Loyalty
5 Intermission 1 - Two friends?
Hiyama Kiyoteru não tinha mais que dezoito anos.
Sua aparência transparecia bem a idade que tinha, além de outros aspectos mais pessoais, como a harmonia angulosa nos traços de seu rosto e a elegância natural de seu porte alto, esguio e forte. Era um belo rapaz, e muitos estranhavam o porquê de ele não possuir uma namorada ou noiva a sua espera, fora dos muros da academia de polícia. Apesar de ter tido relacionamentos rápidos no colegial, não conseguiu estabilidade em nenhum deles, ou talvez simplesmente não estivesse buscando por isso. Certamente não era algo que ocorresse por conta de sua personalidade, porque Kiyoteru também não era uma pessoa difícil de se lidar. Era calmo, atencioso, disciplinado. Talvez controlado demais, o que irritava pessoas um pouco mais impacientes.
Felizmente não era o caso de Shion Kaito, seu colega de quarto desde os tempos do colégio interno. Sua personalidade tinha a mesma natureza pacífica e calma de Kiyoteru, embora ele não fosse tão rígido e reservado como o amigo. Mas o conhecia havia tempo bastante para lidar tranquilamente com ele. Kaito era mais expansivo e sociável, tendo um círculo de amizades ligeiramente maior que o de Kiyoteru. Apesar disso e de sua boa aparência – muitos achavam que fosse parente do Hiyama, por terem o mesmo porte e traços parecidos, distinguindo-se em poucas coisas, como a cor do cabelo negro-azulada e os olhos azuis do Shion e os cabelos e olhos castanho-escuros de Kiyoteru – também não se sabia se ele tinha alguém esperando por ele até que se formasse.
E apesar das várias pequenas diferenças entre eles , se havia algo que irritava igualmente esses jovens, belos e pacíficos rapazes, era quando os outros queriam saber sobre as vidas amorosas deles.
― Sério, eu ia perguntar se era da conta dele― o moreno resmungava, deitado na cama de baixo do beliche, enquanto folheava um caderno de anotações mas sem prestar muita atenção a ele.
― E destratar um superior?― Kaito riu, sentado na cadeira da escrivaninha. ―Você está louco?
― Oh, dane-se― Kiyoteru disse.― Pouco me importa se o filho dele está casando aos dezoito, é problema dele. O que eu vou fazer depois que me formar é problema meu.
― Ok, não deixe que se metam em sua vida ―o amigo lhe recomendou cauteloso.― Mas também não vá comprar briga com gente maior que você. A gente tem que se formar antes, não esqueça.
― Tá, tá.
Kiyoteru estirou as pernas longas até que elas encontrassem a cabeceira do beliche, e esfregou os olhos sonolento. Estava bastante cansado, e um tanto aborrecido diante da desconfiança idiota do capitão de sua equipe por ele não ter nenhuma namorada. Como se a rotina extenuante de treinamento e estudos na academia não fossem ocupações suficientes para uma pessoa. Ora, ele arrumaria uma esposa ou o que fosse quando saísse dali. Mas não enquanto ainda dependesse de seus pais e não pudesse sustentar nem a si mesmo.
Felizmente aquela semana particularmente cansativa tinha chegava ao fim. Sábados e domingos eram livres para os recrutas saírem da vila militar. Kiyoteru não costumava retornar à casa dos pais nesses dias, preferindo vaguear pela cidade e voltar à vila para dormir. Às vezes saía com colegas de treinamento, mas seu companheiro das folgas de fim de semana quase sempre era Kaito.
Ele percebeu que o amigo remexia no guarda-roupa, tirando algumas mudas dos cabides.
― Fazendo mala?― indagou.― Vai viajar esse fim de semana?
― Eu falei que ia― Kaito respondeu, dobrando uma calça e pondo dentro da mochila.― Vou ver a minha irmã. É aniversário da filhinha dela no domingo.
Oh. Ele tinha mesmo falado. Como Kiyoteru foi esquecer? Ele esfregou os olhos e deitou de bruços na cama, observando o outro terminar seu trabalho.
― Verdade― murmurou.
Ele rolou sobre a cama, deitando por cima do caderno enquanto contemplava o estrado da cama acima, sentindo-se um tanto frustrado. Tinha um filme estreando naquela sábado, ele tinha planejado ir com Kaito ao cinema para ver. Mas bem, ele devia ter perguntado ao amigo antes. Ir combinando as coisas sem consultá-lo dava naquilo. O que poderia fazer então, além de vadear até a hora de voltar ao quartel?
