Loyalty
6 Intermission 2 - Two lovers?
O dia estava frio e nebuloso, pelo que Kaito podia ver do lado de fora da janela. Ele virou-se para a cama ao lado, onde Kiyoteru estava estirado, dormindo a sono alto. Esfregou os olhos e levantou-se, sentando ao lado do amigo na cama.
― Melhor a gente ir agora― disse, cutucando seu ombro de leve.
Kiyoteru mexeu-se no lençol, abrindo os olhos lentamente. Então Kaito entrou no seu foco de visão e ele o encarou sobressaltado, erguendo o tronco sobre a cama.
― Eu não dormi com você, imbecil― ele disse impaciente.
Enquanto levantava-se para ir ao banheiro, podia sentir o olhar apreensivo de Kiyoteru sobre ele. Imaginava que ele fosse mesmo fazer uma tempestade num copo d’água por conta da última noite. Estava sempre se preocupando com coisas inúteis. Ora, eles tinham se beijado. Passavam tempo demais juntos, se conheciam havia anos. E estavam ligeiramente bêbados. Aquele tipo de coisa certamente não acontecia com todo mundo, mas certamente eles não foram as primeiras pessoas do mundo a passarem por aquilo.
― Eu não falei que a gente dormiu junto― Kiyoteru reclamou lá do quarto, a voz engrolada de sono. ―Só não lembro o que aconteceu.
― Claro, você desmaiou em cima de mim. Eu te joguei em cima da tua cama, depois caí na minha. E foi só.
― Hm.
Kaito terminou de se lavar e saiu do banheiro, encontrando Kiyoteru na porta, esperando para entrar. Só depois que ele largou as roupas usadas em cima da cama, percebeu que o amigo sequer tinha lhe olhado nos olhos ao passar por ele.
― Kiyo-kun― exclamou, fazendo o outro enfiar a cabeça na porta.
Ele recuou diante da dor que soco em seu rosto lhe causou. Não fora muito forte, mas a surpresa tinha aumentado o impacto. ― Desgraçado― berrou ele.― O que deu em você?
― É só um aviso― Kaito disse impassível, estalando os dedos.― Se você ousar criar qualquer tipo de climão constrangedor entre a gente, arrebento sua fuça. Não tem a menor necessidade disso. Não fizemos nada de errado.
― Mesmo?― Kiyoteru olhou-o incrédulo, e ergueu as sobrancelhas.― Certo, se é assim que quer ver as coisas...
― E como eu devia ver as coisas, Kiyo-kun?
― Ah, não sei, do jeito que elas são, talvez. Bizarras?
Kaito cruzou os braços, fitando o amigo sem acreditar.
― Bizarras?
― Olha, vamos parar de falar disso― Kiyoteru voltou para dentro, cansado. ―Minha cabeça está explodindo.
Eles permaneceram em silêncio então.
Tomaram o café junto com os outros hóspedes no refeitório, pagaram a diária e pegaram o trem de volta para a cidade deles. A tarde do domingo ainda não havia acabado quando chegaram. Kiyoteru o chamou para irem ao cinema, e Kaito o acompanhou.
O jovem de cabelos azuis sentia-se um tanto frustrado, enquanto observava Kiyoteru assistindo ao seu lado na sala escura. Tinha sido ele mesmo a dizer que não queria nenhum clima estranho, e Kiyoteru fazia o possível para cumprir sua vontade. Mas ele mesmo sentia-se estranho, e não conseguia fazer tal situação melhorar.
“Estou absolutamente tranquilo em relação a ontem”, ele refletiu. “Por que não foi algo indesejado. Por que eu gostei. E não me sinto envergonhado em admitir.”
Ele fitou Kiyoteru, aborrecido.
“Mas ele não está tranquilo. Por quê? Porque ele não queria. Porque não gostou. E mesmo que tivesse gostado, acho que ele morreria antes de admitir.”
