Loyalty

9 VII - Adeus e amor


O crime na cidade havia diminuído bastante.

Um dos principais motivos era o crescimento cada vez mais acelerado da gangue para quem Meito trabalhava. O outro era a parceria surgida entre os chefes da mesma gangue e oficiais da polícia. Enquanto os oficiais faziam vistas grossas, o tráfico era dominado pela gangue e todos os possíveis concorrentes, eliminados por ela.

E em boa parte, devia-se acrescentar, por Meito.

O jovem já gozava de uma excelente reputação entre os chefes do crime. Os negócios estavam se expandindo, e eles cogitavam ceder seu melhor assassino a um dos receptadores da organização na capital. Seria por pouco tempo, mas ajudaria bastante o tal receptador, que estava conseguindo vários contatos importantes para a gangue. Meito não recusou a ideia, mas pediu que a deixassem em suspenso por enquanto. O receptador estava se virando bem sem ele, não havia por que se mudar tão depressa. Além do mais, ele não queria ir agora. Mal havia acabado de cumprir sua promessa a Luka – não se afastar mais dela – e não queria deixá-la justo agora.

As noites eram tranqüilas, mas Meito não deixava de acompanhá-la até em casa sempre que podia. Graças a ela descobrira o prazer de ler, e agora se arriscava a escrever também, algo em que estava se saindo de modo razoável para alguém que estudava sozinho. Luka porém fazia tudo o que podia para ajudá-lo, inclusive em suas folgas no trabalho, mesmo estando mais do que ocupada com seus preparativos para o vestibular. Esforçava-se ao máximo para estar ao lado dele, e Meito também fazia de tudo para estar ao lado dela. E mesmo com os sacrifícios que ambos eventualmente faziam para estarem juntos, quando conseguiam, tudo parecia ter valido a pena.

Estavam realmente íntimos agora, como ao menos dois amigos deviam ser. Conversavam e achavam graça das mesmas coisas. Luka percebera que ele se abria mais para ela a cada dia, e ainda que de forma hesitante, a garota aos poucos tentava se aproximar dele.

— Meito,— indagou certa noite, enquanto ele a levava em casa— fica chateado se eu lhe fizer uma pergunta?

— Faça— ele disse despreocupado.— Então eu te digo se estou chateado ou não.

Ela sorriu; já fazia um tempo que não sabia como era ver Meito chateado. Na verdade, nunca o vira num ânimo melhor que nos últimos meses, e isso a deixava feliz.

Respirou fundo, decidindo não pensar muito e perguntar de uma vez.

— Lembra da primeira pessoa que você matou?

Ele franziu o olhar, sem fitá-la,continuando a caminhar com as mãos nos bolsos da jaqueta. Afinal assentiu negativamente.

— Não muito bem— contou num tom sombrio.— A memória da gente não funciona direito antes dos cinco anos de idade, não é?

Luka arregalou os olhos de espantou, provocando em Meito uma risada involuntária. Ele tinha planejado manter o personagem por mais tempo, mas a espantosa credulidade dela em tudo de mau que ele houvesse feito o tirava do sério.

— Acho que se eu disser que como criancinhas fritas no almoço, você acredita— ele resmungou bem-humorado.

— Você faz essa cara assustadora, como eu não vou acreditar?— ela protestou, ainda não refeita do susto.

Meito soprou o ar da noite calmamente, produzindo uma nuvem de vapor à sua frente.

— Eu tinha doze anos— contou, num tom sério. —O inspetor do orfanato onde eu vivia era um canalha, espancava os meninos, abusava das meninas. Uma noite nos reunimos e atacamos ele na cama, a pedradas. Batemos nele até o crânio abrir e esmigalhar. Depois disso, como sabíamos que iam nos castigar das piores formas possíveis, nos juntamos outra vez e fugimos dali para o mundo.

Luka ouvia em silêncio, profundamente consternada.

— Você era só uma criança— disse por fim.

Ele deu de ombros tranquilamente.

— E daí? Isso acontece.

— Não, não acontece— ela ergueu as sobrancelhas, intrigada com o descaso dele.—Há algo de muito errado acontecendo, quando a única saída pra um bando de crianças é esmigalhar a cabeça de outra pessoa.

— É, claro que sim. Tem algo de muito errado no mundo inteiro. Mas o que eu posso fazer, o que nós podemos fazer, hein Luka? Além de continuar vivendo, e lutando pra sobreviver. É só isso que importa.

Ela passou um tempo em silêncio, antes de erguer a voz, aflita.

— Me desculpe, mas eu não quero te imaginar com doze anos, tendo que matar alguém desse jeito horrível.