― Por que não vem também?
Kaito olhou na direção dele. ― Como é?
― Venha também. Você não conhece a minha irmã, né.
― Não...
― Aí, é uma boa oportunidade. Ela vive dizendo que quer cumprimentar a pessoa que me ajudou a sobreviver a matemática no colegial.
― Kaito-kun... ― ele franziu a testa.― Não sei se é uma boa ideia. Você não disse que era o aniversário da filha dela? Eu tinha que ser convidado pra esse tipo de coisa, não?
― A Aoki está fazendo dois anos, idiota― Kaito riu. ― É uma reunião pequena, só a família e amigos. E até onde eu sei, você é um amigo.
― Tá, mas... Eu devia levar alguma coisa pra ela pelo menos, não?
― Mesmo?― O outro lhe lançou um olhar zombeteiro. ―E você lá sabe o que dar a uma criança de dois anos?
― O que seria bom?
― Ué, você quem teve a ideia. Pense.
Ele sentou-se na margem da cama, esfregando os olhos aborrecido. Não gostava daquele tipo de reunião intima, ainda mais quando não conhecia ninguém. Mas não queria negar a proposta de Kaito. Ele podia lhe comer o juízo mais tarde, lhe chamando de antissocial e coisa do tipo.
Por fim decidiu procurar uma lembrança para dar à sobrinha de Kaito no dia seguinte, quando tivessem chegado ao interior. Viajariam cedo para lá, e devia haver alguma lojinha aberta quando chegassem. Até que funcionou bem, pois na manhã daquele sábado os dois tiveram a sorte de encontrar um pequeno estúdio de artigos feitos à mão. Kiyoteru escolheu uma engraçada boneca feita de retalhos, enquanto Kaito, que ainda não tinha comprado nada para dar à sobrinha, decidiu-se por um trenzinho de madeira pintado alegremente.
― Isso não é um carro?― Kiyoteru protestou. ― Vai mesmo dar um carro a uma menina?
― Ela não é uma menina, é uma criança― Kaito argumentou tranquilamente, enquanto esperavam a vendedora preparar os embrulhos para presente. Olhou para o outro lado da rua, e então dirigiu-se à vendedora: ― Ali é uma pousada?
O estabelecimento do outro lado da rua tinha dois andares e era bastante rústico e aconchegante. Kaito explicou a Kiyoteru que passariam a noite ali, já que ele não queria incomodar na casa de sua irmã. Antes que Kiyoteru se sentisse culpado ele explicou imediatamente que sempre fazia aquilo.
― Se fosse a casa dos nossos pais era tranquilo― disse. ―Mas o chefe da casa da Tianyi é o marido dela, entende. Não que ele não seja legal, mas ainda não tenho intimidade o bastante pra passar a noite na casa dele.
Kiyoteru depositou a mochila em cima da cama, àquela altura se sentindo bastante deslocado. A luz matinal entrava no quarto limpo, onde duas camas e um guarda-roupa eram a mobília dominante. Ele olhou pela janela por um momento, vendo a paisagem verde que se estendia além das casas, sobre as montanhas e colinas. Aquela era uma cidade tranquila e muito silenciosa, tanto que lhe permitia ouvir os próprios pensamentos com uma clareza desconfortável.
― Ei― a mão de Kaito repousou no seu ombro, fazendo-o olhar para o amigo sobressaltado.― Tudo bem aí?
― Sim...― ele murmurou, sacudindo a cabeça.
A mão do amigo apertou seu ombro, calorosamente.
― Tinha esquecido como você fica nervoso nessas situações― ele sorriu. ―Mas tente relaxar, ok? Eu também não conheço boa parte do pessoal, mas você vai gostar da minha irmã, e o marido dela é gente boa também. E a Aoki é uma gracinha. até você que não gosta de crianças vai adorar ela.
― Eu nunca disse que não gostava de crianças― ele reclamou.
― Mesmo?― Kaito lhe encarou incrédulo. ―Diga o nome de cinco crianças que você conheça.
Kiyoteru parou por um momento, crispando os lábios aborrecido enquanto o amigo lhe fitava com um ar de ironia. ―Me deixe pensar!
― Esquece isso― ele se afastou para instalar a mochila, atirando-a dentro do guarda-roupa. ―Vou deixar as chaves lá embaixo, traga sacola com os presentes!