Mas Kaito era gentil demais para perturbar a mente de Kiyoteru, como ele sabia que acabaria perturbando se insistisse em fazê-lo pensar naquilo. Então forçou-se ao máximo para esquecer o assunto, a continuarem convivendo normalmente. No final das contas, era a amizade dele que lhe importava mais do que tudo, e preferia fazer qualquer coisa para preservá-la, do que arriscá-la por uma mera incerteza.
E os dias se passaram.
E Kaito percebeu qual era a verdadeira dificuldade de sua situação.
Nunca esteve claro para ele, de forma nenhuma. Tudo o que sabia era que Kiyoteru era diferente de qualquer outro amigo que ele teve. Kaito o queria em sua vida por completo, com seus incontáveis defeitos e qualidades cativantes. Queria sua companhia, sua voz, sua presença, seu maldito costume de guardar tudo o que sentia para si mesmo. Aceitava qualquer coisa dele. Aceitava sua amizade. E, embora não tivesse notado até aquela noite no quarto da pousada, podia aceitá-lo como mais do que seu amigo.
E com o passar dos dias, aquela certeza foi crescendo e se transformando em desejo. Ele realmente queria ser mais que um amigo de Kiyoteru. Queria-o, de corpo e alma, e a possibilidade de não ser correspondido o perturbava de um modo que ele não tinha previsto. Ele também não lembrava de ter sentido algum tipo de atração por homens antes; mas achava que aquilo simplesmente tinha acontecido com ele. Desejava Kiyoteru. O fato de serem homens era um mero detalhe.
Estavam andando pelo pátio da academia após os últimos treinos de tiro ao alvo, quando um secretário da administração veio chamar Kiyoteru. Disse que uma garota chamada Yowane Haku o aguardava no telefone.
Desde então, Kaito ouviu muito falar da garota. Era uma antiga namorada de Kiyoteru, com quem ele tinha voltado a se relacionar. Se não estivesse tão perturbado pelos próprios sentimentos, estranharia a reaproximação repentina dos dois. Tudo o que podia fazer era engolir o próprio ciúme, sorrir animadoramente para o amigo e, nos fins de semana, viajar para bem longe do quartel, pois sabia que Kiyoteru estaria ocupado com a garota.
Numa das viagens resolveu visitar a irmã, e Tianyi imediatamente notou a preocupação no semblante dele. Depois que Kaito lhe confessou sem rodeios a situação pela qual passava, ela abanou a cabeça, pesarosa.
― Que barra― disse.
― Nem me fale― Kaito murmurou, aliviado depois do desabafo. Passeava devagar pelo tapete da sala, enquanto ninava a pequena Aoki, já sonolenta em seus braços. ― Eu não consigo ver uma solução pra isso, sabe. Talvez se eu pedisse pra ser transferido...
― Espere― ela interrompeu― ele ao menos sabe o que você sente?
― Não. Não posso contar pra ele, não sem arriscar todo o resto. Ele já demonstrou o que pensa a respeito de dois caras juntos. Ele é meio certinho demais com essa coisa de gênero, na verdade. Ficou indignado porque eu dei o trenzinho pra Aoki-chan. Imagine se eu disser qualquer coisa...
― Não, não― Tianyi insistiu.― Isso está errado. Você está tentando prever a reação dele, baseado nos valores que ele tem. Só que esses valores ele aprendeu com a família. Ninguém nasce achando que um homem amar outro homem é um absurdo, certo? Pode perguntar à Aoki-chan.
Kaito sorriu, acariciando os cabelos do bebezinho que ressonava docemente em seu ombro. “Um homem amar outro homem”. Sim, ele amava Kiyoteru. As coisas ficavam mais simples quando eram resumidas em poucas palavras. ― O que acha que eu devo fazer, nee-chan?
― Não sei. Sinceramente, não posso me colocar no seu lugar. A vida é sua, eu não tenho ideia de como ela é pra te dizer o que eu faria ou não. Só sei que eu ficaria muito frustrada se perdesse todas as chances de fazer com que ele soubesse. Ficar imaginando qual seria a reação dele... Isso não é mais torturante do que não ouvir a resposta que você quer?