— É que não ensinam tiro ao alvo nos orfanatos Luka, senão a coisa tinha sido mais limpa.

— Meito, estou dizendo que eu não suporto essa ideia! Uma criança matando alguém é algo desumano demais. Se você tivesse um filho, ia gostar de ver ele nessa situação?

— Se eu tivesse um filho, não colocaria ele num orfanato cheio de pedófilos e projetos de marginais.

Ela mordeu o lábio, frustrada. Meito sorriu levemente sob o luar.— Além do mais,não vou ter filhos.

— Por quê?— ela indagou interessada.— Você não pode?

— Não, eu só não quero.

Ela hesitou novamente antes de falar. — Se eu te fizer outra pergunta, você fica chateado?

Meito voltou-se para ela. — Vai perguntar por que eu não quero filhos?

Luka assentiu lentamente.

— Os filhos são uma continuação do que a gente é. Me diga, o que eu vou ter de bom pra passar pra frente, caso tenha um?

Ela o fitou incrédula. —Tá brincando, não é?

— Não.

Luka parou diante dele, pousando a mão em seu peito de leve para fazê-lo parar. Meito fitou-a confuso.

— Está me dizendo que não tem nada de bom em você?

— Sim. Caso não tenha reparado, eu mato pessoas pra viver.

— Achei que estávamos falando do que você é, e não do que você faz.

— Tem alguma diferença?

— Claro que tem! Meito, você é leal, é gentil, é generoso. Sabe perfeitamente a diferença entre o certo e o errado. Tem certeza de que não teria nada de bom pra passar pra frente? Pois se quer saber, acho que você daria um ótimo pai.

Ele lhe observou meio estarrecido por um momento. A garota amenizou sua expressão indignada e voltou a caminhar. Meito balançou a cabeça e a seguiu em silêncio, a mente processando o que acabara de ouvir. De repente deu um risinho, que abafou na dobra da jaqueta.

— Que foi?— ela voltou-se.

— Nada— ele respondeu tranqüilo.—Só acho que você sim, daria uma boa mãe.

Ela abriu a boca para responder, mas não teve palavras. Então simplesmente o chamou de bobo e seguiu em frente.

O que ela dissera não alterou quase em nada a decisão de Meito sobre ter filhos. Mas a partir daquela noite, ele jurou que nunca os teria a menos que Luka pudesse ser a mãe.

Parecia o mais razoável para ele.



As aulas eram o horário mais arrastado na rotina de Luka. Ela mal prestava atenção, olhando pela janela a cidade enevoada, e pensando no que Meito estaria fazendo àquela hora.

Suas colegas lhe diziam que ela estava com cara de apaixonada. Ela não desmentia nem respondia nada; não via por que se importar com a opinião dos outros. Como não soubessem quem era o objeto da afeição de Luka, as garotas concluíram que ela vivia um amor platônico, sem estar de fato comprometida com alguém. Assim, o presidente da classe, que já tinha uma paixonite mal-curada por ela desde o primeiro colegial, decidiu se aproximar.

”Oh, não”, ela suspirou quando as colegas lhe contaram. Não entenderam por que a garota não ficara feliz – o presidente da classe era um dos rapazes mais cobiçados do colégio. Mas a mente e o coração da jovem estavam muito distantes dali.

Certo dia, na saída da escola, Meito a encontrou conversando com o rapaz e outras alunas. Toda a expressão da garota se iluminou ao vê-lo e todas as colegas – e o presidente da classe – perceberam isso. Apenas Meito permanecia distraído o bastante para não perceber.

E por coincidência, sua distração era a própria Luka.

Ela pediu licença e atravessou a rua, correndo ao seu encontro, a brisa soprando em seus cabelos e no uniforme de colegial. Meito levou alguns segundos até conseguir se concentrar no que ela lhe falava.

— Estranho te ver tão cedo— ela disse animada. — A gente só se vê depois do pôr-do-sol, já percebeu? Às vezes penso que você é um vampiro.

— Eu já provei do seu sangue. Não tem um gosto muito bom, não.

Eles sorriram um para o outro, ambos sem a menor ideia do que falar, e sem sentir a menor necessidade.

Meito percebeu que ela poderia estranhar se ele ficasse lhe olhando em silêncio por muito tempo, e abriu a mochila que trazia pendurada no ombro.

— Vou passar uns dois dias fora— contou.— Como eu já tinha terminado, resolvi te devolver.

— Oh, você já leu?— Luka exclamou admirada. —E o que achou?

— Odiei os bichos da fazenda. Tão cegos e burros.