Ele o viu se afastar, sentindo ainda a impressão quente da mão dele sobre seu ombro. E se odiou por aquele pensamento. Ultimamente vinha se odiando bastante por pensamentos daquele tipo.
E sempre tentava lembrar a si mesmo que Kaito não era o culpado por aqueles pensamentos. Embora sempre estivesse relacionado a eles.
A reunião na casa de Tianyi, a irmã de Kaito, era realmente algo pequeno e íntimo. Além da aniversariante e seus pais, havia apenas alguns vizinhos, amigos de Tianyi e a família do marido dela, incluindo os avós paternos de Aoki, dois tios da menina e seus respectivos filhos. Os vizinhos e os amigos de Tianyi também possuíam filhos pequenos, que corriam e brincavam livremente pela casa enquanto seus pais conversavam.
A irmã de Kaito era uma moça pequena e magrinha, de traços orientais bem acentuados e longos cabelos negros, presos num elegante penteado tradicional. Antes de chegarem à casa Kaito lhe contou que ela se chamava Luo Tianyi nos registros e era sua irmã de criação, embora o que se velava na família Shion fosse que Tianyi era fruto de um relacionamento extraconjugal do patriarca, que com a morte da amante acabou por adotar a filha. Tianyi havia se casado jovem, antes de completar dezesseis, e contra a vontade dos pais. Era o motivo pelo qual os avós maternos não tinham ido à festa, embora tivessem enviado presentes e suas felicitações.
― E isso é tudo o que você precisa saber, pra não cometer nenhuma gafe quando chegar lá― Kaito comentou sorrindo, enquanto Kaito o olhava desconcertado. Sempre achou que o amigo vinha de uma família comum e equilibrada, mas acabava de se perceber enganado àquele respeito.
No entanto, Tianyi não exibia o menor sinal de ter tido um passado tortuoso. Pelo contrário, estava animada e radiante, acolhendo seus convidados gentilmente, e recebeu Kiyoteru com um enorme sorriso de satisfação.
― Até que enfim encontrei o amigo que o aniki tanto fala!― exclamou.― Ele não te dá muito trabalho, dá? O aniki sabe como tirar a paciência de qualquer um.
― Pior que sim― Kiyoteru disse, sorrindo, enquanto Kaito lhe dava um leve peteleco na testa.
Logo a ansiedade e o desconforto de quando chegou se dissiparam. Tianyi tratou de fazê-lo ficar à vontade, instalando-o na ampla sala de estar onde os convidados mais velhos acompanhavam animados um jogo de beisebol da liga local. Serviu-lhe saquê e tratou de lhe contar todas as coisas embaraçosas que podia lembrar da infância de Kaito. Kiyoteru ria do amigo enquanto este vingava-se calmamente da irmã, discorrendo sobre as várias vezes em que tiveram que trocar os colchões da cama dela até que se livrasse do hábito de urinar durante o sono, entre outras coisas. Kiyoteru via os dois rindo e Kaito abraçar a irmã carinhosamente. Adivinhou que ele devia ter sido o único Shion a apoiar o casamento da irmã. Ele tinha mesmo aquele jeito protetor e paternal, que fazia as pessoas se sentirem seguras só de terem-no por perto.
Era como Kiyoteru se sentia. E por um breve momento, enquanto foi ajudar a irmã na cozinha e ele permaneceu na sala, percebeu a falta que ele fazia quando não estava ao seu lado. Era como se faltasse uma parte de si mesmo.
“O saquê não está me fazendo bem”, ele pensou, observando os jogadores correrem na tela da tv. Mas não ficou sozinho por muito tempo. Um cunhado tagarela de Tianyi logo puxou assunto com ele e os dois conversaram bastante até Kaito voltar. Mesmo Kiyoteru não entendendo nada de beisebol, o que para uma pessoa tagarela como seu interlocutor, não era importante no fim das contas.
Kaito sentou-se no grande carpete com cuidado, e Kiyoteru instintivamente se abaixou para acompanhá-lo. Percebeu o porquê do cuidado dele ao ver quem Kaito trazia nos braços.
― Contemple a nossa soberana― anunciou ele. ―Aoki hime-chan, esse é o prego do meu colega de quarto. Colega de quarto prego, curve-se diante de Sua Majestade.