Kaito chegou ao quartel exausto fisicamente, mentalmente, emocionalmente. O local estava bastante abandonado, o domingo ainda não tinha chegado ao fim.
Kiyoteru chegou logo depois. Tinha o semblante um tanto carregado, e saudou o amigo muito brevemente ao vê-lo.
— Telefone pra você— um dos recrutas apareceu na porta, avisando a Kiyoteru. —É a Haku-san.
— Pode dizer pra ela que ainda não cheguei?— ele pediu, de mau humor.
— Tá... certo— o recruta saiu, curioso com a atitude do outro.
Kaito, que lia (ou fingia ler) algumas anotações na parte de cima do beliche, olhou para o amigo com a mesma curiosidade.
— Tudo bem?— indagou.
O moreno largou a mochila num canto qualquer e tirou os óculos.
— Não tenho nada com aquela mulher— respondeu num resmungo enquanto limpava as lentes na camisa.— Ela não tem que ficar me ligando todo dia.
— Pensei que vocês estavam saindo.
— Exato. Estávamos. Não estamos mais.
Ele pôs os óculos de volta e largou-se na cama de baixo, suspirando longamente.
Ficaram em silêncio por vários minutos, nos quais Kaito debatia consigo mesmo. As palavras da irmã eram sensatas, mas não lhe davam mais coragem agora.
Ainda assim, não tentar e passar o resto da vida naquela frustração era algo que ele com certeza não desejava.
— Você ainda não esqueceu aquilo, não foi? —pensou em voz alta.
Kiyoteru, já fechando os olhos cansado, abriu-os sem entender.
— Não esqueci o quê?— indagou, percebendo imediatamente do que o outro rapaz falava. E diante do silêncio explicativo de Kaito, ele teve certeza do que era.
Sentou-se na cama e tirou os óculos novamente, esfregando os olhos em seguida.
— Por que quer saber isso? —perguntou de má vontade.
— Porque eu não esqueci também.
Kiyoteru estremeceu. Levantou da cama, fitando o companheiro que sentava-se no beliche de cima, as pernas longas pendidas no ar, encarando o moreno de frente.
— Não esqueci, Kiyo-kun— repetiu, sua voz ganhando uma calma e uma firmeza que ele não imaginava que teria no momento.— Mas parece que estou encarando as coisas de um jeito diferente de você. Não sei exatamente do que você tem medo, mas só quero que você saiba que eu não tenho. Estou absolutamente tranqüilo.
O rapaz fitava Kiyoteru sem mal piscar, e este via que o outro falava sério. E quanto mais tomava consciência disso, uma ponta de desespero se apoderava dele.
— Pode dizer exatamente do que você está falando? — perguntou em voz baixa.
Kaito não pensou duas vezes. Desceu da cama num pulo, foi na direção de Kiyoteru e o empurrou contra a parede, ficando a uma distância mínima de seu corpo. Os lábios se aproximaram do ouvido do rapaz, dizendo-lhe num sussurro.
— Do que acha que estou falando?
O Hiyama não sabia o que fazer. O calor de Kaito, sua voz, o hálito quente em sua pele, tudo lhe provocava sensações repentinas demais para que ele pudesse manter a cabeça no lugar.
— E-eu... Eu não sou... Esse tipo de homem— replicou com dificuldade, corado até as orelhas.
— Que tipo de homem? O tipo que é capaz de gostar de outro homem?
Kaito encarava-o nos olhos, incisivo.
Durante toda sua convivência com o amigo, jamais pudera se fazer entender para ele sem dar uma sacudida no rapaz. Precisava pressioná-lo, mesmo que fosse para ser rejeitado logo depois.
— Você... é esse tipo, Kaito-kun?— ele indagou em voz baixa, sem saber por que seu rosto queimava de vergonha naquele momento.
O jovem de cabelos azulados sorriu, e seu sorriso desconcertou ainda mais Kiyoteru, que baixou o olhar.
— Não sei, Kiyo-kun— respondeu ele calmamente. — Não sei se eu seria capaz de gostar de mais algum homem.
