Lua Escaldante
8 Dia Chuvoso
Notas iniciais
Dia 7
Sétimo dia do Acampamento. Hoje choveu e nós não pudemos sair do alojamento. Então, nós teríamos que fazer atividade indoor.
Eu e Juliana nos levantamos da cama. Fazia um bocado de frio naquela manhã de domingo. Letícia, assim como as outras garotas ainda não haviam se levantado. Nossas caras de sono eram bem expressivas. Desmaiamos na cama como um saco de batatas.
Eu fiquei deitada na cama enquanto Juliana ficou desmaiada sobre mim.
8:00
Finalmente nós pudemos acordar direito e junto com as outras garotas. As outras garotas, com exceção de Letícia foram tomar o café da manhã. Eu, Juliana e Letícia ficamos algum tempo no quarto.
Letícia estava bastante abalada depois do que aconteceu com o Ricardo. O semblante dela parecia como o de uma velha, todo enrugado devido as lágrimas que ela devia ter despejado na noite de ontem, encharcando o travesseiro.
Eu e Juliana consentimos em ir até ela e conversar com ela.
"Você está bem, Letícia?" eu perguntei meio sonolenta.
"Não, Sylvia. Ricardo era tudo para mim, e eu estraguei tudo..." Letícia se culpou pelo que houve anteriormente.
"Do que você está falando, Letícia?" eu quis saber.
"Você sabe do que eu estou falando, Sylvia. Do caso "Marilu"" Letícia explanou. "E não vem me dizer que você não tem culpa no cartório, porque você tem."
"Me desculpa, Letícia...eu não imaginava que isso pudesse te deixar assim tão abalada" eu disse a ela.
"...isso também é minha culpa. Nós estamos no mesmo barco..." Letícia balbuciou.
"Letícia, você pode me dizer como é que você e o Ricardo se conheceram, e porque você não quer fazer sexo com ele?" eu inquiri.
"Bem, eu e Ricardo começamos a namorar quando estávamos na quinta série, eu acho. E...nós éramos apaixonados um pelo outro. Foi difícil meus pais aceitarem o nosso namoro. Meus pais são muito conservadores..." Letícia interrompeu.
"Como o meu pai" Juliana citou como exemplo.
"Então um dia, minha mãe disse que havia conversado com o meu pai e eles resolveram aceitar o nosso namoro, porém, eu não poderia pensar em fazer sexo com o Ricardo, pois ela não queria que eu engravidasse, e que se eu quisesse transar com o Ricardo, eu deveria usar proteção, que eu era muito nova para perder a minha virgindade." Letícia me contou.
"Então é por isso que você tem evitado fazer sexo com o Ricardo?" eu a questionei.
"Sim, Sylvia. E eu o amo, muito...mas...eu não consigo pensar que de repente eu possa engravidar do Ricardo e os meus pais me rejeitarem por isso..." Letícia confessou.
"Entendo. Eu nunca passei por isso antes. E eu me apaixonei pela Poca por acaso..." eu falei cabisbaixa.
"Está tudo bem. Você não se importa comigo..." Letícia falou como se o mundo estivesse contra ela.
"Olha Letícia, pode parecer que eu não me importo, mas eu me importo. Se não fosse por você, o Ricardo e Juliana terem me estendido a mão naquele dia, eu estaria lá naquele corredor da escola, sozinha, e matando aula" eu confessei. "E eu também não teria conhecido a Poca."
Letícia me olhou e abriu um leve sorriso.
"Olha, se você quiser...eu posso passar uma noite com você" eu sugeri.
"Obrigada, mas...a cama é pequena, só cabe uma pessoa" Letícia me informou.
"Não tem problema. A Juliana pode dormir no seu lugar e você vem dormir comigo na cama de casal".
Eu olhei para Juliana e a vi levantar uma sobrancelha.
"É só essa noite, Poca" eu a avisei.
"Está bem, coelho branco" Juliana consentiu.
"Não fica com ciúmes de mim não. Eu só estou tentando ajudar a Letícia." eu me justifiquei.
"Tudo bem, Sylvia" Juliana aceitou.
"Ei, vamos tomar o café da manhã juntas, o que vocês acham?" eu inquiri.
"Parece legal. Mas...sem o Ricardo..." Letícia se lembrou dele...
"Olha, eu acho que hoje você tem que se preocupar com você mesma, Letícia."
"Tudo bem..."
[...]
Então nós três fomos para a mesa do café da manhã. Estavam servindo chá e chocolate quente naquele dia. Nós três pedimos um pouco de chocolate quente para nos esquentarmos.
Letícia bebeu um pouco da bebida e a colocou de volta na mesa. Então ela olhou para o lado dos garotos na nossa mesa que estava quase completo, exceto pelo Ricardo, que não estava lá. Acho que ter feito sexo com a Marilu, deixou ele muito traumatizado.
Letícia começou a pensar no Ricardo, em cada momento que eles passaram juntos, e seus olhos começaram a se encher de lágrimas. Ela ficou cabisbaixa na mesa e suas lágrimas começaram a cair. E tudo o que ela conseguia dizer era "Me desculpa, Ricardo".
Ela estava mesmo devastada. Ela mau conseguia tomar o chocolate quente sem se lembrar do Ricardo.
Eu tentei não olhar para Letícia, mas era inevitável. Eu estava sentindo muita pena por uma situação como aquela ter separado aquele casal.
As lágrimas começaram a cair do meu rosto, mas eu tentava contê-las. Juliana reparou que eu estava chorando.
