Loyalty
8 VI - Vampiro e vontade
Os dedos, antes trêmulos e hesitantes, seguravam com força e destreza a arma.
Luka mirou nas garrafas de vidro equilibradas na cerca, cinco metros adiante. Concentrou a força nos dedos, relaxando os braços, e então atirou. Uma a uma, as sete garrafas explodiram. O tambor do revólver só continha sete balas, e nenhuma fora desperdiçada.
Meito estava encantado. Faltava apenas um dia para o treinamento de Luka terminar, e seu progresso era o que ele podia chamar de excelente. Claro, ela não tinha a rapidez necessária uma assassina profissional, nem foi instruída a atirar sob circunstâncias mais específicas; mas sabia o básico, e era tudo de que precisaria por enquanto.
Também era tudo o que o rapaz estava disposto a lhe ensinar por enquanto.
O progresso dela ao manusear armas era, apesar de esplêndido, de certa forma assustador. Ele pensou no quão boa ela seria, caso fosse treinada como uma assassina, e imaginar Luka daquela maneira era uma ideia abominável. Ela não pertencia àquele mundo. Sua índole era pacífica e pura. Meito ficou feliz em encerrar o treinamento no dia seguinte, pois começava a sentir que estava maculando Luka ao submetê-la ao contato com a violência.
Não que ele de fato estivesse lhe maculando de alguma forma, ou pelo menos era como Luka se sentia. Depois que o terror inicial foi vencido, ela adquiriu mais firmeza e força de vontade em seu objetivo. Naquelas duas semanas, podia afirmar que tinha mesmo se fortalecido. Não era mais alguém passiva, que necessitava de proteção. Podia se proteger sozinha. Podia fazer o que quisesse, ir aonde quisesse, com a certeza de que poderia se defender se alguém tentasse contra sua integridade. E aquela certeza era algo extraordinário de se possuir.
Ela sorriu para Meito, que a cumprimentou pelo seu bom desempenho. O jovem não estava indiferente à mudança que ocorrera na personalidade dela. Luka havia crescido diante dele. Uma luz nova brilhava em seu olhar. Talvez aquela luz se extinguisse, caso a garota tivesse que pôr aquele conhecimento em prática e matar alguém de fato. Mas não era a habilidade de matar que ela queria, e sim a de proteger. A si mesma, e a sua avó. Saber que era capaz disso a deixava mais tranqüila e segura de si.
E provavelmente fosse apenas impressão de Meito, mas ela também parecia extremamente atraente agora.
Enquanto guardava a arma, ele a via tirar o casaco, ficando apenas de calça e uma blusa fina por baixo. Era pouco para proteger seu corpo do frio que assolava a região deserta, mas ela logo não precisaria de muito mais roupa que isso. Meito também lhe ensinou defesa pessoal, algo em que ela se saiu ainda melhor que nas armas de fogo, e as sessões de treino nunca eram menos do que extenuantes.
— Já quer treinar?— ele indagou consultando o relógio de pulso, tentando desviar o olhar do corpo dela, cujas curvas se acentuavam sob a roupa justa.— Ah sim, só temos uma hora até você ir.
— Sobre isso...— o tom sério dela o fez erguer o olhar.— Eu falei à baa-chan que ia dormir na casa de uma amiga, e pedi dispensa no trabalho essa noite. Quero mais algumas horas pra reforçar o treinamento, então achei melhor passar essa noite aqui.
Meito fitou-a, surpreso com o jeito calmo com ela não lhe pedia, mas apenas comunicava sua decisão. E então sorriu, porque não era uma má ideia, e porque estava adorando aquela Luka.
— Certo— disse apenas.
Ela sorriu animada e apanhou sua mochila, que ainda estava na moto, levando-a para a cabana.
Sabia que Meito não estava trabalhando naquelas duas semanas, apenas para se dedicar exclusivamente ao treinamento dela. Tinha percebido isso na primeira semana, quando viu alimentos, algumas roupas dele e latas de munições instaladas dentro da velha cabana, como se ele estivesse passando bastante tempo ali. Meito lhe contou que realmente estava ficando no deserto durante aqueles dias, saindo apenas para buscá-la na cidade e levá-la de volta. Luka lamentou que ela mesma não tivesse tanto tempo disponível, restando-lhe apenas as quatro horas da tarde livres para o treinamento. Decidiu que pelo menos no final do período programado ela passaria uma noite treinando com ele.
