Loyalty

11 O Chacal Marrom


Antes que pudesse se dar conta, três anos haviam se passado na vida de Kiyoteru.

Ele e Kaito se formaram na academia e passaram a trabalhar na polícia civil da Costa Oeste. Era uma região tranqüila, de modo que para iniciantes como eles, recém-saídos de um árduo treinamento, o começo de sua carreira policial estava sendo um tanto “parado”.

Não que Kaito em especial odiasse isso. A cidade costeira era voltada para o mar, onde gostava de ir quando estava de folga. Às vezes levava Kiyoteru, mas nem sempre conseguia fazer o moreno sair do apartamento alugado, o que considerava um desperdício de tempo livre, além de uma tremenda criancice.

Se Kaito não o amasse tanto, já teria largado Kiyoteru, por causa do medo ridículo que o moreno tinha de andar ao seu lado em público.

Ambos tinham se mudado para apartamentos vizinhos. Mesmo Kaito tendo insistido para que simplesmente dividissem um único aluguel, Kiyoteru desculpou-se dizendo que havia acabado de sair da casa dos pais, e queria saber como era viver por conta própria. Ter ido morar vizinho a Kaito era uma tentativa de não magoá-lo, o rapaz de cabelos azulados sabia. E entendia, e aceitava. Seu namorado era um idiota no fim das contas. Ele também entendia, e também aceitava.

O que mais isso pode ser além de amor, Kiyoteru pensava. Imaginava se alguém no lugar dele seria tão tolerante aos seus caprichos, se ele mesmo seria. Ninguém além da irmã de Kaito sabia deles dois. Mesmo Tianyi não entendia a determinação quase desesperada de Kiyoteru em encobrir seu romance, mas não deixava de ser solícita e discreta com eles. O resultado era que ninguém sequer desconfiava que Kaito e Kiyoteru estivessem juntos, o que o moreno achava perfeito, mas não era egoísta a ponto de saber que aquela situação incomodava Kaito.

Eles se amavam, oras. O que havia de mal naquilo?

Nada, Kiyoteru pensava. Mas o resto da corporação policial e uma boa parcela da sociedade parecia ver males inimagináveis numa relação amorosa entre dois homens. E o grande infortúnio era que, por mais irrelevante que aquele detalhe fosse para Kaito, Kiyoteru por sua vez o via como de extrema importância. Não queria que eles fossem discriminados por se amarem. Não queria que Kaito sofresse por causa dele. Esconder do mundo a existência daquele amor era uma maneira, muito torta aliás, de tentar protegê-lo.

E Kaito entendia. Não concordava, claro – nem era obrigado a concordar. Mas aceitava. Nos últimos anos, pelo menos, vinha aceitando da melhor maneira possível.

Com o tempo, porém, as coisas foram se tornando insustentáveis.

O estopim veio depois da separação de Tianyi e seu marido. Num belo fim de tarde, quando a brisa marinha soprava no corredor aberto do pequeno prédio, Kaito havia acabado de chegar de sua ronda e batia à porta de Kiyoteru, que se preparava para trabalhar dali a uma hora.

Os horários dos dois raramente batiam, o que de certa forma intensificava aquela relação. Tanto os sentimentos e o desejo, quanto o inconformismo de Kaito em ter que se esconder do mundo, e a determinação de Kiyoteru em manter o sigilo para protegê-los.

Ambos podiam até prever que aquilo não os levaria muito longe, mas não imaginavam que tudo fosse se complicar tão cedo.

— O que aquele idiota fez?— Kiyoteru indagou da pequena cozinha, enquanto preparava chá para os dois.

Kaito tinha se largado no tatame de vime da sala, exausto. Os problemas da irmã pareciam pesar sobre ele, como se fosse ele a estar sofrendo.

—Nada, — respondeu num suspiro— pelo menos não diretamente. Tianyi-chan e ele sempre se deram bem, mas a verdade é que a Aoki era o que mantinha os dois juntos. Ela só se casou porque estava grávida, e porque queria desafiar nosso pai, eu acho. Mas amor mesmo, não tinha naquele casamento. Eles seguraram até onde deu.

— Que barra.

— É, e o pior é que ele quer ficar com a Aoki. Tianyi está sem emprego agora, e quer fazer de tudo pra não precisar recorrer aos nossos pais. Ela vai se mudar pra outra cidade com a Aoki e procurar emprego por lá. Vai ter que conseguir logo, porque se não puder sustentar ela e a filha, o pai da menina fica com a guarda dela.

Kiyoteru resmungou inconformado, enquanto ia para a sala e sentava ao lado do rapaz no tatame. —Acha que ela consegue emprego?

— Sim, ela falou com uma amiga que trabalha numa fábrica de enlatados. Só está esperando a resposta pra sair.

