Loyalty

7 V - Armas e artifícios


A noite a encobria quase por completo. Meito mal podia distinguir a silhueta dela nas sombras, o longo sobretudo precedido pelos cabelos rosados e soltos ao vento. Ouvia o ruído dos pequenos passos na neve, caminhando mais lentamente que de costume.

— Oyasuminasai, Meito-san— ela dizia hesitante, sempre que chegava à última esquina antes de sua casa.

Diante do silêncio que tinha como resposta, apenas se calava e seguia cabisbaixa.

Ele se mortificava com aquilo. Ela podia sentir sua presença, e devia se sentir frustrada com a indiferença dele, até mesmo magoada. Mas era o preço que ele devia pagar, se queria que ela permanecesse segura. Tinha que se afastar, se tornar apenas uma sombra na vida dela.

Era, no entanto, um preço que parecia mais alto a cada dia.



— A grana pelo serviço vai ser boa, hein aniki— um colega de trabalho lhe dizia naquela manhã.

Ele tinha cedido, por uma excelente quantia, os seus serviços como assassino a uma das gangues emergentes da região. Seu trabalho no momento vinha sendo o de eliminar todos aqueles que não quisessem se unir à gangue ou representassem uma ameaça de qualquer tipo à organização.

Além de Meito havia outros empregados, que recebiam pagamentos menores, geralmente condizentes com a baixa periculosidade de suas tarefas. Meito geralmente conseguia resolver sozinho, em poucos minutos e com poucas balas, o que a maioria só conseguia em pequenos grupos e de modo pouco discreto, correndo o risco de atrair a atenção da polícia. E justamente por ser um profissional tão bom no que fazia, Meito podia se dar ao luxo de cobrar um bom pagamento, escolher os serviços que lhe interessavam e recusar aqueles que não batessem com o seu horário. Os líderes da gangue certamente não estavam satisfeitos com um empregado tão voluntarioso; mas nada podiam fazer enquanto precisassem dele. E precisavam muito.

— Só um informante da polícia, que andou sujando a barra dos nossos chefes— Meito respondeu indiferente, enquanto limpava as peças da Beretta que usaria naquela noite. —A casa dele é protegida por uns dez guardas. Mas eu dou conta disso.

— Dez, hein?! Não vai precisar de ajuda não, aniki?

Já fazia um tempo que o colega não arranjava uma tarefa que lhe pagasse razoavelmente bem, e devia estar desesperado para conseguir pelo menos uma parte no pagamento de Meito. O idiota tinha mulher e filhos, mas não largava aquela vida porque não sabia fazer mais nada que lhe garantisse dinheiro fácil.

— Dou conta sozinho— respondeu.— Mas se aparecer alguma coisa, eu lhe aviso.

Ele lhe sorriu agradecido e Meito começou a montar a arma, impaciente. Nunca ia trabalhar com um cara daqueles. Era estabanado e tinha uma péssima mira, e ia mais lhe atrapalhar do que ajudar. Meito decidiu pegar todo o pagamento daquela noite e enfiar na mochila do colega, ou deixar escondido na casa do homem, ia ser o modo mais fácil de ajudá-lo sem se prejudicar. Já fazia um tempo que dinheiro não era um problema para o rapaz, embora nunca perdesse a oportunidade de cobrar taxas exorbitantes de seus empregadores.

Só havia uma pessoa a quem ele realmente gostaria de dar aquele dinheiro, alguém que precisava tanto quanto o seu colega. Mas essa pessoa, sabendo como Meito havia conseguido aquele dinheiro, jamais aceitaria.

Aquele acabava sendo um dos motivos pelos quais ele a adorava.

— Ele só vai estar em casa às onze, não é?— o colega lhe lembrou. — Você não tem compromisso a essa hora?

O colega conhecia a rotina noturna de Meito durante a semana. Não sabia exatamente o que ele ia fazer na rua naquele horário, mas sabia que era um compromisso inadiável e a razão pela qual ele recusara vários serviços no mesmo horário.

— É, mas vou terminar a tempo— ele disse rápido, como que para encerrar o assunto, e afastou-se para procurar pentes de balas no depósito de armas.

A repartição da gangue, onde os assassinos contratados se reuniam com seus chefes para trocarem informações e receberem novas ordens, ficava numa casa insuspeita, num bairro residencial da cidade. Por um acaso terrível para Meito, ficava a poucas quadras da escola onde Luka estudava. Como se concentrar sabendo que ela estava tão perto dali?