“Uma noite com ele”, ela pensou de repente, ao entrar na cabana, e sentiu o ar lhe faltar. Era a primeira vez que pensava naquilo com mais clareza. E apesar da seriedade do treinamento, ainda não podia ignorar que seu professor era alguém por quem ela estava perdidamente apaixonada.
Sacudiu a cabeça, tentando pensar em coisas práticas. A cabana havia sido um local de repouso para pastores de ovelhas, na época remota em que aqueles desertos de neve ainda possuíam vegetação. Havia um quarteto, uma cozinha, um banheiro, um poço de água, um pequeno fogão à lenha e a luz de um lampião. O chão do quarto estava forrado em boa parte por pelegos velhos e puídos pelo tempo, embora ainda macios. Ela tirou um grande lençol da mochila e os cobriu, depois sentou-se e remexeu na mochila.
Meito entrou na cabana, vendo-a prender os cabelos num coque alto. Havia enrolado faixas de tecido nas mãos, e tirou da bolsa uma bainha de couro preto, na qual havia um punhal de lâmina angulosa.
— Vamos treinar umas duas horas— disse ela.— Depois a gente para e eu recomeço com as armas. Quero ver como me saio à noite, com a iluminação precária.
— Certo— ele fitou-a por um momento, antes de apanhar seu próprio punhal.
Luka não era capaz de ver a admiração nos olhos dele, talvez porque acreditasse que ele lhe fosse totalmente indiferente, ou porque o admirasse o suficiente para estar cega a qualquer outra coisa.
A segunda hipótese devia ser a mais provável.
Longe de uma situação assustadora como a da noite em que ele a salvou dos estupradores, Meito era incrível. Podia prever todos os reflexos dela, antecipar todos os seus movimentos. Luka não tinha sossegado até aprender os golpes necessários para interagir com ele num combate corporal, onde pudesse sentir sua força, onde pudesse ser digna de recebê-lo como adversária. Naturalmente ela jamais conseguiu vencê-lo, sempre terminando as disputas com a lâmina do punhal dele a poucos centímetros de sua garganta ou apontada para seu rosto ou seu coração.
Mas além de desenvolver seus reflexos, aquelas sessões lhe deixavam tomada por uma adrenalina incrível. Havia momentos em que ela sentia que Meito vinha com tudo para cima dela, lutando pra valer, e ela conseguia se defender e atacar numa fração de segundos. Eram momentos breves, que ele rapidamente intercalava com o ritmo normal de treinamento, talvez para testar em que nível ela se encontrava. Por isso naquela tarde escura, que ia se formando em noite graças a pesadas nuvens que se acumulavam no céu, quando os dois soltaram-se de uma escaramuça rápida e separaram-se, suados e ofegantes, Luka lhe pediu que lutasse pra valer com ela.
— Tem certeza?—ele indagou.— Está pronta pra isso?
— Quando quiser— ela se colocou em posição, separando as pernas, estendendo o braço livre como um escudo à frente e a lâmina recolhida junto ao rosto.— Estou pronta.
Meito procurou ver o perigo daquela situação, mas uma chama brilhava nos olhos de Luka e lhe impediu de pensar em qualquer coisa. Ele tirou a camisa apressadamente, entrou em posição e pulou na sua adversária, apenas para vê-la recuar e atacá-lo com uma destreza inacreditável. Bloqueou as pernas dele, o braço livre e golpeou sua lâmina, fazendo ela mudar de direção na mão dele.
Mas o rapaz se recuperou rapidamente da surpresa. Puxou-a pelo ombro para baixo, arrancando-lhe o punhal no mesmo movimento e a derrubou no chão, caindo por cima dela, a lâmina encostada em seu pescoço.