Ele passou as mãos pelos fios azulados. Kiyoteru terminou de servir o chá e os dois beberam juntos em silêncio, imersos nos próprios pensamentos.

— Eles pareciam se dar tão bem, das poucas vezes em que os vi juntos pelo menos— o Hiyama comentou.

— Pois é— Kaito disse.— Sustentar uma mentira por tanto tempo... É mesmo de se admirar.

Kiyoteru observou desconfiado ele dar um sorriso amargo, enquanto bebia o chá. —Não podia ser uma mentira— ponderou.— Eles ainda eram um casal.

— Bom, talvez sim. Ela pelo menos nunca soube de amantes dele, e ela mesma nunca teve algum. Mas talvez eles serem um casal ou não nem fosse o problema. O fato é que ela não suportava mais viver do lado dele.

— Como assim?— ele perguntou sem entender.

— Ele a sufocava. Mal lhe deixava sair com as amigas, não deixava que tivesse amigos homens. Imagine ter que conviver tanto tempo com alguém que acha que é seu dono, que controla sua vida, seus horários, que se sente no direito até de criticar sua família...

Ele parou e bebeu mais um pouco do chá fumegante, diante do olhar estarrecido de Kiyoteru.

— Eu não sabia disso— o moreno comentou, ainda assimilando a informação. Ergueu os olhos para Kaito de repente.— Espere, o que ele falava da família de vocês?

O rapaz continuou a beber em silêncio, e Kiyoteru engoliu em seco.

— Por acaso ele...

— É isso que quer saber?— Kaito depositou a xícara vazia sobre o tatame, com um pouco mais de força do que seria necessário.— Sim. Ele descobriu sobre nós. Tianyi não contou nada a ele, mas o cara é aquele tipo de idiota que não pode ver dois homens juntos e começa a falar merda. E como sempre íamos juntos pra lá, ele formou logo uma opinião a nosso respeito. Mas Tianyi sabia que as brincadeiras maldosas dele eram verdadeiras, e por isso, não agüentou ver o irmão sendo desrespeitado daquele jeito. Pode-se dizer que foi a gota d’água que ela precisava pra dar um fim no casamento.

Ele voltou o olhar para Kiyoteru, que o encarava estarrecido. — Quer dizer que... nós dois juntos somos como uma placa de neon, é isso? Qualquer babaca que preste um pouco mais de atenção vai descobrir que nós...

— Bem vindo ao mundo real— Kaito disse bruscamente.— Devia ter entendido isso antes, não é? Não temos nada de especial. Estamos sujeitos ao julgamento dos outros, como qualquer um.

— Mas isso é injusto.

— Não sei quem te disse que a vida era justa— Kaito levantou-se, levando a xícara para a cozinha.

O moreno tirou os óculos e esfregou os olhos. Encarou o bule de chá, e um suspiro fundo escapou de seus lábios.

— Não é como se eu não soubesse disso— falou devagar.— Claro que os outros podem pensar o que quiserem de nós. Desde que não tenham certeza... por mim não tem problema.

Kaito virou-se para ele, sem se afastar da pia.

— Claro que não. É isso que importa, não é.

O sorriso amargo e irônico dele irritou o Hiyama por um momento.

— Qual é— ele exclamou.—Sabe do que estou falando.

— Eu sei. E você sabe que eu sei.

Ele desfez o sorriso e baixou o olhar. Kiyoteru não lembrava de tê-lo visto tão chateado antes.

— É por nós dois, Kaito-kun— ele murmurou, se aproximando dele, sua mão tocando o rosto do outro devagar.— É pra nos proteger.

— E onde essa proteção toda vai nos levar, Kiyo-kun?— Kaito não o olhava nos olhos.— Vamos envelhecer assim, tendo medo do que os outros vão pensar de nós?

— E o que você quer fazer?

— Você sabe.

Kaito ergueu o rosto para ele e o encarou nos olhos. — Eu enfrento o mundo inteiro por nós dois, Kiyo-kun. Por você. Só que ás vezes acho que... você não está disposto a fazer a mesma coisa.

Kiyoteru o soltou de repente.

— É isso que você acha?

— Tem como você me dizer o contrário? Fica falando em nos proteger, em nos preservar. Sempre fizemos isso do seu jeito, mas eu estou cansado disso.

— O seu jeito pode acabar com nossas vidas— Kiyoteru retrucou magoado.

— Só se deixarmos— ele exclamou aflito.— Como vamos saber, se nunca tentamos? Sempre ficamos em nossa zona de conforto, entre quatro paredes. Isso não é vida, Kiyo-kun. Merecemos mais.

— Eu sei disso.

Ficou em silêncio, encarando os próprios pés descalços. — Tenho que trabalhar agora. A gente pode discutir a relação depois.