— Sabe que os bichos são uma alegoria ao povo, não é?

— O povo, os bichos. Todos burros. Se sabem que estão numa ditadura, por que não a derrubam e pronto?

—Que espírito revolucionário. Queria te ver repetindo isso na frente de um exército nazista.

— Repito numa boa. Alemão é minha segunda língua, sabe.

Ela sorriu outra vez, de um jeito doce que só ela tinha.

Meito podia ficar horas admirando-a, mas tinha consciência de que diversos fatores o impediam, e um deles era o grupo de colegiais que os espiava curioso, na saída da escola. Em especial o rapaz de uniforme, que lhe vigiava desconfiado.

Será que estaria interessado em Luka também? Meito não duvidava. Na verdade, achava estranho nunca tê-la visto com ninguém desde que a conheceu. Mas ao menos daquela vez, o seu pretendente parecia mais viável. Tinha boa aparência e um jeito inteligente, e as garotas se portavam de modo quase reverente perto dele. Talvez com ele Luka tivesse mais chance de ser feliz. Talvez ele pudesse cuidar bem dela. Talvez...

“O que estou pensando?” Ele disse a si mesmo indignado. Não queria Luka com mais ninguém. Não queria que nenhum outro homem ousasse pôr os olhos nela. Em seu pequeno acesso egoísta ele desencostou-se da motocicleta e abraçou a garota, suavemente, mas envolvendo-a completamente em seus braços.

— ...Meito?!

Ela murmurou espantada, as mãos segurando o livro entre os corpos deles.

— Que foi? Ah, desculpa— ele soltou-a devagar, mas sem diminuir a aproximação entre eles.— Você me abraçou uma vez, achei que estava na hora de retribuir.

— Ah... A gente não fica devendo essas coisas, seu bobo— ela resmungou, completamente sem graça.

Meito sorriu, devia tê-la avisado antes. Mas como ia fazer, chegar perto dela e cochichar em seu ouvido, “Luka, não estranhe, mas eu quero te abraçar agora”. Sacudiu a cabeça, achando a ideia bastante imbecil.

— Bem, vou indo— disse ao subir na moto. — Se cuide.

— Você também.

Depois que ele partiu, as colegas vieram ao encontro de Luka, agitadas.

— É ele, não é...?

— Ele é lindo!

— E tem uma moto...!

— Ele é lindo mesmo!

— Ei Luka-san, é ele, não é?

— Quem é ele, Megurine-san?— o presidente da classe indagou.

Ela voltou-se para os colegas, o livro ainda preso em seus braços.

— Ele é meu senpai de outra escola— mentiu cabisbaixa, e então saiu correndo, deixando todos absolutamente confusos.



A pressão para Meito sair da cidade estava ficando cada vez maior. Seus chefes insistiam que o receptador deles na capital não podia mais esperar.

— A cidade é deles, aniki— seu inseparável colega estabanado lhe aconselhava.— Se vai desobedecer os chefes, é melhor procurar outra organização e outro lugar pra trabalhar. Estando aqui, o melhor a fazer é obedecer o pessoal e ir pra onde eles te mandarem.

A escolha também parecia razoável para Meito, embora ele simplesmente não quisesse fazê-la – deixar Luka para trás era algo que ele não admitia. Continuou a adiar sua partida pelo máximo de tempo que pôde.

Naquele meio tempo Luka já tinha feito o vestibular, e apenas aguardava o resultado. Ele veio num fim de tarde enevoado, que por coincidência era o prazo final para a partida de Meito. O rapaz arrumou seus poucos pertences, apanhou a moto e deixou o condomínio arruinado e barulhento para trás. Seu plano inicial era partir de repente, fazer Luka odiá-lo por ele ter sumido outra vez e assim resolver aquela história. Mas quando deu por si, já tinha estacionado a moto bem em frente à casa dela.

O local era o único iluminado na rua. Do andar de cima, onde ficava a sala de estar, podia ouvir vozes femininas tagarelarem sem parar. Decerto eram as amigas dela, que vinham ouvir o resultado na rádio local. Meito mal podia ouvir a voz de Luka em meio a balbúrdia, mas não quis chamá-la. Preferiu ficar ali parado, como que esperando o resultado também.

Ele não demorou muito. Uma explosão de gritos rompeu na sala, e ele sorriu feliz. Ela tinha conseguido. Era a garota que ele amava.

Podia ir embora naquele momento, mas então ouviu o barulho da chave na fechadura. Ele viu a porta abrir-se, e a avó da garota surgir envolta num xale cinzento.

— O que faz aqui, rapaz?