A garota o olhava nos olhos, vendo nos dele uma ferocidade que não tinha testemunhado até então. Continuou firme, respirando com força, enquanto ele se debatia em seu conflito interno. Seus instintos lhe diziam para enterrar a lâmina na garganta dela, enquanto algo que ele parecia ter esquecido momentaneamente lhe gritava que tinha que parar. Só lembrou o que era ao ver o líquido vermelho brilhar na lâmina, e escorrer da pele suave e afogueada pelo esforço.
— Luka...!— ele exclamou sobressaltado.
Assim que ele afastou a lâmina a garota empurrou seu pulso, derrubando-o de costas ao lado dela. Na rapidez do movimento ainda lhe arrancou as duas lâminas e ficou em cima dele, invertendo a posição que ocupavam segundos antes. Ela, porém, não parecia satisfeita com o resultado.
— Você não está mais lutando sério— reclamou inconformada, largando as lâminas ao lado deles.
Parou subitamente quando Meito ergueu o tronco, pondo-a sentada em seu colo. Ele a fitou por um momento sem dizer nada, e então aproximou os lábios do pescoço dela.
A garota estremeceu, sentindo um arrepio suave percorrer a espinha, o cheiro dele nublando seus pensamentos.
Meito fechou os olhos, apreciando a sensação da pele quente e levemente salgada contra sua língua, e o gosto metálico do fio de sangue que escorria do pequeno corte.
— Você... é um vampiro, por acaso?— ela indagou num sussurro.
Ele passou o polegar pelo corte e olhou para Luka, uma expressão muito séria em seu rosto.
— Foi minha culpa— disse.— Eu nunca devia ter aceitado lutar assim com você. Mas por favor, não me peça pra ir com tudo outra vez.
— Certo— ela respondeu, dominada pela seriedade dele.— Eu só queria saber como eu estava, se eu já era capaz de te enfrentar numa luta séria.
— Você está maravilhosa— ele disse num tom mais suave, e absolutamente sincero em sua admiração.
Tão sincero que nem Luka pôde deixar de perceber, e seu rosto afogueado corou ainda mais.
— Mas não pode me enfrentar agora. Talvez depois de muito treino, o que eu não duvido muito. Mas não há necessidade disso. Você pode se defender de qualquer um que se meta a besta com você agora.
Ela sorriu de lado, baixando o olhar.
Meito pensou no que ainda o impedia de puxá-la para si naquele momento. Estava tão perto dele, tão próxima, e naquele misto de mulher forte e menina tímida, mais linda do que ele jamais a tinha visto. Sentia a cada dia que passava que não podia lhe amar mais, e no entanto aquele sentimento ia aumentando sempre, todos os dias...
Mas não podia. Eram naquelas ocasiões de proximidade tão perigosa, que as palavras da avó dela vinham lhe assombrar. Fique longe. Se afaste. Não a faça sofrer.
Ele suspirou e a segurou pelos ombros, dizendo que iam descansar agora e continuar mais tarde.
Ela levantou-se e o viu se vestir novamente. Estava trêmula, pelo esforço, pelo contato dele, por tudo. Percebeu que, enquanto ele lambia seu ferimento, ela teve uma desejo intenso de que ele subisse mais, até alcançar seus lábios. Não era aquela uma situação propícia? Luka suspirou frustrada; só conseguia ver o respeito que o rapaz tinha por ela como pura e simples falta de interesse.
Logicamente, ela também não parou para refletir se Meito não via o respeito dela como falta de interesse por ele. Felizmente o rapaz não parecia esperar que uma garota tímida e provavelmente inexperiente como Luka, caso viesse a ter algum interesse nele, fosse aquela que tomaria a iniciativa. Por outro lado, também não acreditava que Luka se interessaria por ele, quanto mais que viesse a corresponder seus sentimentos.
A chuva desabou de repente sobre os dois jovens e suas baixas autoestimas, obrigando-os a correrem para a cabana.
Meito ferveu água e os dois comeram sopas instantâneas; descansaram um pouco e voltaram a lutar no quarto. Quando a chuva parou, Luka passou a treinar tiro em alvos móveis e parados no escuro, saindo-se admiravelmente bem em ambos. Lutou com Meito no terreno enlameado e imerso em sombras. Os dois pararam às duas da manhã somente, quando caíram em cima do lençol, sujos e cansados, e estranhamente felizes. Aquela experiência que compartilhavam, embora ambos não soubessem um do outro, era muito especial para eles.