— Discutir a relação?— Kaito disse indignado.—Não temos relação. Somos vizinhos e trabalhamos em horários diferentes. Somos amigos desde o ginásio. E ás vezes transamos, quando nossas folgas coincidem e você se certifica que não há uma alma viva num raio de cinco quilômetros. Isso não torna o que temos um relacionamento, se quer saber.

— Certo— Kiyoteru respondeu, tentando manter a calma. Resolveu ir para o quarto e procurar o uniforme para vestir.

Era raro entrar numa discussão com Kaito, por conta do temperamento tranqüilo do outro. Mas sempre que o fazia, o sangue dele fervia e seus pensamentos ficavam confusos. E sempre que discutiam, era pelo mesmo motivo.

— Olha, as coisas ficariam muito mais simples se você simplesmente admitisse.

— Admitir o quê, Kaito-kun?

— Que você é um covarde.

Ele virou-se para o rapaz, que estava na porta do quarto, encarando-o com uma expressão tensa muito rara.

— Sou um covarde— Kiyoteru respondeu.— É isso que quer ouvir? Sou um covarde, porque prefiro proteger nós dois.

— Porque querseproteger— ele o corrigiu rancoroso.— Porque não tem coragem suficiente pra assumir que me ama, pelo menos não pro resto do mundo.

— É, por isso— ele retrucou com raiva.— Eu não tenho coragem. Tenho medo de arruinar sua vida. Tenho medo de arruinar a minha vida. O que vai sobrar de nós dois, se isso acontecer?

Kaito o encarou demoradamente, e então sua expressão serenou. Ele sorriu levemente.

— Desculpe, Kiyo-kun— disse. —Mas o que há de nós dois agora não é o bastante pra me prender mais a isso.

— Onde está indo?— ele exclamou, largando o casaco do uniforme em cima da cama.

Correu até a porta de casa, para onde Kaito se dirigia. Este parou, fitando a maçaneta fixamente.

— Vou morar com minha irmã— contou. — Já solicitei uma transferência aos nossos superiores, só estou esperando que aceitem.

— É mesmo? E quando ia me dizer isso?

— Estou dizendo agora.

Kiyoteru o encarou desolado.

— Então... está me deixando, é isso?

— Não precisa ser um gênio pra saber que isso não vai dar certo— ele murmurou num sorriso triste.— Vou viver minha vida, e deixar o caminho livre pra você viver a sua.

— Sem você?

— É.

Ele suspirou fundo e saiu, deixando um Kiyoteru completamente arrasado para trás.

Ambos permaneceram sem se encontrar e se falar por alguns dias. E então certa madrugada, quando Kiyoteru chegava do seu turno, Kaito estava na porta com uma mochila e uma sacola de viagem.

Ambos se encararam por alguns segundos, até que Kiyoteru chegasse mais perto e o abraçasse.

— Desculpe— murmurou.— Não queria que as coisas chegassem a esse ponto. Desculpe se eu te fiz sofrer.

— Eu quem peço desculpas— Kaito sorriu, envolvendo-o em seus braços.— Não podia ter exigido de você uma coisa daquelas.

— Posso te acompanhar até a estação?

Ambos foram para a estação ferroviária no meio da noite, em silêncio. Suas mãos estavam dadas, e o calor de Kaito fazia o coração de Kiyoteru apertar.

Ia perdê-lo. Só agora entendia isso.

Enquanto esperavam pelo trem, sentados num banco na estação deserta, ambos fitavam o horizonte ondulado pelas serras.

— Eu não posso...— Kiyoteru sussurrou devagar.

O apito do trem soou ao longe. Kaito ergueu-se num reflexo, olhando para o companheiro.

— Não posso, Kaito-kun—ele murmurou desalentado.

— Eu sei— o de cabelos azulados pôs uma mão sobre o ombro dele, observando o comboio se aproximar. — Vai ficar tudo bem, Kiyo-kun.

Quando embarcou, observou Kiyoteru sentado no banco, a cabeça entre as mãos enquanto ele fitava o chão, desorientado. Um sorriso melancólico se formou em seu rosto bonito, mas ele desviou o olhar e seguiu em frente. Era o melhor a fazer.

“Você não entendeu, Kaito-kun.

Eu não posso... viver sem você.

Não vai ficar tudo bem. Eu não consigo lutar contra meu próprio medo, mas também não posso deixar você partir...”

Quando deu por si, estava sozinho na estação, o trem sumindo à distância. O sentimento de solidão oprimiu seu peito e ele engoliu um soluço de tristeza. Ergueu-se e voltou para casa, o rosto banhado em lágrimas silenciosas.