Enquanto ele recolhia balas e carregava a arma, pensava no serviço de mais tarde. De fato, seria exatamente no horário em que ela sairia do trabalho. Será que era seguro confiar na reputação dela entre os marginais como a “protegida” de Meito? Talvez ela conseguisse voltar para casa sozinha e não aparecesse ninguém para perturbá-la. De fato, fazia tempo que ninguém aparecia. E quem teria coragem de fazer algum mal a ela, mesmo sabendo que seu protetor estaria ausente naquela noite? Ninguém sensato ia querer mexer com um assassino reconhecido como um dos melhores da região, e possivelmente o melhor da cidade.

Mas nenhum pensamento racional conseguia acalmar seu coração agora. Luka estaria sozinha e indefesa, na primeira hora perigosa da noite, e ele estaria a quilômetros de distância. E provavelmente não seria a primeira vez que aconteceria, por mais que ele fizesse para estar ao lado dela. Teve que aceitar a tarefa daquela noite porque já havia recusado muitas outras, mais do que a boa vontade de seus empregadores deveria permitir. Aquilo com certeza se repetiria. Imprevistos aconteceriam. E Luka cedo ou tarde estaria sozinha.

Talvez sim, ele disse a si mesmo, travando a arma e colocando-a na mochila, uma ideia nascendo em sua mente e se fixando mais a cada segundo...

Talvez ela acabasse sozinha em algum momento.

Mas não significava que ela tivesse que estar indefesa.



— Ele gosta de você.

— Impossível.

— Está escrito na cara dele, Luka. Toda vez que ele olha pra você, fala com você... Acha que a gente não percebeu?

— Eu não percebi. Aliás, nem sei do que você está falando.

Mentira, Luka refletiu apreensiva. Sabia perfeitamente do que sua colega de caixa falava. O filho do dono do café passara a freqüentar o local havia mais ou menos um mês, e seu interesse em Luka era óbvio. O rapaz tinha a sua idade e seus pais viam com bons olhos a aproximação dele com a jovem, a quem eles estimavam bastante.

Mas por mais gentil e atraente que ele fosse – o que de fato ele era – ou que sua família apoiasse uma possível relação entre eles, Luka simplesmente não conseguia esquecer Meito. E quando pensava que não queria se envolver com alguém que talvez a fizesse feliz, para continuar se prendendo às ilusões que mantinha com alguém que sequer falava com ela, Luka sofria terrivelmente. Seu coração não a deixava se aproximar de mais ninguém. Estava totalmente dominado por seus sentimentos por Meito, mesmo não-correspondidos ou sequer notados pelo jovem assassino.

Estava perdida naquelas reflexões quando ele apareceu no café, e a jovem mal pode lhe dar atenção, tal era o desconforto que sentia. Por que não podia simplesmente se apaixonar por ele? Foi tão fácil gostar de Meito. Por que não podia simplesmente esquecê-lo agora?

Quando o relógio bateu as onze horas, os funcionários começaram a fechar o estabelecimento. Luka já ia saindo quando o rapazinho se ofereceu para acompanhá-la. Tinha um ar sério, decidido e um tanto ansioso naquela noite, e a garota pressentiu que problemas viriam pela frente. Com uma voz trêmula ela aceitou, e os dois seguiram sozinhos noite adentro.



Como Meito previra, havia exatamente dez guardas ao redor da casa de seu alvo. Ele conseguiu eliminar a maioria à distância e só precisou recorrer ao confronto direto com um deles. Um único golpe de punhal, limpo e certeiro, na garganta do policial, e não havia mais nada entre ele e o alvo. Para este, um advogado iniciante que achou que estaria seguro entregando nomes de mafiosos à polícia, reservou uma bala no peito e três na testa – garantia de que ele sequer viraria um vegetal depois daquilo. Quando terminou, o relógio apontava as onze e meia. Ele subiu na moto e foi voando para o subúrbio.

Estacionou o veículo num local seguro e atravessou correndo o caminho de costume. Luka não estava em parte alguma. Geralmente ela levava pouco mais de meia hora até chegar em casa. Meito avançou até a última esquina antes da casa dela e aguardou por alguns minutos. Caso não a visse, bateria na porta. Se a avó dela lhe dissesse que ainda não havia chegado, ele apanharia a moto e bateria o bairro inteiro, até achá-la.

E para o bem de quem quer que tivesse causado o seu atraso, esperava encontrá-la ilesa.

Passaram-se cinco minutos e ele já ia atravessar a rua na direção da casa, quando ouviu passos vindos de uma rua transversal, que também levava até aquela proximidade. Ele se ocultou nas sombras e pôde distinguir a silhueta de Luka, delineada na névoa branca que o poste de luz lançava na rua. Vinha acompanhada de um vulto masculino, que não parecia estar lhe coagindo ou fazendo mal de qualquer tipo. Os dois se curvaram levemente em despedida e ela atravessou a rua rapidamente.