Do banheiro, Meito pediu a Luka uma toalha na manhã seguinte. A garota apanhou a mochila dele, e acabou vendo algo interessante enquanto procurava ali dentro.
— Continuou estudando mesmo? —ela indagou mais tarde. Já haviam tomado banho e estavam no quarto, onde faziam um desjejum simples de pão e frutas.
— Sim— ele respondeu, engolindo um pedaço de maçã.— Quer que eu lhe mostre?
— Claro— ela exclamou ansiosa.
O rapaz tirou um dos pequenos livros da mochila, e leu uma das páginas com uma desenvoltura que Luka não imaginou que ele já tivesse.
— Bom, ainda estou treinando também— ele murmurou, como que se desculpando por alguma falha.
Luka porém estava admirada. —Você está incrível— disse.
Ele sorriu de leve, um tanto encabulado de repente. — Acho que somos ótimos alunos, no fim das contas.
A garota o viu guardar o livro novamente e sentar-se ao lado dela, mordiscando pedaços de pão em silêncio.
— Então— Luka indagou de repente.— Você consegue ler o que tá escrito nesses livros?
— Agora sim.
— E está gostando do que lê?
— Bom, eu não sei dizer. Peguei todos na sede onde trabalho. Um é um manual de manutenção de motos, outro é um guia de armas. Estão sendo úteis pra mim, pelo menos.
— Sei... Mas um livro que não seja manual, que tenha uma história, você já tentou?
— Alguns, sim. —Ele ergueu o olhar para ela, estranhando as perguntas.— Por quê?
— Bem... —Ela sorriu, hesitante.— Se você quiser, posso te emprestar alguns livros que eu gosto. Garanto que são bem interessantes.
Ele pareceu considerar a proposta e lhe sorriu de volta. —Ia ser bom— acrescentou.
A jovem baixou a cabeça, os cabelos rosados escondendo-lhe o rosto. Meito fitou-a de cenho franzido, sem entender.
— Não suma mais da minha vida, Meito— ela pediu em voz baixa, sem olhá-lo.
O rapaz ergueu a mão para afastar-lhe os cabelos do rosto, mas parou a meio caminho, os dedos fechando-se no ar inconformados. Baixou a mão e suspirou fundo.
— Desculpe, Luka. Vou tentar.
Pôde ver os lábios dela delinearem um sorriso leve. Os dois voltaram a comer em silêncio, e então Meito não pôde mais evitar.
— Luka... Naquela noite, eu voltei a tempo de te ver chegar em casa— ele contou em voz baixa.
A garota voltou-se para ele, assustada.
— Você... me viu?
— Você estava chorando, não foi?
Ele a observou corar violentamente e baixar a cabeça outra vez, e se sentiu culpado por deixá-la tão sem jeito. Mas precisava saber.
Precisava saber quem tinha feito ela chorar, e o porquê.
— Naquela noite, o filho de meus patrões se ofereceu pra me levar em casa... — Ela se alarmou ao ver a expressão carregada de Meito, e apressou-se em esclarecer tudo.— Ele não me fez nada de mal. Tudo o que fez foi me pedir em namoro. E eu... bem, eu pedi desculpas e recusei, e ele disse que não havia problema.
— Sei— o rapaz respondeu. Havia imaginado que algo do tipo havia acontecido, e não podia deixar de se sentir tranqüilo com o fato de Luka ter recusado. Mas ainda não entendia o motivo, nem como aquilo poderia levá-la às lágrimas. —Você não gosta dele?
— Não— ela exclamou, nervosa.— Nem o conheço direito. Minhas colegas diziam que era uma sorte ele ter me escolhido, já que ele parecia realmente interessado em mim, e meus patrões estavam apoiando tudo, então toda a situação parecia favorável.
— Parecia mesmo— Meito comentou distraído.
A garota fitou-o, uma expressão magoada no olhar que sobressaltou o rapaz.
— Sim, exceto pelo fato de que eu não o amava— disse. —Nem sei o que ele sentia realmente, mas era bem provável que não me amasse também.
— Acha que é tão difícil assim amar você?
Ela ergueu as sobrancelhas, surpresa.