Em seu apartamento, tudo lhe lembrava Kaito. O tatame de vime onde se amaram pela primeira vez, a xícara que ele gostava de usar, até o cheiro dele que ainda pairava impregnado no ar, nas roupas de seu armário, nos lençóis de sua cama. Kiyoteru tirou os óculos e se jogou no sofá, encolhido. Não foi capaz de reprimir novas lágrimas, e enquanto elas rolavam a solidão parecia dilacerá-lo por dentro.

Chorou até adormecer.



Meito acabava de voltar de um trabalho naquela meia-noite.

Havia executado a sócia de uma gravadora musical, que recusara envolver a empresa nos negócios escusos de Kamui Gakupo. Não foi a mais sábia de suas decisões, Meito pensou. Gakupo já havia mandado matar outros por muito menos.

Ele tinha feito a mulher adormecer com clorofórmio, dado-lhe os três tiros no centro da testa e lhe enterrado no fundo de um barranco, por trás de um aterro sanitário abandonado. Normalmente ele não se importava em cortar as gargantas de suas vítimas ou matá-las enquanto elas sofriam; mas quando seus alvos eram mulheres, ele sempre tomava o cuidado de adormecer a vítima antes de executá-la.

Lembrava sempre de Luka e sua avó nessas horas, e a lembrança o fazia proceder daquela maneira.

Ao abrir a porta que dava para a sala às escuras, não se surpreendeu ao ver Gakupo de pé diante da janela à frente, a silhueta alta e elegante recortada contra as luzes da cidade na vidraça. Possuía as chaves das casas de todos os seus subordinados, e costumava entrar nelas sem o menor aviso.— O trabalho está feito— informou Meito, acendendo a lâmpada.

— Ótimo— Gakupo esmagou uma ponta de cigarro num cinzeiro próximo e acendeu outro. —Preciso de você para um novo trabalho.

— Sério?— Meito ergueu uma sobrancelha. —E pra quando é?

— Pra ontem— Gakupo indicou com o dedo um envelope amarelado, em cima da mesa de centro.

O jovem suspirou fundo e sentou-se no sofá, apanhando as fichas de informações que se encontravam no envelope. — São um casal de engenheiros— Gakupo dizia, fitando a cidade, indiferente. — Preciso que sejam eliminados o mais impunemente possível. Faça parecer um acidente, ou algo do tipo. Mas faça o quanto antes.

— Sei— Meito observou por um instante as fotos do casal, seu olhar se detendo nos traços e nas fisionomias familiares deles.— Interessante, nii-san. Eles têm o seu sobrenome.

Olhou para Gakupo, cujo rosto era parcialmente oculto pelos cabelos arroxeados.

— Estão tentando tirar a Gumi de mim— disse apenas.— E agora que ela está ficando conhecida, vão ser mais insistentes. Não os quero por perto.

Gumi, então com onze anos, havia vencido um concurso local de cantoras mirins. Estava de fato se tornando famosa aos poucos. A mulher que Meito havia executado naquela noite seria a provável responsável pela contratação da garota, não fosse o fato da executiva ter sido informada das atividades paralelas de Gakupo.

— Eles são os pais de vocês?— Meito indagou distraído, enquanto passava os olhos pelos dados das páginas.

Gakupo voltou-se para ele, encarando-o friamente

— Gumi não lembra deles— disse.— Eu a tirei de casa quando ainda era pequena. Mantê-la afastada deles foi o melhor a fazer, para o bem dela.

— Ok— o rapaz baixou as folhas, encarando o patrão com firmeza.— O nii-san me deu uma ordem, eu vou cumprir e só. Não preciso de mais explicações.

— Não estou lhe dando explicações— Gakupo replicou seco, franzindo o olhar.— Estou passando as informações que não estão nesse dossiê, para o caso improvável de precisar delas.

— Claro— Meito assentiu, levantando-se e deixando as folhas sobre o envelope.— Vou estar na estrada daqui a umas cinco horas. Preciso de um tempo entre um trabalho e outro.

— Pra quê? Vai rezar pelas vidas que tirou?

Gakupo o observava atento, o cigarro entre os lábios. Parecia genuinamente interessado na resposta.

— Tenho que dormir, só isso— Meito sorriu tranquilamente.— Não preciso de coisas como uma consciência tranqüila pra continuar a matar. Umas horas de sono já me bastam.

O homem concordou de leve, esmagando a ponta no cinzeiro já cheio. Pôs as mãos nos bolsos da calça de linho e se encaminhou para a saída. — Isso faz de você um dos melhores do seu ramo. Me avise assim que completar a missão.

Meito continuou na sala após ele ter saído, concentrado nas fotos de seus novos alvos.

“Estranho ele ter vindo pessoalmente. Normalmente ele mandaria isso por um entregador ou algo assim... Será que é porque são os pais dele?”

Ele sorriu e foi para a cozinha, tomar uns goles de uísque antes de dormir.

“Tanto faz.”