A voz dela soou serena e tranqüila abaixo do som dos festejos na sala. Meito baixou a cabeça; a última pessoa que gostaria de encontrar era a avó de Luka. No entanto, já estava de saída mesmo e não tinha muito o que perder.

— Vim dizer a ela que estou indo embora— contou.

A senhora assentiu sem nenhuma expressão.

— Vocês vinham se encontrando muito esses dias, não.

Meito quis falar, mas não soube o que dizer. e

— Ela está bem, é só o que importa— ela encerrou o assunto.

O rapaz anuiu em silêncio, voltando a olhar pela janela.

— Ela passou, não foi?— comentou.

— É a Luka-chan. Por que a surpresa?

Ele sorriu suavemente. — Tem razão.

Ia pegando o capacete para ir embora, quando a velha senhora o interpelou novamente.

— O que está fazendo?

— Estou indo embora— ele repetiu pacientemente.

— Luka-chan sabe disso?

— Não, eu não tive tempo de contar. A senhora pode fazer isso por mim?

Ela lhe olhou com uma súbita expressão indignada. — Ora, conte você mesmo!

E sumiu no interior da casa.

Meito olhou para ela sem entender. Quando percebeu que ela tinha ido chamar Luka, a garota já vinha descendo as escadas e corria ao seu encontro.

— Onde você está indo?

— Luka, eu...

— Por que não me disse antes?

— Luka...

— Por que...

— Luka, me escute— ele a segurou pelos ombros.

A garota estava extenuada pelas diversas emoções que a assaltavam. Naquele momento, tudo o que podia fazer era olhar para o rapaz, cheia de tristeza e apreensão. —Você não vai voltar, não é?

— Não, Luka...— ele pôs a mão sobre sua cabeça gentilmente.—É provável que não.

— Não vamos nos ver de novo, então?

— Eu não sei. Mas acho que vou ter que passar um bom tempo longe.

Ela balançava a cabeça maquinalmente, como se quisesse reforçar que entendia. Mas seus olhos estavam extremamente tristes, perdidos num ponto oculto para Meito. Ele acariciou seu rosto, fazendo-a voltar a atenção para ele.

— Luka, eu sinto muito. Mas eu tenho que fazer isso.

— Sim... certo.

— Me promete que vai ficar bem?

— Eu vou— ela sorriu fracamente, como se não acreditasse muito.

— É sério Luka— ele insistiu.— Por favor, fique bem. Cuide de sua avó, e estude bastante. E encontre alguém de quem você goste, e seja muito feliz com ele. Está me ouvindo?

— Eu não posso.

— Luka...

— Você está indo embora.

Ele a olhou sem entender por um momento. Luka decidiu que o momento pedia menos palavras e mais ações pra que se fizesse entender, e puxou-o pela gola da jaqueta, na direção dela.

Os dois se encararam trêmulos, seus rostos muito perto do outro. E então, ambos entenderam.

O beijo foi só para confirmar.

As garotas começaram a enviar vivas de comemoração da janela; obviamente assistiam tudo desde o começo. Luka sorriu embaraçada, e Meito a puxou para uma passagem mais escura da rua, longe dos olhares curiosos das garotas.

Ali eles deram vazão aos seus sentimentos. Meito a pressionou de leve contra a parede velha, protegendo as costas dela com seu braço, enquanto lhe acariciava o rosto, sentindo arrepios enquanto os dedos dela passeavam pelo seu pescoço e sua nuca. Como era bom finalmente poder sentir o gosto dela, puro e doce e quente, enquanto ela, ainda inexperiente, tentava acompanhar seu ritmo. Ele até queria ir mais devagar, mas era impossível. Seus lábios devoravam os dela sedentos, sua língua roçava com força na dela, sugando-a de tempos em tempos.

Ela mesma não parecia disposta a ir devagar, apesar de ser seu primeiro beijo. Estava extasiada o suficiente para acompanhá-lo, para lhe dar tudo o que ele precisava, para ter dele tudo o que queria. Sentia o cheiro de sua pele, o calor de seu corpo, lhe pressionando com cuidado e desejo enquanto ele lhe puxava pela cintura, lhe acariciando ali e fazendo-a ofegar.

— Luka...— ele murmurou rouco em seu ouvido, passando os lábios pelo seu rosto enquanto recuperava o fôlego.

Ela sentia ter perdido a fala por alguns segundos, respirando rapidamente e com alguma dificuldade. Quando pôde se acalmar, seus braços enlaçaram o pescoço dele e suas bocas se encontrando naturalmente. Dessa vez ele pôde controlar sua avidez e ir com mais calma, deixando Luka explorá-lo aos poucos. A jovem pousou as mãos sobre o peito dele, delicadamente, entreabrindo os lábios dele nos seus, a língua buscando a dele, hesitante e desejosa. Sentia o coração acelerar como nunca antes; ambos sentiam.

