afastar. Bufei.
— Por que temos que seguir as regras deles?
— Porque é o território deles — disse Alec, me levando de volta para dentro
— É a casa da nossa família — retruquei, irritada
— Isso não importa aqui, Sel — ele disse, me ajudando a sentar num velho e esfarrapado sofá, antes de ir até as sacolas sobre a mesa — Lobos são territoriais, eles atacam se alguém invadir. Precisamos provar que não somos ameaça.
— Por quê?
— Para evitar o desperdício de energia — ele disse, me olhando brevemente sob o ombro, antes de começar a preparar sanduiches — Além disso, eles podem vir a ser aliados uteis contra Annora...
— Eles seriam massacrados — bufei
Alec sorriu ao virar para mim com sanduiches e caixinhas de suco.
— Não se estivermos todos juntos.
Eu não respondi, contemplando essa ideia. Não me agradava ter que implorar pela ajuda deles, era a nossa luta, a nossa família. No entanto, pensando logicamente, é claro que seria útil ter aqueles lobos ao nosso lado.
Tê-los como aliados não me faria gostar deles, mas talvez me ajudasse a permanecer viva.
Nós comemos e Alek decidiu que era hora de refazer meu curativo. Me fez deitar no sofá e tirou a bandagem ensanguentada. Fiquei chocada por não ter doído mais, mas presumo que Alek tenha feito um feitiço para isso.
O corte era feio. Muito.
Eu grunhi de dor quando ele limpou com álcool e refez o curativo, tentando manter o machucado o mais fechado possível, para que eu não sangrasse nada gota do meu sangue durante a noite.
Não seria agradável.
Voltamos para o quarto, mas ele decidiu tomar um banho antes de voltar a dormir, então tive um pequeno tempo se silêncio para pensar sobre toda a merda que havia acontecido até agora. Minhas mãos foram automaticamente até o colar que eu agora era a guardiã.
Eu esperava que a minha avó estivesse viva, porque mesmo com todo o treinamento que tive durante a infância, não tenho ideia do que fazer a seguir. Devia viver nas sombras, me escondendo, ou devia atacar Annora e seus aliados antes que pudessem prever?
Eu nunca tive muita paciência para jogos de estratégia, mas precisava pensar com cuidado no que faria agora. O legado da nossa família dependia disso.
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