Loyalty

12 O Coiote Pardo


O rosto sorridente de Gumi enfeitava os telões da avenida movimentada.

Todo o país conhecia a garota, que aos treze anos era a idol mais bem-sucedida do momento, com três singles lançados e tendo atuado como dubladora em dois animes. Gumi era um prodígio e a cada dia ganhava mais fãs. Meito perguntou a Gakupo certa vez se ele não via problemas em ter uma irmã famosa, uma vez que aquilo poderia interferir em seus negócios. Mas era uma pergunta retórica. O assassino sabia que, enquanto trabalhasse para o Kamui, seu patrão não precisaria se preocupar com nada.

Pelo menos era assim que Gakupo devia pensar, já que empurrava todos os problemas para cima de Meito e o deixava se virar sozinho, como se ele fosse um mágico ou algo do tipo.

Aquele desgraçado...

Naquela tarde ele havia negociado a venda de alguns lotes de anfetamina com uma pequena fábrica ilegal na periferia. Usava agora o nome Sakerune, pelo qual era conhecido como o melhor assassino na ativa. Gakupo não o requisitava mais para serviços triviais como vigiar sua irmã, mas entregara nas mãos de Meito responsabilidades que não atribuía a mais nenhum subordinado. Meito sabia da confiança que o patrão lhe depositava, e se esforçava para sempre honrar o crédito recebido, mesmo que aquilo não significasse nada para ele.

Em verdade, Meito não gostava de Gakupo. Era um homem volátil e arrogante, que não se contentava até terminar de esmagar as pessoas sobre quem pisava para conseguir o que queria. Era de se admirar como uma criatura tão desprezível pudesse ter educado uma garotinha meiga e adorável como Gumi.

A menina de cabelos verdes aparecia nos telões fazendo propaganda de uma marca de doces. Meito pôs o chapéu sobre a cabeça, enrolou o cachecol no pescoço e levantou da mesa, deixando sobre ela o dinheiro do café. Do lado de fora do restaurante a neve caía em flocos finos, e um vento frio soprava na cidade movimentada e cinzenta. Ele calçou as luvas e foi ao estacionamento local, onde tinha guardado seu Audi preto. Tentou manter a moto o máximo de tempo que pôde, mas nos últimos anos o trabalho vinha exigindo um pouco mais de discrição. Além de um porta-malas, para o transporte de eventuais vítimas.

Cinco anos, pensou, parado no sinal com outros veículos. Nunca havia passado tanto tempo no mesmo emprego. Os dias que pareceram tão arrastados haviam se tornado meses, e antes que ele percebesse, havia chegado na casa dos vinte anos.

Luka devia ter mais ou menos a mesma idade que ele agora. E naqueles anos em que terminaram de amadurecer e se tornar adultos, eles jamais se reencontraram.

Havia um motivo para estar tão reflexivo. Também fazia tempo que não via a avó de Luka, que nos últimos anos desenvolveu uma doença incurável.

Estava agora internada, tendo o organismo monitorado constantemente por aparelhos e sem muita perspectiva de sair dali. A doença atingira seu cérebro, paralisara seu corpo. Seu destino inevitável era perder a consciência em alguns meses, e então permanecer em estado vegetativo, ligada apenas aos aparelhos. Pelo menos, era tudo o que seus informantes puderam apurar.

Também lhe informaram que Luka estava arrasada. Mas isso ele podia imaginar.

Já havia terminado seu trabalho numa cidade vizinha. O hospital onde a senhora estava internada ficava apenas alguns quilômetros adiante, e Gakupo não tinha dado nenhuma ordem de voltar imediatamente. Não era o melhor momento para um reencontro, mas poder apoiar Luka naquela hora era tudo o que ele queria fazer.

No hospital ele se apresentou como um sobrinho da velha senhora. Esta confirmou sua identidade ao enfermeiro, que deixou Meito entrar no quarto.

Quase não reconheceu a senhora. Estava muito magra, as órbitas encovadas no rosto, a pele enrugada era um véu fino e translúcido sobre o corpo frágil. No entanto, sorriu de leve ao fitar Meito, e seus olhos claros viraram-se para o sofá ao lado, convidando-o a sentar.

— É um homem agora— disse devagar, numa voz baixa e apagada.— Não achei que eu fosse vê-lo outra vez...

— Pois é...— Meito tirou o chapéu, rodando-o entre as mãos um tanto hesitante, e afinal sentou-se ao lado dela.— Eu soube que a senhora tinha adoecido, então achei que seria bom vir vê-la...

— Foi bom, sim— ela sorriu.— Obrigada.

Ele calou-se e baixou o olhar, sem saber o que dizer.

Ao seu lado no sofá estavam algumas sacolas de roupas; eram o único elemento colorido naquele quarto branco. O ar recendia a éter, e o silêncio era ponteado pelo bipe constante dos aparelhos ao lado da cama.

— Já viu a Luka?— ela indagou.

Ele voltou o olhar para ela.— Não. Ela está no hospital?

— Pedi para ela ficar em casa essa noite. Fazia dias que não saía do meu lado...

A senhora lhe contou que Luka dava aulas particulares de violino e era integrante da orquestra municipal. No entanto, tinha interrompido todas aquelas atividades para permanecer o máximo de tempo possível no hospital.

— Ela já trabalha tanto – a senhora prosseguia. – Não tinha sequer tempo para sair com o namor...

Ela parou subitamente, um tanto constrangida. Meito assentiu de leve. – Tudo bem – disse. – Minha vida também seguiu em frente.