Meito a observou parar diante da porta e ficar ali, de costas para ele. Estava de cabeça baixa, e estremecia sob o frio da noite. Ela procurou a chave na bolsa e parou novamente, e Meito pensou ter ouvido um soluço. Ela tirou a chave e um lenço, com o qual enxugou os olhos rapidamente, e respirou muito fundo antes de finalmente entrar em casa. Intrigado, o rapaz esperou ela fechar e trancar a porta, e se infiltrou novamente entre as casas arruinadas da rua. Logo alcançou o caminho transversal que a garota usara para chegar, e dali pode ver o rapaz que tinha feito companhia a ela. Reconheceu o filho dos patrões de Luka, e então começou a entender a mudança de rota dela naquela noite. Talvez não quisesse que Meito escutasse o que ela e o rapaz teriam a conversar. Felizmente, de fato ninguém se atreveu a encostar o dedo nela. Mas nada mudava o fato de que ela chegou em casa chorando, e o provável culpado foi a sua companhia daquela noite.

Ele o fitou com uma leve faísca de ódio, enquanto o rapaz descia pela rua e seguia na direção do centro da cidade. “Espero que consiga chegar lá inteiro”, Meito pensou enquanto o deixava e mudava de caminho. “Assim, se tiver feito algo à Luka, vou poder acabar com sua raça.”

Apanhou a moto e chegou em casa minutos depois. Continuava morando no distrito afastado e dominado pelo crime. Sentia que ali era o seu lugar, cercado pela selvageria dos marginais que ali viviam. Não tinha direito a nada melhor, e nem se sentiria tão em casa em outro lugar.

Na verdade havia outro lugar. Mas ele jurou que, enquanto pudesse, não voltaria a pisar os pés ali.

Ele tirou as roupas salpicadas de sangue, bebeu uma dose de uísque barato e se jogou na cama, caindo num sono imediato e sem sonhos.



Luka se conteve o máximo que pôde, na noite seguinte. Estava voltando para casa e já tinha passado três quadras, quando seu coração passou a retumbar no peito. Não conseguiria mais.

— Meito-san...— disse numa voz fraca. Então parou no meio da rua deserta, limpou a garganta e ergueu a cabeça, tentando recuperar a firmeza nas palavras. — Meito-san. Por favor. Sei que está se afastando de mim porque quer me proteger, e respeito isso. E agradeço. Por isso, não vou insistir pra que apareça. Sei que está por perto, e isso me basta.

O rapaz ouvia, curioso, imerso nas sombras de um casebre abandonado. Na verdade era sua intenção interpelá-la naquela noite, mas o chamado súbito dela o fez parar para ouvi-la antes.

— Eu não voltei ontem pelo caminho de sempre, porque...

Luka respirou fundo, puxou as dobras do sobretudo para junto do corpo e olhou ao redor. Estava visivelmente nervosa, e parecia que vinha se atormentando há um tempo com o que tinha a dizer. Porém, também não estava disposta a desistir naquele momento.

— Não vim por esse caminho porque uma pessoa quis me fazer companhia— disse de uma vez. —Eu sabia que ele tinha algo pra me dizer em particular, porque essa pessoa está interessada em mim. Sinto muito se você me esperou por muito tempo, eu não tive como te avisar. Foi muito repentino, e...

— Me avisar?— Meito não se conteve, surpreso. —Era com isso que você estava preocupada?

Ela voltou-se para trás, na direção de onde ouviu a voz dele. Tinha ótimos reflexos, ele pensou.

Luka o viu surgir das sombras, a luz fraca do poste iluminando os cabelos castanhos e o pó de concreto que sujava os ombros da jaqueta escura. Engoliu em seco, tentando conter um sorriso de felicidade, e baixou a cabeça.

— Sim,— disse trêmula— eu não queria te deixar esperando, ou achando que algo tinha acontecido comigo, ou...

— Se eu achasse que algo tinha acontecido com você, não ia ficar esperando por muito tempo, garanto— ele disse, aproximando-se.

A garota ergueu o rosto para ele, sorrindo – o sorriso que ele amava, a garota que ele amava. Teve que se conter a muito custo para não tomá-la nos braços naquele momento. Não foi só a Luka que a saudade havia martirizado, naqueles meses que passaram sem se ver.

— Eu... sinto muito— ela baixou a cabeça novamente, pesarosa.—Não vai acontecer de novo.