Ela partiu o beijo levemente, descendo os lábios pelo pescoço dele enquanto aspirava seu perfume, e passou a beijá-lo ali.

— Quem é a vampira agora?— ele sussurrou, sentindo os lábios dela se retraírem num sorriso.

— Meito— ela murmurou, acariciando o rosto dele.— Achei que você não gostava de mim.

— Era o que eu pensava de você.

— Bela hora pra descobrir que estávamos errados, não?

Ficaram alguns minutos em silêncio, abraçados, se acariciando lentamente, perdidos um no outro. Foram minutos, mas passaram como segundos para eles.

— Luka— ele disse.— Eu falei sério ainda agora. Viva a sua vida. Não espere por mim.

Ela olhou em seus olhos com um brilho trêmulo. — Não ache que eu vou esperar por você, então— respondeu.

Meito sorriu levemente, beijando-lhe a testa.

— Minha garota— sussurrou. — O que vai estudar na faculdade?

— Música.

— Música? Ah...— ele pôs a mão no rosto, frustrado.— Droga. Queria ter ouvido você tocar mais uma vez...

— Você nunca me pediu.

— Ia parecer estranho se eu te pedisse, não acha?

— Hmm, não... Mas bem, eu tenho quatro anos de estudos pela frente, então cedo ou tarde você vai me ouvir de novo. —Ela fitou-o apreensiva. —Promete que vai ficar vivo até lá?

Meito riu, e beijou o rosto dela. — Não posso morrer, Luka. Sou um vampiro.

Ela o puxou na sua direção outra vez, abraçando-o com todas as forças que tinha.

Voltaram a se beijar com sofreguidão, conscientes de que aquela despedida podia ser definitiva. Ao final ele segurou seu rosto entre as mãos, encostando sua testa na dela.

— Se cuide— pediu em voz baixa.

Ela assentiu em silêncio, a voz embargada. Se tentasse falar acabaria chorando, e ela não ia fazer isso agora. Não era momento de lágrimas. Tinha que ser forte, por ele.

Observou-o montar na motocicleta, e quando lhe entregou o capacete, Meito lembrou de algo e apanhou a mochila.

— Isso é pra você— disse, remexendo no conteúdo. — Por favor, aceite.

Luka pegou o livro nas mãos, lendo o título. Era o Drácula de Bram Stoker.

— Você, hein...— ela riu. —Claro que aceito. Muito obrigada.

Eles se olharam mais uma vez, aflitos.

Não podiam se separar, não agora. Meito engoliu em seco, baixando o olhar, e Luka foi até ele, enterrando o rosto em seu peito enquanto ele a abraçava.

Ela estava bem. Não ia sofrer. Sabia se defender. Sabia se cuidar. Meito podia ir embora tranqüilo, levando essas certezas consigo. Mas aquilo não lhe bastava.

Precisava levar Luka com ele.

Olhou para cima, vendo o olhar severo da velha senhora a observá-los da janela, e imediatamente tirou a ideia da cabeça. Por mais que amasse Luka, e mesmo que ela o correspondesse, o lugar dela não era com ele.

Ela merecia ser feliz.

— Vá para casa— murmurou, soltando-a.

Assim que ela se afastou, ele pôs o capacete e arrancou o mais rápido que pôde, sem olhar para trás. Podia ter visto Luka pelo espelho retrovisor, observando-o até que o perdesse de vista. Mas seus olhos estavam enevoados o bastante para isso.



A garota entrou correndo em casa. Passou direto pelas colegas de sala, sem falar com nenhuma delas. Trancou-se dentro do quarto, o coração acelerado, os pensamentos confusos. Por fim, jogou-se na cama.

Soltou o livro ao seu lado. As páginas folhearam-se no movimento, e ela deteve-se, observando-o comum pouco mais de atenção. Havia algo de diferente nele. E não era o cheiro de Meito, pois ela jamais o encontraria em outro lugar que não fosse em si mesma naquela noite. Estava impregnada com seu cheiro, seu gosto. Se pudesse, ficaria daquele jeito a vida inteira.

Finalmente, encontrou na contracapa do livro o que lhe chamou a atenção.

Escritas em letras trêmulas e vacilantes, duas pequenas palavras estavam ali, formando uma pequena frase que finalmente levou a jovem às lágrimas.

— Seu bobo— ela riu entre soluços.—Foi embora e nem esperou que eu dissesse também...