Afinal, não tinha sido o que ele havia implorado para que Luka fizesse? Seguisse em frente, vivesse a vida dela, encontrasse outra pessoa, não esperasse por ele?

Então, por que aquela pontada incômoda no peito tão de repente?

– Sua vida seguiu em frente...? – ela indagou. – Quer dizer que...

– Não – o rapaz sorriu. – Eu não tomei jeito. A senhora entende, uma vez que a gente nasce nesse meio, é difícil sair.

– Entendo... – ela lançou-lhe um olhar preocupado.

Meito permaneceu mais algum tempo no quarto, enquanto a senhora ressonava calmamente. Vez ou outra uma enfermeira entrava para ver se estava tudo bem; fora isso, nada perturbava o silêncio do quarto, além do ressonar pesado e do bipe eletrônico. O rapaz se encostou na poltrona, observando o teto claro com um ar meio perdido.

Verdade que a vida dele havia seguido em frente. Era o braço direito de um chefe criminoso em ascensão, tinha uma conta bancária no mínimo confortável e havia se aprimorado em suas habilidades, de modo que não era mais o rapazinho que perseguia marginais e protegia sua amada na calada da noite. Matando sob as ordens de alguém, sendo recompensado com dinheiro vivo, mantendo-se fiel ao seu patrão, Meito não era mais um simples assassino de aluguel.

Era um homem perigoso.

A velha senhora devia ter notado isso, ele pensou. Talvez por isso tivesse sido tão clara em mencionar que Luka tinha um namorado. Ela devia adivinhar que a presença de Meito no hospital podia ser uma tentativa dele de se reaproximar da moça. E esse pensamento o preocupou, pois agora imaginava se rever Luka era o melhor a fazer. O que diria a ela? E por que reapareceria assim, do nada, agora que ela parecia ter colocado alguma ordem na vida dela? Então Meito apareceria e bagunçaria tudo. Ele esfregou os olhos e suspirou frustrado. Por que tinha ido até ali afinal?

Após aqueles anos, o sentimento que tinha por Luka ainda era a única coisa que o fazia agir de modo imprudente.

– Ela ia gostar de vê-lo– ouviu a velha sussurrar enquanto dormia.

Meito continuou em silêncio.

“Não sei se seria uma boa ideia.”

Nos dias seguintes, Meito continuou a visitá-la sempre que podia. Esperava o turno de Luka acabar e ia até o quarto, onde a senhora ia definhando rapidamente.

– Às vezes, viver é só um jeito mais doloroso de morrer– ela lhe desabafou certa vez.

Gakupo o convocou para mediar uma negociação entre bandos de traficantes que pretendiam se juntar ao grupo, o que o obrigou a ficar fora da cidade por dois dias.

Quando voltou, teve certeza de que a avó de Luka não tinha muito mais tempo de vida.

– Achei que nunca mais fosse vê-lo– murmurou com dificuldade. –Preciso lhe pedir uma coisa... Cuide da Luka.

– Sim– Meito respondeu firmemente, as mãos esquálidas e enrugadas entre as suas.

– Luka tem um futuro pela frente. Ela não pode parar agora. Ela não pode parar por mim.

As mãos de Meito soltaram as da senhora devagar.

– Não posso prender minha neta a um corpo velho e sem consciência. Não posso deixar... Meito-kun, entende o que quero dizer?

Ele entendia perfeitamente o que aquela mulher à beira da morte cerebral lhe pedia. Sabia que Luka jamais concordaria com aquilo. E sabia que, se alguém teria de fazer aquilo, tinha que ser ele.

– A senhora tem certeza?

Ela virou os olhos para os aparelhos ao lado da cama. Um sorriso meio cadavérico surgiu em seus lábios brancos.

– Já passei da hora de ir encontrar meu marido. Continuar aqui só vai trazer problemas para todos.

A substância escolhida era extremamente letal. Não levava mais que alguns segundos para cair na corrente sanguínea e paralisar o coração. O sistema nervoso era a próxima parada, e por fim, o cérebro por completo. Ela apenas fecharia os olhos, e não os abriria mais.

Meito guardou no bolso o pequeno estojo com a seringa e a ampola, e atravessou a rua que levava ao hospital. Viu um vulto de cabelos rosados passar pelo portão e escondeu-se.

Ela era a última pessoa que gostaria de encontrar agora.

A velha senhora mal tinha forças para olhá-lo quando ele chegou. Meito trancou a porta, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da maca.

– Nunca fiz isso com alguém que eu conhecia– confessou, um tanto soturno.

Ela não parecia ouvi-lo. Seus olhos fitavam o teto, e seus membros estavam rígidos como se ela já tivesse morrido.

– Ela estava linda– disse num fio de voz. –Luka é uma menina maravilhosa.

– É sim– Meito sentiu a garganta apertar de repente.

– Lamentar uma vida que não vivi... Não há por quê. Fiz tudo o que devia fazer nessa vida...

– Claro que fez. A senhora viu a Luka, não viu?

Ela sorriu, uma lagrima caindo pelo canto do olho.

– Obrigada, Meito-kun. Você é um bom rapaz...

Fechou os olhos e respirou fundo, com certa dificuldade. Então mexeu de leve o braço fino para o lado de Meito, a pele quase transparente perfurada pela pequena agulha do soro. Ele retirou o estojo e preparou a injeção, e então substituiu a agulha do soro pela outra.

– Sinto muito– murmurou numa voz estrangulada, enquanto empurrava o êmbolo da seringa. –Sinto muito. Sinto muito...