Meito se deu conta do que disse e sacudiu a cabeça, tentando reorganizar as idéias.
— Mas por que você estava chorando afinal?— insistiu.
Luka desviou o olhar, fitando o dia frio pela porta aberta da cabana.
O motivo para ter chorado naquela noite havia sido um só – o desejo muito grande de que outra pessoa tivesse lhe feito aquela proposta. Um desejo que ela estava certa de que jamais se realizaria. Depois de tantos dias sem Meito lhe dirigir a palavra, tinha praticamente certeza de que ele não a via como mais do que uma pessoa a quem tinha a obrigação de proteger.
Como dizer tudo aquilo a ele agora? Em hipótese alguma faria isso.
— O pedido dele me pegou de surpresa, só isso— ela respondeu, respirando fundo.— Fiquei nervosa, e me senti culpada por ter recusado, ferido os sentimentos dele, sei lá.
— Se sentiu culpada por não amá-lo?— Meito sorriu.— Você é estranha.
Ela sorriu de volta. Estava tranqüila por ter resolvido a questão naqueles termos.
— Melhor não me chamar disso de novo— avisou de bom humor, erguendo a faca de cortar pão. —Agora eu sei outro jeito de usar isso aqui.
— Oh sim. Me desculpe — ele respondeu no mesmo tom. — Fique aqui, vou fazer café pra nós dois.
Ele foi para a cozinha, seu sorriso tornando-se mais fraco até seus lábios se crisparem, enquanto ele suspirava conformado.
Se ela ficava tão mal por não corresponder aos sentimentos de alguém... era melhor que nunca soubesse o que ele sentia por ela.
Meito parou a moto no final da rua dela, como de costume. A garota guardou o capacete e jogou a mochila nos ombros. Estava mais pesada agora, por conta do revólver que o rapaz lhe dera. Ele tinha lhe mostrado várias armas de fogo para que ela escolhesse a que quisesse. Luka escolheu um modelo mais robusto e pesado para usar, e se adaptou rapidamente.
— Por que uma tão pesada?— ele indagou.— Não vai ser muito prático andar com essa coisa por aí.
— É que eu espero não precisar usar tão cedo— a jovem respondeu simplesmente. — Vou levar o punhal na cintura também, espero dar conta só com ele.
Ele tirou seu próprio capacete e desceu do veículo, observando em silêncio a garota ajeitar as alças da mochila. Realmente, ela não tinha se “maculado” como ele antes pensava. Era de fato habilidosa, mas não possuía nada de violento em seu caráter.
— Se cuide—ele pediu.
Luka voltou-se para ele. — E você, não suma de novo. Lembre que você prometeu.
— Vou tentar.
Meito mal notou o momento em que ela se aproximou. Só percebeu os braços dela enlaçarem seu peito, as mãos pequenas espalmando suas costas. Luka se aproximou dele, seus corpos muito próximos um do outro.
— Estou falando sério— ela disse em voz baixa.— Não sei quem lhe disse que você ia ajudar mais se afastando de mim, mas seja quem for, essa pessoa está errada. Não se afaste de mim, por favor.
O rapaz olhou para ela, sem saber como reagir. Então Luka se aproximou mais e ele começou a se perguntar se não era um sonho.
Lembrou-se de que dificilmente sonhava.
A jovem pousava o rosto contra o seu peito. Ele lhe sentiu a respiração quente e suas mãos se guiaram para os ombros dela por vontade própria, trazendo-a mais para perto.
Ficaram envolvidos naquele abraço por mais tempo do que achavam prudente, e por menos do que gostariam. Ele afinal acariciou os cabelos dela, e depois seu rosto, suavemente. Queria desesperadamente trazê-la mais para perto, mas precisava se contentar com aquilo apenas. E estava contente de fato. A garota afastou o rosto e lhe olhou inquisidora, como se indagasse o que ele tinha a dizer.
— Não vou me afastar— ele disse com firmeza.
— Espero que não— a garota sorriu. Ajeitou a mochila nas costas e seguiu em frente.
Estava trêmula de emoção, e ele também.
Teriam dado tudo no mundo para continuarem abraçados. E sequer sabiam disso.
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