— Pelo contrário— ele disse num tom sério.— Pode, e vai acontecer de novo. Pra falar a verdade, ontem eu também não pude vir fazer a vigília. Estive ocupado, uma boa parte da noite.

Ele se conteve, antes de dizer que tinha conseguido vê-la chegar em casa. Luka saberia que ele a tinha visto chorando, e ele não queria deixá-la mais insegura do que ela estava agora.

— Ah...— ela murmurou aliviada, como se a informação lhe tirasse um peso dos ombros.— Acho que está tudo bem, então.

— Não Luka, não está. Mesmo acompanhada, você ainda estava desprotegida.

— Mas não aconteceu nada ontem.

— Mas podia ter acontecido. E pode acontecer daqui pra frente. Luka, eu não posso estar sempre ao seu lado quando você precisar. Mas posso fazer com que, ao menos, você não esteja tão indefesa quando for preciso se defender sozinha.

— ...Hã?

Podia ver a expressão dela mudar da surpresa para o temor enquanto ele tirava uma pequena semi-automática da jaqueta e tomava a sua mão, fechando a arma entre os dedos dela.

— Quero te ensinar a usar isso. Você aceita?

Luka ofegou, dando um passo para trás, tomada pelo susto. Porém ao se afastar, seus dedos continuaram envolvendo a coronha da pistola, mesmo que o braço pendesse penosamente com aquele novo peso em sua mão.

— Eu... Eu não sei, Meito.

Estava visivelmente indecisa, e Meito percebeu que apesar de assustada, ela estava considerando a ideia. Senão, teria lhe devolvido a arma na mesma hora. Ele apanhou a pistola de volta, puxou o pente e o guardou na jaqueta, devolvendo a ela a arma vazia.

— Não vai machucar ninguém com ela do jeito que está— disse. — Leve pra casa e pense nisso. Me dê uma resposta amanhã.

Luka apanhou novamente o objeto, sentindo o metal frio contra a palma da mão. Assentiu em silêncio, e guardou a arma na bolsa.



“Duas semanas devem bastar.”

Ele pensava isso, apanhando algumas munições extras no depósito. Apenas seu colega estabanado sabia que ele estava ali; mas o homem tinha sua dignidade, e não trairia a única pessoa na organização que se importava com ele e sua família. Meito havia requisitado duas semanas de licença aos seus chefes, que o atenderam sem problemas – a eliminação do advogado de língua solta realmente havia lhes deixado de bom humor.

Naquele tempo esperava que Luka pudesse não se tornar uma atiradora profissional, mas ao menos ser capaz de deixar de se tornar alvo dos outros, e fazer deles seu alvo. Ele sabia que aquilo era uma quebra no acordo que fizera com a avó da jovem, mas mesmo ela admitiria que era por uma boa causa, se soubesse.

Porque, é lógico, ela não sabia.



Luka apanhou sua bolsa e o estojo do violino, avisando a avó que estava de saída. Tinha almoçado apressadamente depois de chegar da escola, enquanto contava que ia dar aulas de violino a uma amiga do trabalho. A amiga já tocava, mas queria de aulas de reforço; só precisaria de umas duas semanas para se aprimorar junto a Luka, que tocava havia mais tempo que ela. Disse também que passaria em casa antes da hora do trabalho.

— Você deve ser mesmo uma professora extraordinária, se consegue ensinar violino sem usar um— a velha senhora sorriu levemente depois que a neta saiu, observando o instrumento esquecido sobre a cama dela.

“Duas semanas” ela pensava aflita, descendo a rua. “Só duas semanas, baa-chan. Prometo que vou parar de mentir pra você.”

A mentira a afligia, assim como o treinamento em si. Nunca se imaginara ferindo alguém, nem sequer usando uma arma. Na verdade, tinha um medo profundo de tudo o que fosse capaz de tirar uma vida com apenas um dedo num gatilho. Mas precisava reconhecer que a situação não lhe permitia dar espaço aos seus medos. Meito não estaria ao seu lado a vida inteira. E se continuasse a viver num lugar como aquele, que se tornava mais violento a cada dia, cedo ou tarde ela seria atacada novamente.

Precisava estar pronta para quando esse dia chegasse. O dia em que teria que se defender, ou mesmo à sua avó. E se era Meito quem se propunha a treiná-la pessoalmente, tanto melhor.

Ele a esperava de moto, no fim da rua deserta. Luka sorriu e apressou o passo. “Duas semanas”, ela pensou novamente.

“Duas semanas”, ele pensou. E ambos pensavam na mesma coisa.

Naquelas duas semanas, de um jeito ou de outro, eles estariam juntos.