Ele brincou de fazer uma reverência diante do bebê, que imediatamente estendeu as mãozinhas diminutas e gorduchas para alcançar a cabeça dele. Os fios castanhos e sedosos brilhando ao sol lhe pareceram um brinquedo fascinante. Aoki usava um macacão florido, os cabelos caindo fininhos sobre os ombros e o rosto redondo, onde repousavam grandes olhos azuis. Sorriu animada para Kiyoteru quando Kaito a pôs no colo dele, zombando da completa falta de jeito do rapaz.
― Ainda estou esperando o nome das cinco crianças― ele provocou. ― E a Aoki não vale.
― Ah, cala a boca― ele resmungou bem-humorado, enquanto a menina brincava animada com os cabelos dele. ―Hime-chan, não ligue pra esse seu tio idiota.
As mulheres terminavam de preparar o almoço na cozinha, enquanto o pai de Aoki e alguns vizinhos preparavam o churrasco no quintal. O almoço fora servido numa grande mesa sobre a terra batida do jardim, reunindo todos os convidados.
Àquela altura Kiyoteru já se sentia totalmente à vontade, conversando, rindo e bebendo junto com os outros. Percebeu o olhar maroto que Kaito lhe lançava do outro lado da mesa, enquanto o observava conversar com uma adolescente que parecia bastante interessada no moreno.
― Arrasando corações, hein― ele comentou mais tarde, quando estavam na cozinha, ajudando na lavagem dos pratos. ―Queria que o capitão estivesse aqui pra ver. Duvido que ele fosse perguntar de novo sobre sua vida amorosa.
― Hah, você é bem engraçado...
Kiyoteru sorriu, sentindo a voz demorar um pouco para obedecer aos comandos do cérebro. Raramente bebia, e quando o fazia sabia que não era capaz de ultrapassar certo ponto. Mas naquele momento, sentia que aquele ponto ficara para trás havia tempos.
― Cara, seu olho tá vermelho― Kaito riu ao observá-lo de perto.
Ele não respondeu nada. Apenas ficou olhando para o outro, a imagem trêmula em seus olhos enquanto suas mãos vacilavam com o prato cheio de espuma entre elas.
― É melhor eu te levar pra casa― disse sério, retirando o prato das mãos dele.
Kiyoteru não respondeu nada. Sentia que podia fazer algo terrível se acabasse se movendo. Podia desmaiar, vomitar, cair por cima da pilha de pratos sujos. Sentiu como num sonho as mãos de Kaito lhe agarrarem os braços e o empurrarem para trás, até que ele se encostasse na parede fria. ― Vou avisar a nee-chan que a gente tá indo.
Ela e outros convidados limpavam a mesa, enquanto outros ainda comiam e o resto tinha se reunido mais adiante no gramado, em torno do sogro de Tianyi, que tirava notas enérgicas de seu shamisen. A moça ergueu o rosto e se aproximou rapidamente.
― O que foi?― indagou preocupada, ao ver Kiyoteru apoiado na parede, de olhos fechados. ―Bebeu muito?
― Mais do que ele sabe que deveria, mas vai ficar bem. ―Ele puxou a irmã levemente para si e beijou sua testa. ―Obrigado por nos receber.
Kiyoteru não lembrava como tinha ido parar na pousada. Sabia que uma chuva tinha pego os dois no meio do caminho e tiveram que correr, pois estavam molhados e ofegantes quando chegaram.
E imaginava que Kaito devesse ter bebido um pouco além, embora não tanto como ele. Pelo menos, foi no que ele conseguiu pensar.
Não que houvesse algo em que pensar.
Não depois que abriram a porta e caíram por cima um do outro. Kaito estava no chão, os cabelos azulados grudados na testa, a camisa molhada grudada no peito. Respirando aceleradamente. Os olhos fixos nos de Kiyoteru, os lábios avermelhados, soprando e puxando o ar forçosamente.
Kiyoteru contemplava a visão que tinha diante de si, fascinado, sem saber como agir. Sentia-se absolutamente vulnerável, e o que o deixava confuso era que Kaito, estirado abaixo dele, os olhos lhe fitando languidamente, nada tinha de dominador. Eram como duas crianças, pegas numa brincadeira que não conheciam, num segredo irresistível.
Os dedos longos passearam pelas faces úmidas de Kiyoteru, acariciando-o devagar em direção à orelha, até pousarem sobre a nuca. E ali ficaram, e a pequena pressão que seu peso fez sobre ela deu a Kiyoteru o incentivo de que ainda precisava, para se debruçar sobre o corpo do amigo, para colar os lábios aos dele, para dizer-lhe num fio de consciência...
“...É sua culpa, Kaito.”
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