"Sylvia, por que você está chorando?" ela me perguntou.
"Não é nada. Entrou um cisco no meu olho" eu menti.
"Sério? Essa desculpa é velha. Por que você está chorando?" Juliana insistiu.
"Porque...em partes a culpa pelo Ricardo e a Letícia estarem brigados é em partes minha." eu retruquei.
"Mas...Ricardo e Letícia já contestaram o nosso namoro, e muito antes de você aparecer no colégio, ele estavam nessa de separa, volta, separa volta. É um círculo vicioso constante, e eu nunca entendi o porque disso..." Julia tentou me reconfortar.
Eu enxuguei as lágrimas que restavam no meu rosto e tentei me recompor.
"Isso deles contestarem nosso namoro eu sei. Mas o resto...é verdade?" eu fiquei curiosa.
"Sim, Sylvia. Eu não sei...mas acredito que isso não pode ser amor, ao menos, não como na nossa relação. Se algo não deu certo, é porque não é para ser assim" Juliana comentou.
"Entendo. Então, a Letícia está chorando à toa?" eu devolvi.
"Eu não diria isso. Eu só acho que no lugar da Letícia eu largava o Ricardo, e iria procurar outra companhia. Se não está dando certo, por que continuar insistindo? Não estou dizendo que você deve desistir, mas...uma hora cansa" Juliana aconselhou.
"É, tem razão. Você namorou alguma garota antes de mim, Juliana?" eu quis saber.
"Não, você é a primeira garota que eu estou namorando. As outras garotas do colégio sempre me evitavam" Juliana revelou.
"Entendi. Eu também nunca havia namorado uma garota antes.." eu comentei com ela.
"E o que você está achando da experiência?" Juliana inquiriu.
"Bem, eu estou gostando muito. Digo, no começo eu achei um pouco estranho, não diferente, pois eu não estava acostumada, mas depois eu gostei." eu repliquei.
"E agora você vai dormir com a inimiga" Juliana me lembrou.
"É só uma noite, Juliana!" eu exclamei.
"Foi exatamente isso que a Letícia disse no caso Marilu, e agora você está falando como ela...eu não estou entendendo, Sylvia!" Juliana exclamou.
"Meu Deus! Nem vem que eu não quero que o nosso amor acabe como o do Ricardo e da Letícia!" eu contestei.
Nós ficamos em silêncio e eu voltei a beber mais um pouco do meu chocolate quente que a essa altura já devia ter esfriado.
[...]
Mais tarde, quando a chuva estava diminuindo, nós fomos para a parte de cima do alojamento onde tinha uma piscina, e...o professor de Geografia havia arrumado uma tela e um projetor e havia conseguido uma estante com um aparelho de DVD e alguns filmes que havia numa estante na academia de ginástica do acampamento, e um dos filmes que nós iríamos assistir não era outro senão, Pocahontas. O filme de animação da Juliana e eu.
Nós improvisamos um "Drive In" na piscina. Ficamos de pé dentro da piscina enquanto o professor de geografia, colocava o filme para nós assistirmos. Marilu estava ao lado da estante perto da professora de português, e da diretora Elsa Lima que estava de braços cruzados pronta para ver o filme começar.
Antes do filme começar foram passando alguns trailers, e nós ficamos assistindo. O primeiro Trailer que vimos era de O Rei Leão, depois de Branca de Neve e os sete anões, e mais alguns filmes normais com pessoas, da Disney.
Depois que os trailers passaram, surgiu o menu do DVD e professor de geografia pôs para nós assistirmos o filme dublado.
O filme começou a rodar. Nós estávamos bastante atentos ao filme. Acompanhávamos cada uma das cenas do filme, e eu comecei a me imaginar com Juliana no lugar daqueles personagens desenhados na minha cabeça.
Então eu virei para ela e chamei a atenção dela.
"Então, posso te chamar de Pocahontas?" eu fiquei curiosa.
"Shhh! Eu estou tentando assistir o filme!" Juliana me silenciou.
"Tudo bem. Depois você me responde" eu disse baixinho.
"Está bem" Juliana replicou.
Nós continuamos a assistir o filme juntas.
[...]
Quando o filme finalmente acabou, todos bateram palmas incluindo nós duas.
"Então Juliana, o que você me diz?" eu me referia a pergunta que eu havia feito anteriormente.
"Nossa! Esse filme é muito bom! Eu amei! Pode, pode sim!" Juliana comentou.
"Legal. Então agora eu vou te chamar de Pocahontas" eu comentei.
"E você minha "John Smith". Hmm...Joan Smith, talvez" Juliana devolveu.
Eu ri. Fiquei imaginando que logo voltaríamos para o colégio em Hellcife e deixaríamos aqueles momentos maravilhosos que passamos no acampamento Lua Escaldante para trás. O que era uma pena.
[...]
Mais tarde, após jantarmos, nós fomos escovar os dentes e depois...cama!
Foi então que eu e Letícia dormimos juntas na cama de casal. Mas, confesso que fiquei preocupada em saber onde o Ricardo estava, pois ele não foi no café da manhã, nem no almoço, e nem no jantar. Será que ele passou o dia sozinho no alojamento masculino?
Aquele domingo chuvoso foi o dia mais triste da viagem, apesar de termos tido a oportunidade de assistirmos ao filme da Pocahontas, e agora eu poder chamar a Juliana de Pocahontas ao invés de "Poca".
"Sunday Bloody Sunday!" como diz aquela música do U2.
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