Kiyoteru ergueu os olhos para ele, desamparado.
Não havia como Kaito ser mais direto, nem por quê. A mensagem tinha sido perfeitamente recebida.
Ele ergueu a mão, as pontas dos dedos seguindo os traços do belo rosto à sua frente, como se só agora o reconhecesse. De certa forma, era como um reconhecimento, uma forma nova de vê-lo. Kiyoteru sempre o amou, e só agora aquele sentimento rompia as barreiras que ele tinha imposto a si mesmo. Amava-o desde o colegial, quando eram apenas adolescentes despreocupados, e sempre teve medo de admitir aquilo para si mesmo, menos pelo próprio preconceito do que pelo temor de perder o amigo.
Porém, de um modo estranho ele sempre sentiu que, caso se declarasse para Kaito, ele aceitaria aquele amor. Preferia acreditar que era apenas impressão, mas Kaito às vezes agia como se quisesse fazê-lo se abrir de uma vez. Como se quisesse saber o que se passava na cabeça e no coração dele. Era respeitoso sempre, e sempre mantinha uma distância segura para não deixá-lo desconfortável. Mas naquele fim de tarde, ele havia ultrapassado aquelas barreiras.
Queria a verdade de Kiyoteru, porque a sua própria verdade ele já havia confessado.
— Eu tenho certeza— disse por fim, encarando com determinação os azuis à sua frente. — Não seria capaz de gostar de nenhum outro homem.
O sorriso no rosto de Kaito cresceu, enquanto seu coração acelerava. Estava calmo por fora, mas explodindo de felicidade por dentro. Tinha considerado tantas vezes a possibilidade da rejeição que sequer parou para pensar no que fazer , se a resposta que recebesse fosse positiva.
— Desde o dia na pousada...?— indagou, como que para se certificar.
— Desde que te conheci— Kiyoteru declarou.
Kaito ficou estático, enquanto o outro passava os braços ao redor de seu pescoço. E enquanto o abraçava, ele foi aos poucos assimilando aquela informação.
Ele sempre o amara. Desde sempre.
— Kiyo-kun...— sussurrou trêmulo.
— Espere— ele soltou-se do rapaz e foi até a porta, trancando-a. — Não quero que saibam da gente.
Kaito observou-o e sacudiu a cabeça. Como fazê-lo entender? Pouco importava o que os outros pensavam.
— Um dia, vão acabar sabendo— disse, prensando-o levemente contra a porta.
— Não precisa ser hoje— Kiyoteru sorriu.
Seus lábios se encontraram devagar, se conhecendo aos poucos. Kiyoteru pousou as mãos sobre os ombros largos de Kaito, enquanto este espalmava suas costas.
— Meu hálito tá horrível— o rapaz sacudiu a cabeça, frustrado.
— Não— Kaito murmurou.— Não mesmo.
— Seu besta— Kiyoteru sorriu enternecido. — Não ia dizer que estava, né?
— Não mesmo.
Kaito sorriu de volta. Tirou os óculos do rapaz, enquanto descia a outra mão pelas costas dele e o trazia para mais perto.
Aproximou seu rosto do dele novamente, as bocas se encontrando um pouco mais ávidas, já íntimas uma da outra. Kaito esperou Kiyoteru tomar a iniciativa de aprofundar o beijo, e quando ele o fez timidamente, entreabrindo os lábios, não hesitou em lhe tomar nos braços de vez, em forçar sua língua nos lábios carnudos e sentir o gosto dele, que por Deus, era tudo o que podia querer.
O Hiyama apenas esperava o momento de seu coração parar de vez. Havia se reprimido por tanto tempo, calado seus sentimentos por anos que pareceram séculos. Agora tinha o homem que amava em seus braços, aconchegado em seu calor, em seu cheiro. Perdido num beijo que sequer se permitira sonhar.
Sabia o quanto sua vida ficaria bagunçada depois daquele dia. Mas algo lhe dizia que ela também seria melhor do que jamais havia sido até então.
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